sábado, 5 de setembro de 2026

TEORIA ECONÔMICA DA CORRUPÇÃO, por Gustavo Maia Gomes

Qual é a taxa máxima de corrupção com que um país pode conviver sustentavelmente? Se as hipóteses e os parâmetros (apenas ilustrativos) do meu modelinho estiverem corretos, a resposta é 50% do PIB. Ou seja: se os agentes públicos ou privados de honestidade duvidosa tentarem se apropriar ilegalmente de mais do que isso, eles provocarão a queda persistente do produto interno bruto, até que o valor deste chegue a zero. Portanto, se quiserem maximizar seu fluxo de renda no longo prazo, os corruptores voltarão para os 50%.

Se forem míopes, entretanto, ou seja, se enxergarem apenas o curto prazo, os corruptos ativos e passivos aumentarão a cobrança de propina até os 65% do PIB. É neste nível que a receita total da corrupção alcança seu valor máximo. Se eles continuarem a aumentar a taxa de corrupção daí para frente, irão ganhar cada vez menos. Percebendo isso, é de se esperar que eles voltem para os 65%.
Eis as hipóteses principais que suportam esta conclusão:
1) Na ausência de choques externos ou de modificações em seus parâmetros, a economia crescerá a uma taxa positiva constante. No meu exemplo numérico, essa “taxa tendencial de crescimento” (g*) é de 5% ao ano.
2) Fatores supervenientes provocam modificações para mais ou para menos em g*. Por exemplos: (a) um fluxo constante de inovações tecnológicas pode fazer com que g* suba para 6% ao ano; (b) o aumento percebido da “taxa média de corrupção” pode fazer com que g* caia para 4%.
Explicação para o último ponto: se as empresas sabem que terão de pagar proporcionalmente mais propinas, elas incluirão essa nova realidade em suas projeções de custos. A rentabilidade esperada dos novos investimentos cairá, fazendo com que certo número desses projetos deixem de ser executados. Consequentemente, g* cairá.
3) No meu exercício numérico, suponho que, no ano zero: (a) o PIB (Y) seja de $1.000; (b) a taxa média de corrupção (w) seja de 20%; (c) o “fator de desestímulo ao crescimento” seja igual a (w/10).
O “fator de desestímulo ao crescimento” é uma medida de como a corrupção afeta o produto. Se a taxa média de corrupção for zero, (w/10) também será zero. O PIB do ano um será, então, 5% maior do que o PIB do ano zero. Ou seja, prevalecerá integralmente a “taxa tendencial de crescimento”. Se, entretanto, a taxa média inicial de corrupção for de 20%, o “fator de desestímulo ao crescimento” será igual a 2%. Consequentemente, o PIB do ano um será apenas 3% (5% menos 2%) maior do que o PIB do ano zero.
4) A taxa média de corrupção (que é = 20% no ano inicial) cresce um ponto percentual a cada ano. Consequentemente, a cada ano, aumenta o “fator de desestímulo ao crescimento”. Portanto, a cada ano, a taxa de crescimento do PIB fica menor.
A figura dá uma ideia do que acontece numa economia (nenhuma semelhança com a nossa, claro) em que a taxa de corrupção cresce a cada ano:
(a) O PIB cresce a taxas decrescentes. Ele atinge um máximo no ano 31, quando a taxa de corrupção é de 50%. Daí para a frente passa a diminuir em termos absolutos.
(b) A receita obtida com a corrupção cresce a cada ano, mas também ela a taxas declinantes. Atinge um máximo no ano 46, quando a taxa de corrupção é de 65%. Daí por diante, declina em termos absolutos.
Quando a corrupção chega (hipoteticamente) a 100%, o sistema todo entra em colapso, podendo se supor que o PIB deixa de existir. Não tendo mais o que roubar, talvez os praticantes da arte, afinal, descubram que a insaciabilidade pode significar sua ruína.
É a minha esperança.

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