segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Call Matinal

1) Na sexta passada (11), o Ibovespa fechou em queda de 0,56%, aos 187.206 pontos (+1,11% na semana). Já o dólar fechou a R$ 5,12 (+0,51%), o PTAX de venda, a R$ 5,0918, e o Euro, a R$ 5,94 (+0,29%).


2) Os índices futuros dos EUA operam em baixa nesta segunda-feira (14), pressionados pela nova disparada do petróleo e por uma sequência de alertas sobre os riscos relacionados ao avanço da inteligência artificial.      


3) Abrimos esta semana de olho na “superquarta”,que concentra duas decisões para a política de juros. 


Nos EUA, a taxa Fed Funds deve ser mantida, mas a atenção se volta ao comunicado do Fed sobre os próximos passos. 


No Brasil, o mercado projeta o primeiro corte da Selic nesta rodada, a 13,75% ao ano, movimento que costuma afetar o custo do crédito, o retorno da renda fixa e o câmbio. 


4) Na agenda da semana, devemos acompanhar também o IBC-Br e o varejo de julho, que mostram como a atividade chegou ao segundo semestre. 


5) O petróleo volta a comandar os mercados nesta segunda-feira, com o Brent acima de US$ 108, após o adiamento das negociações sobre Ormuz e novos ataques no fim de semana, aumentando a pressão sobre os juros às vésperas da “superquarta” decisiva. No Japão, ainda temos a reunião do BoJ, que também pode apertar a política monetária. 


6) Ainda no Brasil, a crise no STF entra de vez no radar eleitoral, depois de interromper o trade pró-Flávio na sexta-feira, e, nos EUA, ganha força o debate sobre desacelerar o avanço da inteligência artificial. 


7) O petróleo voltou a disparar na abertura dos negócios neste domingo, depois que foi adiada, sem nova data, a reunião entre Irã e países do Golfo que tentaria avançar numa solução para a navegação no Estreito de Ormuz. O Brent/novembro subia mais de 3%, acima dos US$ 108, e o WTI avançava para US$ 103, devolvendo boa parte da queda de sexta-feira.

BDM Matinal Riscala


*Rosa Riscala: Semana tem superquarta de juros e superterça no STF*


… O petróleo volta a comandar os mercados nesta segunda-feira, com o Brent acima de US$ 108 após o adiamento das negociações sobre Ormuz e novos ataques no fim de semana, aumentando a pressão sobre os juros às vésperas de uma Superquarta decisiva. O Fed deve elevar a taxa americana, enquanto o Copom deve cortar a Selic para 13,75%, num ambiente em que o diferencial de juros com o exterior diminui e o BoJ também pode apertar a política monetária. Ainda no Brasil, a crise no STF entra de vez no radar eleitoral, depois de interromper o trade pró-Flávio na sexta-feira, e, nos Estados Unidos, ganha força o debate sobre desacelerar o avanço da inteligência artificial.


ORMUZ SEM ACORDO – O petróleo voltou a disparar na abertura dos negócios neste domingo, depois que foi adiada, sem nova data, a reunião entre Irã e países do Golfo que tentaria avançar numa solução para a navegação no Estreito de Ormuz.


… O Brent/novembro subia mais de 3%, acima dos US$ 108, e o WTI avançava para US$ 103, devolvendo boa parte da queda de sexta-feira.


… O encontro estava marcado para amanhã, em Omã, e era uma das principais apostas diplomáticas para reduzir as restrições ao tráfego em Ormuz. O governo omanita afirmou que o adiamento ocorreu “no interesse do consenso”.




… A frustração veio depois de um fim de semana de novos ataques.




… Neste domingo, uma embarcação foi atingida por um projétil em Ormuz, enquanto a mídia iraniana informou que um navio comercial do país foi atacado perto da ilha de Qeshm. Ao mesmo tempo, aumentou a pressão sobre as rotas alternativas.




… A Arábia Saudita fechou preventivamente o oleoduto Leste-Oeste depois de ataques de drones lançados do território iraquiano. O duto vinha sendo fundamental para escoar petróleo saudita pelo Mar Vermelho e contornar as restrições em Ormuz.




… Mas também essa saída ficou mais vulnerável. Os houthis avançaram pela costa do Iêmen e tomaram a ilha de Mayun, no Estreito de Bab el-Mandeb, por onde passa cerca de 12% do comércio mundial. O grupo voltou a atacar a Arábia Saudita com mísseis e drones.




… Apesar da escalada, seguem abertas algumas frentes de negociação. Trump disse que o Irã está “ávido por um acordo”, enquanto Teerã afirma que permanece disposto à diplomacia, mas mantém suas condições para qualquer entendimento.




… A pressão do petróleo já contaminava outros mercados na abertura, com queda dos futuros do Dow Jones, S&P 500 e Nasdaq, às vésperas de uma semana decisiva para os juros globais – com a reunião do Fed no centro das expectativas.




IA PEDE FREIO – O debate sobre os riscos da inteligência artificial ganhou força no fim de semana, com os próprios líderes da indústria defendendo mais controles e até uma desaceleração no desenvolvimento dos modelos mais avançados.




… O CEO da Anthropic, Dario Amodei, alertou que, no ritmo atual, a IA poderá atingir em seis a 12 meses capacidades muito mais difíceis de controlar e defendeu ganhar um ou dois anos para que as medidas de segurança acompanhem a evolução da tecnologia.




… Sam Altman endossou parte das propostas e anunciou que a OpenAI permitirá acesso contínuo de avaliadores externos às suas práticas de segurança. Elon Musk foi ainda mais direto e afirmou que “Dario está certo”.




… Já o presidente Trump reconheceu neste domingo que algumas barreiras de proteção podem ser necessárias, mas rejeitou uma desaceleração que coloque em risco a liderança americana na corrida tecnológica com Pequim. “Quem vencer em IA, vence em tudo.”




… O alerta ganhou dimensão ainda maior com a guerra. A Anthropic revelou que identificou e bloqueou um agente ligado ao Irã que utilizava o Claude para reunir informações públicas e desenvolver recomendações de alvos contra forças navais americanas no Oriente Médio.




… A empresa também detectou o uso de seus modelos em projetos envolvendo enxames de drones, sistemas de navegação de mísseis e pesquisas relacionadas a possíveis armas biológicas, ampliando a pressão por mecanismos de segurança capazes de acompanhar a evolução da IA.




… À noite, o futuro do Nasdaq ampliava a queda após os crescentes apelos para desacelerar o ritmo de desenvolvimento da inteligência artificial.




