Sou Economista com dois mestrados, cursos de especialização e em Doutoramento. Meu objetivo é analisar a economia, no Brasil e no Mundo, tentar opinar sobre os principais debates da atualidade e manter sempre, na minha opinião essencial, a independência. Não pretendo me esconder em nenhum grupo teórico específico. Meu objetivo é discorrer sobre varios temas, buscando sempre ser realista.
quinta-feira, 24 de setembro de 2026
Crédito oculto
*🚨🚨🚨Ação contra crime organizado atinge Banco Genial e grupo envolvido com dinheiro do filme Dark Horse*
Operação Crédito Oculto ataca esquema de lavagem de dinheiro para a compra de usinas e ocultação de imóveis da máfia dos combustíveis; defesa não foi encontrada
Promotores, policiais e auditores fiscais estão vasculhando na manhã desta quinta-feira, 24, um total de 32 locais em onze cidades de seis estados e no Distrito Federal para desbaratar o esquema de lavagem de dinheiro da máfia dos combustíveis acusada de manter ligações com o Primeiro Comando da Capital (PCC). Entre os 40 alvos da Operação Crédito Oculto estão o sócio proprietário do Banco Genial Humberto Tupinambá, o empresário Antonio Carlos Freixo Junior, o Mineiro, delator do Banco Master, e o Grupo Entre, usado pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro para enviar US$ 12,33 milhões para financiar o filme Dark Horse, a cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro.
A reportagem procurou a defesa dos investigados, mas não conseguiu localizá-los. O espaço segue aberto.
As buscas foram pedidas pelo Grupo de Atuação Especial e Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público de São Paulo, e autorizadas pelo juiz Sandro Nogueira de Barros Leite, da 2.ª Vara Criminal de Catanduva, e ocorrem em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso do Sul, Santa Catarina e Distrito Federal.
A ação está fundamentada em provas obtidas na primeira fase da Operação Carbono Oculto, como contratos, documentos, mensagens e áudios apreendidos em celulares e computadores dos investigados. Eles demonstrariam o esquema que teria permitido dissimular a fortuna dos empresários Roberto Augusto Leme da Silva, o Beto Louco, e Mohamad Hussein Mourad, o Primo, para a compra da distribuidora de combustíveis Terrana.
A empresa é do Rio de Janeiro e chegou a figurar entre as dez maiores distribuidoras do País. A aquisição pode ter custado até R$ 153 milhões, de acordo com as investigações. Beto Louco e Mohamad tentaram esconder das autoridades que eles estavam por trás da operação. Os dois estão foragidos desde a deflagração da primeira fase da Operação Carbono Oculto, em 28 de agosto de 2025, quando tiveram a prisão decretada no Paraná.
O Gaeco aprofundou as investigações sobre como a dupla de empresários usou fundos de investimentos para também esconder que são os verdadeiros proprietários de imóveis de valores multimilionários. Eles teriam continuado o esquema que já tinham com a Reag Investimentos, que geria e administrava fundos suspeitos.
A empresa do mercado financeiro foi liquidada pelo Banco Central após ser alvo da Polícia Federal na Carbono Oculto. Seu dono, João Carlos Mansur, fechou no começo do mês um acordo de colaboração premiada com a Procuradoria-Geral da República (PGR). A reportagem procurou a defesa de Mansur, mas não conseguiu localizá-lo. O espaço segue aberto.
De acordo com os investigadores, ”o projeto criminoso” demonstra “um intrincado esquema de lavagem de capitais com a articulação dolosa entre múltiplos agentes” – nove fundos de investimentos e 27 empresas, 16 das quais tiveram seus bens tornados indisponíveis pela decisão da 2.ª Vara de Catanduva. A Terrana teve suas atividades suspensas pela Justiça do Rio em 9 de julho. Ela é o nome fantasia da Tobrás Distribuidora de Combustíveis, uma das maiores empresas do setor, que opera nas regiões Centro-Oeste e Sudeste.
