domingo, 8 de fevereiro de 2026

Eleitores endividados

 *Eleitores endividados*


Dados do BC expõem descompasso entre a publicidade lulopetista e a vida real: endividamento elevado corrói a sensação de melhora econômica e pode cobrar seu preço na disputa presidencial de 2026


“Herança maldita”, bradava o comissariado petista em novembro de 2022, durante a transição entre os governos de Jair Bolsonaro e o novo mandato de Luiz Inácio Lula da Silva. À época, a caciquia do partido falava em “economia destruída”, alertava que o povo estava “passando fome” e denunciava o avanço do endividamento das famílias. O crédito caro, o rotativo do cartão e o uso crescente do consignado e dos empréstimos pessoais eram apresentados pelo PT como prova de que a economia se tornara hostil aos brasileiros. A promessa implícita era inequívoca: com a volta de Lula ao Palácio do Planalto, a renda cresceria, o aperto diminuiria e a normalidade econômica seria restaurada.


Três anos depois, os dados desmentem essa expectativa. A renda, de fato, cresceu, mas o aperto não deu trégua. Segundo o Banco Central, o endividamento das famílias alcançou 49,8% do rendimento anual, patamar muito próximo do recorde histórico registrado em julho de 2022. Trata-se de um indicador abrangente, que inclui financiamentos imobiliários e de veículos, crédito consignado, empréstimos pessoais e cartão de crédito. Não é um desvio pontual, mas a consolidação de um quadro persistente de pressão sobre os orçamentos domésticos. E a evidência de que o triunfalismo lulopetista está longe de encontrar amparo na realidade.


O contraste com a narrativa oficial é evidente. O governo insiste em destacar indicadores positivos do mercado de trabalho, sobretudo a queda do desemprego e a recuperação da renda média. Esses avanços são reais, mas insuficientes para neutralizar o desconforto econômico percebido pela população. Dívidas elevadas, juros altos e crédito caro corroem o efeito prático da renda adicional e alimentam a sensação difusa de que a vida não está mais fácil.


As pesquisas de opinião captam esse descompasso. Levantamentos recentes, como os do Ideia e da Quaest, mostram que uma parcela expressiva dos brasileiros acredita que a economia piorou ou permaneceu estagnada, apesar do discurso autoelogioso do governo. A avaliação do desempenho econômico figura de forma recorrente entre os principais fatores de insatisfação. Custo de vida e insegurança financeira ancoram tais temores. Não por acaso, a aprovação do governo oscila em patamar mediano, distante do apoio que costuma sustentar projetos de reeleição.


Esse cenário expõe os limites da estratégia petista de terceirizar permanentemente a responsabilidade pelos problemas econômicos. Não é novidade. Entre 2002 e 2003, ao chegar à Presidência pela primeira vez, Lula também classificou como “herança maldita” a economia recebida de Fernando Henrique Cardoso – como se a gestão tucana, apesar de sucessivas crises internacionais, não tivesse pavimentado o caminho que permitiria o sucesso econômico do primeiro mandato petista.


Essa marotagem tem prazo de validade. Lula governa há tempo suficiente para que os resultados, positivos ou negativos, sejam atribuídos majoritariamente às escolhas de sua própria administração. Persistir na lógica da herança eterna soa cada vez menos convincente e mais como fuga de responsabilidade. Os números divulgados pelo Banco Central reiteram essa constatação.


O endividamento elevado vai além da estatística. Restringe o consumo, amplia a vulnerabilidade das famílias a choques econômicos e limita a eficácia de políticas baseadas quase exclusivamente em transferências de renda. Em ano pré-eleitoral, esse quadro se converte em risco político concreto para um presidente que aposta na memória afetiva de mandatos passados e na ideia de que sua presença no poder, por si só, melhora a vida do cidadão comum.


A economia tende a ser o eixo central da disputa de 2026 não por ideologia, mas por experiência concreta. O eleitor decide menos pelo discurso e mais pelo que sente no bolso. Se quiser evitar que a dívida das famílias se torne símbolo de frustração eleitoral, o Planalto precisará ir além da retórica e enfrentar o problema com seriedade. Até lá, os números do Banco Central seguirão lembrando que a economia real não se deixa moldar por slogans – e que a política da negação pode cobrar seu preço nas urnas.



https://www.estadao.com.br/opiniao/eleitores-endividados/?srsltid=AfmBOorVNAzGbILW2dgUnsQg12OV8cARpi4ytQ6UVlSqy8ZuG_bLXxUF

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