Álvaro Gribel, no Estadão de 03/09/2026, vai direto ao ponto.
Sou Economista com dois mestrados, cursos de especialização e em Doutoramento. Meu objetivo é analisar a economia, no Brasil e no Mundo, tentar opinar sobre os principais debates da atualidade e manter sempre, na minha opinião essencial, a independência. Não pretendo me esconder em nenhum grupo teórico específico. Meu objetivo é discorrer sobre varios temas, buscando sempre ser realista.
quinta-feira, 3 de setembro de 2026
Álvaro Gribel, OESP
Call Matinal
03/09/2026
Julio
Hegedus Netto, economista
MERCADOS EM GERAL
FECHAMENTO (0209)
Ibovespa fechou a 11ª sessão consecutiva em alta aos 185.205 pontos (+3,05%
na quarta-feira, 2), a máxima histórica de 199.354 pontos voltando ao radar. O
retorno do fluxo estrangeiro (R$ 810 milhões no acumulado em setembro), que
havia saído forte na primeira metade de agosto, explicam isso. Em verdade, a
perspectiva de uma disputa eleitoral mais apertada.
MERCADOS
PRINCIPAIS
MERCADOS
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MERCADOS 5h30 |
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EUA |
Índices |
Comentários |
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Dow Jones Futuro: +0,27% S&P 500 Futuro: +0,15% Nasdaq Futuro: +0,22% |
Os índices futuros dos EUA operam em alta nesta quinta-feira (3), com a
estabilização dos preços do petróleo e dos rendimentos dos títulos do
Tesouro. |
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Ásia-Pacífico |
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Shanghai SE (China), +0,02% Nikkei (Japão): -0,17% Hang Seng Index (Hong Kong): -0,39% Nifty 50 (Índia): -0,01% ASX 200 (Austrália): +0,46% |
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Europa |
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STOXX 600: +0,25% DAX (Alemanha): +0,29% FTSE 100 (Reino Unido): +0,05% CAC 40 (França): -0,12% FTSE MIB (Itália): +0,30% |
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Commodities |
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Petróleo Brent, -0,39%, a US$ 95,26 o barril Minério de ferro negociado na bolsa de Dalian, +1,32%, a 726,50 iuanes
(US$ 108,12) Bitcoin, +0,86%, a US$ 77.870,80 |
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Dia 0309
País pega fogo com as escandalosas descobertas das
falcatruas do ministro Alexandre de Moraes, na sua promíscua relação com
Daniel Vorcaro e o banco Master. Isso se chama traficância de influência
pesada. Nada a favor também do trânsito dos bolsonaristas nesta porcaria deste
filme financiado pelo Vorcaro, mas isso nada teve de ilegal. Foi uma simples
operação de captação de recursos junto a um ente privado, antes de todo o escândalo
estourar. Totalmente desastrada a operação, mas também totalmente inapropriada a
intervenção do tal Alcolumbre, presidente do Senado. Que nível hein amigos? Um
erro crasso de um ministro do supremo se justifica por uma errada captação de
recursos para um filme ruim? Comparar o que com o que? Nada a ver. Hoje,
temos a pesquisa
Datafolha, após a Quaest reforçar a percepção de maior chance de alternância de
poder (Lula (42%) e Flávio Bolsonaro (41%)). A crise no STF adiciona
combustível a esse movimento, enquanto o retorno dos investidores estrangeiros
amplia a reação da bolsa, dólar e juros. A perda de força da atividade também
ajuda a curva, ao abrir espaço para o BCB continuar cortando a Selic. Lá fora,
o petróleo perto de US$ 96 mantém aceso o alerta para a inflação, em meio à
guerra no Oriente Médio. Christopher Waller fala às 9h30 e pode reforçar as
apostas em alta dos juros pelo Fed já neste mês.
Agenda 0309
04h55
– Alemanha: PMI/S&P Global composto (final de ago)
05h00
– Zona do euro: PMI/S&P Global composto (final de ago)
05h30
– Reino Unido: PMI/S&P Global composto (final de ago)
06h00
– Zona do euro: Eurostat – PPI (jul)
09h30
– EUA: Pedidos iniciais de auxílio-desemprego
09h30
– EUA: Custo unitário da mão de obra (final do 2º tri)
09h30
– EUA: Balança comercial (jul)
10h45
– EUA: PMI/S&P Global composto (final de ago)
11h00
– EUA: ISM – PMI de serviços (ago)
15h00 – Brasil: BC – Pesquisa de Estabilidade Financeira
BDM Matinal Riscala
*Rosa Riscala: Trade eleitoral chega embalado ao Datafolha*
… O trade eleitoral continua no comando dos ativos brasileiros e enfrenta hoje um novo teste, com o mercado à espera do Datafolha, após a Quaest reforçar a percepção de maior chance de alternância de poder. A crise no STF adiciona combustível a esse movimento, enquanto o retorno dos investidores estrangeiros amplia a reação da bolsa, dólar e juros. A perda de força da atividade também ajuda a curva, ao abrir espaço para o BC continuar cortando a Selic. Lá fora, o petróleo perto de US$ 96 mantém aceso o alerta para a inflação, em meio à guerra no Oriente Médio. Christopher Waller fala às 9h30 e pode reforçar as apostas em alta dos juros pelo Fed já neste mês.