Na época em que foi adquirida, em 2024, ela tinha um faturamento mensal de R$ 445 milhões e um capital social de R$ 245 milhões. Beto Louco e Primo já enfrentavam, então, as consequências da Operação Cassiopéia, que investigou as fraudes em combustíveis praticadas pela Copape, que teve sua autorização de funcionamento revogada pela Agência Nacional do Petróleo (ANP).
Apontados como líderes da organização criminosa, Beto Louco e Primo teriam adquirido a Terrana por meio de uma sofisticada “arquitetura de lavagem de capitais”, de acordo com os investigadores, construída pelo banqueiro Humberto Tupinambá e sócio e fundador da administradora de fundos Altinvest, o advogado Rogério Garcia Peres, apontado como “operador criminoso de lavagem de capitais” da máfia dos combustíveis. Os dois teriam procurado um executivo do mercado Paulo Narcélio Simões do Amaral, que teria concordado em emprestar seu nome para duas empresas que seriam usadas na compra da distribuidora e na ocultação dos imóveis.
Procurados, Garcia Peres e Narcélio não responderam à reportagem. O espaço segue aberto.
De acordo com os promotores, o Banco Genial “se ofereceu como estrutura financeira fraudulenta para mascarar a ocultação dos valores que financiaram a compra, bem como ocultar os seus reais proprietários e em contraprestação seria remunerado pelos instrumentos contratuais dissimulados constituídos formalmente para financiar o negócio jurídico”. E o empresário Paulo Narcélio “emprestaria a sua imagem à negociação para garantir perante os vendedores e terceiros a legitimidade do negócio jurídico”.
*Mensagens no celular*
Mensagens encontradas no telefone celular de Narcélio revelam que o objetivo da fraude era impedir que grupo americano Tramp Oil, proprietário da Terrana, e a ANP soubessem que Beto Louco e Primo estavam comprando a distribuidora para manter em funcionamento as centenas de postos de gasolina abastecidos pela organização, inclusive aqueles onde integrantes do PCC lavavam o dinheiro do tráfico de drogas. Em troca, o executivo receberia 0,75% do total da operação e R$ 100 mil mensais durante os três meses que devia permanecer à frente das holdings Branson e Berna, que teriam sido idealizadas por Garcia Peres.
De acordo com as investigações, os acusados montaram três estruturas de empresas para esconder os verdadeiros donos do dinheiro. A primeira delas tinha o Fundo Celebration, administrado pela Reag. Ele possuía um único cotista, a empresa Insight participações, que estava em nome de um primo de Mohamad, Himad Mourad. A segunda era formada pelo Radford Fundo de Investimentos Multimercado, que teria sido montado e administrado pela Altinvest e, posteriormente, transferido para administração e custódia do Banco Genial, permanecendo a Altinvest como cogestora.
A Altinvest teria reestruturado os fundos de investimento da dupla Beto Louco e Primo depois que eles deixaram a Reag, em 2024. O fundo Radford tinha como cotista a usina sucroalcooleira Itajobi, no interior paulista, uma das cinco controladas pelos empresários. A usina teria sido financiada pelo Grupo Aster, de postos de gasolina, que pertencia aos dois empresários. Por meio do grupo, eles enviaram R$ 100 milhões à usina, passando antes pelas contas de duas outras empresas. A Usina recebeu ainda R$ 20 milhões da Entre Investimentos, empresa de Freixo, o delator do Banco Master.
O passo seguinte foi o “empréstimo” do dinheiro da Usina Itajobi, por meio do fundo Radford, ao banco por meio de Certificado de Depósito Bancário Vinculado (CDBV). O Genial, por sua vez, emprestou o mesmo dinheiro à Berna e à Branson por meio de um Cédula de Crédito Bancário (CCB), ocultando assim a origem do dinheiro usado para a compra da Terrana. Em tese, o banco seria pago por meio de depósitos semestrais de R$ 18,7 milhões, totalizando R$ 150 milhões. As duas empresas usaram ainda o dinheiro para comprar 100% das cotas do Fundo Derby 44 – atual Fundo Wels – e apresentaram como garantia da dívida os imóveis de outro Fundo, o Los Angeles 01, atual Lucerna.
