domingo, 8 de fevereiro de 2026

Leitura de sábado

 *Leitura de Sábado: Possibilidade de El Niño em 2026 deixa mercado elétrico sob alerta*


Por Luciana Collet


São Paulo, 03/02/2026 - A possibilidade de transição do fenômeno La Niña, atualmente vigente, para o El Niño ao longo dos próximos meses deixa o setor elétrico brasileiro sob alerta, tendo em vista o impacto que pode gerar no balanço energético nacional e no custo da eletricidade no País. Após chuvas abaixo da média ao longo dos últimos meses e previsão de que as águas de fevereiro e março não serão suficientes para eliminar o déficit de precipitações acumulado de outubro até agora, a perspectiva de um fenômeno que tende a elevar as temperaturas e diminuir chuvas em áreas de reservatório aumenta a preocupação com os níveis de armazenamento nas hidrelétricas no final deste ano.


Atualmente, as instituições de acompanhamento climático já observam uma tendência de aquecimento das águas do Oceano Pacífico Equatorial. A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA, na sigla em inglês), agência norte-americana conhecida por rastrear os fenômenos climáticos, segue apontando a presença do La Niña, que corresponde a uma anomalia negativa na temperatura oceânica, mas afirma que há 75% de chance de transição para a neutralidade até março. Meteorologistas aguardam o anúncio oficial possivelmente ainda este mês.


E as análises apontam tendência de transição, ainda dentro da neutralidade, para um El Niño fraco ainda no primeiro semestre. Ou seja, haveria uma temperatura acima da média na região central do Oceano Pacífico Equatorial, refletindo em alterações atmosféricas ao longo do segundo semestre.


"No Centro Europeu [de Previsões Meteorológicas], dos 51 cenários que eles rodam, 50 indicam que a gente entra no El Niño, de fraco a moderado, até junho e um cenário aponta julho; o modelo norte-americano indicou, em janeiro, todas as rodadas na neutralidade; e quando olhamos o multimodelo do IRI [International Research Institute for Climate and Society, ligado à Universidade de Columbia], que faz uma combinação de todos os institutos, ele coloca 60% de probabilidade de ter El Niño neste ano, o que é bastante alto", disse o CEO da consultoria Tempo OK, João Hackerott.


O El Niño traria como consequência aumento das chuvas no Sul e seca no Norte e Nordeste. Já a região central do País, onde se concentram os principais reservatórios hidrelétricos, há irregularidade das precipitações e risco de ondas de calor. Hackerott lembra que além do fenômeno, as chuvas no Sudeste sofrem a interferência do comportamento do Oceano Atlântico e outras oscilações. "Estamos preocupados, o sinal de atenção é realista porque pode ter atraso no período úmido se tiver entrada El Niño e Oceano Atlântico mais aquecido, como as projeções estão indicando", disse.


O sócio-diretor e meteorologista da Nottus, Alexandre Nascimento, salienta a necessidade de acompanhar o período de transição para confirmar a tendência de configuração do fenômeno, mas considera haver "grande chance" de El Niño no segundo semestre, trazendo desafios adicionais para o sistema elétrico brasileiro.


Ele lembra que as chuvas dos últimos meses foram irregulares, não permitindo boa recuperação do armazenamento nas hidrelétricas até agora. "A gente entra agora no terço final do período úmido e não tem mágica, não tem chuva em abril ou maio capaz de recuperar 10% de reservatório, então de agora em diante vai continuar recuperando reservatório, mas não tanto quanto se tivesse chovido desde dezembro", disse, sugerindo que o volume armazenado tende a ser uma preocupação no fim do período seco, por volta de outubro.


Matheus Machado, especialista de inteligência de mercado do Grupo Bolt, alerta que o El Niño e o consequente aumento das temperaturas para patamares mais elevados, possivelmente acima da média, pode impulsionar a carga para além do crescimento atualmente projetado para o ano, da ordem de 4,5%. "No global dos últimos 12 meses de temperatura, estamos passando por um período de anomalia negativa, mas quando vem uma onda de calor, a carga responde", disse.


Para ele, teremos um 2026 com diversas pressões de crescimento da demanda. Além do consumidor lidando com picos de calor que elevam o uso de refrigeração, ele cita as elevadas taxas de crescimento observadas no Norte e Nordeste, superiores a 7%. "Temos duas âncoras de carga mais alta que são mais imunes a temperatura, é importante porque só o Nordeste entregou um crescimento 1 gigawatt em janeiro, ou 8%, o que é muito elevado. E pode ter oscilações no Sudeste e Sul, mas comparando com 2025 temos uma carga mais firme", disse.


Já Fred Menezes, diretor de Comercialização da Armor Energia, cita que o aumento das temperaturas, associado com a possibilidade de reservatórios baixos gera alerta especialmente para 2027. De acordo com ele, o aumento das chuvas no Sul, com o El Niño, colaboraria no atendimento do aumento da demanda no Sudeste, mantendo os preços da energia sob controle por um tempo, mas não geraria grandes contribuições para a melhora do armazenamento.


Contato: Luciana.collet@estadao.com


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