CADA VEZ MAIS FEIO – O trade eleitoral ganhou ainda mais força ontem, depois que a pesquisa Quaest mostrou Lula (42%) e Flávio Bolsonaro (41%) tecnicamente empatados no segundo turno, e parece encontrar combustível na crise do STF.
… A campanha petista admite preocupação com o impacto do escândalo envolvendo Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro, enquanto o presidente busca se distanciar do ministro para evitar que o desgaste favoreça o adversário.
… Lula discutiu a gravidade da crise com Edson Fachin e Gilmar Mendes e também vem consultando outros ministros do Supremo. O presidente ainda não se pronunciou e deve defender que todos sejam investigados, a exemplo do que tem falado sobre seu filho Lulinha.
… Fachin tenta encontrar uma saída institucional para “estancar a sangria” e prometeu providências nos próximos dias.
… As revelações colocaram Alexandre de Moraes sob forte pressão.
… A PF identificou 51 mensagens trocadas com Vorcaro em 21 dias e registros indicando que o banqueiro o consultou sobre o risco de ser preso.
… Moraes participou também de um almoço “ultra VIP” em hotel de Vorcaro pouco antes da negociação do contrato de R$ 131 milhões entre o Master e o escritório de sua mulher, Viviane Barci, cuja versão final foi editada pelo próprio ministro.
… As buscas no Google por “impeachment de Alexandre de Moraes” bateram recorde nesta quarta-feira.
… O PT tenta reagir trazendo Flávio e o Dark Horse para o centro da crise.
… Parlamentares de esquerda foram ao STF cobrar isonomia de André Mendonça, que retirou o sigilo do material envolvendo Moraes, mas mantém protegidos três procedimentos sobre os R$ 134 milhões negociados por Vorcaro para financiar o filme sobre Jair Bolsonaro.
… Ao menos R$ 61 milhões teriam sido pagos. Flávio admite ter pedido recursos, mas nega irregularidades e não explica o destino do dinheiro.
… A campanha petista acusa Mendonça, indicado ao Supremo por Bolsonaro, de agir seletivamente e tenta reverter uma crise que, na avaliação de aliados de Lula, pode reforçar a narrativa histórica do bolsonarismo contra Moraes e favorecer Flávio na reta final da eleição.
… Como novidade do dia, Fausto Macedo/Estadão revelou trecho do depoimento de Vorcaro a Mendonça no qual ele disse que pretende delatar integrantes do “atual governo” e citou uma viagem com o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues. O banqueiro não deu detalhes.
… Paulo Gonet pediu ontem o arquivamento das denúncias feitas por Vorcaro e afirmou que o depoimento não trouxe “fato concreto” capaz de justificar novas investigações nem “mínimo elemento de verossimilhança”.
… A manifestação da PGR deve também dificultar uma terceira tentativa de delação de Vorcaro. As duas propostas anteriores já haviam sido rejeitadas pela PF e pela Procuradoria por falta de informações e provas novas.
… A reação dos mercados mostrou a força do trade: o Ibovespa disparou acima dos 185 mil pontos, o dólar caiu para a faixa de R$ 5,10 e os juros futuros recuaram em toda a curva, com a maior percepção de chance de alternância de poder (leia mais abaixo).
DESACELERAÇÃO CONTRATADA – Além do alívio provocado pelo trade eleitoral, os juros têm fundamentos econômicos para cair. A perda de força da atividade, que tem se confirmado nos indicadores, abre espaço para o BC continuar o ciclo de cortes da Selic.
… Depois de o PIB do segundo trimestre mostrar retração do consumo das famílias mesmo em meio aos estímulos, a produção industrial mais fraca que o esperado reforçou, nesta quarta-feira, os sinais de desaceleração também no terceiro trimestre.
… A perspectiva é de perda ainda maior de fôlego no próximo ano.
… Economistas que se reuniram ontem com o diretor de Política Econômica do BC, Paulo Picchetti, avaliam que uma desaceleração da atividade está praticamente contratada para 2027, segundo participantes do encontro ouvidos pelo Broadcast.
… A avaliação leva em conta o menor impulso fiscal, os efeitos da política monetária e fatores ligados à produção agrícola. O cenário já aparece na pesquisa Focus, que prevê crescimento de 1,92% neste ano e de apenas 1,50% em 2027.
… A inflação, porém, impede uma leitura inteiramente benigna para os juros.
… Segundo as fontes, houve preocupação unânime com sua trajetória em 2027, diante dos riscos associados ao El Niño, ao petróleo, à reforma tributária e a uma eventual mudança na escala 6×1, em tramitação no Congresso.
… As incertezas podem dificultar o ritmo de convergência da inflação, mesmo com a economia perdendo força.
FICOU PARA O 2º TURNO – A PEC que acaba com a escala 6×1 não chegou ao plenário do Senado ontem e deve virar munição eleitoral. Davi Alcolumbre pretenderia pautar a proposta somente depois do primeiro turno, durante o próximo esforço concentrado do Congresso.
… Governistas avaliam que Alcolumbre quer preservar pontes com a oposição e, ao mesmo tempo, mostrar sua relevância a Lula em um eventual segundo turno. A matéria é considerada uma das principais bandeiras da campanha de reeleição do presidente.
