segunda-feira, 31 de agosto de 2026

BDM Matinal Riscala

 *Rosa Riscala: Orçamento abre semana decisiva para os juros*


… O Orçamento de 2027 coloca a credibilidade fiscal à prova nesta segunda-feira, quando também saem os dados consolidados de julho. Amanhã, o PIB do segundo trimestre deve reforçar os sinais de desaceleração da economia e as apostas em novo corte da Selic. Lá fora, o payroll de agosto ganha ainda mais peso na sexta-feira, com o mercado sob o impacto do tom hawkish de Warsh em Jackson Hole, que virou as apostas para uma alta dos juros pelo Fed em setembro. O contraste entre Fed e Copom fica mais evidente justamente quando o petróleo volta a preocupar, após os Estados Unidos atacarem alvos iranianos em Ormuz neste domingo e Teerã prometer retaliar.


ORÇAMENTO TESTA CREDIBILIDADE FISCAL – O governo envia hoje ao Congresso o PLOA de 2027, prometendo entregar o primeiro superávit efetivo das contas públicas em anos, mas terá de convencer o mercado de que os números projetados vão se sustentar na execução.


… O Orçamento manterá a meta prevista na LDO, de superávit de 0,5% do PIB, equivalente a R$ 73,2 bilhões.


… Segundo antecipou o ministro Bruno Moretti em entrevistas à GloboNews, à Folha e ao Valor, mesmo depois de contabilizadas as despesas excluídas da meta, o resultado “cheio” ficará positivo entre R$ 18 bilhões e R$ 20 bilhões, pouco acima de 0,1% do PIB.


… A projeção representa um ajuste de cerca de 0,5 ponto porcentual do PIB em relação ao déficit efetivo de 0,4% esperado para este ano.


… A diferença entre a meta oficial e o resultado efetivo decorre, entre outros fatores, das exceções permitidas pela legislação. Moretti destacou que parte das despesas com precatórios ainda fica fora da meta e está sendo incorporada gradualmente, à razão de 10% ao ano.


… O ministro do Planejamento afirma ainda que, diferentemente de Orçamentos anteriores, a proposta de 2027 não dependerá da aprovação pelo Congresso de novas medidas de arrecadação para fechar as contas.


… Entre as receitas previstas estão cerca de R$ 20 bilhões com o leilão de petróleo do pré-sal, adiado deste ano. O governo diz ter adotado premissas conservadoras, como uma cotação do Brent próxima de US$ 70.


… Do lado das despesas, a principal mudança estará na composição.


… Enquanto o limite do arcabouço crescerá 7,7%, os gastos obrigatórios sujeitos ao teto avançariam entre 6,8% e 6,9%, abrindo espaço para uma expansão de cerca de 20%, ou quase R$ 40 bilhões, das despesas discricionárias, que incluem custeio e investimentos, entre eles o Novo PAC.


… O salto das discricionárias chamou a atenção do mercado e ajudou a pressionar a ponta longa dos juros na sexta-feira (leia abaixo).


… Moretti argumenta, porém, que uma base maior de despesas não obrigatórias também amplia a margem para contingenciamentos caso haja frustração de receitas, permitindo perseguir a meta fiscal sem comprometer o funcionamento da máquina pública.


… O governo calcula ainda uma economia de cerca de R$ 100 bilhões em 2027 em relação ao cenário sem as medidas de contenção adotadas nos últimos anos. Desse total, R$ 80 bilhões decorreriam do pacote fiscal de 2024 e R$ 20 bilhões dos gatilhos acionados para o próximo ano.


… Entre eles, estão a trava que limita a 0,6% acima da inflação o crescimento das despesas com pessoal, a limitação do avanço de despesas financiadas por vinculações legais não constitucionais e a retirada das receitas com petróleo e gás do cálculo da receita corrente líquida.


… As contas de 2027 também serão favorecidas pela antecipação para este ano de R$ 3 bilhões em despesas temporárias de saúde e educação que originalmente seriam programadas para o próximo exercício. Já o salário mínimo será projetado em R$ 1.741, alta de R$ 120.


… A promessa de um superávit efetivo, porém, deve ser recebida com cautela após sucessivas diferenças entre as projeções e os resultados realizados. O PLOA/2024, por exemplo, previa superávit de R$ 2,84 bilhões e o ano terminou com déficit efetivo de R$ 43 bilhões.


… Por isso, mais do que o número anunciado nesta segunda-feira, o mercado deve avaliar a qualidade das receitas, a executabilidade das economias previstas e quanto do aumento das despesas discricionárias será efetivamente gasto.


… A reação da ponta longa dos juros será um dos primeiros termômetros da credibilidade atribuída às contas de 2027.


DEPOIS DE WARSH, O PAYROLL – Warsh deixou muito claro em Jackson Hole que a principal preocupação do Fed neste momento é a inflação, advertindo que não há garantia de que os preços retornem sozinhos à meta de 2% – uma fala interpretada como hawkish. 


… Reconheceu a melhora dos últimos indicadores, mas disse que eles ainda não mostram avanço significativo das tendências subjacentes. “Se não houver evidências claras de que a inflação está convergindo para a meta com velocidade suficiente, o Fed terá trabalho a fazer.”


… O recado virou as apostas para a próxima reunião do Fomc, em setembro. A probabilidade de aumento dos juros em 25 pontos-base passou a 57,5%, segundo o CME FedWatch, depois de o cenário majoritário na véspera ainda ser de manutenção.


… O mercado também passou a embutir pelo menos uma elevação dos juros até o fim deste ano e novos apertos em 2027, com reação imediata na Treasury de dois anos, que chegou a subir mais de 10 pontos-base, enquanto o dólar se fortaleceu e as bolsas perderam fôlego.


… Warsh não foi explícito sobre setembro, deixando os próximos passos dependentes dos dados. Agora, os números do emprego ao longo desta semana, culminando com o payroll na sexta-feira, vão testar até onde essa disposição para voltar a subir os juros pode ir.


… A bateria começa amanhã, terça-feira, com o Jolts de julho, que deve mostrar 7,35 milhões de vagas abertas. Na quarta, o ADP deve apontar criação de 46,5 mil empregos privados em agosto e, na quinta, os pedidos de auxílio-desemprego devem subir de 203 mil para 207,5 mil.


… O payroll de agosto será o último antes do Fomc de 16 de setembro e ganhou peso adicional após a perda de 23 mil vagas em julho, com a taxa de desemprego em 4,1%. Também serão acompanhados os salários, que avançaram apenas 0,1% em julho e 3,2% em 12 meses.


… Uma nova deterioração do emprego pode dificultar uma alta já em setembro, apesar do tom duro de Warsh.


… Em sentido contrário, sinais de resiliência do mercado de trabalho, que Warsh considerou compatível com o pleno emprego, reforçariam a leitura de que o Fed tem espaço para concentrar esforços na inflação e poderiam consolidar as apostas em aperto monetário.


… O pano de fundo já vinha ficando mais hawkish antes mesmo de Jackson Hole.


… A ata da reunião de julho mostrou três votos por uma alta dos juros e revelou que “vários” dirigentes defendiam um aumento de 25 pontos-base, enquanto “muitos” avaliavam que novo aperto poderia ser necessário caso a inflação permanecesse persistente.


… O Fed terá ainda o Livro Bege na quarta-feira, com novas indicações sobre atividade, emprego, salários e preços nas diferentes regiões do país e os “Fed boys” continuarão falando, entre eles, Michael Barr, Christopher Waller, Beth Hammack e Austan Goolsbee.


… As novas declarações serão acompanhadas de perto para medir quanto apoio existe dentro do Comitê para uma alta já em setembro.


SOBE LÁ, CORTA AQUI – Para os mercados emergentes, a mudança de cenário no Fed tem efeito direto.


… Juros americanos mais altos tendem a fortalecer o dólar e reduzir a liquidez destinada a ativos de maior risco, justamente quando o Brasil caminha na direção oposta e o mercado dá como certo um novo corte de 25 pontos-base da Selic em setembro.


… A aposta ganhou força na sexta-feira, depois que o Caged mostrou criação de apenas 58,6 mil vagas formais em julho, praticamente metade das 114 mil esperadas pelo mercado e mais um sinal de moderação da atividade.


