*Leitura de Sábado: privatização da Copasa combina 'filé com osso' e retorno via investimento*
Por Elisa Calmon
São Paulo, 03/02/2026 - A privatização da Copasa combina ativos que, no jargão do mercado, formam um "filé com osso", ao reunir municípios com alto nível de atendimento e áreas com déficits relevantes, sob gestão da subsidiária Copanor. Embora represente um desafio operacional, esse desenho pode abrir oportunidades de ganhos, segundo especialistas.
Na semana passada, a companhia divulgou as primeiras diretrizes sobre o desenho da privatização. O modelo repete a estrutura de follow-on (oferta subsequente de ações) adotada pela Sabesp em 2024 e também prevê a participação de um investidor estratégico. A expectativa é que a operação ocorra entre março e abril.
O projeto de lei que autoriza a desestatização prevê a incorporação da Copanor pela Copasa. Atualmente, a subsidiária é responsável pela operação no Norte e Nordeste de Minas Gerais, regiões em que os indicadores de saneamento estão abaixo das médias estadual e nacional.
Cerca de 83% da população mineira tem acesso à rede de água e aproximadamente 76% conta com coleta de esgoto. Nos municípios do Vale do Jequitinhonha, do Mucuri e em parte do Norte de Minas, cerca de 60% dos domicílios recebem água tratada e aproximadamente 40% dispõem de coleta de esgoto, segundo dados do governo de Minas Gerais e do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS).
Por outro lado, Minas Gerais também reúne municípios com indicadores elevados de saneamento. O Estado tem duas cidades entre as 20 melhores colocadas no Ranking do Saneamento 2024 do Instituto Trata Brasil: Montes Claros e Uberlândia. A primeira é atendida pela Copasa. A capital, Belo Horizonte, também sob concessão da companhia, possui 100% da população com acesso à água potável e à coleta de esgoto, também de acordo com o SNIS.
Para Paulo Henrique Dantas, especialista em infraestrutura do Castro Barros Advogados, o principal desafio está em conciliar áreas mais rentáveis com regiões que exigem investimentos elevados e retorno mais lento. "É uma engenharia financeira complexa, porque é preciso universalizar o serviço, atender tarifas sociais e investir pesado antes de começar a capturar retorno", afirma.
Retorno via investimento
Ainda assim, regiões com menor cobertura não inviabilizam a concessão dentro da lógica de remuneração do setor, segundo o analista do UBS BB, Giuliano Ajeje. Ele explica que a tarifa do saneamento é estruturada para cumprir duas funções centrais: assegurar a remuneração do capital investido e cobrir o custo da operação. Como a margem operacional é limitada, os investimentos se tornam um vetor relevante.
"A operação em si tem margem muito pequena. A beleza do saneamento é a necessidade de fazer investimento. Quanto mais a companhia aportar, maior será o retorno", afirma Ajeje.
O analista de infraestrutura do Citi, João Pimentel, acrescenta que esse retorno decorre do modelo regulatório baseado na remuneração da base de ativos. "Todo investimento que você faz vira base de ativos regulatórios, que é remunerada por uma taxa definida pelo regulador", diz. Segundo ele, a tarifa resulta da aplicação do custo médio ponderado de capital (WACC) sobre essa base, o que define a receita máxima da concessionária.
"Se ao longo do tempo você vai investindo, essa base de ativos cresce. Na revisão tarifária seguinte, a taxa regulatória passa a incidir sobre uma base maior", afirma. "Desde que os investimentos sejam reconhecidos pela agência, o resultado econômico cresce ao longo do tempo", acrescenta.
Desafios
Dantas pondera, no entanto, que o retorno dos investimentos tende a ser mais lento justamente porque a infraestrutura precisa estar pronta antes de gerar receita. "Isso alonga o prazo de retorno dos investimentos", diz.
Mas o desenho da privatização, inspirado no modelo adotado na Sabesp, com a entrada de um investidor de referência, ajuda a dar maior previsibilidade à execução dos aportes e à captura do retorno ao longo do contrato, avalia o especialista em infraestrutura.
O Plano Estadual de Saneamento Básico estima que Minas Gerais demandará cerca de R$ 50 bilhões em investimentos em infraestrutura de água e esgoto entre 2022 e 2033. Em um horizonte mais longo, até 2041, a necessidade de recursos sobe para R$ 70 bilhões.
A título de comparação, o contrato de privatização da Sabesp prevê cerca de R$ 70 bilhões em investimentos até 2029 para antecipar a universalização dos serviços. Com uma população quase duas vezes maior que a mineira, o Estado de São Paulo apresenta níveis de cobertura superiores. Cerca de 95% da população paulista tem acesso à rede de água e 90,5% à coleta de esgoto, segundo dados de 2022 do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS).
Contato: elisa.ferreira@estadao.com
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