É questão de humanidade acudir quem teme ser preso ou ter de fugir, quiçá cometer uma loucura, como um de seus sicários
05/09/2026 00h05
Era só o que faltava: já começou o Rock in Rio, a filha da Luana Piovani pegou piolho, mas a imprensa — sabe-se lá com que segundas intenções — só quer saber de fazer ilações em torno de mensagens privadas de celular.
Então um marido não pode ajudar a esposa na redação de um contrato? Ele não estava ali na condição de magistrado, mas de companheiro, honrando a promessa de apoiá-la na riqueza e na pobreza (esta, uma possibilidade um tanto remota diante dos R$ 130 milhões contratados, mas voto nupcial é coisa séria). E que pai recusaria um cartão de crédito com limite de R$ 300 mil para os filhos, ainda mais se o mimo viesse da pessoa de quem recebe mensagens afetuosas, do tipo “Seu legado pro Brasil será eterno”, “Tenho muito orgulho e tenho certeza que cada vez mais se consolidará como a pessoa mais importante do país”? Seria uma desfeita.
Por que um ministro não pode interferir junto a um procurador, a um diretor-geral, para amparar o amigo que pergunta, num momento de infortúnio, se ele “conseguiu bloquear a maldade e a sacanagem”? É anacrônica essa concepção do juiz numa torre de marfim, impedido de socorrer um investigado que deposita o próprio destino em suas mãos (“Não vou fazer nenhum movimento que você não achar produtivo”). É questão de humanidade acudir quem teme ser preso ou ter de fugir — quiçá cometer uma loucura, como um de seus sicários. Está na Bíblia: uma mão lava a outra, e as duas se enxaguam. E não é uma mão qualquer, mas a que digita “Estamos juntos sempre. Você sabe que tenho gratidão da minha vida a você”. Seria uma ingratidão.
A lei até prevê a possibilidade de processar ministro do STF. Mas pense comigo: será que vale a pena quebrar uma tradição quase milenar de 135 anos, por uma bobagem dessas? E você faz ideia do que seja morar em Brasília, com um salário de R$ 46.366,19, ter de usar capa preta naquele calor e ainda passar o dia ouvindo relator ler voto de 80 páginas? A pessoa salvou a democracia, caramba! E a democracia não tem preço.
Aí falam que não sei quem mandou mensagem perguntando se podia incluir o filho na viagem a Londres e exclamando “Oba!!!! Tomara que tenha charuto e macalan (sic)”. Crucificam um pai que só quer a companhia do filho e, modestamente, nem exige que os charutos sejam um Cohiba ou um Montecristo. O que há de errado em essa pessoa depois querer anular todas as provas? Provas não provam nada.
As “medidas cabíveis e necessárias” são esquecer isso, sacudir a poeira e dar a volta por cima, como mandam as boas práticas republicanas. O Brasil precisa mirar o futuro, não ficar investigando suspeição, conflito de interesses, relações promíscuas, prevaricação, advocacia administrativa, obstrução de justiça, corrupção passiva, essas minudências.
Ha tanta coisa mais séria com que nos ocupar, como o combate à desinformação, a regulação da mídia, a exigência de diploma para exercício do jornalismo. E ficamos discutindo picuinha de ministro não poder assessorar investigado, presidente não conhecer lobista (ninguém conhece ninguém, nem a si mesmo. A alma humana é um abismo. Só porque a pessoa aparece com você em dezenas de fotos e frequenta a cozinha da sua casa, não quer dizer que você a conheça). Daqui a pouco não vai poder nem mais linchar estudante em universidade pública, com apoio do reitor e dos professores.
Por isso que o Brasil não vai pra frente: só tem gente implicante, cheia de mimimi.
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