… A surpresa reforçou a percepção de que o mercado de trabalho começa finalmente a perder a resiliência que vinha preocupando o Banco Central e já levou alguns analistas a discutir a possibilidade de outro corte de 25 pontos-base em uma das reuniões seguintes.


… Mas o espaço para estender o ciclo não dependerá apenas da desaceleração da economia.


… Uma eventual alta dos juros pelo Fed estreitaria o diferencial de taxas justamente quando a eleição e as incertezas sobre a política fiscal do próximo governo tendem a elevar o prêmio exigido para os ativos brasileiros.


… E o fiscal, como você leu acima, ganha peso especial nesta segunda-feira, com a apresentação do Orçamento de 2027.


… A combinação desses riscos já apareceu na curva na sexta-feira: enquanto o Caged mais fraco ajudou a derrubar os juros curtos, as taxas longas avançaram mais de 10 pontos-base, pressionadas pelo cenário fiscal, pelos Treasuries e também por fatores técnicos.


… A divergência expõe o desafio para o Banco Central: os dados domésticos podem justificar novos cortes da Selic, mas Fed, fiscal e eleição podem limitar até onde será possível levá-los. Vai ser uma superquarta especial em setembro, com Fomc e Copom no mesmo dia.


E AINDA TEM O PETRÓLEO – O alívio provocado pela melhora do fluxo de navios pelo Estreito de Ormuz levou o petróleo a fortes perdas na semana, mas novos episódios no fim de semana lembraram que a situação continua longe de normalizada.


… Forças americanas atacaram neste domingo dois lançadores de foguetes iranianos na Ilha de Larak, no Estreito de Ormuz, no primeiro ataque reconhecido dos Estados Unidos contra o Irã em um mês.


… Segundo o Centcom, integrantes da Guarda Revolucionária preparavam-se para lançar foguetes carregados com minas nas águas do Estreito. Teerã prometeu retaliar, elevando novamente o risco de uma escalada militar.


… No sábado, um petroleiro já havia sido atingido por um projétil de origem desconhecida quando navegava em direção a Ormuz. Não houve vítimas nem vazamento de carga, mas a UKMTO recomendou cautela extrema às embarcações na região.


… As negociações continuam travadas. Washington já informou a mediadores que não pretende retomar os termos do acordo preliminar de junho, enquanto Teerã diz que a volta à mesa depende de os Estados Unidos “construírem confiança”.


… Ao mesmo tempo, Washington amplia a pressão econômica sobre Teerã.


… As novas sanções já atingiram o Banque Misr, um dos maiores bancos do Egito, acusado de manter operações relacionadas ao regime iraniano. A ofensiva continuará nesta semana no G20, onde Scott Bessent deve pressionar os participantes a restringirem o fluxo de capital para o Irã.


… Do outro lado, Vladimir Putin se reúne com Xi Jinping e Pezeshkian na cúpula da Organização de Cooperação de Xangai, enquanto o líder supremo iraniano, Mojtaba Khamenei, pediu neste domingo união dos países muçulmanos contra Estados Unidos e Israel.


… Outra novidade no mercado de petróleo veio da Venezuela.


… Trump anunciou um acordo que dará aos Estados Unidos participação majoritária em uma nova operação envolvendo 17 campos venezuelanos, com potencial de produção superior a 1,5 milhão de barris por dia.


… Segundo os termos divulgados até agora, os Estados Unidos terão direito a 55% da produção efetiva e poderão comprar petróleo a preço de custo. Parte dos barris será destinada à recomposição das reservas estratégicas americanas.


… O impacto sobre a oferta, porém, não será imediato. A deterioração da infraestrutura venezuelana exigirá investimentos bilionários e anos para que o País consiga recuperar parte relevante da capacidade perdida.


… Assim, após acumular quedas de 4,2% (WTI) e 6,6% (Brent), o petróleo começa a semana novamente sob pressão, dividido entre a melhora gradual dos fluxos por Ormuz e a ameaça de retaliação aos novos ataques americanos, que mantém elevado o prêmio geopolítico.


… Na sexta-feira, o WTI fechou cotado a US$ 83,40 (-0,16%) e o futuro do Brent para entrega em novembro a US$ 88,10 (-0,47%).


ELEIÇÃO – Em plena campanha eleitoral, Lula recebe hoje à noite no Palácio da Alvorada grandes empresários e banqueiros para um jantar organizado pelo presidente do PT, Edinho Silva.


… Entre os convidados estão André Esteves, do BTG Pactual, Roberto Setúbal, do Itaú, Luiz Carlos Trabuco Cappi, do Bradesco, Joesley Batista, da JBS, e José Seripieri Júnior, da Amil.


… O encontro ocorre poucos dias depois de Flávio Bolsonaro também participar de um jantar com banqueiros e empresários. Lula já havia recebido André Esteves fora da agenda oficial há cerca de dez dias.


CAMPANHA. Lula e Flávio estrearam no sábado na propaganda eleitoral gratuita. O presidente defendeu o legado do governo e atacou o adversário, enquanto Flávio concentrou críticas na economia e procurou ampliar os acenos ao eleitorado feminino.


… Neste domingo, Flávio prometeu dar um “tesouraço” nos gastos públicos, com uso de tecnologia e IA, e voltou a criticar o nível da Selic.


… O candidato também defendeu acelerar a exploração de petróleo na Margem Equatorial e apresentou como alternativa à PEC do fim da escala 6×1 uma proposta que permitiria aos trabalhadores escolher a própria carga horária e os dias de trabalho.


TSE. A campanha de Lula pediu a inelegibilidade de Flávio por suposto abuso de poder econômico em sua participação na Festa do Peão de Barretos. A defesa alega uso de estrutura financiada por empresas e órgãos públicos e caracteriza o evento como um “showmício disfarçado”.


… Já o ministro Dias Toffoli retirou da pauta do TSE o julgamento do registro da candidatura de Renan Santos, do Missão, previsto para começar hoje no plenário virtual, apontando “indícios de ilicitude” relacionados às informações sobre perfis em redes sociais.


CURTAS – Em semana de esforço concentrado, o presidente da Câmara, Hugo Motta, acelerou a tramitação da MP que acaba com a taxa das blusinhas e marcou para hoje à noite a votação da proposta no plenário. O texto precisa passar também pelo Senado.


6X1. Senadores da base governista articulam votar amanhã a PEC que acaba com a escala 6×1. O relator na CCJ, Omar Aziz, já apresentou parecer favorável ao texto aprovado pela Câmara. Lula afirmou no sábado que o Congresso aprovará a proposta nesta semana.


BRASIL-EUA. Os negociadores dos dois países retomam hoje as conversas sobre o tarifaço, por determinação de Lula e Donald Trump. O encontro virtual, às 14h30, reunirá o ministro Márcio Elias Rosa e o representante comercial dos EUA, Jamieson Greer.


… A negociação foi reaberta depois da conversa entre Lula e Trump no dia 21.


… O governo brasileiro, porém, não espera uma reversão das sobretaxas americanas no curto prazo e mantém em andamento tanto a ação na OMC quanto o processo para eventual aplicação da Lei da Reciprocidade.


CONGRESSO. O Senado deve aproveitar o esforço concentrado desta semana para analisar também o projeto que cria o Redata. Outra proposta na pauta é a criação da política nacional de minerais críticos, já aprovada pela Câmara.


BANDEIRA AMARELA. A Aneel anunciou na sexta-feira que as contas de luz seguirão com taxa adicional de R$ 1,885 a cada 100 quilowatts-hora (kWh) consumidos no mês de setembro, mesmo patamar verificado desde maio.


… A Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE) projeta que as tarifas devem permanecer na bandeira amarela até novembro. A partir de dezembro, com o fim do período seco, podem seguir para a bandeira verde.


MAIS AGENDA – Além do payroll, a agenda internacional traz uma bateria importante de dados de atividade e inflação. Aqui, o Orçamento de 2027 domina as atenções, mas ainda hoje tem o resultado fiscal de julho e, amanhã, o PIB do segundo trimestre.


… No Brasil, o Relatório Focus abre o dia às 8h25, com os dados fiscais divulgados pelo BC às 8h30.