… Randolfe Rodrigues deu outra versão para o adiamento e disse que o governo não tinha segurança para votar agora, apesar de contabilizar 53 ou 54 votos, acima dos 49 necessários. A base ainda tentará convencer Alcolumbre a convocar uma sessão extraordinária em setembro.
BLUSINHAS. Câmara marcou para hoje, às 13h55, a votação da MP que acaba com a taxa das blusinhas. Se aprovado, vai à votação no Senado.
… Prioridade do governo, a MP precisa ser aprovada até terça-feira para evitar que o imposto de importação volte a vigorar em plena campanha.
MINERAIS CRÍTICOS. Senado aprovou o projeto que cria a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos, que prevê um fundo garantidor, programa de beneficiamento, certificado de baixo carbono, cadastro de projetos, regras para leilões e mecanismos de rastreabilidade.
… O PL também criou um conselho vinculado à Presidência e pontos relevantes ainda dependerão da regulamentação do governo.
REDATA. O regime de incentivos aos data centers aprovado pelo Congresso abriu espaço para que os projetos sejam abastecidos por energia nuclear, gás natural e biometano, ao substituir a exigência de fontes “limpas ou renováveis” por “renováveis ou de baixa emissão”.
… O Redata também flexibilizou as regras para equipamentos importados, mas os benefícios de PIS/Cofins e IPI valem só até o fim deste ano.
SEGURANÇA. Ainda no esforço concentrado, a CCJ do Senado aprovou o texto-base da PEC da Segurança Pública, mas deixou os destaques para depois das eleições. O texto endurece as regras contra facções e milícias, amplia poderes da PF e dá mais autonomia a Estados e municípios.
… O relator retirou o dispositivo que destinava parte da arrecadação das bets aos fundos de Segurança Pública e Penitenciário.
A GUERRA SEM FIM – Enquanto os ativos domésticos se descolam do exterior, a rotina da guerra prossegue no Oriente Médio.
… O petróleo subiu pela terceira sessão seguida, elevando o Brent a US$ 95,63 (+1%), com a retomada dos confrontos entre Estados Unidos e Irã aumentando o risco de interrupção prolongada do fluxo por Ormuz.
… O mercado começa a precificar o custo de um conflito sem solução rápida, com efeitos mais persistentes sobre a inflação e os juros.
… A escalada ganhou força após o Irã atacar bases americanas no Kuwait, Jordânia, Bahrein, Emirados Árabes e Iraque e atingir um petroleiro saudita em Ormuz. Arábia Saudita e Catar condenaram Teerã, e Doha pediu a reabertura incondicional do estreito.
… Trump voltou a afirmar que os Estados Unidos controlam Ormuz e estão garantindo a passagem de milhões de barris, enquanto Marco Rubio avisou que Washington continuará pressionando Teerã.
… O presidente americano disse que a campanha não deve durar muito, mas que o país está pronto para novos ataques se necessário.
… A pressão já aparece no mercado físico. As reservas estratégicas nos Estados Unidos caíram ao menor nível desde 1982 e os estoques do DoE recuaram 4,45 milhões de barris na última semana, contra expectativa de uma alta de 300 mil.
… As exportações da Arábia Saudita caíram em agosto para cerca de 3 milhões de barris por dia, menor nível em pelo menos nove anos.
… A Opep+ se reúne domingo e, segundo fontes ouvidas pela Reuters, deve manter inalterada a política de produção para outubro. O vice-premiê russo Alexander Novak afirmou que não está nos planos do grupo discutir novos cortes na oferta.
… Com a guerra restringindo as exportações por Ormuz, porém, a capacidade do cartel de influenciar os preços perdeu força. Para a Phillip Nova, o mercado precifica cada vez mais o custo de uma guerra sem solução e problemas duradouros para os fluxos de petróleo.
… Quanto mais persistir a interrupção, maior o risco de a alta do petróleo contaminar as expectativas de inflação e os juros. O alerta ganha peso hoje, quando Christopher Waller, do Fed, fala pela manhã (9h30) e pode reforçar as apostas em alta neste mês.
MAIS AGENDA – Além de Waller, mais dois dirigentes do Fed falam hoje: Beth Hammack (Cleveland) e Austan Goolsbee (Chicago) participam de evento às 16h. Entre os indicadores, pedidos de auxílio-desemprego (9h30) antecedem o payroll de amanhã.
… Ainda nos Estados Unidos, são importantes o PMI de serviços da S&P Global, às 10h45, e o ISM de serviços, às 11h.
… Mais cedo, saem os PMIs de serviços da Alemanha (4h55), zona do euro (5h) e Reino Unido (5h30), além do PPI da zona do euro (6h).
… Ontem à noite, o PMI/S&P Global de serviços da China subiu para 51,4 em agosto, de 50,4 em julho. O indicador superou com folga a projeção de analistas, de avanço a 50,5. Já o PMI composto saltou de 50,8 para 52,1 no período.
… No Japão, o PMI de serviços da S&P Global avançou para 52,5 pontos em agosto, acima da leitura preliminar de 52,3 pontos.
… No Brasil, com agenda econômica esvaziada, o Tesouro faz leilão de prefixados (11h), o BC faz rolagem de até US$ 2,5 bilhões em swaps (11h30) e, às 15h, divulga a Pesquisa de Estabilidade Financeira. Mas toda a atenção está voltada para as novas pesquisas eleitorais.
