domingo, 13 de setembro de 2026

Elio Gaspari



NA CRISE DO STF, SÃO DEZ ESCORPIÕES NUM GARRAFA

Isolados atritos de choques de ego e surtos de onipotência, sobra pouco

Supremo atravessou ditaduras sem maiores crises e, em 2026, meteu-se na maior encalacrada de sua história




O juiz Oliver Wendell Holmes Jr. (1841-1935) foi um dos juízes mais influentes e longevos da Corte Suprema dos Estados Unidos. Com 30 anos de experiência, ele descreveu o tribunal: "São nove escorpiões numa garrafa". Isso na corte americana. Na brasileira, são 11. (Na crise de hoje, são dez, porque uma cadeira está vazia.)




O Supremo atravessou ditaduras sem maiores crises e, em 2026, meteu-se na maior encalacrada de sua história. Se pudessem ser isolados os atritos produzidos por choques de egos ou surtos de onipotência, sobraria muito pouco da crise. Não há um fiapo de política pública separando Alexandre de Moraes e André Mendonça. Moraes até hoje não explicou sua relação com o então banqueiro Daniel Vorcaro, e Mendonça já chamou Jair Bolsonaro (que o indicou para o STF) de "profeta".




Para se ter uma ideia do ritual monárquico que enfeita o cotidiano das excelências, os ministros são servidos por funcionários denominados "capinhas", que têm, entre outras funções, a de puxar a cadeira para que eles se sentem ou se levantem. (Um ministro explicou que esse serviço é necessário porque a toga enrosca nas rodinhas da cadeira. Vá lá.)




Indo-se ao histórico dos quatro personagens da crise —Dias Toffoli, Alexandre de Moraes, Flávio Dino e André Mendonça—, vê-se que Toffoli e Moraes entraram no processo do Banco Master preocupados em apagar as luzes da sala. Toffoli sabia que a turma do Master havia comprado parte do resort Tayayá Aquaparque. Destemido, aceitou a relatoria do caso, colocou-o sob sigilo e blindou-o. Deu no que deu.




Moraes sabia o tamanho do ervanário recebido do Master pelo escritório de advocacia de sua mulher. Ainda assim, permitia que Vorcaro lhe pedisse conselhos. Novamente, deu no que deu.




Os ministros tinham motivos para suspeitar que seus desassombros custariam caro às suas biografias e tisnariam a imagem do tribunal. Nenhum deles precisava se expor. Expuseram-se porque se julgaram invulneráveis. Enganaram-se e levaram seus colegas junto.




CARMEN LUCIA CANTOU A PEDRA

Se os ministros do Supremo tivessem juízo, eles teriam ouvido a ministra Cármen Lúcia na sessão do dia 12 de fevereiro, quando ela disse: "Todo taxista que eu pego fala mal do Supremo. A população está contra o Supremo".




Não eram só os taxistas. Diante de revelações da Polícia Federal em torno da venda de parte do resort Tayayá, o STF deu-se ao ridículo. Solidarizou-se com Toffoli, condenou as revelações e, discretamente, sugeriu que deixasse a relatoria, o que ele fez.




Em uma fala que deverá entrar para a história do Supremo, Dino falou do documento da ligação da Polícia Federal dos familiares de Toffoli com o resort Tayayá: "Essas 200 páginas [de relatório da PF] para mim são um lixo jurídico. Não adianta discutir esse lixo jurídico".




AS CAMAS DO MASTER




Foram expostas à exaustão as festas e farofas de Daniel Vorcaro. No meio desses ágapes, degustavam-se uísques e charutos. Só?




Mensagens já conhecidas apontam para a existência de uma traficância de favores sexuais semelhante, em ponto menor, ao do americano Jeffrey Epstein. Vorcaro era servido pelo promotor de eventos, Diogo Batista, conhecido como "o concierge dos VIPs".




Em 2022, num passeio pela França, o banqueiro gastou R$ 11,2 milhões. Meses depois, o banqueiro patrocinou uma festa indígena na praia de Trancoso, enfeitada por convidadas estrangeiras, inclusive russas e ucranianas. No ano seguinte, o Master foi um dos patrocinadores da equipe de Fórmula 1 da Aston Martin e da sua festa para 190 convidados e consumo de 180 garrafas de bebidas. Novamente, foram trazidas convidadas do Leste Europeu.




Em 2024, Vorcaro desentendeu-se com Diogo Batista e foi parcialmente substituído por Karolina Trainotti.




Vorcaro também foi assessorado por Stheve Lopes, sócio de Batista. As repórteres Joana Cunha e Júlia Moura mostraram que ele recrutava convidadas e submetia fotografias a Vorcaro, que as avaliava nas categorias "wow", "loirinha top" ou de "+ -".




Em junho de 2024, Lopes ajudou Vorcaro com eventos simultâneos à 12ª edição do Fórum Jurídico de Lisboa, conhecido como Gilmarpalooza. O roteiro que Vorcaro bancou em Portugal ficou em US$ 1,6 milhão (mais de R$ 8,1 milhões na cotação de hoje).




Em agosto de 2025, Vorcaro e sua ex-noiva, Martha Graeff, trataram das festas e ela reclamou porque Vorcaro mantinha contato na rede social com mulheres que ela considerava "putas".




"Fazia parte do meu 'business'. Nunca te escondi o que fiz e por que fiz. Fiz festa com 300 desse tipo", respondeu o ex-banqueiro nas mensagens extraídas de seu celular pela PF.




Falta saber qual era o "business" dos convidados de Vorcaro.




PROMESSAS AMAZÔNICAS




Lula entra na reta final da campanha azucrinado por más notícias. Há algo de desigual nessa má sorte. Afinal, noves fora as traficâncias de alguns ministros do Supremo, que são encrencas pessoais, nada há no seu passivo que se compare ao ervanário que circulou em torno do filme "Dark Horse", uma biografia apologética de Jair Bolsonaro.




Habituada ao salto, sua equipe achou razoável criar quatro unidades de preservação ambiental no Amazonas.




Tudo bem, mas cadê a Autoridade Ambiental, prometida durante a campanha eleitoral? Em janeiro de 2023, a ministra Marina Silva, do Meio Ambiente, prometeu: "Até março deste ano, será formalizada a criação da Autoridade Nacional de Segurança Climática, no âmbito do Ministério do Meio Ambiente, além da criação de um conselho sobre mudança do clima, a ser comandado pelo próprio presidente da República, e com a participação de todos os ministérios que estão agora nesta Esplanada, da sociedade civil, dos estados e municípios".




Veio março e nada. Em setembro de 2024, em Manaus, Lula prometeu a criação da Autoridade Climática. Nada, nem explicação.




Mulheres no STF

Com o Supremo atolado na crise, importa registrar que, em 218 anos de existência, o Supremo Tribunal Federal só teve três mulheres: Ellen Gracie, nomeada em 2000 por Fernando Henrique Cardoso, Cármen Lúcia, nomeada por Lula 1.0, e Rosa Weber, nomeada por Dilma Rousseff.




Nenhuma das três envolveu-se em farofas ou episódios nebulosos.




El Presidente

Se um candidato a presidente latino-americano oferecesse US$ 5.000 (cerca de R$ 25.100) a cada adulto caso o seu partido vença a eleição, a promessa seria associada à irresponsabilidade fiscal dos latinos.




Pelo andar da carruagem, Trump poderá perder a maioria na Câmara. Até aí nada de novo, porque, em geral, os presidentes perdem as eleições do meio do mandato.




A novidade é a promessa.

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