Os promotores ainda notaram que o dinheiro recebido pela holding Branson e usado para a compra da Terrana equivalia apenas a metade do capital social da distribuidora. As provas de toda operação foram obtidas durante buscas feitas na Usina Itajobi, em Marapoama (SP), e em empresas ligadas a Mohamad e Primo em Senador Canedo (GO), Duque de Caxias (RJ) e em Iguatemi (MS), que demonstraram ainda ligação delas com empresas do Grupo Refit, do empresário Ricardo Magro.
Ao ser questionado pelo Gaeco a respeito da administração do Fundo Radford, o Banco Genial respondeu que ele foi constituído em sua origem sob a forma de “condomínio fechado, por tempo indeterminado de duração, com uma classe única de cotas e políticas de investimentos voltadas majoritariamente ao investimentos em créditos privados, destinados a receber aplicações de um único investidor“.
O banco informou ainda que as cotas do fundo somavam cerca de R$ 169,7 milhões no momento da deflagração da Operação Carbono Oculto. E informou que sua área de crédito deu o aval ao empréstimo às empresas Berna e Branson em razão da boa fama de Narcélio no mercado, mas não teria prestado atenção que as empresas foram constituídas um mês antes da operação com capital social de apenas R$ 1 mil e tinham como sede o mesmo endereço usado pelo grupo de Mohamad Mourad, o Primo, em Pinheiros, na zona oeste de São Paulo.
Com a Carbono Oculto, o banco informou aos promotores que havia renunciado à administração do Radford e liquidado o CDBV, cedendo sua posição no CCB ao fundo. Mas os promotores acreditam que toda a operação era uma forma de encobrir a participação dos acusados na fraude. O Gaeco obteve mensagens do advogado Garcia Peres e de João Eduardo Gomes Santiago, ligado à corretora Banvoxx e sócio da Altinvest, para Paulo Narcélio. Elas demonstrariam o vínculo entre os acusados.
Em uma delas, Santiago questiona se o patrimônio declarado de Narcélio seria suficiente para demonstrar sua capacidade econômica para ser sócio da empresa. Em outra mensagem, Narcélio diz a uma advogada que é Garcia Peres quem detém o token para movimentar as contas da holding Branson.
As mensagens demonstrariam ainda participação de Humberto Tupinambá e de seus irmãos André e Bruno, que também foram alvos de buscas nesta quinta-feira, na montagem da estrutura de ocultação de patrimônio. Em uma delas, Narcélio diz a Paulo Tupinambá que a proposta inicial pela Terrana seria de R$ 93 milhões, mas que poderia chegar até a R$ 153 milhões. Mais tarde diz que seria preciso conversar com Primo para saber como ele “gostaria de conduzir a aquisição”. Paulo sugere reuniões com Primo e com Beto Louco.
É com André ainda que Paulo Narcélio acerta sua comissão e pagamento no negócio em 2024. No começo de 2025, ele procura André e faz um pedido: queria deixar as holdings, pois já teria cumprido sua missão. Mas é convencido a ficar enquanto os irmãos Tupinambá cuidavam da reestruturação da Terrana. “Torna-se nítido que o papel do Banco Genial não se restringiu à operação financeira”, escreveram os promotores. André e Bruno foram, além disso, segundo o Gaeco, remunerados pela Aster, empresa da máfia do combustíveis.
Em outra mensagem, Narcélio deixa claro que quem tomava as decisões na Terrana era Primo, cujo telefone em sua agenda era identificado como “João Chefão”. Por meio do PIX foi possível ver que o número de telefone de Mohamad Mourad era a chave associada a uma conta bancária em nome de um ladrão condenado a oito anos de prisão por roubo.