… A Futura Inteligência publica seus resultados às 16h e o Datafolha não tem horário definido, mas costuma sair após o fechamento.
AFTER HOURS – A Broadcom reduziu a queda a 0,82% no pós-mercado em Nova York, após superar as expectativas no terceiro trimestre fiscal.
… O lucro ajustado por ação foi de US$ 3,32, ante projeção de US$ 3,22, e a receita atingiu US$ 29,6 bilhões, acima dos US$ 29,24 bilhões esperados. A receita de semicondutores para inteligência artificial disparou 221% em um ano, para US$ 16,7 bilhões.
… Para o trimestre atual, a companhia prevê faturamento de US$ 34,8 bilhões, ligeiramente acima do consenso.
CANTA VITÓRIA – As ligações perigosas de Moraes com Vorcaro coincidem com o empate técnico entre Lula e Flávio nas pesquisas, que ainda nem capturaram o efeito da crise de última hora, e promovem euforia coletiva no mercado.
… A tese de reeleição se esvazia, aciona um sprint no Ibovespa e derruba o dólar ao piso em um mês, enquanto os juros futuros queimam prêmio de risco, sob o alívio adicional das evidências de perda de fôlego da atividade.
… Em rápida escalada de 5.500 pontos de uma vez só, o Ibovespa saltou 3,05% ontem, rompeu os 185 mil pontos, fechou aos 185.205,09 pontos, e o melhor de tudo: com giro forte, de R$ 30 bilhões, ou seja, não faltou comprador.
… O movimento contou com o impulso das bolsas em Nova York, mas a prova dos nove de que nem todo o otimismo foi importado, de que a festa foi nossa mesmo, veio do desempenho do EWZ brasileiro, que disparou 4,16% lá fora.
… O frenesi do trade eleitoral levou o Ibovespa a emplacar a décima primeira alta consecutiva. Só vale o alerta de que, quanto mais sobe, mais a bolsa se torna vulnerável a precipitar uma realização natural dos lucros recentes.
… Estrategista advertiu ao Broadcast que o entusiasmo é exagerado e que o perigo é de queda pesada quando cair.
… BB segue brilhando, pela maior sensibilidade ao quadro político. Exibiu rali de 5,50%, a R$ 22,26. O setor subiu em bloco: Itaú PN, +3,84% (R$ 41,41); Bradesco PN, +2,13% (R$ 17,75); e Santander unit, +1,98% (máxima de R$ 29,92).
… A Vale também avançou forte (+3,19%; R$ 80,80), ignorando a queda firme do minério de ferro (-1,11%).
… As ações da Petrobras (PN +2,84%, a R$ 48,20; e ON +2,23%, a R$ 53,54) superaram o ritmo de alta do petróleo e chegaram à quinta valorização consecutiva, com a disputa eleitoral e a volta dos estrangeiros turbinando os ganhos.
… No topo do Ibovespa, Magalu saltou 16,88% (R$ 5,40), após acordo para vender produtos no Mercado Livre.
… Tendo o quadro eleitoral como fonte de inspiração, também o câmbio transmitiu ânimo com a força da chapa da direita nas pesquisas, já que, em tese, a alternância de poder traria maior compromisso com a agenda fiscal.
… Após três pregões em queda, o dólar voltou à faixa de R$ 5,10. Caiu firme (-0,91%), a R$ 5,1085. O real ostentou ontem o segundo melhor desempenho entre as 33 moedas mais importantes do mundo, só atrás do won coreano.
… Além do fluxo de estrangeiros para ativos domésticos, o câmbio conta no pano de fundo com o petróleo caro.
TODOS NA MESMA PÁGINA – Levou tempo para a Selic superelevada mostrar a sua eficácia sobre a desaceleração econômica, mas os últimos indicadores de atividade parecem contar a mesma história, de perda gradual de ritmo.
… Os sinais estão nas entrelinhas. Esta semana, como se viu, o PIB do segundo trimestre cresceu 0,5% e superou o consenso de 0,4%, mas a queda de 0,4% do consumo das famílias na margem foi o ponto que chamou a atenção.
… Ontem, a produção industrial de julho interrompeu dois meses de queda (-1% em maio e -1,6% em junho), mas cresceu tão pouco (0,2%), abaixo da previsão de 0,5%, que nem de longe reverteu as duas perdas anteriores.
… Segundo economistas consultados pelo Valor, o dado não muda o cenário geral de uma indústria em desaceleração mais clara nesta segunda metade do ano. O olhar do mercado já está para o horizonte de 2027.
… Esta semana, a MB Associados não descartou até mesmo a possibilidade de recessão em 2027. O que se comenta no mercado é que um maior controle fiscal, aliado à política monetária, vai impor freio ao impulso da atividade.
… A percepção de que a locomotiva começa a desacelerar, combinada à esperança renovada em troca do governo no ano que vem, induziu os juros futuros a mais uma rodada de queda ontem, especialmente na ponta mais longa.
… No fechamento, o DI para janeiro de 2027 marcava 13,575% (de 13,586% no ajuste anterior); Jan/28, 13,650% (contra 13,751%); Jan/29, 13,950% (de 14,114%); Jan/31, 14,200% (de 14,403%); e Jan/33, 14,320% (de 14,514%).