FED NA BERLINDA – A expectativa de que o Fed volte a elevar os juros nesta quarta-feira se consolidou depois do CPI e já alcança quase 90% no mercado futuro, com a maioria das apostas concentrada numa alta de 25 pontos-base, para 3,75% a 4,00%.




… O núcleo dos preços ao consumidor veio ligeiramente acima do esperado em agosto e reforçou a percepção de que o processo de desinflação perdeu força. A nova disparada do petróleo neste domingo, com o Brent acima de US$ 108, acrescenta pressão ao cenário.




… A reação já apareceu nos Treasuries, na sexta-feira, com o rendimento da T-note de 10 anos ainda mais perto dos 5% (leia abaixo).




… Com a decisão desta semana praticamente precificada, a dúvida agora é o que Kevin Warsh sinalizará para os próximos meses.




… A Pantheon acredita que a alta de setembro será isolada, enquanto a Capital Economics projeta 75 pontos-base de aperto até o fim do ano, avaliando que será necessária uma mensagem muito hawkish do Fed para provocar nova alta relevante dos juros ou do dólar.




… Muitos analistas consideram que os mercados já se ajustaram à perspectiva de juros mais altos.




… Na ponta contrária, o Rabobank mantém a alta de setembro como cenário principal, mas vê possibilidade de adiamento para outubro, já que uma parte da surpresa do núcleo do CPI veio do forte reajuste dos serviços de telefonia.




… A decisão do Fed também ocorre sob pressão da Casa Branca.




… Trump voltou a dizer neste domingo que os Estados Unidos deveriam ter os menores juros do mundo, enquanto Kevin Hassett afirmou que o governo apoiará “100%” qualquer decisão do Fed, embora não veja razões técnicas para uma alta.




BOJ APERTA – Outra decisão importante da semana vem do Banco do Japão, que também pode elevar os juros no primeiro minuto da sexta-feira, num momento especialmente delicado para o iene e para o carry trade global.




… A expectativa é de uma alta de 25 pontos-base, para 1,25%, depois da forte volatilidade do iene que levou Japão e Estados Unidos a uma megaintervenção conjunta no câmbio e aumentou a pressão americana para que o BoJ acelere o aperto monetário.




… Para o IIF, a combinação entre juros mais altos nos Estados Unidos e no Japão pode colocar novamente o carry trade à prova.




… A alta do Fed reduz o diferencial que sustentou fluxos para emergentes, enquanto a valorização do iene e o aperto do BoJ encarecem o financiamento dessas operações. Os fluxos de portfólio para emergentes já perderam força, embora continuem positivos.




… As entradas líquidas caíram de US$ 24,9 bilhões em julho para US$ 11,3 bilhões em agosto. E o Brasil também é atingido.




SUPERQUARTA – No Brasil, o efeito mais imediato das decisões dos BCs será a redução do diferencial de juros com o exterior. Enquanto o Fed deve elevar os juros, o Copom deve cortar a Selic em 25 pontos-base, para 13,75%, diminuindo a atratividade do carry trade.




… O corte está praticamente fechado. Das 78 instituições consultadas pelo Projeções Broadcast, 75 esperam redução de 0,25 ponto e apenas três projetam manutenção da Selic em 14%. A mediana mantém a Selic em 13,75% também em novembro e no encerramento de 2026.




… Embora a expectativa majoritária aponte este como o último corte do ano, aumentou o grupo de analistas que já admite novas reduções, diante de sinais mais disseminados de perda de força da economia e melhora da inflação subjacente.




… Depois da surpresa com o IPCA de agosto, com deflação acima do esperado, a discussão passou a ser se ainda haverá espaço para novos cortes até o fim do ano, mas não sem uma boa dose de cautela, que vem dos riscos à frente.




… O petróleo voltou a superar US$ 108 neste domingo, o super El Niño pode pressionar os alimentos nos próximos meses e o cenário externo ficou mais desafiador com os juros globais mais elevados. E há ainda as dúvidas sobre a eleição presidencial.




… As incertezas sobre a política econômica do próximo governo tendem a pesar cada vez mais nas decisões do BC, e por isso a comunicação do Copom será a principal expectativa dessa reunião. O comunicado será lido com lupa pelos economistas.




… Talvez o BC não seja explícito sobre uma pausa, mas se deixar aberta a porta para continuar reduzindo a Selic, deve mudar as apostas.




STF ENTRA NA ELEIÇÃO – A crise no Supremo já começou a cobrar preço dos ativos brasileiros na sexta-feira, quando o levantamento dos sigilos das investigações do caso Master interrompeu o trade eleitoral, diante do risco de que novas revelações atinjam Flávio Bolsonaro.




… O Ibovespa caiu 0,56%, o dólar voltou para R$ 5,12 e os juros futuros devolveram parte da queda provocada pela deflação do IPCA, depois de Fachin determinar maior transparência sobre os processos relacionados a Vorcaro (leia abaixo).




… O risco ganhou força no fim de semana. Flávio Dino retirou o sigilo de cerca de 5 mil páginas da investigação sobre o financiamento do filme Dark Horse, inspirado na vida de Jair Bolsonaro, e autorizou novos relatórios financeiros do Coaf.




… A apuração investiga suspeitas de desvio de recursos públicos e o uso de dinheiro do Banco Master no financiamento do longa. Dino afirmou que se fortaleceu a hipótese de conexão envolvendo emendas parlamentares e recursos da Prefeitura de São Paulo.




… Mas o principal teste para os mercados será na terça-feira, quando o STF realiza sessão extraordinária para decidir se abre ou se arquiva a investigação sobre as mensagens trocadas entre Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro.




… Fachin resistiu às pressões para adiar o julgamento ou julgar Moraes e Mendonça em conjunto, e decidiu restringir a sessão ao caso Moraes-Vorcaro, deixando para o dia 23 a análise das acusações envolvendo André Mendonça.




… A sessão de amanhã está marcada para as 10h, aberta à imprensa e com transmissão ao vivo pela TV Justiça e o canal do Supremo no YouTube, o que aumenta a possibilidade de repercussão no mercado durante o próprio pregão.




… A disputa agora envolve também o conteúdo do celular de Vorcaro. No domingo, Zanin determinou a entrega pela PF de uma cópia dos dados a seu gabinete, após Mendonça ter se posicionado contra o acesso ao conteúdo integral, alegando risco às investigações.




… Moraes também pediu no final do domingo o levantamento do sigilo de mais um processo do Master sob relatoria de Mendonça, que, segundo ele, contém elementos essenciais para o julgamento. Nesta segunda-feira, os ministros devem receber de Fachin o rito da sessão.