Nas conversas, Narcélio se mostra preocupado com uma reportagem sobre Primo e Beto Louco serem os novos donos da Terrana. O texto levantava a suspeita de ligações dos dois com o PCC. “O Primo está mais nervoso do que eu”, escreveu.
Em 30 de abril de 2025, Humberto lhe diz que havia conversado com Primo sobre o plano de negócios da empresa, que Paulo Narcélio queria que fosse transferida para a Rede Sol Fuel, ligado aos empresários. Os dois também discutem como burlar a fiscalização da Secretaria da Fazenda de São Paulo, caso ela solicitasse a quitação dos “empréstimos”.
Narcélio então orienta que o dinheiro deve vir diretamente para sua conta ou fazer algum outro movimento. E diz que vai se queixar diretamente com o “Beto”. Humberto responde e apaga as mensagens do diálogo. Só não esperava que tudo ficasse registrado no celular de seu interlocutor. Por fim, no dia da Operação carbono oculto, Paulo Narcélio manda a Humberto uma mensagem afirmando que estava “aumentando os preços”. Tudo devidamente documento em laudo da perícia.
https://www.estadao.com.br/politica/blog-do-fausto-macedo/acao-contra-crime-organizado-atinge-banco-genial-e-grupo-envolvido-com-dinheiro-do-filme-dark-horse/
Call Matinal
1) Ibovespa fechou, no dia 23, em baixa de 0,86%, aos 185.814,09 pontos, após oscilar entre 185.676,38 e 188.772,33. Volume financeiro somou R$ 20,8 bi. Já o dólar à vista fechou em alta de 1,28%, a R$ 5,1682, após oscilar entre R$ 5,1215 e R$ 5,1760.
2) Os mercados, em NY, na Europa e em grande parte da Ásia, operam em baixa nesta quinta-feira (24), pressionados pela alta dos rendimentos dos Treasuries, próximos dos maiores níveis em duas décadas, acima de 5%. A recuperação dos preços do petróleo também reduz o apetite dos investidores por ativos de risco.
3) Amanhecemos nesta quinta-feira bem mais cautelosos, diante do “banzo geral” com os impasses nas negociações entre EUA e Irã. Diante disso, o Barril de petróleo volta a escalar nesta virada de quarta para quinta-feira. Nos mercados, os futuros de NY operam em queda, a Europa recua e boa parte da Ásia fechou no vermelho. Nesta manhã, o Brent avançava quase 3% e negociado acima de US$ 106, em meio às tensões do Oriente Médio.
4) Ao mesmo tempo, o mercado acompanha o encontro entre Donald Trump e Xi Jinping em Washington, com comércio, Irã, Taiwan e inteligência artificial entre os principais temas. A extensão da trégua comercial entre EUA e China também está no radar. Por outro lado, este encontro acontece sob pressão: como já dito, o petróleo voltou a subir, reacendendo temores inflacionários e apostas em novas altas do juro pelo Fed (treasuries bem acima de 5%).
5) No Brasil, atenção redobrada para o Relatório de Política Monetária (RPM) do BCB, a coletiva de Gabriel Galípolo e Paulo Picchetti, com projeções atualizadas de inflação e atividade, e o Relatório Bimestral, com piora esperada do resultado fiscal. No radar político, a expectativa é por mais uma pesquisa Datafolha, após o fechamento.
Mercado de capitais
https://www.instagram.com/p/DdoYVZ_u7yS/?stkn=MTNrdmFoaXNhYzh2aQ==
📈 O MERCADO DE CAPITAIS PRECISA DE PREVISIBILIDADE
Os números da B3 mostram uma mudança importante no ritmo de abertura de capital das empresas brasileiras.
Depois de anos com poucos IPOs, o mercado ganhou força a partir de 2017 e atingiu 46 IPOs em 2021. A própria B3 registra 28 IPOs em 2020 e 46 em 2021.