TEMPO É DINHEIRO – Pressionado pela urgência de Bessent em estabilizar o iene e proteger a economia americana da alta das taxas dos juros dos Treasuries, o presidente do BC do Japão, Kazuo Ueda, admite subir o juro em breve.
… Se já será na reunião deste mês, é o que ainda se verá. Mas o que se percebe hoje é um BoJ com muito mais pressa de agir. Historicamente, o intervalo de ação do banco é mais lento e espaçado do que outros grandes BCs.
… O padrão observado tem sido de ajustes a cada seis meses, aproximadamente. Mas, no contexto atual, o BC japonês pode estar inclinado a reduzir o intervalo à metade, depois de ter apertado a taxa de juro em julho.
… A perspectiva de uma ação antecipada e a percepção de que as autoridades japonesas estão de olho na volatilidade excessiva do câmbio levaram o iene a disparar quase 0,90% ontem, para 158,90 por dólar.
… Persiste, porém, a desconfiança em parte do mercado de que a moeda do Japão terá dificuldades para bancar sua força, especialmente porque também o Fed pode resolver ser mais agressivo na política monetária contra a inflação.
… Na zona do euro, o dirigente do BCE Joachim Nagel indicou alta do juro semana que vem. O colega Gabriel Makhlouf foi na mesma linha e disse se sentir “inquieto” com o fato de os preços estarem oscilando acima de 3%.
… Segundo ele, mesmo em 2,5%, a taxa de depósito de referência ainda estaria em um nível que não desaceleraria a atividade econômica. “A política não é restritiva e só entraria neste território quando ultrapassássemos 2,75%.”
… O euro fechou de lado (-0,02%), a US$ 1,1588, e a libra perdeu 0,20% (US$ 1,3488), com o índice DXY, que mede o desempenho do dólar frente a uma cesta de seis moedas fortes, em queda marginal de 0,08%, a 99,596 pontos.
… Apesar de o petróleo ter subido, os juros dos Treasuries testaram leve queda, aproveitando que o relatório de emprego ADP mostrou que o setor privado americano criou 38 mil vagas em agosto, ritmo mais lento desde janeiro.
… O dado veio abaixo das estimativas de 46,5 mil. Em compasso de espera pelo payroll, a taxa da Note de dois anos caiu a 4,371% (de 4,395%), a de dez anos, a 4,783% (de 4,794%) e a do T-bond de 30 anos, a 5,260% (de 5,266%).
… Também as bolsas em Nova York optaram por uma melhora de humor, interrompendo a sequência de três pregões negativos. As big techs ajudaram, com alta acentuada de 3,21% da Nvidia e de 2,47% da Meta.
… O Dow Jones subiu 0,56%, a 53.061,95 pontos; S&P 500, +0,46% (7.666,60 pontos); e Nasdaq, +0,45% (6.217,83).
CIAS ABERTAS NO AFTER – Fabio Schvartsman assume a presidência executiva da CSN hoje, substituindo Benjamin Steinbruch, que deixa o cargo após mais de trinta anos e passa a presidir o conselho de administração.
GERDAU. Citi manteve recomendação de compra e preço-alvo de R$ 29, com potencial de alta de 14,1% sobre o fechamento de ontem. Banco vê América do Norte como principal pilar da tese de investimento na companhia.
PRIO produziu média de 186,1 mil barris de óleo equivalente/dia em agosto, queda de 5,2% ante julho, com impacto de paradas em Albacora Leste, Bravo e Peregrino. Vendas recuaram de 6,34 milhões para 5,38 milhões de barris.
REFIT. Justiça determinou reintegração de demitidos coletivamente e depósito de R$ 10 mi para garantir obrigações trabalhistas, após falência decretada. Grupo fica impedido de novas demissões em massa sem negociação sindical.
COSAN. Goldman Sachs cortou preço-alvo de R$ 5,10 para R$ 3,80 e manteve recomendação neutra. Revisão considera menor valor atribuído à Compass, Raízen e Moove e novas premissas para os resultados.
BRB. Tesouro manteve nota C de capacidade de pagamento do Distrito Federal, impedindo garantia da União para empréstimo ao governo local e dificultando plano de captação de R$ 6,6 bi para cobrir o rombo do Master no banco.
SANTANDER e American Express encerraram parceria para emissão de cartões no Brasil. Produtos Gold e Platinum serão bloqueados para novas compras a partir de setembro, enquanto o Centurion será cancelado em outubro.
INTER&CO recebeu autorização parcial da CVM para descontinuar seus BDRs patrocinados. Investidor poderá optar por ações negociadas na Nasdaq ou BDRs não patrocinados; quem não se manifestar, terá papéis vendidos nos EUA.
PAGUE MENOS. Morgan Stanley voltou a deter 5% do capital, ou 36,3 milhões de ações ON, após ter informado no dia anterior redução da participação para 4,9%.
EUROFARMA pagará R$ 3,1 milhões em dividendos em 8/9, equivalentes a R$ 0,003136 por ação. Companhia não informou a data-base para o pagamento.
AMBIPAR. STJ manteve suspensa a assembleia de credores, mas interrompeu a contagem do período de proteção contra execuções de dívidas até nova decisão sobre a recuperação judicial.
ENERGISA comprou cinco usinas solares da Matrix, com 26,75 MWp de capacidade instalada, ampliando o portfólio de geração distribuída. Valor da operação não foi divulgado e negócio ainda depende de aprovação do Cade.