… Na guerra aberta no STF, existe a possibilidade de os ministros próximos a Moraes articularem um pedido de vista logo no início.




… O mercado acompanhará de perto qualquer nova informação que possa alterar o cenário eleitoral, depois que a expectativa de uma disputa mais apertada entre Lula e Flávio sustentou nas últimas semanas a forte valorização dos ativos brasileiros.




DATAFOLHA – Divulgada após o fechamento de sexta-feira, a nova pesquisa mostrou Flávio Bolsonaro avançando de 33% para 35% no primeiro turno e encostando em Lula, que passou de 38% para 39%. Os dois estão em empate técnico no limite da margem de erro.




… No segundo turno, o cenário ficou estável, com Lula em 46% e Flávio em 44%, também em empate técnico.




… No final da tarde de domingo, o presidente Lula fez uma live com a militância do PT e levou a crise para a campanha, ao citar o caso Vorcaro e as investigações que envolvem seu filho, Fábio Luís Lula da Silva.




… O presidente fez acusações contra Flávio e disse que, se o filho estiver envolvido no esquema do INSS, “vai pagar um preço muito alto”.




AGENDA DA SEMANA – A Superquarta concentra as atenções dos mercados, com decisões de juros do Fed e do Copom, enquanto o Banco do Japão decide na virada de quinta para sexta-feira. A semana traz ainda a reunião do BoE inglês na quinta-feira.




… Na quarta-feira, antes do Fed, os Estados Unidos divulgam as vendas no varejo de agosto e, no Reino Unido, sai o CPI de agosto.




… Ainda nos Estados Unidos, a semana termina com a produção industrial de agosto, na sexta-feira.




… Já nesta segunda-feira, o mercado acompanha a promessa do secretário do Tesouro americano, Scott Bessent, de anunciar sanções contra um “grande banco”, não identificado, por relações com o Irã.




… Às 23h, a China divulga produção industrial, vendas no varejo e investimentos em ativos fixos.




… No Brasil, destaque para as vendas do varejo de julho amanhã e, na quarta-feira, para o IBC-Br de julho. Hoje, o Relatório Focus sai às 8h25.




LIVE PRÉ-COPOM – O BDM realizará amanhã, às 12h, entrevista com a economista-chefe do Banco Inter, Rafaela Vitória, com transmissão ao vivo pelo seu canal no YouTube, abordando a superquarta com o Fed, o petróleo acima de US$ 100 e os riscos da eleição presidencial.




CAVALO DE PAU? – Bateu na sexta-feira a cautela de que a queda total do sigilo das investigações sobre o Master traga à tona revelações sobre o financiamento do filme Dark Horse e prejudique a ascensão da candidatura de Flávio.




… Depois de quase duas semanas surfando no trade eleitoral, o mercado doméstico acendeu a luz amarela, acentuou as perdas do Ibovespa, pressionou o dólar e virou a curva dos juros futuros, ofuscando a deflação do IPCA.




… De olho no incêndio da crise do STF, os contratos médios e longos do DI zeraram a queda, embora tenha subido pouco. Jan/29 foi a 13,835% (de 13,831% na véspera); Jan/31, a 14,040% (de 14,029%); e Jan/33, 14,155% (14,151%).




… Só a ponta mais curta exibiu viés de queda (Jan/27 marcou 13,585%, contra 13,586% no ajuste anterior; e Jan/28, 13,620%, de 13,632%), porque o alívio da inflação em agosto endossou a aposta de corte da Selic essa semana.




… Em agosto, o índice oficial de inflação registrou a maior deflação para o mês em quatro anos, de 0,32%, contra a mediana de -0,29%. O resultado acumulado em 12 meses, de alta de 4,22%, veio abaixo do consenso de 4,26%.




… A principal influência para a queda do IPCA em agosto foi a retração de 7,63% do preço da energia elétrica provocada pelo efeito do bônus de Itaipu. O alívio, no entanto, é temporário e deve ser devolvido em setembro.




… A energia elétrica respondeu, sozinha, por um impacto de -0,33 ponto porcentual no IPCA de agosto. Não fosse a conta de luz, a inflação teria ficado praticamente estável (+0,01% no mês), segundo cálculos de técnico do IBGE.




… Também os preços mais baratos no segmento de alimentação e bebidas (-0,34%) jogaram a favor.




… O IPCA de agosto apresentou composição melhor que a esperada nos núcleos (a média desacelerou de 0,26% para 0,23% em agosto), mas as medidas subjacentes ainda continuam resistentes (0,4%, em linha com as apostas).




… Encorajado pelas leituras de núcleo de inflação relativamente benignas no curto prazo e PIB mais fracos do que o esperado no segundo trimestre, o Barclays não descarta rever para baixo a sua previsão de 13,75% da Selic do ano.




… A Bradesco Asset reduziu a projeção de 13,75% para 13,25%, diante da atividade fraca. Mas manteve a aposta para o ano que vem em 11,75%, citando que a política fiscal e parafiscal serão relevantes para definir o ciclo.




… Em carta mensal publicada na sexta-feira, a Ativa Investimento cortou a estimativa para a Selic de 2027 de 12,25% para 10,5%, entusiasmada pela mudança do ambiente político, com esperança de vitória de Flávio Bolsonaro.




EFEITO REBOTE – O Bradesco alerta que, apesar da moderação dos núcleos, a alimentação em domicílio deve acelerar até o final do ano, incorporando os efeitos do El Niño e a retomada das exportações de carne.




… O banco mantém a projeção de que o IPCA termine 2026 em 5%, estourando o teto da meta de 4,5%. Pelo menos outros dois grandes bancos estimam inflação ao redor de 5%: Itaú Unibanco (5,1%) e Santander (4,9%).




… As instituições concordam que o choque climático do El Niño eleva as pressões e os desafios para 2027.




… O Goldman Sachs não questiona a aposta de queda da Selic na Super Quarta, mas duvida que o Copom assuma compromisso explícito com novo corte em novembro, porque o espaço para relaxar é limitado por alguns fatores.




… A inflação de serviços, observa o Goldman, segue alta e disseminada, enquanto as expectativas de inflação para 2027 continuam distantes da meta. Em paralelo, houve elevação tanto do petróleo quanto dos juros dos Treasuries.




… O Goldman Sachs também cita que o mercado de trabalho ainda não se transformou em força desinflacionária, que o hiato do produto segue positivo e que o El Niño forte pode pressionar os preços na reta final do ano.