… A mediana das Projeções Broadcast aponta para um superávit primário de R$ 6,6 bilhões para o setor público consolidado, após um déficit de R$ 55,313 bilhões em junho. As estimativas variam de superávit de R$ 1,060 bilhão a R$ 14,300 bilhões.


… Apesar da melhora mensal, a trajetória da dívida continua no radar. Para 2026, a mediana das projeções indica déficit primário de R$ 55 bilhões, enquanto a Dívida Bruta do Governo Geral deve superar 82% do PIB em julho.


… Para o PIB do segundo trimestre, nesta terça-feira, a mediana das Projeções Broadcast aponta crescimento de 0,4% sobre os três meses anteriores, desacelerando ante a alta de 1,1% do primeiro trimestre, e avanço de 1,8% na comparação anual.


… Também amanhã saem a produção industrial de julho e o IPC-S de agosto. Na quarta, o IPC-Fipe e, na sexta, a balança comercial de agosto.


EVENTO DO BTG PACTUAL – O ministro da Fazenda, Dario Durigan, participa às 9h30 do Macro Day do BTG Pactual. No mesmo evento, o ministro do Planejamento e Orçamento, Bruno Moretti fará uma palestra sobre o Projeto de Orçamento de 2027, às 10h45.


GALÍPOLO NO G-20 – O presidente do BC está nos Estados Unidos para a reunião de ministros das Finanças e presidentes de bancos centrais.


LÁ FORA – A Alemanha divulga hoje, às 9h, a leitura preliminar do CPI de agosto, com expectativa de alta de 0,3% no mês e 2,8% em 12 meses. À noite, a China informa o PMI industrial medido pelo setor privado (22h45).


… Ontem à noite, saiu o PMI industrial oficial, que subiu de 49,2 em julho para 49,8 em agosto e superou o consenso de 49,5. Apesar da melhora, o dado abaixo de 50 indicou contração da atividade pelo segundo mês seguido.


… Amanhã, a inflação da zona do euro deve desacelerar para 2,5% em 12 meses, ante 2,9% em julho. Também serão divulgados os PMIs industriais da região e o ISM industrial dos Estados Unidos.


… Na quarta-feira, o Banco do Canadá anuncia sua decisão de juros e o Fed divulga o Livro Bege, com novas indicações sobre atividade, emprego, salários e inflação. Também saem os estoques americanos de petróleo e, após o fechamento, o balanço da Broadcom.


… Na quinta-feira, os destaques são os PMIs de serviços e o ISM de serviços dos Estados Unidos, além do PPI da zona do euro.


FALCÃO DESDE CRIANCINHA – Se algum dia Warsh foi dovish, nem ele mesmo se lembrou disso na sua estreia em Jackson Hole desde que assumiu o comando do Fed, incorporando o discurso de prioridade no controle da inflação.


… Os comentários tiveram efeito imediato nos negócios: o dólar se fortaleceu globalmente, piorou o iene, depreciou o real, pressionou os juros dos Treasuries e a curva do DI, e derrubou as bolsas em NY. Mas o Ibovespa se salvou.


… Desde a coletiva após a decisão do Fed em julho, quando o juro ficou estável, Kevin Warsh andava devendo um recado duro sobre a inflação e, desta vez, não fugiu da raia, a ponto de ter virado as apostas para setembro.


… O mercado, que só precificava chance majoritária de um aperto monetário em outubro e dezembro, antecipou a aposta para setembro, agora com 57,5%, contra 35,4% na véspera e contra 43% de chance de manutenção. 


… Warsh afirmou que a meta de inflação de 2% é “firme e inalterável”, que é difícil classificar as atuais condições financeiras como restritivas, levantando a lebre de que o Fed pode ser mais agressivo. Mas alertou o mercado para não interpretar suas palavras como forward guidance.


… “Chame meu discurso de um delineamento, uma trajetória, mas não chame de forward guidance”, afirmou, em uma tentativa clara de não engessar as próximas ações e tentar assegurar a flexibilidade da política monetária.


… Warsh pode até pedir para ninguém tomar conclusões precipitadas, mas o tom hawkish fez a cabeça do mercado.


… O Société Générale passou a esperar três altas de juros no ano, juntando-se ao BofA, Deutsche e Barclays. O JPMorgan manteve o call de manutenção em setembro, mas sublinhou os riscos se a inflação surpreender para cima.


… “A responsabilidade agora recai sobre o Fed para anunciar um aumento da taxa de juros em setembro, a menos que os dados de emprego e inflação de agosto venham muito fracos”, observou o Bank of America. O payroll vem na sexta e o CPI sai dia 11.


… A mensagem firme de Warsh destoa do tom mais brando adotado em julho, quando destacou que o choque do petróleo não havia se espalhado para a inflação em geral, e se alinha agora ao discurso cauteloso de outros Fed boys.


… Mesmo quem não foi dissidente em julho, está alerta. Austan Goolsbee, que votou por manter os juros na última reunião, concordou que o foco principal neste momento deve ser descobrir se a pressão inflacionária vem para ficar.


TESOURO AGRADECE – Robin Brooks, ex-economista-chefe do Instituto de Finanças Internacionais (IIF), avalia que Warsh conseguiu ancorar as expectativas e evitar com seu discurso um novo salto dos juros dos Treasuries longos.


… Duas semanas atrás, o Tesouro ampliou o programa de recompra de títulos de longo prazo, numa tentativa de aliviar os rendimentos, sinalizando o desconforto do governo de Washington com as taxas longas acima de 5%.


… O rendimento do T-Bond de 30 anos ficou praticamente estável na sexta-feira, a 5,210% (contra 5,190%), enquanto o retorno da Note de dois anos, mais sensível à política monetária, subiu bem, de 4,229% para 4,351%.


… “Inequivocamente, esse é o tipo de reação esperada diante de um Fed com postura mais hawkish, o que sugere que Warsh conseguiu transmitir uma mensagem capaz de restaurar a credibilidade do Fed”, resumiu o Jefferies.


… O grande perdedor apontado em Jackson Hole foi o iene, com o dólar voltando a superar 160 ienes. Robin Brooks argumentou que intervenções cambiais não funcionam sem apoio da política monetária. Ou seja, o BoJ terá que agir.


… O consenso agora é que o BC japonês aumente sua taxa de juros na próxima reunião, em 17 e 18 de setembro.


… No final da semana passada, o vice-presidente do BoJ, Ryozo Himino, adotou um tom bem mais agressivo em entrevista coletiva de imprensa, citando o risco de “ficar para trás se não agirmos de maneira oportuna”.


… Apesar disso, o iene caiu para 160,11 por dólar depois de Warsh, enquanto Bessent defendia nova intervenção no iene, porque qualquer volatilidade extrema na moeda japonesa poderia levar a uma alta de juros dos Treasuries.


… Refletindo a ansiedade de Tóquio após o iene ter tocado o piso em 40 anos, o Japão gastou US$ 98,7 bilhões em julho para sustentar o iene, na ação conjunta com os EUA – intervenção recorde com impacto modesto até agora.


… Sob o efeito Warsh, o índice DXY subiu 0,51%, a 99,660 pontos, e derrubou o euro (-0,59%, a US$ 1,1584) e a libra (-0,42%, a US$ 1,3536). O presidente do BC inglês (BoE), Andrew Bailey, enfatizou a meta de trazer a inflação a 2%.


… Mas afirmou que ainda não sabe quanto tempo isso levará, de acordo com entrevista à Bloomberg.


SE DÁ AO LUXO DE ESPERAR – Enquanto os grandes BCs se mobilizam para a urgência de um aperto monetário, o Copom contrata novo corte da Selic em setembro, embora possa ser o último, a depender do trade eleitoral e fiscal.


… Jogam a favor do BC especialmente os indicadores que mostram desaceleração gradual da atividade doméstica.


… Na sexta-feira, mais um dado entrou para a coleção, com o menor Caged para o mês de julho em seis anos. Foram criados 58,5 mil postos de trabalho no mês passado, abaixo do piso da pesquisa Broadcast, de 90,5 mil vagas.


… Como disse o Santander, o emprego formal se aproxima agora de um patamar compatível com a estabilização, depois de um período prolongado de resiliência. Para a XP, os dados mostram moderação do emprego e da renda.


