A Argentina não tem maioria no Congresso. E, mesmo assim, está reformando o país.
Javier Milei nunca teve bancada própria suficiente para governar sozinho. Precisa negociar, construir apoio e formar maiorias a cada votação.
Nesta semana, conseguiu mais três avanços importantes:
1. Reforma da Carta Orgânica do Banco Central: a Câmara aprovou a proibição do financiamento direto do Tesouro pelo BCRA por meio de emissão monetária e recolocou a preservação do valor da moeda como missão central da instituição.
2. Inocência Fiscal II: amplia garantias ao contribuinte e limita o poder do Fisco de revisar períodos anteriores sem elementos concretos.
3. Mercosul–Singapura: o Parlamento argentino concluiu a ratificação do acordo de livre comércio, abrindo um mercado asiático com tarifa zero para os bens agrícolas e industriais do Mercosul.
Não foi maioria automática. Foi articulação política para fazer uma agenda avançar.
E os números ajudam a explicar por quê:
Pobreza: 41,7% → 28,2%.
PIB: -1,3% em 2024 → +4,5% em 2025.
Inflação: 211,4% → 31,5%.
Dívida bruta: 154,6% do PIB em 2023 → 80,3% em 2025.
Aluguéis reais em Buenos Aires: queda superior a 30% nos novos contratos.
Enquanto isso, o Brasil continua atolado no problema fiscal.
Pelo mesmo indicador do FMI, a dívida bruta brasileira chegou a 93,3% do PIB em 2025, acima dos 80,3% da Argentina. Para 2026, o Fundo projeta 97,8% para o Brasil e 70,4% para a Argentina.
E recentemente o próprio Tesouro brasileiro chegou a cancelar leilão de NTN-B em meio às dificuldades de formação de preços e à forte tensão no mercado de títulos públicos.
A diferença começa a ficar desconfortável.
A Argentina, mesmo sem maioria parlamentar, tenta atacar as causas de sua crise.
O Brasil continua administrando as consequências da sua.
Reformas exigem votos.
Mas, antes dos votos, exigem direção e coragem.
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