… Para Andrés Abadia (da Pantheon Macroeconomics) o IPCA de agosto reforçou os argumentos para um novo corte de 0,25 ponto porcentual da Selic, mas não para um ritmo mais acelerado do ciclo de flexibilização monetária.




… Em sua avaliação, a inflação geral caiu ainda mais e algumas pressões subjacentes diminuíram, mas grande parte da fraqueza mensal veio de quedas temporárias nos preços da eletricidade e dos alimentos frescos.




QUEBROU O CLIMA – A alta temperatura no STF, combinada ao suspense pelo Datafolha, deixaram em segundo plano para a bolsa a boa notícia da deflação do IPCA e abriram caminho para nova correção da euforia recente.




… O Ibovespa fechou em baixa de 0,56%, aos 187.206,89 pontos, com giro fraco, de apenas R$ 17,3 bilhões.




… Atingido pela cena eleitoral, BB caiu 1,36% (R$ 22,49) e destoou do setor. Itaú PN subiu 0,9% (R$ 42,73), Bradesco PN, +0,60% (máxima de R$ 18,59), BTG unit, +0,61% (R$ 60,82) e Santander unit, +2,34%, (máxima de R$ 30,62)




… As blue chips das commodities caíram pouco se comparadas à queda firme do petróleo (-2,81%) e do minério (-1,78%). Petrobras PN recuou 0,24%, a R$ 49,00, e ON, -0,22%, a R$ 54,52. Vale fechou de lado (-0,04%; R$ 78,20).




… A maior percepção de risco para o cenário eleitoral com os novos desdobramentos da crise no Supremo levou o dólar à vista a subir para a faixa de R$ 5,12, em alta de 0,44%, cotado a R$ 5,1254 no fechamento dos negócios.




CONTRA A PAREDE – Se lá em Jackson Hole, no fim de agosto, Warsh já tinha avisado que os juros só poderiam permanecer inalterados caso a desinflação continuasse, a aceleração do CPI na sexta pressionou o Fed a ser hawkish.




… O índice de preços ao consumidor subiu de 0,1% em julho para 0,4% em agosto. O núcleo, que exclui alimentos e bebidas, avançou 0,3% na margem e superou o consenso de 0,2% dos analistas do mercado financeiro.




… A composição do indicador manteve o choque de energia no centro das preocupações. O preço da gasolina subiu 3,9% no mês e respondeu por mais de um terço do índice cheio, enquanto o grupo energia avançou 2,1%.




… A sensação de demora da inflação para retornar à meta de 2% coincidiu com uma semana de rali do petróleo e despertou uma onda de revisões por casas importantes no call do Fed para um aperto monetário esta semana.




… Citi, Goldman Sachs, JPMorgan, HSBC, RBC Capital Markets, Nomura, MUFG e Wells Fargo mudaram as suas apostas, unindo-se ao Bank of America, Barclays, Deutsche Bank e Société Générale, que já estavam conservadores.




… Com a inflação rodando acima do target, a taxa da Note de dois anos, mais sensível às decisões de política monetária, subiu a 4,627%, contra 4,565% na véspera. A de dez anos flerta com os 5%, a 4,974% (de 4,950%).




… Não tem tido sucesso a estratégia de Bessent de tentar estancar o estresse na curva dos títulos do Tesouro.




… No câmbio, a perspectiva de um BoJ mais agressivo a partir desta semana sustentou o iene a 153,73 por dólar. A libra subiu 0,14%, a US$ 1,3528, e o euro caiu 0,12%, a US$ 1,1598, com o DXY estável (+0,07%), a 99,122 pontos.




… O dirigente do BCE Gabriel Makhlouf disse que a guerra pressiona a inflação, mas que juros elevados ameaçam o crescimento e que prefere evitar compromisso prévio com uma trajetória específica para a política monetária.




… Apesar do CPI, o alívio do petróleo falou mais alto na sexta-feira para as bolsas em Nova York. O Dow Jones subiu 0,98%, a 52.573,29 pontos; S&P 500 ganhou 0,86%, a 7.656,98 pontos; e Nasdaq avançou 0,96%, a 26.333,04 pontos.




CIAS ABERTAS NO AFTER – PETROBRAS recebeu mais R$ 2,6 bilhões em subvenções à comercialização de diesel. Repasses acumulados dos programas para combustíveis chegam a R$ 9,5 bilhões.




RAÍZEN aprovou mudanças no estatuto para avançar na conversão do registro na CVM para Categoria A, incluindo autorização para emitir até 2 bilhões de novas ações ON.




HAPVIDA. BB Investimentos manteve recomendação neutra e preço-alvo de R$ 12 para a companhia, citando resultados pressionados e maior alavancagem, apesar do foco em recuperar rentabilidade.




LOJAS RENNER. Inter recomendou compra, destacando melhora dos fundamentos e expansão de margens, embora veja sensibilidade aos juros e à renda das famílias.




MARISA teve prazo da B3 para adequação do free float prorrogado até dezembro de 2027.




TOKY elegeu João Pedro Maya interinamente como conselheiro independente, em meio a questionamentos de minoritários sobre a composição e atuação do conselho.




CEMIG elegeu Marco Aurélio Martins da Costa Vasconcelos como presidente da companhia. Alexandre Ramos Peixoto assumiu a presidência do conselho.




RENOVA ENERGIA teve prazo da B3 para adequação do free float prorrogado até dezembro de 2027.




SLC AGRÍCOLA aprovou emissão de R$ 515,5 milhões em CPR-F, com prazo de sete anos e swap para dólar. Recursos serão destinados às atividades do agronegócio.




DESKTOP. Superintendência-geral do Cade aprovou sem restrições a compra de 73% da companhia pela Claro, operação de R$ 4 bilhões que já havia recebido anuência da Anatel.




CAIXA. Bancários rejeitaram proposta final para renovação do acordo coletivo e mantiveram greve nacional por tempo indeterminado, iniciada na quinta-feira.




ANTHROPIC espera registrar lucro operacional ajustado pelo segundo trimestre consecutivo antes de seu planejado IPO, segundo o Financial Times. Margens brutas estão acima de 80%.

Bankinter Matinal Portugal

Análise Bankinter Portuga


NY +0,9% US tech +0,9% US Semis +1,8% UE +0,9% Espanha +0,9% VIX 15,8% Bund 3,51%. T-Note 4,96%. Spread 2A-10A USA=+35pb B10A: ESP 3,96% PT 3,86% ITA 4,35% FRA 4,45% Euribor 12m 3,160% (futuro 12m 3,795%) USD 1,156 JPY 178,1/€ 154,1/$. Ouro 4.331$. Brent 106,9$. WTI 102,3$. Bitcoin +0,8% (77.816$). Ether +2,4% (2.523$).