… A casa adverte que não se trata ainda de uma reversão do cenário de mercado de trabalho apertado. Ainda assim, o Caged reforça o cenário de PIB fraco no terceiro trimestre e próximo de zero neste segundo semestre do ano.


… O ministro do Trabalho em exercício, Chico Macena, disse que o varejo vem sucessivamente perdendo postos de trabalho. Ele descartou a existência de uma crise estrutural no setor e falou em “reposicionamento momentâneo”.


… Disse ainda que pretende apurar o vazamento dos números do Caged, publicados no site do Ministério do Trabalho e Emprego mais de uma hora antes do horário informado pela pasta para a divulgação dos resultados.


 … Com os dados confirmando a tendência de desaquecimento da economia e abrindo espaço para o Copom relaxar em setembro, os juros curtos fecharam em baixa, enquanto as taxas intermediárias e longas subiram com Warsh.


… Além, disso, a previsão de salto das discricionárias no PLOA chamou a atenção e ajudou a pressionar os juros.


… No fechamento, o DI para janeiro de 2027 marcava 13,610% (de 13,631% no ajuste anterior); Jan/28, 13,795% (contra 13,765%); Jan/29, 14,170% (de 14,066%); Jan/31, 14,505% (de 14,360%); e Jan/33, 14,625% (de 14,479%).


… O câmbio reproduziu o conservadorismo em Jackson Hole e, no momento de maior pressão, o dólar não só rompeu R$ 5,20, como chegou até R$ 5,2308. Mas desacelerou, para fechar em alta de 0,67%, cotado a R$ 5,1965.


PINGANDO ALGUM DINHEIRO – Diariamente, têm sido observadas entradas mais consistentes de capital externo na B3, após a fuga desenfreada. No pregão da última quarta-feira, o investidor estrangeiro aportou mais R$ 1,3 bilhão.


… As saídas acumuladas no mês ainda estão elevadas, em R$ 18,7 bilhões, mas o BofA avalia que a volta de parte do apetite pelo Brasil neste final de agosto explica o melhor desempenho do Ibovespa contra seus pares latinos.


… Na sexta-feira, o índice à vista passou quase o pregão inteiro no vermelho, mas virou na reta final e fechou em alta moderada de 0,30%, aos 175.664,62 pontos. O volume financeiro é que não deu para nada: só R$ 14,6 bilhões.


… Faltando só o pregão de hoje para o mês acabar, o Ibovespa acumula perda de 1,31% em agosto.


… Na última sessão, Petrobras ON (+1,99%, a R$ 48,25) e Petrobras PN (+1,99%, a R$ 43,55) tiveram ganhos expressivos, apesar da queda do petróleo, com sinais de navegação em Ormuz. Circularam rumores de um possível acordo entre o Irã e Omã.


… Vale ON caiu 0,67%, a R$ 78,58, embora o minério tenha subido 0,91% na China. O STF suspendeu o julgamento que discute a tributação de lucros obtidos por controladas e coligadas de empresas brasileiras no exterior.


… A análise, que deveria ter sido concluída na sexta-feira, será retomada no plenário físico, ainda sem data definida.


… Entre os grandes bancos, o dia foi majoritariamente positivo, apesar do ambiente externo de risco. Itaú PN subiu 0,23%, a R$ 39,19; Bradesco PN, +0,89%, a R$ 17,08; BB ON, +1%, a R$ 20,17; e Santander Unit, +1,83%, a R$ 30,01.


… Com Warsh linha dura, as bolsas americanas caíram, mas pouco. O Nasdaq teve baixa de 0,52%, aos 26.402,42 pontos, e o S&P 500 perdeu 0,25%, aos 7.711,76 pontos. Já o Dow Jones ficou estável (-0,02%), a 53.559,99 pontos.


CIAS ABERTAS NO AFTER – CASAS BAHIA conseguiu antecipar efeitos da recuperação para se blindar de credores…


… A Justiça de São Paulo deferiu a antecipação dos efeitos do “stay period” para suspender por 180 dias todas as ações e execuções contra a companhia, e vedar novos atos constritivos…


… Dessa forma, a empresa fica protegida de processos de cobrança e execuções de credores…


… A companhia retirou pedido de ressarcimento de R$ 422 milhões contra o BB e disse à Justiça que negocia solução consensual com o banco, na Folha. Conselho também aprovou fiança superior a R$ 50 milhões em favor do Digio.


SABESP. Acionistas elegeram chapa indicada pela administração para o conselho, mantendo praticamente a composição atual. Paulo Pedrosa, presidente da Abrace e conselheiro da Equatorial, substitui Tinn Freire Amado.


BRB. STF liberou 23 imóveis dados em garantia de créditos vendidos pelo Banco Master ao banco. Ministro André Mendonça determinou o cancelamento dos bloqueios que atingiam seis Cédulas de Crédito Bancário.


CEMIG. Governo de MG indicou Márcio Augusto Vasconcelos Nunes para a presidência, enquanto Alexandre Ramos Peixoto foi indicado para presidir o conselho…


… Safra cortou preço-alvo da Cemig de R$ 12,50 para R$ 11,90, mantendo recomendação neutra.


ELETRONUCLEAR. Governo estuda aporte de R$ 650 milhões para preservar as obras de Angra 3 e cumprir obrigações contratuais e de segurança, segundo O Globo. Estatal disse desconhecer tratativa ou decisão sobre o aporte.


ENEVA e Itaú negociam aumento da participação do banco na Eneva Participações III, que reúne ativos do Complexo Parnaíba. Itaú investiu R$ 1 bilhão na empresa em 2023 e seguirá como acionista minoritário após a nova operação.


AXIA. Acionistas aprovaram a incorporação de quatro controladas: Juno, Tijoá, Retiro Baixo Energética e Nova Era Janapu Transmissora. Operação faz parte da estratégia de simplificação da estrutura societária.


BRAVA ENERGIA recebeu renúncia de Julián Fernando Lemos ao conselho de administração, em razão de mudanças administrativas na Ecopetrol. Companhia colombiana tornou-se controladora da Brava, com 51% do capital.


RANDONCORP. Goldman Sachs passou a deter 4,98% das ações preferenciais da companhia, equivalente a cerca de 11,1 milhões de papéis.


HBR REALTY convocou AGE para 18/9 para deliberar sobre oferta de permuta destinada a adquirir o controle da Helbor e posteriormente fechar seu capital. Oferta prevê R$ 2,52 por ação, pagos com papéis da própria HBR.


CYRELA. TRX colocou em renegociação acordo para compra de cinco imóveis da incorporadora por R$ 2,1 bilhões, após rever o pipeline da 13ª emissão do TRXF11. Operação ficou fora do material atualizado da oferta.


TECNISA aprovou grupamento de ações na proporção de 10 para 1, sujeito à AGE de 21/9, para recuperar cotação acima de R$ 1. Capital social permanecerá em R$ 1,86 bilhão.


GAFISA adiou pela terceira vez a divulgação do balanço do segundo trimestre, agora para 28/9, após a auditoria independente BDO pedir prazo adicional para concluir a revisão das demonstrações financeiras.


AGROGALAXY adiou novamente a divulgação de balanços: o do quarto trimestre de 2025 ficou para 30/11 e os resultados do primeiro e segundo trimestres de 2026 foram postergados para 29/1/27 e 26/2/27, respectivamente.


CORREIOS tiveram prejuízo de R$ 2,39 bilhões no segundo trimestre, queda de 5,5% ante um ano antes. No semestre, porém, o prejuízo aumentou de R$ 4,26 bilhões para R$ 5,55 bilhões…


… Estatal busca nova captação de R$ 7 bilhões com garantia da União.


TRIUNFO fará emissão de R$ 205,7 milhões em debêntures, com prazo de dois anos e remuneração de DI + 8% ao ano. Recursos serão destinados às obrigações ligadas à modernização da concessão da Concebra.


ARCELORMITTAL investirá até R$ 5 bilhões na expansão da Usina de Tubarão (ES), com nova capacidade de 560 mil toneladas por ano de aço laminado galvanizado. Operação deve começar no primeiro semestre de 2030.

