quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Jairo Jose da Silva

 Quando eu cheguei a Berkeley em setembro de 1980, dias antes do início do trimestre de outono, quando começa o ano letivo, para fazer meu doutorado em matemática, eu chegava a um mundo completamente diferente do atual. Não havia computadores pessoais, internet, telefone celular, impressoras a laser, e-mail, CD’s, redes sociais. Escrevíamos cartas com papel e caneta e as colocávamos no correio em envelopes selados - levava dias até elas chegarem a seus destinos. Usávamos máquinas de escrever com tipos que às vezes acavalavam e travavam, com fita de tinta que manchava os dedos. Fazíamos cópias em máquinas xerox a álcool. Para ler trabalhos científicos precisávamos consultar revistas impressas em bibliotecas e se elas não tinham o artigo que queríamos, tínhamos que solicita-lo a outras bibliotecas que nos enviavam cópias xerox por correio. Levava dias, semanas, meses.


Um dia, em Berkeley, meu colega Ruy Exel e eu estávamos comentando como os discos em vinil, que reproduzem música de modo analógico, eram primitivos. Mas era o que tínhamos. Dias, literalmente dias depois, apareceram no mercado os primeiros CD’s, que utilizavam tecnologia digital. Meu primeiro foi uma gravação do Réquiem alemão de Brahms, comprado em Berkeley mesmo. Hoje, tenho uma cd-teca com mais de 2.000 discos, sentados em minha biblioteca como fósseis pré-históricos, pois em 40 e poucos anos a tecnologia se tornou obsoleta. Assim como bibliotecas. Hoje, não possuímos mais nada, livros ou discos, tudo está disponível sob aluguel em “nuvens” digitais públicas. O que antes tomava dias ou semanas de espera pode ser obtido hoje em milissegundos. Pode-se consultar qualquer revista científica on-line, pode-se baixar legal ou ilegalmente qualquer livro já publicado. O acesso ao conhecimento foi completamente democratizado. Pode-se visitar qualquer museu ou cidade no mundo digitalmente. Pode-se ouvir um concerto do outro lado do mundo em tempo real.


Antes, se um amigo se mudava e o novo endereço nos era desconhecido, esse amigo estava perdido. Hoje, localizamos em segundos o paradeiro de praticamente qualquer ser humano. Hoje, todos nós deixamos inúmeros traços digitais nos campos quânticos que nos envolvem. No meu tempo de estudante, se queríamos encontrar parceiros(as) sexuais, tínhamos que busca-los(las) no mundo real. Hoje, basta uma busca rápida em supermercados de carne conhecidos por aplicativos de paquera. Toda essa mudança, de vida, de valores, de hábitos, levou pouco mais de uma ou duas décadas.

E tudo por causa de uma única invenção: a comunicação digital.


Pois estamos no começo de uma revolução ainda mais formidável, o advento da inteligência artificial. Em muito menos tempo, esse mundo que conhecemos ruirá, espetacularmente, e um “admirável mundo novo” emergirá. E assim como não tínhamos em 1980 a menor ideia de como seria o mundo em 2026, não conseguimos imaginar como ele será em 2040.

Os que, por medo, buscam limitar o uso ou o desenvolvimento da I.A. são tolos românticos. Ela será desenvolvida e utilizada em toda a sua capacidade.

Mudará o mundo do trabalho, radicalmente. Mudará o modo de fazer ciência, espetacularmente. Mudarão a sociedade e as relações humanas. Mudarão a política e a moral. E não há nada que podemos fazer para impedir essas mudanças. São inevitáveis. Precisamos, contrariamente, estar preparados para elas.

Mas como?


Precisamos, por exemplo, e urgentemente, mudar o modo como ensinamos e as escolas onde ensinamos. Infelizmente, não é o que se vê. As universidades, onde esse debate já deveria ter começado, estão com as cabeças enterradas na areia como avestruzes. Cursos serão inevitavelmente extintos, toda a estrutura acadêmica e seus recursos serão alterados e redimensionados. Perspectivas laborais terão que ser reavaliadas. Não há escapatória e é melhor prever que remediar.


Ouvi ontem um debate no IMPA (Instituto de Matemática Pura e Aplicada) sobre o futuro da matemática com a I.A., que hoje já opera como matemático profissional, resolvendo problemas abertos importantes. Alguns são otimistas e acham que a disciplina irá se adaptar, desde que matemáticos humanos busquem atuar de modo mais criativo, deixando para as máquinas a parte mais computacional e meramente prospectiva da atividade matemática (por isso quero dizer a atividade de busca de padrões e relações formais que podem levar a soluções de problemas, atividade em que a I.A. é muito boa principalmente devido à velocidade em que opera). A I.A. ainda não inventa teorias novas. Ainda. Mas até quando? E quando ela estiver à vontade também nessa área, o que restará aos humanos na matemática?


Como irá a medicina se adaptar à capacidade da I.A. ler e interpretar exames e propor tratamentos? Como poderá um médico com sua limitada experiência pessoal e limitado conhecimento competir com uma máquina capaz de acessar em segundos a história médica de toda a humanidade e toda a literatura médica já publicada?

Eu já faço exercícios na academia orientado por I.A. a partir das informações que lhe forneço. Eu não vou a médico antes de consultar a I.A. contando-lhe meus sintomas e minha história médica. Ela me oferece possíveis diagnósticos e me diz o que perguntar a ele(a).

Eu peço orientações de leitura  e bibliografias à I.A. Eu até já pedi que ela me comparasse em termos de produtividade e relevância acadêmicas a meus colegas. Em milissegundos ele fuçou minha vida acadêmica e descobriu coisas sobre mim que até eu não sabia, citações em todas as bases de dados disponíveis, resenhas dos meus livros, exemplares já vendidos deles, até a originalidade relativa do meu trabalho - (Jairo José da Silva has a strong, internationally established scholarly profile in philosophy of mathematics and phenomenology, with a citation record that is unusually substantial for a Brazilian philosopher working in this specialized intersection - informo que, comparativamente, meus colegas brasileiros não ficaram tão bem na foto rsrs.


Tudo isso é só o começo. Estamos entrando em uma nova era e passou da hora da discussão começar sobre o que fazer.

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