AZUL recebeu da Embraer sua 50ª aeronave E195-E2. O avião também marcou o 2.000º E-Jet produzido pela fabricante brasileira; desde 2008, a Azul já adquiriu 145 aeronaves da Embraer.
EZTEC negocia com Itaú locação das duas torres do Esther Towers, em São Paulo, segundo fontes do Broadcast…
… O complexo soma 94 mil metros quadrados de área locável e, se fechado, será a maior locação de escritórios já registrada de uma só vez no País.
GPS concluiu a aquisição de 65% do Grupo Aster, que atua em segurança patrimonial, segurança eletrônica e facilities. Alvo teve receita bruta de cerca de R$ 154 milhões nos 12 meses encerrados em maio.
CORREIOS acionaram plano de contingência após a Anac suspender por prazo indeterminado as operações da Total Linhas Aéreas, prestadora de serviços à estatal. Cargas estão sendo redistribuídas entre outros operadores logísticos.
quarta-feira, 2 de setembro de 2026
Mickey no espelho, Gustavo Poly
Mickey no espelhoGlobo, Disney e a convergência divergente. O que a jornada da ESPN sugere sobre o futuro do sportv, da getv e da distribuição esportiva no Brasil
Nossa história começa em julho de 1995, quando a Walt Disney Company anunciou a compra da Capital Cities/ABC por US$ 19 bilhões. Mickey comprava ali duas marcas esportivas: a ABC Sports – e seu Wide World of Sports. E a Entertainment and Sports Programming Network criada em 1979, que dezesseis anos depois já chegava a 70 milhões de domicílios americanos. As duas marcas conviveram por quase onze anos até que, em 2006, a Disney resolveu apostar na ESPN como marca única de esporte. A ABC Sports foi abandonada – e as transmissões de TV aberta passaram a carregar a marca ESPN on ABC. Não era uma decisão difícil – a imagem da ESPN era ótima. O canal tinha uma presença nacional e uma identidade digital marcante (que começara nos anos 90 com seu site, o ESPN Sports Zone). A Disney não abriu mão do alcance da ABC. Apenas decidiu que seu esporte teria um único nome, independentemente da tela pela qual chegasse ao público. A clareza de marca veio cedo. A ESPN era (e continua sendo) a principal engrenagem esportiva do bundle das operadoras americanas. Um canal caro financiado por dezenas de milhões de assinantes. Enquanto a base crescia, a combinação entre direitos exclusivos, publicidade e remuneração por domicílio produzia margens extraordinárias. Mas… todo carnaval tem seu fim. Um dia chegou o tal do cord-cutting. Enquanto isso no Brasil… A Globo que conhecemos construiu uma série de negócios de sucesso, a começar pelo jornal fundado em 1925. Depois vieram a rádio e a TV, em 1965, que transformou a empresa numa entidade nacional mitológica. Nos anos 90 foi criada a Globosat de olhos no nascente negócio de TV paga. A seguir, veio a Globo.com. Quase todos esses negócios cresceram separadamente. Isso construiu um ethos interno que teve dificuldade para lidar com a convergência digital – que começou a chegar quando o grupo enfrentava uma dívida brutal em dólar no início dos anos 2000. A crise começou a ser equacionada pouco depois da explosão da bolha inicial da internet. Em 2006, a Globo já voava novamente. A TV aberta faturava alto, o negócio de TV paga decolava de vez. No esporte, a empresa tinha quase todos os direitos. O plano de futebol da TV Globo era tão cobiçado que os anunciantes tinham cinco minutos para renovar. O Sportv começava a brilhar nas asas dos contratos com as operadoras. O Premiere também. A crise da dívida, porém, deixou um legado: era necessário ter disciplina financeira e proteger os negócios rentáveis. Ainda em 2006 a Globo.com comprou direitos de duas ligas americanas para o nascente Globoesporte.com: a NBA (transmissões ao vivo pagas) e NFL (melhores momentos). Isso criou tensões internas. As transmissões da NBA foram até o fim dos contratos – mas a Globo.com deixou de agir como unidade de conteúdo para virar um misto de prestadora de tecnologia e fomentadora de estratégia digital. Na época, Globo e Globosat tinham visões distintas sobre o futuro esportivo. A Globosat enxergava Sportv como marca de esporte da casa - emulando a estratégia da Disney. A TV Globo acreditava na marca Globo Esporte - que era também o nome do portal. O esporte era (e segue sendo) apenas uma faceta da convergência divergente do grupo. Responda o leitor: O Globo, G1, Globonews, CBN... qual é a profunda diferença dessas marcas - além do veículo de distribuição? Naquela época, cada telejornal acreditava que devia ter um site para conversar com “seu público”. Essa difração foi contida pelos portais criados pela Globo.com - mas depois voltou com força nas redes sociais. Hoje quantas marcas da Globo têm contas em redes sociais? O RJTV1 (370 mil seguidores) tem uma conta no Instagram e o RJTV2 tem outra (90 mil seguidores). O Bom Dia Rio tem outra (460 mil seguidores). O ge e o getv têm contas diferentes nessas redes e a mesma página no YouTube. A Globo.com tentou organizar cromaticamente a multiplicidade digital do grupo a partir de um conceito: o serviço importa mais do que a marca. O público quer consumir esporte, jornalismo e entretenimento. Então, três eixos: notícias em