Call Matinal

Mercados

 Uma semana pesada, por aqui com PIB do segundo trimestre e Orçamento de 2027, nos EUA, fechando a semana com payroll na sexta. Nos mercados, os futuros de brent e WTI operam em alta de mais de 2%, depois dos ataques dos EUA à lançadores de foguete na ilha de Larak. Viveremos de estocadas, de idas e vindas, já que a Guarda Revolucionária continua no poder, renovando seus ayatolás. Nada mudará à médio prazo. Na agenda em geral, a semana deve gravitar em torno das principais discussões ligadas pelo mesmo problema: até onde os bancos centrais podem reagir à dinâmica da atividade sem perder o controle sobre a inflação? No Brasil, o PIB do segundo trimestre mostrará na terça-feira perda de dinamismo, dado o aperto de crédito em vigor. Ainda temos o envio ao Congresso do Projeto de Lei Orçamentária Anual (PLOA) de 2027, que provavelmente apresentará uma transição para contas públicas menos desequilibradas, mas ainda não deve estabilizar a dívida. Nos Estados Unidos, o relatório de emprego de agosto encerrará a semana depois de Kevin Warsh reforçar, em Jackson Hole, que o Fed terá “trabalho a fazer” se a inflação não estiver retornando à meta de 2% de maneira clara e suficientemente rápida.

Agenda 3108
Uma agenda pesada, por aqui com o PIB do segundo trimestre, já devendo mostrar perda de dinamismo, além da divulgação do orçamento, a mostrar uma economia em superávit, só por que o PT quer. Nos EUA, na sexta-feira o payroll pontua como destaque na semana, depois de um discurso bem hawkish de Kevin Ward em Jackson Hole. Na terça-feira, teremos o JOLTS. Na quarta, saem o ADP de emprego privado e o Livro Bege do Federal Reserve. Na quinta-feira, serão divulgados os pedidos semanais de auxílio-desemprego.No Brasil, ainda temos, pelo BCB, os dados primário e a dívida líquida em relação ao PIB, ambos de julho, saem logo cedo nesta segunda e ajudam o mercado a medir o ritmo do ajuste fiscal. Na quarta-feira, o IBGE apresenta a produção industrial de julho, além dos PMIs industrial, de serviços e composto. Na sexta-feira, atenção para a balança comercial de agosto.

domingo, 30 de agosto de 2026

Élio Gaspari

 Élio Gaspari. Na Folha, ontem. A íntegra: 


O fator Lulinha na reta final

A blindagem deve ter o efeito contrário

As encrencas em Pindorama são tantas que é necessário recriar o contexto em que elas ocorrem

No dia 22 de março de 2024, numa troca de mensagens com a advogada Roberta Luchsinger, Lulinha queixou-se: "Trabalho pra caralho e nunca dá em nada".


As encrencas em Pindorama são tantas que é necessário recriar o contexto em que elas ocorrem e Lulinha se queixa.


Em 2023, a J&F dos irmãos Batista contratou um parecer de Ricardo Lewandowski, logo após sua aposentadoria do STF e antes de se tornar ministro da Justiça de Lula, para seu litígio em torno da Eldorado Celulose. Em 2024, o banqueiro Daniel Vorcaro contratou a banca de advocacia da mulher do ministro Alexandre de Moraes com remuneração de R$ 3,6 milhões mensais por três anos. No mesmo ano, o ministro Dias Toffoli suspendeu os pagamentos das multas devidas pela empreiteira Odebrecht, decorrentes do acordo de leniência firmado com o juízo da Lava Jato. Dias depois, o ministro mandou investigar a ONG Transparência Brasil. Tudo normal e legal.


Nesse cenário, a advogada Roberta Luchsinger e Antonio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS, conceberam um negócio de fornecer ao governo federal, sem licitação, 1,2 milhão de frascos de 36 tipos diferentes de remédios com base em canabidiol, segundo o jornal O Globo. Seria um negócio de R$ 626 milhões.


Era motivo de euforia para Luchsinger: "Nosso nível tá outro. Nosso futuro é Suíça. Poucos negócio é bom [sic]. Esse povo aqui tá em outra vibe".


Em 2024, Antunes só era conhecido por seu povo como Careca do INSS. O escândalo do roubo praticado nas aposentadorias só viria a público no ano seguinte.


Além de Lulinha, a dupla acreditava ter como gazua o chefe de gabinete de Lula, Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola.


Lulinha e o 'Careca'

Em janeiro de 2025, Lulinha e sua família viajaram à Noruega e à Finlândia para ver a aurora boreal. A viagem foi organizada por Marina Mantega, filha do ex-ministro Guido Mantega e "luxury travel specialist". A vilegiatura foi paga por Roberta Luschinger, que era financiada pelo "Careca do INSS", seu parceiro no possível negócio dos frascos de canabidiol.


(Nesses dias Flávio Bolsonaro tratava com o banqueiro Daniel Vorcaro de recursos para o filme "Dark Horse" e o grupo J&F, dos irmãos Batista, pagou R$ 25,9 milhões a uma empresa que comprou a participação da família do ministro Dias Toffoli, do STF, no resort Tayayá.)


Meses depois, a Polícia Federal revelou que o Careca do INSS recebeu R$ 53,5 milhões de entidades metidas nas roubalheiras contra os segurados da Previdência.


Na noite de 8 de novembro de 2024, dois passageiros embarcaram no voo JJ-8148 da Latam com destino a Lisboa. Lulinha foi para o assento 6J e o Careca foi para o 3A. Viajaram em assentos separados, com o mesmo objetivo: prospectar empresas portuguesas para o fornecimento dos 1,2 milhão de frascos de canabidiol. Lulinha admitiu que o Careca pagou as passagens e as diárias do hotel. Careca montou uma empresa, a Candango Consulting, na cidade de Porto e, em fevereiro de 2025, comprou um galpão por 2,7 milhões de euros.


Em dezembro de 2025, saiu na imprensa a informação de que um ex-funcionário do Careca havia dito que Lulinha recebia do patrão uma mesada de R$ 300 mil e se referia a ele como "filho do rapaz".


Lulinha, o 'Careca' e 'Marcola'

A venda de canabidiol para o Ministério da Saúde poderia ser um bom negócio, com o filho do presidente no lance, teria o pescoço comprido. Faltava incluir a girafa no rol de medicamentos do SUS. Incluindo-o, o que não é fácil, seria necessário licitá-lo.


A essa altura, entra Roberta Luchsinger, amiga de Lulinha e de Marco Aurélio Santana Ribeiro, o "Marcola". Chefe de gabinete e guardião da porta de Lula. No início de agosto, o site Poder360 revelou que o discreto "Marcola" tomou R$ 249 mil emprestados a Luchsinger, quitando-o.


Em 2024, os dois tratam também da compra de joias para o Dia das Mães. (Não se sabe mãe de quem.)


Na quinta-feira, os repórteres Eduardo Gonçalves e Sarah Teófilo revelaram que a Polícia Federal encontrou nos celulares de Luchsinger e do Careca a minuta de um contrato e o plano de negócio da compra de 1,2 milhão de 36 tipos de remédios à base de canabidiol, sem a praga dos finórios, a licitação. O destinatário da minuta era Marcola.


"É contratação, sim. Ele sabe que é dispensa. É a nova lei das licitações, não sei se você já deu uma lida. Devido ao cenário de emergência, podemos criar um documento bem robusto pedindo a dispensa de licitação", disse Luchsinger. "Ele" poderia ser "Marcola".


"Pousei. Vou lá no Berge", disse Roberta a Fábio em 6 de março de 2024. "Que ótimo. Vai com tudo. Manda bjo [beijo] pro Berge e fala que não fui pq vc não chamou", ironizou Lulinha.


Berge é Swedenberger Barbosa, então secretário-executivo da pasta, quadro histórico da infantaria petista, hoje no Planalto.


O canabidiol não está no rol de fármacos do SUS, licitação não se suspende só com telefonemas ou almoços e nenhum frasco foi comprado. A cobiça dos finórios e a soberba palaciana bombaram uma crise a um mês da eleição.


Lulinha reclamava que dava duro e seus negócios davam em nada. Ainda bem que a Viúva não comprou o canabidiol do Careca.


Lulinha vive na Espanha, depois de mais de um ano de trabalho na sua blindagem, a defesa do primogênito do presidente admitiu que ele venha ao Brasil para prestar os devidos esclarecimentos. Podiam ter feito isso há meses.