:: SESSÃO. Aspeto muito fraco, embora não de quedas fortes (-0,5% bolsas e -1%/-2% tecnologia?). Dúvidas sobre o ritmo de desenvolvimento da IA e OpenAI adia a sua saída à bolsa. Petróleo claramente acima dos 100 $ perante novas tensões no Irão. Na Ucrânia, também pior após a Rússia bombardear um comboio que liga a Polónia e a Rússia, numa via onde minutos antes tinha passado outro comboio com vários dirigentes europeus. Incerteza e tensão prévias às reuniões da Fed (quarta-feira), BoE (quinta-feira) e BoJ (sexta-feira).


OpenAI adia a sua saída à bolsa para 2027 e surge indefinição em relação aos limites éticos do ritmo de desenvolvimento da IA (Altman, Amodei e Musk pedem cautela e supervisão no seu desenvolvimento… mas Trump afirma que não se pode abrandar ou a China passará para primeiro lugar), portanto, também o ritmo dos investimentos em IA será revisto e torna-se uma incógnita. Isto afetará negativamente hoje a tecnologia/semis.


Aumenta o risco geoestratégico, tanto no Irão como na Ucrânia. O petróleo claramente acima dos 100 $/barril, portanto, entre num intervalo de preços que cria dificuldades para as bolsas e aumenta o risco de inflação, colocando os bancos centrais mais nervosos. Ataques dos huthies (Iémen) contra a Arábia Saudita (encerramento de um importante oleoduto alternativo para Ormuz para as suas exportações, por onde passavam 4M b/d), que também assumiram posições estratégicas para controlar o Estreito de Bab Bab el-Mandeb, que é o acesso ao Mar Vermelho. Um navio (provavelmente de carga, não petroleiro) foi seriamente danificado por um ataque em Ormuz, provavelmente pelos EUA. Foi cancelada uma reunião em Omã entre os estados do Golfo para, hipoteticamente, chegar a algum acordo sobre Ormuz.


As yields das obrigações a longo prazo continuaram a elevar-se, de modo que estão já praticamente nos níveis-fronteira que temos vindo a estimar que alcançariam e onde consideramos provável que se detenham, não sem antes os ultrapassarem um pouco de forma temporária: EUA O30A 5,359% (estimamos que chegará a 5,50%); T-Note 4,962% (ídem 5,00%); Bund 3,508% (estimávamos 3,50%, portanto, já o alcançou); ESP O10A 3,963% (estimamos que chegará a 4,00%, com a sua equivalente portuguesa um pouco abaixo desse nível).


Os 3 bancos centrais que se reúnem esta semana não ajudarão o tom da sessão: quarta-feira, Fed, que poderá subir +25 p.b. até 3,75/4,00, mas não é certo; quinta-feira, BoE, que repetirá em 3,75%, exceto surpresas; sexta-feira, BoJ, que subirá +25 p.b. até 1,25%.


VÁRIOS: Bolsas asiáticas muito fracas esta madrugada, com Coreia -3,3% ao estar extremamente exposta a tech. Suécia: vitória preliminar (resultados definitivos na quarta-feira) de centro-esquerda com 176 deputados sobre 349 vs. 173 atual coligação governante.


:: CONCLUSÃO. Temos petróleo caro, entrando em níveis prejudiciais para as bolsas, tecnologia submetida a incerteza, yields superiores das obrigações a longo prazo e 3 bancos centrais esta semana, dos quais o Japão certamente irá subir as taxas de juros e os EUA veremos, porque não é impossível. Com isso, as bolsas deverão bloquear-se e ficar tensamente pendentes das yields das obrigações e de qualquer declaração de qualquer banco central (BCE, especialmente) em relação ao risco de inflação. Nada disso é bom. Provavelmente retrocessos de aprox. -0,5% e -1%/-2% tech.


FIM

domingo, 13 de setembro de 2026

Elio Gaspari



NA CRISE DO STF, SÃO DEZ ESCORPIÕES NUM GARRAFA

Isolados atritos de choques de ego e surtos de onipotência, sobra pouco

Supremo atravessou ditaduras sem maiores crises e, em 2026, meteu-se na maior encalacrada de sua história




O juiz Oliver Wendell Holmes Jr. (1841-1935) foi um dos juízes mais influentes e longevos da Corte Suprema dos Estados Unidos. Com 30 anos de experiência, ele descreveu o tribunal: "São nove escorpiões numa garrafa". Isso na corte americana. Na brasileira, são 11. (Na crise de hoje, são dez, porque uma cadeira está vazia.)




O Supremo atravessou ditaduras sem maiores crises e, em 2026, meteu-se na maior encalacrada de sua história. Se pudessem ser isolados os atritos produzidos por choques de egos ou surtos de onipotência, sobraria muito pouco da crise. Não há um fiapo de política pública separando Alexandre de Moraes e André Mendonça. Moraes até hoje não explicou sua relação com o então banqueiro Daniel Vorcaro, e Mendonça já chamou Jair Bolsonaro (que o indicou para o STF) de "profeta".




Para se ter uma ideia do ritual monárquico que enfeita o cotidiano das excelências, os ministros são servidos por funcionários denominados "capinhas", que têm, entre outras funções, a de puxar a cadeira para que eles se sentem ou se levantem. (Um ministro explicou que esse serviço é necessário porque a toga enrosca nas rodinhas da cadeira. Vá lá.)




Indo-se ao histórico dos quatro personagens da crise —Dias Toffoli, Alexandre de Moraes, Flávio Dino e André Mendonça—, vê-se que Toffoli e Moraes entraram no processo do Banco Master preocupados em apagar as luzes da sala. Toffoli sabia que a turma do Master havia comprado parte do resort Tayayá Aquaparque. Destemido, aceitou a relatoria do caso, colocou-o sob sigilo e blindou-o. Deu no que deu.




Moraes sabia o tamanho do ervanário recebido do Master pelo escritório de advocacia de sua mulher. Ainda assim, permitia que Vorcaro lhe pedisse conselhos. Novamente, deu no que deu.




Os ministros tinham motivos para suspeitar que seus desassombros custariam caro às suas biografias e tisnariam a imagem do tribunal. Nenhum deles precisava se expor. Expuseram-se porque se julgaram invulneráveis. Enganaram-se e levaram seus colegas junto.