vermelho, esporte em verde, entretenimento em laranja e três grandes portais (G1, ge e GShow). Deu certo (eles sobrevivem até hoje)... mas debaixo da superfície... a multidão de marcas continuou. De volta para o futuro… do pretérito Voltemos um pouco no tempo. O YouTube nasceu em 2005 e foi comprado pelo Google em 2006. A Amazon lançou seu Unbox em setembro do mesmo ano (ele viraria Prime Video bem depois). Em 2007, surgiram também o iPhone e o streaming do Netflix. O Instagram foi criado em 2010 – e comprado pelo Facebook em 2012. Imagine-se como líder da Globo ou da Globosat por volta de 2007. Como você lidaria com quem dizia que a internet avançaria sobre os dois negócios? Mal se falava em TV conectada. No início da década passada, os streamings começaram a ganhar tração. As ofertas desempacotadas começaram a atrair novos e velhos consumidores. De repente, a biblioteca da locadora estava em casa e não se dependia da programação de ninguém. Os pacotes lineares (ou bundles) tinham concorrência pela atenção premium. A Netflix desembarcou aqui em 2011. Nessa época, a Globosat lançou seu serviço de TVeverywhere – o Muu (que depois viraria Globosat Play). A Globo lançaria o Globoplay em 2015. No início, lá e cá, o esporte ao vivo continuou imune. A tecnologia para transmitir ao vivo para milhões de pessoas ainda era um desafio que demandava banda e escalabilidade. Mas já era evidente que uma hora essa limitação cairia. No bundle, esporte sempre foi apenas um pedaço… que para muita gente se mostrou dispensável. Em poucos anos, a queda de assinantes nos EUA se tornou assustadora. A Disney se perguntou... como lidar? Colocar a ESPN diretamente na internet aceleraria a implosão do bundle e provocaria uma óbvia reação das operadoras. Trocar uma receita imensa e previsível pelo risco de conquistar e reter cada assinante individualmente num meio incipiente não fazia sentido. Era matar a vaca que ainda dava muito leite. Mas ficar parado também era arriscado. Era necessário experimentar esse novo mundo. A Disney fechou acordos de distribuição de vídeos com plataformas, lançou aplicativo de TVeverywhere e, quando o Google lançou sua “operadora” – o YouTube TV – , em 2017, a ESPN já disse presente. Em 2018, testou um canal D2C – o ESPN+, uma espécie de ESPN que servia apenas acém e cupim, que custava US$ 4,99 mensais. O serviço trazia milhares de eventos, documentários, programação esportiva – mas não oferecia o filé-mignon dos esportes americanos. Era um laboratório para cobrança direta, entender churn, desenvolver tecnologia e conhecer o cliente. O conflito com o modelo antigo era previsível. Em 2023, a Disney tirou seus canais da Charter, segunda maior operadora americana, e cerca de 15 milhões de assinantes ficaram dez dias sem ESPN. A conta explica a briga. Era o canal mais caro da televisão americana (US$ 9,42 por mês em 2023) e o motor de trinta anos de sucesso. A Charter aceitaria pagar à Disney quase US$ 2,3 bilhões naquele ano, cerca de 30% mais do que em 2019, sendo que a audiência dos canais caíra mais da metade em relação ao pico de 2013. O bundle nunca tinha sido financiado apenas por quem assistia esporte. Para topar o acordo, a Charter recebeu o Disney+ com anúncios, o ESPN+ na camada esportiva e a garantia de receber o futuro serviço direto da ESPN. Alguns canais, como Freeform e Disney Junior, saíram da grade. Ou seja: a operadora topou pagar mais por um pacote menor, desde que o streaming fosse incluído. Em agosto de 2025, o serviço direto enfim chegou – o ESPN Unlimited - que custava US$ 29,99. O consumidor americano pôde finalmente comprar diretamente o canal e todas suas submarcas. O lançamento criou nova refrega — desta vez com o Google, que tirou os canais da Disney do YouTube TV. Foram 15 dias de apagão, US$ 110 milhões a menos no resultado operacional da ESPN no trimestre, e um desfecho familiar. A Disney preservou o preço, mas autorizou o YouTube TV a montar pacotes temáticos vendendo a ESPN separada do resto do portfólio. E os assinantes da plataforma passaram a receber o ESPN Unlimited sem custo adicional. Em suma: duas crises em dois anos por conta da mesma questão: a reconfiguração do pacote. A Disney se adaptou tática e estrategicamente a cada mercado. Nos Estados Unidos, onde a TV paga permanece relevante (hoje são 40,9 milhões de assinantes do modelo antigo e 21,3 milhões dos novos serviços), o Disney+ funciona principalmente como amostra e topo do funil: oferece uma seleção de eventos e tenta conduzir o espectador mais interessado para a ESPN completa. No Brasil, onde esse negócio nunca teve o tamanho americano e vem se desmaterializando mais rapidamente, a empresa ampliou a oferta esportiva no Disney+ Premium. Aqui, o aplicativo não serve apenas como vitrine da ESPN: tornou-se sua nova casa e procura reconstruir dentro de uma única assinatura parte do bundle perdido. Na Europa, a companhia faz outros testes. Oferece apenas uma partida semanal da LaLiga no Reino Unido; o campeonato completo, mas sem exclusividade, na França; e pacotes mais profundos, com liga e copas, nos países nórdicos. O produto direto está longe de