É claro que não se pode atribuir esse movimento a um único governo. Decisões empresariais, juros, liquidez internacional, condições de mercado, reformas, regulação e apetite dos investidores influenciam simultaneamente esse processo.
Mas existe uma lição que permanece:
capital gosta de previsibilidade.
Empresários precisam saber quais serão as regras do jogo.
Investidores precisam confiar nos contratos.
Empresas precisam conseguir planejar investimentos de longo prazo.
E o mercado precisa de segurança jurídica e estabilidade regulatória.
Quando o ambiente permite que uma empresa faça planos para os próximos 5, 10 ou 20 anos, o mercado de capitais ganha espaço como fonte de financiamento da economia real.
E quando as regras mudam constantemente, aumentam a incerteza, o prêmio de risco e o custo de capital.
Para nós, do AIs Livres, essa discussão é especialmente importante.
Acreditamos em um mercado de capitais mais livre, competitivo, transparente e previsível, no qual empresas tenham alternativas de financiamento e investidores tenham acesso a mais opções.
Foi justamente essa lógica que orientou nossa atuação na modernização da regulamentação dos Assessores de Investimentos: a Resolução CVM 178 trouxe mudanças que ampliaram a liberdade de atuação e a concorrência no setor, algo que o AIs Livres reconheceu positivamente à época. AIs Livres ABR25.pdf
Mais concorrência.
Mais liberdade.
Mais segurança jurídica.
Mais capital para financiar empresas.
No fim, não existe mercado de capitais forte sem confiança nas regras do jogo.
AIs Livres — liberdade, independência e mercado de capitais.
quarta-feira, 23 de setembro de 2026
José Paulo Kupfer
Acho que não cheguei a ser "acolhido" pelo Zuenir, de quem fui amigo e colega de redação - ele no Rio, eu em São Paulo -, anos 80, na Veja e na Istoé.
Conheci Zuenir nas aulas que deu num curso para jovens candidatos a jornalistas de um novo jornal em que bambas do Rio na profissão iriam se reunir, numa experiência tão empolgante quanto efêmera.
Eu estava nesse grupo, em 1967, aos 18 anos, e o jornal em formação era "O Sol", um vespertino (sim,o projeto do jornal era circular a partir do meio dia, acompanhando leitores na volta do trabalho para casa), aquele mesmo que Caetano canta em "Alegria, alegria", bancado pelo "Jornal dos Sports", se não me engano ainda então propriedade da familia de Mário e Nelson Rodrigues.
"O Sol", criação do designer Reinaldo Jardim, tinha Zuenir, Ana Callado, Martha Alencar e outros de que não lembro, na equipe. O conjunto era composto pelos melhores, mais modernos e mais progressistas jornalistas do Rio naquele ano já de ditadura, mas pré-AI 5.
Reinaldo bolou um negócio curioso. As páginas eram dividas em quatro partes dentro de um quadrante. A ideia era que as matérias não ocupassem mais do que um quadrado, no máximo dois, para que o jornal pudesse ser dobrado em quatro com o leitor pendurado no estribo do ônibus.
Mas Reinaldo e os jornalistas que bolaram "O Sol" parece que se esqueceram dos anúncios (ou não ligaram para esse "detalhe"), que não se adaptaram ao quarto de página em que deveriam se conter. Acho que o jornal não durou seis meses...
Zuenir fazia parte da resistência à ditadura nas redações, e do movimento pela retomada do sindicato dos jornalistas do Rio, então em mãos de pelegos. Foi nesse movimento que ficamos amigos, amizade que depois, quando trabalhamos nas mesmas revistas (Veja e Istoé) se estenderam às nossas companheiras - Mary Ventura e Cristina Kupfer.
Sempre soube que Zuenir era fluminense de Friburgo, mas lendo agora seus necrológios vi que era mineiro de Além Paraíba, na zona da mata, só chegou em Friburgo aos 11 anos. Mas, para mim, Zuenir sempre um carioca de caricatura, "apesar" (meus conterrâneos vão me matar...) da formação sólida e das preocupações sérias.