Por uma educação de qualidade

 As lições de casa de quem ensina

A educação de qualidade no Brasil não só é possível, como em vários lugares já é uma realidade. O próximo passo é converter exemplos dispersos em aprendizado para o sistema inteiro
Estadão Editorial
30/8/26
O levantamento do Todos Pela Educação sobre o Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) de 2025 encontrou em Joinville (SC) uma das melhores aprendizagens entre as grandes redes municipais nas quatro comparações: Português e Matemática, no 5.º e no 9.º ano. No Brasil, metade dos alunos do 5.º ano alcança o nível adequado em Matemática; no 9.º, a proporção cai para 18,8% e, ao fim do ensino médio, para 8,5%. O avanço obtido nos anos iniciais se dissipa justamente quando os conteúdos ficam mais complexos.
Joinville oferece o fato novo, porém está longe de ser um acidente solitário. Sobral (CE), Teresina e outras redes obtêm bons resultados em regiões, escalas e condições sociais muito diferentes. A diversidade desautoriza o conforto fatalista segundo o qual pobreza ou território condenariam os alunos ao fracasso. Também enfraquece a procura por um programa milagroso. Os nomes das políticas variam; o traço comum está no modo como elas se encaixam.
As redes que ensinam mais organizam a escola e a secretaria em torno da aprendizagem de cada aluno. Um currículo claro determina o percurso. Avaliações próximas da sala de aula revelam onde ele foi interrompido e provocam uma resposta antes que a dificuldade se acumule. A formação dos professores trabalha os erros encontrados, enquanto diretores e equipes técnicas ajudam a transformar o diagnóstico em novas aulas. Outra avaliação verifica se houve avanço.
Teresina mostra essa engrenagem em movimento. A Prova Teresina situa os estudantes por nível de aprendizagem e desencadeia respostas diferentes: quem está abaixo do básico recebe uma hora adicional diária de Português e Matemática; alunos no nível básico têm reforço aos sábados. Os resultados orientam a formação quinzenal dos professores. Nas visitas às escolas, superintendentes observam aulas e ajudam os diretores a ajustar a intervenção. O dado percorre um caminho curto entre a prova e o aluno.
Sobral acrescenta uma dimensão menos vistosa, mas decisiva: o tempo. Depois de descobrir, em 2000, que quase metade das crianças do 2.º ano não lia, o município fez da alfabetização uma prioridade. Em torno dela, estruturou currículo e materiais, preparou professores e diretores e preservou o rumo por mais de duas décadas. Continuidade, nesse caso, significou acumular competência e corrigir instrumentos, em vez de rebatizar a política a cada eleição.
O teste mais duro vem na passagem aos anos finais. Aos 11 ou 12 anos, o professor de referência cede lugar a vários especialistas que muitas vezes pouco conversam entre si, justamente quando o adolescente mais precisa de vínculo e orientação. O currículo comum, o acompanhamento individual e a coordenação entre docentes precisam impedir que essa mudança dissolva a responsabilidade pelo aluno. Alfabetizar abre o caminho; a rede ainda terá de mantê-lo transitável.
Essa combinação requer cuidado ao ser reproduzida. Se a cobrança por resultados for mal desenhada, a rede pode estreitar o currículo, engessar o professor e premiar a manipulação. A régua deve alcançar o conhecimento efetivo e cada criança que ficou para trás. Médias altas e aprovação quase universal podem esconder alunos abaixo do básico, escolas negligenciadas e conteúdo raso.
Entre as experiências já testadas para dar escala à qualidade, o Ceará oferece o exemplo mais sólido. O Estado levou aos municípios avaliação, materiais, formação, assistência técnica e incentivos, aproveitando lições e quadros surgidos em Sobral sem retirar das prefeituras a execução cotidiana. Deu, assim, às redes mais frágeis uma capacidade que dificilmente construiriam sozinhas. A União deveria exercer função semelhante, concentrando apoio onde a competência local é menor.
O novo levantamento acrescenta Joinville a um mapa que já contém experiências variadas e conhecimento acumulado. As boas redes brasileiras mostram que ensinar depende da capacidade de descobrir uma lacuna e mobilizar todo o sistema para fechá-la, ano após ano. Os programas precisam adaptar-se ao lugar, mas seus princípios podem viajar. Há pontos suficientes no mapa da boa escola pública. Cabe ligá-los para que a aprendizagem dependa menos da sorte do endereço.

Produtividade

 *Estadão: Produtividade aumenta, mas medir retorno investido é desafio*


São Paulo, 29/08/2026 - O segmento de energia também tem se beneficiado da inteligência artificial (IA). Na gigante do setor Vibra, maior distribuidora de combustíveis do País, a combinação da IA generativa e reconhecimento de imagem levou a uma redução de custos de cerca de R$ 900 milhões no segundo trimestre de 2024, além de liberar capital de giro e ampliar a eficiência operacional.


Segundo Aspen Andersen, vice-presidente de gente, tecnologia e ESG da Vibra, a plataforma Posto 360 2.0, que usa IA para apoiar a gestão de postos, já gerou mais de R$ 100 milhões em ganhos de produtividade. Usada atualmente em cerca de 600 postos, a ferramenta deve chegar a 1,1 mil unidades até o fim do ano.


A IA permite correlacionar dados com horários de pico e de menor movimento, ajudando a redistribuir tarefas da equipe e melhorar o atendimento. “Operamos em um negócio em que qualquer eficiência em alguma parte da cadeia é relevante. São escalas muito grandes”, afirma Andersen.


A Vibra também usa IA generativa para preparar executivos de vendas antes das visitas aos clientes. A tecnologia reúne histórico de transações, relacionamentos e informações estratégicas em um relatório, reduzindo o tempo gasto pelos vendedores na preparação. Segundo Andersen, a ferramenta já contribuiu para uma receita adicional de cerca de R$ 15 milhões.


MAIS COM A MESMA EQUIPE. O ganho de produtividade também aparece na Synvia, empresa brasileira de estudos clínicos. A área de tecnologia cresceu 30% nos últimos três anos, mas, segundo o CEO Pedro Ducci Serafim, a entrega da equipe triplicou.


Antes da adoção da IA, um dos sistemas da companhia levou dois anos para ser lançado. Mais recentemente, com uma equipe 30% maior e o uso da tecnologia, a empresa desenvolveu mais de três sistemas em aproximadamente um ano. Em uma tarefa de conferência documental, o tempo de trabalho caiu de dez horas para menos de uma. Na montagem de dossiês regulatórios, a redução chega a 70%.


“Tem muita coisa que precisa de uma decisão humana. Nós desenvolvemos uma ferramenta usando IA para tudo que não precisa necessariamente ser feito por um humano”, diz Serafim.


No iFood, agentes de IA ajudam desenvolvedores a identificar bugs, consultar repositórios e sugerir alterações. Segundo a diretora de tecnologia e inovação, Isabella Piratininga, algumas demandas que levavam duas semanas agora são concluídas em sete dias. A empresa afirma trabalhar com o mesmo tamanho de equipe, mas com mais projetos.


O grupo soma 27 mil agentes de IA criados internamente, dos quais cerca de 12 mil estão ativos. A companhia também busca reduzir o custo dos modelos usados. “Em alguns casos, conseguimos trocar por um modelo cerca de 80% mais barato sem cair a qualidade”, afirma Isabella.


DESAFIO. Não há, entre as empresas ouvidas pela reportagem, uma metodologia única para medir o retorno financeiro da IA. Na Synvia, os ganhos são avaliados principalmente pela evolução das entregas e pela comparação do tempo gasto antes e depois da implementação. A empresa desembolsa cerca de R$ 250 mil por mês com IA, considerando tokens e servidores, e estuda estabelecer limites de consumo.


No iFood, métricas como custo, conversão, produtividade e eficiência são usadas para avaliar as ferramentas. A companhia não calcula um único “ROI” (retorno sobre investimento) da IA.


Oliver Jay, vice-presidente da OpenAI, dona do ChatGPT, afirma que a dificuldade de medir o retorno não deve impedir a adoção da tecnologia. “Não vale a pena gastar muito tempo tentando calcular o ROI, porque basta que um dos fluxos de trabalho seja automatizado para que a solução se pague”, disse em entrevista ao Estadão.