CARMEN LUCIA CANTOU A PEDRA

Se os ministros do Supremo tivessem juízo, eles teriam ouvido a ministra Cármen Lúcia na sessão do dia 12 de fevereiro, quando ela disse: "Todo taxista que eu pego fala mal do Supremo. A população está contra o Supremo".




Não eram só os taxistas. Diante de revelações da Polícia Federal em torno da venda de parte do resort Tayayá, o STF deu-se ao ridículo. Solidarizou-se com Toffoli, condenou as revelações e, discretamente, sugeriu que deixasse a relatoria, o que ele fez.




Em uma fala que deverá entrar para a história do Supremo, Dino falou do documento da ligação da Polícia Federal dos familiares de Toffoli com o resort Tayayá: "Essas 200 páginas [de relatório da PF] para mim são um lixo jurídico. Não adianta discutir esse lixo jurídico".




AS CAMAS DO MASTER




Foram expostas à exaustão as festas e farofas de Daniel Vorcaro. No meio desses ágapes, degustavam-se uísques e charutos. Só?




Mensagens já conhecidas apontam para a existência de uma traficância de favores sexuais semelhante, em ponto menor, ao do americano Jeffrey Epstein. Vorcaro era servido pelo promotor de eventos, Diogo Batista, conhecido como "o concierge dos VIPs".




Em 2022, num passeio pela França, o banqueiro gastou R$ 11,2 milhões. Meses depois, o banqueiro patrocinou uma festa indígena na praia de Trancoso, enfeitada por convidadas estrangeiras, inclusive russas e ucranianas. No ano seguinte, o Master foi um dos patrocinadores da equipe de Fórmula 1 da Aston Martin e da sua festa para 190 convidados e consumo de 180 garrafas de bebidas. Novamente, foram trazidas convidadas do Leste Europeu.




Em 2024, Vorcaro desentendeu-se com Diogo Batista e foi parcialmente substituído por Karolina Trainotti.




Vorcaro também foi assessorado por Stheve Lopes, sócio de Batista. As repórteres Joana Cunha e Júlia Moura mostraram que ele recrutava convidadas e submetia fotografias a Vorcaro, que as avaliava nas categorias "wow", "loirinha top" ou de "+ -".




Em junho de 2024, Lopes ajudou Vorcaro com eventos simultâneos à 12ª edição do Fórum Jurídico de Lisboa, conhecido como Gilmarpalooza. O roteiro que Vorcaro bancou em Portugal ficou em US$ 1,6 milhão (mais de R$ 8,1 milhões na cotação de hoje).




Em agosto de 2025, Vorcaro e sua ex-noiva, Martha Graeff, trataram das festas e ela reclamou porque Vorcaro mantinha contato na rede social com mulheres que ela considerava "putas".




"Fazia parte do meu 'business'. Nunca te escondi o que fiz e por que fiz. Fiz festa com 300 desse tipo", respondeu o ex-banqueiro nas mensagens extraídas de seu celular pela PF.




Falta saber qual era o "business" dos convidados de Vorcaro.




PROMESSAS AMAZÔNICAS




Lula entra na reta final da campanha azucrinado por más notícias. Há algo de desigual nessa má sorte. Afinal, noves fora as traficâncias de alguns ministros do Supremo, que são encrencas pessoais, nada há no seu passivo que se compare ao ervanário que circulou em torno do filme "Dark Horse", uma biografia apologética de Jair Bolsonaro.




Habituada ao salto, sua equipe achou razoável criar quatro unidades de preservação ambiental no Amazonas.




Tudo bem, mas cadê a Autoridade Ambiental, prometida durante a campanha eleitoral? Em janeiro de 2023, a ministra Marina Silva, do Meio Ambiente, prometeu: "Até março deste ano, será formalizada a criação da Autoridade Nacional de Segurança Climática, no âmbito do Ministério do Meio Ambiente, além da criação de um conselho sobre mudança do clima, a ser comandado pelo próprio presidente da República, e com a participação de todos os ministérios que estão agora nesta Esplanada, da sociedade civil, dos estados e municípios".




Veio março e nada. Em setembro de 2024, em Manaus, Lula prometeu a criação da Autoridade Climática. Nada, nem explicação.




Mulheres no STF

Com o Supremo atolado na crise, importa registrar que, em 218 anos de existência, o Supremo Tribunal Federal só teve três mulheres: Ellen Gracie, nomeada em 2000 por Fernando Henrique Cardoso, Cármen Lúcia, nomeada por Lula 1.0, e Rosa Weber, nomeada por Dilma Rousseff.




Nenhuma das três envolveu-se em farofas ou episódios nebulosos.




El Presidente

Se um candidato a presidente latino-americano oferecesse US$ 5.000 (cerca de R$ 25.100) a cada adulto caso o seu partido vença a eleição, a promessa seria associada à irresponsabilidade fiscal dos latinos.




Pelo andar da carruagem, Trump poderá perder a maioria na Câmara. Até aí nada de novo, porque, em geral, os presidentes perdem as eleições do meio do mandato.




A novidade é a promessa.

Fernando Schuller

 “Se o indivíduo tivesse convicção de sua inocência, não teria motivo para eliminar registros que poderiam confirmar sua versão dos fatos”.

(Ministro Alexandre de Moraes, ao condenar a 'Débora do batom' a 14 anos de prisão por pixar a estátua; o mesmo ministro que usava mensagens de visualização única ao conversar com Vorcaro)


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O dia 'd' da democracia brasileira

Fernando Schüler, no Estadão de 13/09/2026


“Apagar dados do celular indica consciência sobre a ilegalidade dos atos praticados”, escreveu o ministro Alexandre de Moraes, em um dos argumentos para condenar a cabeleireira Débora dos Santos a 14 anos de prisão. E explicou: “se o indivíduo tivesse convicção de sua inocência, não teria motivo para eliminar registros que poderiam confirmar sua versão dos fatos”. O Brasil é um país curioso. Agora é uma conta com o nome do ministro, vejam só, que aparece com o modo de visualização única, feito para apagar conteúdo, interagindo com as 52 mensagens de Vorcaro, logo antes de sua prisão. E aqui estamos, em um drama nacional para ver se alguma coisa, afinal de contas, será investigada.


