Andrei C. Sposito, professor da Faculdade de Ciências Médicas da UnicampHá uma percepção sobre a docência que talvez somente o tempo seja capaz de ensinar. No início da vida acadêmica, tendemos a medir nosso trabalho pela escala imediata: a aula ministrada, a disciplina concluída, o aluno orientado, o artigo publicado, o projeto realizado. São referências necessárias e, durante muitos anos, parecem constituir a medida natural da atividade universitária. Mais tarde, entretanto, a perspectiva se amplia. Começamos a perceber que os resultados mais importantes do que fazemos talvez não pertençam ao nosso tempo.
A verdadeira unidade temporal da docência não é o semestre, nem o curso. É a geração.
O professor trabalha no presente com pessoas que atuarão em um futuro que ele conhece apenas parcialmente. Forma médicos que cuidarão de milhares de pacientes, pesquisadores que formularão perguntas ainda inexistentes, professores que ensinarão estudantes que provavelmente jamais conheceremos. Nesse sentido, ensinar é participar de uma cadeia intergeracional que nos antecede e continuará depois de nós. Recebemos de nossos mestres um patrimônio intelectual e humano, acrescentamos a ele aquilo que conseguimos construir e o confiamos à geração seguinte. Essa perspectiva confere à docência uma dimensão muito maior que a transmissão do conhecimento.
Talvez por isso, à medida que os anos passam, também mude nossa compreensão sobre o que significa ser professor. O conteúdo permanece indispensável, assim como o rigor científico e a competência técnica. Mas percebemos progressivamente que parte substancial daquilo que deixamos em nossos discípulos não pode ser registrada em um currículo.
É o que poderia ser chamado de legado invisível.
Ele está certamente na forma como um antigo aluno conduz uma pesquisa, trata um paciente ou orienta uma nova geração. Mas acredito que exista nele outra dimensão, igualmente importante: a construção de um espaço de confiança. O verdadeiro mestre pode tornar-se, ao longo da vida de seus discípulos, uma espécie de porto seguro intelectual e afetivo – alguém a quem se pode retornar para discutir uma dúvida, compartilhar um fracasso, confrontar uma ideia ou simplesmente reencontrar a segurança necessária para seguir adiante.
Esse porto seguro, entretanto, não deve aprisionar. Sua finalidade é justamente permitir a partida.
Talvez esteja aí um dos maiores desafios da formação acadêmica: construir confiança sem produzir dependência; oferecer acolhimento sem reduzir a exigência; conceder autonomia sem abdicar da responsabilidade. Confiança, autonomia e a capacidade de responder pelas próprias escolhas e decisões precisam amadurecer juntas. A confiança não diminui a exigência; ela lhe dá sentido. O mestre não forma seguidores. Forma pessoas capazes de pensar por si mesmas e, idealmente, de ir além dele.
Essa relação torna-se particularmente importante diante do erro.
Na universidade, aprendemos certamente com os acertos, mas talvez sejamos formados ainda mais profundamente pela maneira como nossos mestres lidam com os erros – inclusive com os próprios. A ciência é construída por hipóteses que fracassam, experimentos que não confirmam nossas expectativas, interpretações que precisam ser revistas e caminhos que terminam onde não imaginávamos. O insucesso científico e técnico não constitui uma anormalidade da vida acadêmica. É parte dela.
Um ambiente no qual o erro possa ser reconhecido, discutido e corrigido sem humilhação, mas também sem complacência, é essencial para a formação científica. O estudante precisa aprender que reconhecer um erro não diminui sua dignidade e que modificar uma conclusão diante de novas evidências não representa fraqueza, mas maturidade intelectual. Talvez essa seja também uma das proteções mais importantes contra a fraude e as más práticas científicas: construir uma cultura na qual não seja necessário esconder o fracasso para preservar a própria identidade acadêmica.
Por isso, acima de hierarquias, disciplinas, departamentos ou gerações, a verdade precisa ser o elo de união da comunidade universitária.
Não a verdade como propriedade de alguém ou como coleção de certezas definitivas. Ao contrário, a verdade como compromisso comum de procurá-la; como disposição para submeter nossas convicções à evidência, ao contraditório e à possibilidade de revisão. A Universidade descrita nestas páginas não existe porque detém a verdade, mas porque preserva as condições para continuar buscando-a. Sua grandeza está também em ensinar cada geração a formular perguntas melhores.
E talvez poucas tarefas intelectuais sejam tão prazerosas quanto gerar uma boa pergunta.