Mas essas virtudes, combinadas com honestidade e ética sem retoques, cada vez mais raras, conviviam como uma capa de carioca de caricatura. Aquele sujeito alegre, otimista, com um olhar e um jeito meio malandro. Sabe aquele carioca ultra-simpático que ao se despedir quanto conhece alguém manda aquela "passe lá em casa", mas não dá o endereço?
Neste momento de tristeza e saudade, me lembro de dois episódios com Zuenir, a quem conheci antes de ele passar a ser chamado, com justiça, de "mestre Zu".
O primeiro foi em março de 1972, quando Zuenir chefiava a redação carioca da então importante revista "Visão". Eu queria me transferir para São Paulo, depois que, numa viagem de férias do "Correio da Manhã" pelo Rio Francisco, tinha conhecido uma mocinha paulistana, estudante de psicologia na USP, com quem divido travesseiro, alegrias, perrengues, dois filhos e quatro netas, já lá vão fazer 54 anos.
Perguntei ao Zuenir se a "Visão" não tinha alguma vaga em São Paulo. "Rapaz, você caiu do céu!", respondeu ele, com o entusiasmo característico. "O Pimenta (Pimenta Neves, aquele mesmo, assassinado da namorada Sandra Gomide, era o diretor de redação), me pediu um jovem jornalista estudante de economia...". Mas Pimenta saiu da Visão na semana seguinte, e a transferência morreu ali.
Além de generoso e com o dom de professor, Zuenir também era craque nas pautas. Suas pautas que resultaram nas reportagens em livros pelos quais ele está sendo lembrado são prova disso.
No meu caso, a pauta que ninguém pensou e era um grande achado ocorreu numa reunião política de empresários, a IV Conclap - Conferência das Classes Produtoras - em fins de 1977. Em 1978, haveria eleição indireta para presidente.
Eu fui enviado ao Rio para cobrir a Conclap, sob as ordens de Zuenir. Zuenir inventou uma enquete com os participantes, centenas, talvez perto de mil, empresários de todo o país.
Apareceu como vitorioso um nome meio desconhecido, o general Euler Bentes. Bentes acabou sendo o candidato do partido de oposição permitido, o MDB, na eleição do ano seguinte. Perdeu para o general Figueiredo, candidato do Arena, o partido do governo militar.
Foi, afinal, um grande furo da Veja, fruto de uma pauta de um jornalista genial.
Meu abraço sentido à Mary, filhos, netos e legião de amigos e afilhados profissionais.
Marcelo Guterman
No caso Moraes-Master, basta a menção a um contrato de centenas de milhões de reais para que o caso seja equiparado ao da Xandona com o banco de Daniel Vorcaro. No Brasil, quando todos são culpados, ninguém é culpado.
Em poucas linhas, o caso é o seguinte: 1) o desembargador do TRF-1, Newton Pereira Ramos, votou duas vezes a favor de um caso envolvendo precatórios que interessava ao Banco Master. Nas duas votações, a decisão não foi monocrática, foi unânime da turma de desembargadores que julgou o caso; 2) Ramos é casado com a advogada Camila Ramos, sócia do escritório Queiroga, Vieira, Queiroz e Ramos; 3) O Master contratou o escritório da Ramos seis meses após o voto do marido. O contrato previa pagamentos de até R$ 427 milhões em caso de sucesso nas demandas do contratante; 4) O desembargador é amigo de Kassio Nunes Marques desde os tempos em que o ministro era desembargador no TRF-1.
Essa é a história. Agora me digam: como essa situação se compara com o caso do contrato com o escritório da Xandona, em que se pagou milhões de reais por um manual de compliance? Em que, a se provarem verdadeiros os indícios, o próprio ministro atuou como advogado do banqueiro? Não há comparação intelectualmente honesta possível.