Não acho que isto incomode muita gente. Débora é uma brasileira comum. E é do “outro lado”. Ficou cerca de dois anos presa, por uma cautelar do próprio ministro, distante dos filhos de 6 e 10 anos, pelo rabisco com o batom naquela estátua. Seu caso é similar ao de Alcides Hahn, o “colono” de Corupá, no interior de Santa Catarina, também condenado a 14 anos, dessa vez sem ir a Brasília, pelo Pix de R$ 500. Nos anos recentes, escrevi muito sobre estas histórias. A pior talvez seja a do Clezão, morto como um zé-ninguém em um presídio de Brasília, depois de meses sem que o ministro se desse o trabalho de despachar um pedido de liberdade, “sob risco de morte”, para tratar da saúde.


São histórias difíceis e quase infinitas. Elas não tratam apenas de um longo rastro de abuso de poder. De pessoas comuns “julgadas” diretamente pelo Supremo, sem os direitos mais elementares ao juiz natural, instância devida e graus de recurso. Tratam do “use a sua criatividade” para atingir alvos pré-definidos; da censura aos empresários, por nada, em um grupo de WhatsApp; de um sujeito, o Filipe Martins, preso por meses por uma “fuga” do País que jamais existiu.


Elas contam uma história de brutal assimetria na cidadania brasileira. Algo que sempre me faz lembrar do dualismo moral descrito por Roberto DaMatta em seu “Você sabe com quem está falando?”. Da ideia de que somos uma sociedade em que, no papel e na retórica, somos todos iguais. Todos “indivíduos” sujeitos a um regramento abstrato e imparcial. Mas que, no mundo real, nas hierarquias, no estamento e nas sombras do poder, somos “pessoas” com status pateticamente distintos.


Para uns, apagar mensagens ou fazer um Pix de 500 reais pode ser crime de lesa-pátria, sujeito a 14 anos de prisão; para outros, o contrato de uma centena de milhões e a suspeita de trabalhar para um banqueiro fraudador sequer parecem razão suficiente para que a República autorize uma investigação. Para uns, a exceção jurídica; para outros, um tipo de supergarantismo, autoconfiante e feito da ausência de limites.


No fundo, é disso que se trata a sessão do STF, nesta terça-feira, dia 15. Não é apenas uma reunião difícil para autorizar ou não uma investigação. É o exame de uma tradição. Para saber se somos mesmo o país do “estamento”, onde a lei funciona primeiro perguntando “com quem você está falando”, ou se ainda temos alguma esperança de sermos uma república de iguais. Confesso meu desânimo com tudo isso. Mas posso estar enganado, e logo ali adiante teremos a resposta.

sábado, 12 de setembro de 2026

Semana pesada

PAPO DE ECONOMISTA

Foi uma semana pesada. Vamos a ela….


1) No front externo, continuamos acompanhando as “escaramuças” entre EUA e Irã no contencioso para desbloquear o ESTREITO DE ORMUZ.


2) Tenho comentado sobre isso. Trump optou por ataques cirúrgicos em Teerã, para desestabilizar o regime dos aiatolás, ataques aéreos, mas evitou invadir por terra, pelo desgaste político que isso poderia trazer. Problema político pois não possuem maioria folgada no Congresso.


3) Acabou como um “salto no escuro”, pois o regime da Guarda Revolucionária, a teocracia iraniana, continua na superfície. Continua respondendo aos ataques.


4) É por aqui, no Brasil, no entanto, que a situação continua “complexa”. AM, ministro do STF, divulgou um extenso relatório da PF com informações mais do que bombásticas sobre AM. Praticamente o condenou ao limbo.
Jhn031299@gmail.com 

5) Só para não perder o “fio da meada”. Dentre os “pequenos delitos”, no mais incrível, a discussão sobre um contrato de “módicos” 133 milhões reais (!), entre M, o escritório da mulher e DV. O “preço” da coisa toda? Proteger o playboy banqueiro. Pode isso Arnaldo? Um ministro do STF atuando como advogado e consultor para um encrencado banqueiro? Proteção do que?


6) Ainda temos cartão de 300 mil reais para os “pobres” filhos do ministro, um learjet à disposição, convites diversos para festas em Londres. Conflitos de interesse, corrupção pesada ou desvio de finalidade? Vocês escolhem. Mas quem se importa?


7) Alguma coisa precisa ser feita. Em vez de sumariamente preso, afastado da função, acontece agora no dia 15 uma votação, esperamos aberta, em plenário do STF.


8) Alguém tem dúvida, dada a evolução dos acontecimentos, que acabaríamos caindo nesse esgoto?


9) E as nossas “ciosas” mídias, muitos veículos bancados pelos órgãos oficiais de governo, indo atrás das fontes de financiamento da porcaria do filme do Bolsonaro, “Dark Horses”. Tudo é relativo! Não é mesmo?


10) Velha tese de parte desta oportunista e preguiçosa imprensa: se todos roubam…


Pano rápido.

Lavagem de toga suja

Lavação de toga suja


Na próxima terça, só há um programa: ver o STF revelando, ao vivo, quem combate e quem acoberta a corrupção.


Eugênio Esber para a Oeste:


Não marque nada para este 15 de setembro. É o dia em que o país viverá uma superterça de suspense e, se tudo correr bem, de enorme depuração. Depois de todas as hesitações e manobras protelatórias bem próprias de sua personalidade, o presidente do STF, Edson Fachin, finalmente convocou uma sessão plenária em que a Corte terá de decidir se autoriza a abertura de investigação contra um de seus mais poderosos ministros. Os indícios de crimes que pesam contra Alexandre de Moraes são gravíssimos, mas nada têm de novidade — arrastam-se desde o início do ano nas conversas de botequim e padaria, nos fóruns, nas rodas de cafezinho das empresas, nas redações e nas missas. Se Moraes sobreviveu até aqui no cargo e seguiu perseguindo e encarcerando vítimas dos atos do 8 de janeiro sob aplausos e bajulações de escolas de Direito como a da USP, é porque tem conexões profundas com o estamento oligárquico que lhe deu poderes extraordinários a partir de 2019. A grande notícia, porém, é que pela primeira vez, nestes sete anos, estará na condição de acusado, frente a seus próprios pares e sob os olhos da nação. O dia tão esperado chegou, e é nesta terça-feira.




Não será um parto indolor, a se considerar tudo o que aconteceu nestes nove meses de gestação da mais séria crise moral enfrentada pela, entre muitas aspas, “Nova República”.




Foi em dezembro de 2025 que o jornal O Globo publicou uma notícia-bomba sobre o contrato de R$ 129 milhões (na verdade, R$ 131 milhões) que o escritório jurídico da família de Moraes faturou para defender os interesses de Daniel Vorcaro, banqueiro que havia sido preso em novembro, quando se preparava para fugir do Brasil em seu jatinho particular.




