quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Os fatos chegam sempre atrasados

 Os fatos chegam atrasados

Alex Pipkin, PhD em Administração e Consultor Empresarial 


Primeiro escolhemos. O candidato chega depois.

Entre os eleitores de menor escolaridade, Lula tem 49%, Flávio Bolsonaro, 29%.

Seria a prova definitiva da superioridade política do diploma, não fosse um detalhe devastador. 

Conheço, e como conheço, doutores capazes de defender disparates com bibliografia, nota de rodapé e absoluta convicção.

Diploma aumenta repertório, não vacina contra estupidez.

A explicação é bem menos confortável.

Ninguém chega sozinho à urna. Leva os pais, a renda, o bairro, o medo, a religião, o emprego que teve, o dinheiro que faltou, a ajuda que recebeu, a raiva que guardou e a turma à qual aprendeu a pertencer.

O candidato chega por último. Para milhões, Lula não é um político. É uma biografia emprestada. Emprego, consumo, proteção, a lembrança de uma época em que a vida pareceu melhorar. Para outros, é também a memória da corrupção, das condenações depois anuladas e de uma história judicial que o país ainda interpreta de maneiras opostas.

Memória não gosta de auditor.

A rejeição trabalha no mesmo escritório.

Flávio carrega um sobrenome que entra na sala antes dele, junto com a pecha do autoritarismo bolsonarista. Lula carrega uma biografia que fecha a porta depois. Há quem rejeite antes de ouvir e quem absolva antes de julgar.

Os argumentos chegam depois. Advogados contratados pela sentença.

O Datafolha desta semana cometeu uma pequena indecência estatística: Lula e Flávio com os mesmos 45% de rejeição.

Iguais no número, diferentes na bagagem. Em Flávio, o sobrenome chega primeiro. Em Lula, uma longa biografia já está sentada à mesa. Não é equivalência. É simetria de trincheiras.

Faço parte da estatística, sem qualquer pretensão de neutralidade.

Entre os dois, minha rejeição a Lula decide meu voto. Flávio não precisa me entusiasmar.

Também carrego uma biografia para a urna.

Chamamos isso de escolha porque reconhecimento tribal ficaria feio na urna.

O grande engano é imaginar que um fato novo encontra uma cabeça disponível. Não encontra. O imóvel já tem inquilino.

Se favorece meu candidato, é prova. Se o desmente, é perseguição, contexto, sabotagem, imprensa, juiz, mercado, sistema. Para o adversário, evidentemente, contexto não existe. Embora a biografia política de Lula dispense apresentações.

Não é burrice. Seria fácil demais.

Um fato não disputa com outro fato. Disputa com uma biografia. Biografias são péssimas perdedoras.

A democracia fez uma aposta: diante dos fatos, revisaríamos nossas escolhas. A aposta não envelheceu bem.

Fizemos o contrário. A escolha vem pronta. Depois contratamos os fatos para defendê-la.


Alex Pipkin

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