Segundo Jay, a própria OpenAI economizou milhões de dólares no processo preparatório para a abertura de capital ao utilizar IA em vez de contratar auditores e outros especialistas.


Um estudo do centro de pesquisas Reglab, encomendado pela OpenAI, estima que o uso da IA no Brasil pode adicionar R$ 986,7 bilhões à economia até 2030, com os maiores ganhos de produtividade concentrados na indústria de transformação, nos serviços e no comércio.


NOVA FASE. Os casos mostram que a IA generativa nas empresas está mudando de fase. Se antes a tecnologia era testada em diferentes atividades para descobrir suas possibilidades, agora o foco está em aplicações capazes de aumentar produtividade, reduzir custos e gerar receita.


Segundo a PwC, as empresas que mais usam IA têm ganhos de receita e eficiência até 7,2 vezes superiores aos das demais. O diferencial está em integrar a tecnologia à estratégia de negócios e usá-la também para criar novas fontes de receita.


Levantamento da EY mostra que 88% das empresas utilizam inteligência artificial e 79% já usam IA generativa. Apenas 38%, porém, dizem que a tecnologia efetivamente gera valor real e transformador, com impacto perceptível no lucro. “O Brasil aparece como um dos pioneiros. Hoje, 94% das pessoas que têm acesso à internet já usam IA. Nas empresas, são 88%”, afirma David Dias, sócio da EY.


(JAYANNE RODRIGUES e LUCAS AGRELA)


Broadcast+

Ajuste fiscal

 *Estadão: Ajuste fiscal é condição para evitar uma crise maior no País, afirmam economistas*


São Paulo, 29/08/2026 - Os economistas Elena Landau e José Roberto Mendonça de Barros são críticos do comportamento de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). Na avaliação deles, a Corte vive uma crise de credibilidade e eles defendem uma discussão mais ampla sobre o processo de eventual impeachment de seus integrantes.


“Eu era contra impeachment de ministro do Supremo como bandeira política, porque esse assunto veio por conta da discussão de 8 de Janeiro e tal”, afirma Elena Landau, economista e advogada. “Hoje, a pauta sobre o Supremo não é uma pauta bolsonarista. Hoje, a pauta do Supremo é uma pauta da sociedade. E a sociedade não compra mais que os abusos do Supremo são em nome da democracia.”


“No caso específico do Supremo, eu acho que ele não percebeu, porque vive numa bolha, mas passou do ponto de não retorno”, acrescenta Mendonça de Barros, ex-secretário de Política Econômica e sócio-fundador da MB Associados.


Elena Landau e Mendonça de Barros participaram do quarto debate da série do Estadão que discute os desafios econômicos para o próximo governo, a partir de 2027, quando se inicia um novo mandato presidencial.


Os dois também mostraram pessimismo com a economia e dizem que o próximo governo - seja qual for o resultado da eleição - precisa avançar com uma agenda fiscal se quiser evitar uma piora acentuada da economia brasileira. “Se houver reeleição e a opção for manter a política atual sem nenhuma correção, o problema pode aparecer rapidamente. Não sei se isso deve ser chamado de otimismo, mas as circunstâncias podem impor uma mudança”, diz Mendonça de Barros. Segundo Elena Landau, “as medidas econômicas necessárias são relativamente conhecidas”. “O problema é político”, afirma.


O Brasil enfrenta problemas de governança no setor público e no privado. Qual é a dimensão desse problema?

Elena Landau: O pano de fundo é uma crise institucional e moral. O Congresso passou a fazer política pública muitas vezes voltada para seus próprios interesses, descolado da sociedade. O Executivo também está isolado, com acúmulo de sigilos e perda de transparência. E o Judiciário está envolvido em uma série de controvérsias, do Supremo às instâncias inferiores. Sabemos quais são as fórmulas para sair disso. É preciso fortalecer as instituições, recolocá-las em seus papéis e recuperar uma relação mais harmônica entre os Poderes. No setor público, isso é ainda mais importante, porque qualquer desvio afeta toda a sociedade. A crise institucional desestimula o bom investidor, o servidor público e o cidadão que procura agir dentro das regras de transparência e responsabilidade. José Roberto chama isso de problema de gestão e governança. Eu chamo de crise moral e institucional. No fundo, estamos falando da mesma coisa.


Mendonça de Barros: Concordo com a Elena. E acrescentaria que esse processo não começou agora. Ele vem se acumulando e está se tornando mais visível. A imprensa e diferentes setores da sociedade passaram a reagir, o que me impede de ser totalmente pessimista. Minha experiência mostra que o Brasil costuma mudar quando chega perto do abismo. Foi assim com a inflação. Sem uma situação-limite, prevalecem a acomodação e a resistência às reformas. Hoje, além do problema institucional, temos um problema econômico grave, ligado ao desequilíbrio fiscal. O crescimento vem desacelerando, as recuperações judiciais aumentaram e os instrumentos que ajudaram o País em outros momentos se esgotaram. A China impulsionou a economia na primeira década do século; depois vieram o agronegócio e o petróleo. Mais recentemente, houve aumento da carga tributária. O diagnóstico está cada vez mais claro: sem reorganizar minimamente as finanças públicas, o Banco Central terá pouca margem para reduzir os juros. Estamos nos aproximando de uma situação perigosa, agravada pela incerteza internacional.


Elena Landau: Minha preocupação é também saber quem terá legitimidade e capacidade para comandar uma saída. Fernando Henrique Cardoso chegou ao governo depois de participar diretamente da formulação do Plano Real e reuniu uma equipe que sabia onde queria chegar. Michel Temer, apesar de todas as dificuldades políticas, também montou rapidamente uma equipe com um diagnóstico claro. Hoje, as soluções econômicas estão sobre a mesa. O problema está na capacidade política de executá-las. Minha maior preocupação é com os Poderes, a representatividade e, especialmente, o Supremo. Aquele que, em tese, pode errar por último, precisa também estar sujeito às consequências de erros graves. Se a população está apática e descrente das instituições, como o investidor olha para o Brasil? Há uma taxa de juros elevada que pode compensar parte do risco, mas a incerteza institucional pode afastar investimentos.


Mendonça de Barros: Há, por outro lado, uma oportunidade. O Brasil é um dos poucos países que vêm atravessando relativamente bem o tumulto provocado pela reorganização da economia global. Temos recursos naturais competitivos, produzimos bens de que o mundo precisa, podemos ampliar a produção e estamos fora das principais zonas de conflito. Isso pode trazer uma transferência de renda do exterior e novos investimentos. É uma das alavancas que podem ajudar o País a enfrentar os problemas internos.


E como vocês veem 2027? O Brasil sai do abismo ou cai nele? 

Mendonça de Barros: Acho que 2027 será pior do que este ano. Nossa projeção é de crescimento de 1,8% neste ano e de apenas 1% no próximo. Com esse ritmo, o País pode se aproximar de uma recessão. O melhor cenário seria a percepção, entre os agentes políticos e econômicos, de que o risco se tornou real. Essa percepção já chegou às empresas e aos investidores. A questão é saber se quem vencer a eleição terá capacidade de reconhecer o problema e agir.


Elena Landau: Sou pessimista porque não vejo, até agora, uma movimentação compatível com a gravidade da situação. A discussão eleitoral ainda gira, por exemplo, em torno de saber se os juros causam a dívida ou se a dívida provoca juros altos. Há um número crescente de recuperações judiciais, famílias endividadas e uma desaceleração econômica em curso. É possível produzir um choque de credibilidade, mas isso dependerá do vencedor da eleição e da equipe que formar. Se Lula for reeleito, terá de promover mudanças difíceis, como reformas nas despesas obrigatórias. Se vencer a oposição, será preciso saber se terá equipe e força política para aprovar um programa consistente. Meu otimismo está no próprio País. Quando as condições aparecem, o investimento privado responde, como ocorreu nas concessões e nas parcerias público-privadas. O problema é que o Brasil continua recorrendo a soluções fragmentadas: cria-se um subsídio aqui, uma linha de crédito ali, um benefício para determinado setor. O resultado é uma economia cada vez mais complexa e dependente de exceções.