Desde então, Moraes não deu uma única entrevista nem fez pronunciamento público para desfazer a informação de que enriqueceu colocando sua toga de ministro da Suprema Corte a serviço do financista que aplicou o maior desfalque no sistema financeiro nacional e na poupança de uma multidão de brasileiros. O silêncio de Moraes é uma gritante confissão de culpa. E a inação de Fachin, uma evidente admissão de tibieza.




O pedido para investigar Moraes parte de seu colega André Mendonça, relator do processo relativo ao escândalo da quebra do Banco Master no Supremo Tribunal Federal. A base é um relatório preparado pela Polícia Federal sobre a surpreendente e dócil subordinação de Alexandre de Moraes aos interesses de um banqueiro em apuros para fugir da aplicação da lei. Diálogos encontrados no telefone de Daniel Vorcaro indicam que ele contava com a assessoria de Moraes para ter acesso a informações sigilosas sobre diligências contra si e seu Banco Master que estavam em curso no Banco Central, na Polícia Federal, no Ministério Público e até no Judiciário. E o pior dos mundos: Vorcaro pediu orientação sobre quando deveria se mandar — sim, fugir — do Brasil. Isso tem nome. É obstrução da justiça.




Se a investigação for autorizada e Moraes sofrer uma quebra de sigilo telefônico, talvez a Polícia Federal consiga recuperar mensagens de visualização única que ele enviou a Vorcaro e então decifrar que papel o ministro desempenhava diante de missões comprometedoras que recebia do banqueiro. Por exemplo, quando Vorcaro perguntava a Moraes se ele conseguiria acionar Paulo Gonet, procurador-geral da República, Andrei Rodrigues, diretor-geral da Polícia Federal, ou Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central, para evitar o que chamava de “maldades” e “sacanagens” contra seu banco.




E aqui chegamos a alguns aspectos de puro nonsense da sessão plenária que selará o destino de Moraes, na terça-feira, 15. É que lá estará o procurador-geral da República, citado em contextos embaraçosos no mesmo relatório da Polícia Federal que fulmina Moraes. E Gonet, em decisão muito criticada por seus pares do Ministério Público, não se declarou impedido neste caso e emitiu parecer — contrário, claro — ao uso do relatório da PF para embasar a abertura de investigação.




Portanto, Moraes está enredado na mesma teia de relações promíscuas de Paulo Gonet e Andrei Rodrigues, como abordei no artigo da semana passada, “O conluio do uísque”.




O clima pode pesar ainda mais na sessão se, além de Gonet, estiver presente o próprio Alexandre de Moraes, pivô do caso que, nas palavras do jornal espanhol El País, é uma “bomba atômica”. O temperamento explosivo e afrontoso de Moraes não permite duvidar de que ele queira encarar os colegas julgadores ou, até mesmo, votar. Especialmente se Dias Toffoli, outro ministro enrolado na rede de negócios de Daniel Vorcaro, resolver deixar de lado a decisão de abster-se de votações que envolvem o caso Master e desejar tomar parte na sessão plenária. Se a confusão se estabelecer, o grito de “ordem no tribunal” terá de vir de Fachin, o presidente de voz sussurrante e mania de conciliação.




Fachin é, hoje, um homem acuado, dentro e fora do tribunal. Sabe que o STF terá de entregar a cabeça de Moraes se quiser restituir parte de sua imagem pública, ou o que resta dela após meses de desmoralização. Mas suas omissões e relutâncias criaram internamente um vácuo de autoridade que estimulou os baixos instintos de um trio guloso de poder – Gilmar Mendes, decano da Corte e caudilho das maquinações políticas; Alexandre de Moraes, perseguidor-geral da República saído do mesmo ninho tucano de Gilmar; e Flávio Dino, um político de toga com vaidade e ambição suficientes para almejar a Presidência da República como herdeiro do lulopetismo.




Os três estão unidos e mostrando os dentes para Fachin, a quem chamam de “Frachin” desde que o presidente do STF apareceu com a ideia de enquadrar os ministros em um Código de Ética, e assim reduzir a crítica externa que se avolumou por causa dos negócios de Toffoli e Moraes. A ideia é tão inócua quanto tratar tumor com band-aid, mas Fachin delegou à ministra Cármen Lúcia a tarefa de apresentar o tal código, e tudo ficou por isso mesmo. O melhor código que Cármen pode redigir, se estiver mesmo preocupada com ética, começa por lançar um voto favorável à abertura de investigação de Moraes na sessão da próxima terça-feira.




Mendonça, autor do pedido de investigação, precisará de mais quatro votos para obter maioria dentre os oito julgadores aptos, já que Moraes e Toffoli, por razões óbvias, devem ser impedidos de votar. Por enquanto, seu bloco de apoio, formado apenas por Luiz Fux e Nunes Marques, é insuficiente para contrastar a monolítica coesão de Gilmar e Dino e seu poder de influência sobre o ministro Cristiano Zanin, ex-advogado de Lula. O fiel da balança será mesmo Cármem Lúcia, eis que Fachin, como presidente, provavelmente se eximirá de votar.




Estou otimista. Moraes, que perdeu boa parte de seu poder ao ser retirado, por Fachin, da relatoria do Inquérito das Fake News (4.781), deve se tornar formalmente investigado a partir de terça-feira que vem, se nenhum cambalacho acontecer de última hora – pedido de vista de Gilmar ou Dino, por exemplo. Ou algum acordo de acomodação – e, neste campo, tudo, absolutamente tudo, pode acontecer. Até o absurdo de manter Moraes na Corte enquanto é investigado.




Fachin não pode ser “Frachin”. Não agora. Do contrário, as ruas vão rugir. Moraes, se permanecer vestindo toga, será o próximo presidente do STF daqui a um ano. Inaceitável.




Imagem 2 - O presidente do STF, Edson Fachin, convocou sessão plenária em que a Corte terá de decidir se autoriza a investigação contra um de seus mais poderosos ministros | Foto: Gustavo Moreno/STF




Imagem 3 - Moraes não se pronunciou publicamente para rebater a acusação de que teria colocado sua atuação no STF a serviço de Vorcaro | Foto:

Marcelo Camargo/Agência Brasil


Imagem 4 - Mendonça precisará de mais quatro votos para obter maioria entre os oito julgadores aptos, com Moraes e Toffoli impedidos de votar | Foto: Reuters/Adriano Machado

OESP e Alexandre Shwartzman

Minha opinião O artigo de opinião do Estadão de hoje, domingo, 13/09/2026, a dois dias da sessão que definirá não o destino de Xandão mas s...