O ambiente universitário alcança uma de suas expressões mais ricas quando a segurança para pensar permite que a curiosidade floresça. Quando não precisamos gastar nossa energia protegendo posições, ocultando dúvidas ou evitando o erro, podemos utilizá-la para aquilo que verdadeiramente impulsiona a vida intelectual: descobrir novos horizontes, construir novas leituras sobre o mundo sob nossos pés e formular perguntas que antes não sabíamos fazer. O diálogo entre inteligências livres, no rigor e humildade intelectual, é fundamental para que o conhecimento amadureça.
Com o passar dos anos, essa experiência também modifica a maneira como avaliamos nossa própria trajetória.
Publicações, descobertas, títulos e reconhecimento acadêmico importam. Representam parte objetiva daquilo que construímos. Mas gradualmente dividem espaço com outra medida, menos quantificável: aquilo que aconteceu com as pessoas que ajudamos a formar.
O sucesso de um discípulo passa a produzir uma satisfação diferente daquela proporcionada pelo sucesso individual. O afeto acumulado ao longo de décadas adquire um significado que dificilmente poderia ser antecipado no início da carreira. E começamos a compreender que uma parte essencial da nossa produção acadêmica jamais estará registrada em qualquer base bibliométrica. Estará incorporada à maneira como outras pessoas pensam, trabalham, ensinam e se relacionam.
Há nisso uma forma peculiar de permanência.
Não se trata da pretensão de ser lembrado. Talvez seja algo mais interessante: continuar participando da tarefa de pensar quando outros já estiverem pensando sem nós. Uma pergunta que ensinamos alguém a fazer pode gerar outra pergunta; uma atitude diante da dúvida pode ser reproduzida diante de novos alunos; uma maneira de enfrentar o erro pode tornar-se parte da cultura de outro laboratório; um gesto de generosidade recebido pode reaparecer, décadas depois, oferecido por nosso discípulo a alguém que jamais conheceremos. É dessa maneira silenciosa que a influência de um mestre atravessa gerações.
Essa reflexão torna-se particularmente atual diante das transformações tecnológicas que estamos vivendo.
A inteligência artificial provavelmente tornará obsoletas algumas funções tradicionalmente atribuídas ao professor. A simples transmissão de informações já deixou de ser uma prerrogativa humana. O acesso ao conhecimento, sua organização e mesmo sua elaboração tornam-se progressivamente mediados por sistemas de extraordinária capacidade.
Isso, porém, não reduz necessariamente a importância do mestre. Pode fazer exatamente o contrário.
Quanto mais abundante se torna a informação, mais importante se torna aprender a julgá-la. Quanto maior nossa capacidade tecnológica, maior a responsabilidade pelas escolhas que fazemos com ela. Informação não é compreensão; compreensão não é sabedoria; e nenhuma delas, isoladamente, garante responsabilidade. A formação humana exige integrar conhecimento, pensamento crítico, sensibilidade, discernimento ético e compromisso com a sociedade.
Talvez, portanto, a tecnologia torne algumas funções do professor dispensáveis justamente para revelar com maior clareza aquilo que nele é insubstituível.
Ao final de uma longa trajetória, um mestre provavelmente permanecerá cada vez menos pelos conteúdos específicos que transmitiu. Muitos terão sido corrigidos, atualizados ou substituídos. Permanecerá pela maneira como ensinou seus discípulos a pensar. Pela liberdade que lhes concedeu. Pela responsabilidade que deles exigiu. Pela maneira como enfrentou seus próprios erros. Pelo respeito à verdade que demonstrou quando ela contrariava suas convicções. E também pelo acolhimento, pela confiança e pelo afeto que permitiram que outros encontrassem segurança suficiente para seguir seus próprios caminhos.
O professor transmite conhecimento; o mestre ajuda a construir pessoas. E, quando essa missão é cumprida, algo de seu modo de interrogar o mundo continua vivo muito depois que sua última aula terminou.
O professor deixa a sala de aula. O mestre permanece em seus discípulos.
Sou Economista com dois mestrados, cursos de especialização e em Doutoramento. Meu objetivo é analisar a economia, no Brasil e no Mundo, tentar opinar sobre os principais debates da atualidade e manter sempre, na minha opinião essencial, a independência. Não pretendo me esconder em nenhum grupo teórico específico. Meu objetivo é discorrer sobre varios temas, buscando sempre ser realista.
quinta-feira, 17 de setembro de 2026
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