Mendonça de Barros: Há também mudanças estruturais importantes. O antigo sistema de proteção à indústria nacional está sendo desafiado. A entrada de produtos chineses, especialmente dos carros elétricos, aumentou a concorrência e está obrigando empresas instaladas no País a reduzir preços e ganhar eficiência. Os símbolos da indústria brasileira também mudaram. Empresas como Embraer e WEG representam uma economia mais integrada à competição internacional.


Elena Landau: Exatamente. A concorrência é fundamental. O problema é que os lobbies continuam fortes. Todo setor se considera importante o suficiente para merecer um tratamento especial. Acho que seria necessário regulamentar de forma mais transparente a atividade de lobby. Mas o exemplo precisa vir de cima. Não adianta exigir transparência de representantes privados se os próprios dirigentes dos Poderes se reúnem para discutir acordos políticos sem dar explicações à sociedade. Também é preciso distinguir o lobby de decisões baseadas em uma visão equivocada da economia. Muitas vezes, o governo cria subsídios e linhas especiais de crédito acreditando que isso estimulará o investimento, mas essas exceções reduzem a eficácia da política monetária e acabam pressionando os juros. Uma estrutura tributária mais simples e isonômica reduziria os espaços para privilégios, lobby e corrupção. Quanto mais “caixinhas” existirem, maior será a disputa por benefícios.


Mendonça de Barros: O ponto central continua sendo o ajuste fiscal. Não será suficiente para resolver todos os problemas, mas é a condição inicial para recuperar a credibilidade e permitir uma redução mais consistente dos juros. Mudanças complexas costumam depender de catalisadores. A percepção de que estamos nos aproximando de uma situação-limite pode produzir esse movimento. Se houver um ajuste fiscal minimamente consistente, poderá se formar um círculo virtuoso: mais credibilidade, juros menores e recuperação da atividade.


Elena Landau: Concordo que as medidas econômicas necessárias são relativamente conhecidas. O problema é político. Reduzir o crescimento das despesas obrigatórias significa discutir temas como Previdência, salário mínimo e vinculações orçamentárias. Minha dúvida é se o próximo presidente terá capacidade de fazer isso. Tenho receio de que o debate eleitoral termine em promessas incompatíveis com a situação fiscal e que, depois da eleição, o governo seja obrigado a mudar radicalmente de rumo.


Mendonça de Barros: Se houver reeleição e a opção for manter a política atual sem nenhuma correção, o problema pode aparecer rapidamente. Não será preciso esperar três anos. A inflação pode acelerar, o câmbio subir e empresas começarem a enfrentar dificuldades. Não sei se isso deve ser chamado de otimismo, mas as circunstâncias podem impor uma mudança. A casa está deteriorada e será necessário construir algum tipo de sustentação.


Como vocês avaliam o próximo Congresso e o debate sobre o Supremo?

Elena Landau: Eu era contra impeachment de ministro do Supremo como bandeira política, porque esse assunto veio por conta da discussão de 8 de Janeiro e tal. Totalmente deslocada. Hoje, a pauta sobre o Supremo não é uma pauta bolsonarista. Hoje, a pauta do Supremo é uma pauta da sociedade. E a sociedade não compra mais que os abusos do Supremo são em nome da democracia. Pelo contrário, os abusos vêm fragilizando o sistema democrático. Sou a favor do impeachment de um ministro do Supremo, porque acho que, já que você erra por último, você tem de também sofrer as consequências de um erro grave. Chegou a um ponto que o ministro do Supremo precisa de carro blindado para ir à praia, porque ele não consegue andar na rua mais. Talvez, um processo de impeachment - não vou dizer qual, porque tem vários candidatos - seja uma maneira de dizer: ‘Olha, você está errando muito. Está abusando do seu direito de ser, entre os Três Poderes, aquele que, no fundo, tem o poder de julgar os outros dois’. E tudo indica que vamos ter um Congresso mais à direita, o que significa uma questão da governabilidade no caso de reeleição do Lula, que hoje já é considerado um Executivo fraco, de como é que ele vai se adaptar com os desafios da sua própria herança. Por outro lado, se for um candidato da oposição, o Congresso vai ter de apoiar esse candidato da oposição se ele vier com as ideias que tem de vir. No Congresso, tem de voltar à comissão, tem de parar o regime de urgência.


Mendonça de Barros: No caso específico do Supremo, acho que ele não percebeu, porque vive numa bolha, mas passou do ponto de não retorno. Basicamente é isso. Não tem mais o respeito que tinha antes. Acho que vai acontecer alguma coisa do tipo, alguma coisa séria de impeachment de pelo menos um caso. Não sei se vai chegar até o fim, mas vai mostrar seriamente que esses senhores não têm mais todo o poder que julgam ter. Vai ter de acontecer de fora. É o mesmo argumento. Esse choque tem de vir de fora, porque, obviamente, lá não tem a menor chance de sair. No Congresso, como é muita gente, eu acho mais complicado. Eu acho que a chance de alguma melhora no Congresso é de uma nova geração chegar, porque essa geração que comanda dificilmente vai mudar.


Elena Landau: O País precisa recuperar uma referência institucional e uma ideia de que boas práticas devem prevalecer sobre as más. Hoje, há uma sensação de desorganização e de perda de confiança que afeta desde o comportamento cotidiano até o funcionamento das instituições. Também não conseguimos enfrentar adequadamente o avanço do crime organizado, que se expandiu para diferentes setores da economia. É um dos sinais mais preocupantes da deterioração institucional.


Mendonça de Barros: A situação é mais complexa do que parece. O Brasil precisa interromper uma trajetória de deterioração econômica e institucional. Isso não acontecerá de forma rápida. Reconstruir a governança democrática, a governança privada e a confiança nas instituições levará tempo. Mas o primeiro passo é mudar a direção. O ajuste fiscal é uma condição básica. Depois, será necessário reconstruir, gradualmente, as regras, a transparência e a capacidade das instituições de funcionar dentro de seus limites. Sem isso, continuaremos apenas escorregando.


(LUIZ GUILHERME GERBELLI)


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Correios

 *Correios: Prejuízo líquido sobe no 1º semestre, a R$ 5,5 bi, mais cai no 2º tri, a R$ 2,4 bi*


Por Aramis Merki II


São Paulo, 29/08/2026 - Os Correios registraram prejuízo líquido de R$ 5,55 bilhões no primeiro semestre de 2026, alta de 30,36% ante o resultado negativo de R$ 4,26 bilhões de igual período de 2025.


No segundo trimestre, o prejuízo líquido foi de R$ 2,39 bilhões, queda de 5,5% em relação ao prejuízo de R$ 2,53 bilhões registrado no mesmo período de 2025. Na comparação com o primeiro trimestre de 2026, quando o prejuízo foi de R$ 3,16 bilhões, houve redução de 24,4%.


A receita líquida de vendas e serviços somou R$ 4,01 bilhões no segundo trimestre, queda de 5,41% ante os R$ 4,24 bilhões registrados um ano antes. Na comparação com o primeiro trimestre de 2026, porém, a receita cresceu 3,8%, segundo o balanço de resultados publicado neste sábado, 29.


Em nota, a empresa aponta que os resultados ocorrem em meio à implementação de um plano de reestruturação, que inclui revisão de despesas e contratos, reorganização da companhia, aumento da eficiência operacional e medidas para ampliar a geração de receitas.


"O resultado acumulado do semestre permanece desafiador e reforça a necessidade de continuidade das medidas de reestruturação, com foco na recuperação sustentável das receitas, o aumento da eficiência operacional, a revisão de despesas e contratos e a modernização do modelo de negócios", afirma a administração dos Correios em nota que acompanha os resultados.


O governo já assumiu compromisso de realizar um aporte de capital no montante de R$ 6 bilhões até o final de 2027 nos Correios. O compromisso de injetar recursos está previsto no contrato do empréstimo de R$ 12 bilhões obtido pela estatal no ano passado com cinco bancos e garantia do Tesouro Nacional. O ministro do Planejamento e Orçamento, Bruno Moretti, informou que o aporte estará incluído na proposta de Lei Orçamentária Anual (PLOA) de 2027.


Contato: merki@broadcast.com.br


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UM TAPA NA CARA SOBRE O BRASIL - por Luiz Pondé

Trazer filósofos ao Market Makers nos colocou em um patamar diferente de profundidade das conversas. É um desafio delicioso, mas confesso ...