Tendo dito isso, quero aumentar o escopo deste post. Não é porque as situações não sejam comparáveis que devemos normalizar esse escândalo que é o entrelaçamento de interesses privados com os públicos no relacionamento entre bancas de advocacia e juízes. O desembargador Newton Ramos pode ser o mais puro dos juízes, mas sua esposa, neste caso, não poderia passar perto, quanto mais ser sócia, de uma banca de advocacia com interesses no tribunal. Há tantos outros escritórios de advocacia no Brasil, porque escolher justo um que litiga na corte onde o marido bate ponto?
Esse caso veio à tona porque envolve o Master e, indiretamente, o ministro Kassio Nunes. Caso contrário, permaneceria nas sombras, como ocorre certamente com tantos outros. A coisa está tão normalizada, que até o ministro “limpinho” Édson Fachin cunhou o termo “filhofobia” ao referir-se a esse sentimento estranho de repulsa que temos ao ver parentes de ministros advogando em causas nas cortes dos pais e maridos. O tal “código de ética” defendido por Fachin certamente deixaria uma brecha para que sua filha continuasse a exercer a advocacia em Brasília sem ser incomodada.
Aumentando ainda mais o escopo do post, é interessante observar como funcionam, de maneira geral, as relações de amizade em Brasília. Kassio Nunes foi indicado por Bolsonaro por ser chapa de Ciro Nogueira. O juiz Newton Ramos virou desembargador com um empurrãozinho do amigo Kassio Nunes. E assim vamos, na República dos Amigos. O Poder Judiciário, ao invés de ser a instância imparcial de resolução de conflitos, com juízes nomeados pela sua competência, se transformou em uma grande confraria de ajuda mútua. É a captura do Estado por interesses privados, conforme descrito pelo economista Daron Acemoglu. A receita do subdesenvolvimento.
Call Matinal
1) Depois muita volatilidade pela manhã (no dia 22), o alívio do petróleo serviu de norte para uma melhora dos mercados domésticos. O Ibovespa rompeu os 187 mil pontos e o dólar e juros futuros viraram, passando a cair. Diante disso, o Ibovespa marcou alta de 0,44%, aos 187.422,92 pontos, com giro de R$ 22,5 bilhões, e o dólar em leve queda de 0,11%, a R$ 5,1029.
2) Os índices futuros de NY operam em leve alta nesta quarta-feira (23), enquanto o petróleo recua pelo sexto dia consecutivo, em meio às expectativas de uma possível trégua da guerra entre os EUA e o Irã.
3) Mercados acordam cautelosos, diante do recuo do barril de petróleo e da retomada do diálogo entre EUA e Irã. Continuamos, no entanto, atentos ao olhar do Fed.
4) Nos EUA, declarações mais duras de dirigentes do Fed mantêm o mercado atento à possibilidade de novo aperto monetário, o que pode sustentar os Treasuries e o dólar e limitar o fluxo para mercados emergentes.
5) No Brasil, o movimento é diferente. A ata do Copom reconheceu com maior clareza a desaceleração da atividade e da inflação, fortalecendo as expectativas de continuidade dos cortes da Selic — embora o BCB deva se manter cauteloso.
6) O mercado doméstico começa o dia dividido entre dois movimentos opostos. De um lado, a perspectiva de novos cortes da Selic tende a favorecer ações mais sensíveis aos juros, especialmente varejo, construção, consumo e empresas com maior endividamento. Do outro, se o Fed mantiver ou ampliar o aperto monetário nos EUA, o diferencial de juros entre Brasil e EUA diminui mais rapidamente.
Isso pode significar maior volatilidade para o dólar e para os juros futuros brasileiros.
7) No circo político, o discurso de Lula da Silva repercutiu para os seus apoiadores, mas sem grandes impactos eleitorais. Incrível que quando “engessado”, até que sai alguma coisa. A questão é que Donald Trump não parece ter dado muita atenção. Foi o discurso de sempre, falando de soberania, importância da democracia, relação com os EUA, guerras, etc.
Augusto de Franco
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