sobrepujar o bundle. Quatro em cada cinco assinantes do plano completo recebem ESPN dentro de um pacote com Disney+ e Hulu. No mundo dos novos bundles, quem só vende conteúdo fica menor. Empacotar é preciso. Charter e YouTube TV exigiram exatamente isso — o streaming da Disney dentro dos seus próprios pacotes. De um lado e de outro do balcão, todo mundo quer manter o bundle. A Disney sabe que o esporte pode gerar alcance, justificar uma assinatura mais cara, atrair novos clientes, manter antigos e sobretudo fortalecer seu bundle proprietário. Algum malabarismo é necessário para equilibrar receita direta, decidir quanto entregar de filé no Disney+ e modular a relação com intermediários. Mas, apesar dos tropeços, é possível reconhecer a clareza de marca e uma arquitetura comum. Globo e a convergência divergente A água digital demorou um pouco mais a subir no Brasil. Mas subiu. Em 2015, ano em que a TV paga começou a cair no Brasil, o YouTube lançou o Brandcast, reunindo mais de 500 executivos de anunciantes e agências para apresentar audiência, formatos e oportunidades comerciais. A Globo talvez tenha demorado a reagir porque a disrupção demorou a chegar em seus dois encouraçados – a TV aberta e a TV paga. Mas chegou. É o dilema clássico do inovador — proteger o que dá dinheiro é sempre a decisão racional até deixar de ser. A ironia é que, por oitenta anos, cada marca nova da Globo abriu uma frente nova de receita. Jornal, rádio, TV, revista, canais pagos, portais: mais produtos significavam mais pedaços do mercado publicitário, porque os mercados eram de fato distintos. Cada um tinha seu público, seu preço e seu comprador. Hoje é o mesmo anunciante escolhendo entre inventários que competem entre si, e em boa parte o mesmo público do outro lado. Multiplicar marcas deixou de abrir mercado e passou a dividir força, investimento e mensagem. O que construiu o grupo começou a trabalhar contra ele. No esporte há uma história peculiar. Em 2017, a Globo reuniu produção de esportes da TV Globo e a área de produtos esportivos da Globosat e ensaiou uma integração vertical a partir de conteúdo. Essa nova unidade pretendia escolher o que comprar/produzir e como distribuir. Parecia um caminho convergente, mas a visão não prosperou porque a unidade não definia as estratégias maiores. E já havia uma outra mudança em gestação. Em 2019, Globo e Globosat (e Globo.com) se fundiram numa reestruturação batizada de Uma Só Globo (embora o Infoglobo continuasse fora). Foi um processo longo que pariu um modelo integrado a partir de duas grandes áreas de produto. A primeira era a televisão aberta: a TV Globo. A segunda, Produtos e Serviços Digitais, abarcava canais de TV paga, Globoplay e publishing — os sites ge, G1, GShow e Receitas. Comercial, Tecnologia e Financeiro foram unificados. A Globo.com foi integrada à Tecnologia como uma área de serviço. O Esporte se tornou uma das três áreas de produção de conteúdo, ao lado de Jornalismo e Entretenimento. No modelo operacional que, em linhas gerais, permanece… cada produto define sua estratégia e responde pelo próprio P&L. Recebe orçamento, encomenda conteúdo e decide como empacotá-lo. A televisão aberta pode escolher entre investir em direitos esportivos ou produzir uma novela. Produtos e Serviços Digitais precisa distribuir recursos entre Globoplay, Sportv, Premiere e publishing (e mais recentemente o Globo Pop). Cada produto tem incentivo para proteger seu resultado. Não chega a surpreender que esse modelo tenha criado novos silos. O arranjo faria sentido se os mercados continuassem separados. Se a TV aberta disputasse apenas com a TV aberta, o Sportv com outros canais pagos e o Globoplay com outros streamings. Agora, um jogo gratuito na getv pode gerar alcance e, ao mesmo tempo, retirar valor do Sportv ou do Premiere. Estar no YouTube pode ampliar a audiência, mas entregar à plataforma coisas como descoberta, dados e relacionamento. Distribuir pela Amazon pode acrescentar assinantes e, ao mesmo tempo, enfraquecer o Globoplay. E, como a Copa sublinhou, o YouTube se tornou o principal concorrente da TV aberta - e da Globo como um todo. Decisões que parecem pertencer a um produto passaram a produzir consequências para todo o sistema. Talvez por isso a empresa esteja discutindo uma reorganização que está perto de ser anunciada. O problema não é simplesmente ter muitas marcas. Marcas diferentes podem prestar serviços diferentes. A questão é quem decide o papel de cada produto quando distribuição, alcance, assinatura e relacionamento com o público se misturam. É preciso convergir. A produção audiovisual – antes escassa e cara – passou a ter alternativas abundantes e baratas. Qualquer um com um celular na mão é capaz de conquistar um fiapo de atenção. A distribuição, que era uma incrível barreira de entrada, migrou para plataformas híbridas e, sem trocadilho, globais. O bundle pago – que prometia ser um caminho – se diluiu e começou a ser reconfigurado debaixo dessas mesmas plataformas. A cadeia se desagregou e ganhou novos elos. Criadores disputam linguagem e atenção. Plataformas controlam descoberta, distribuição e dados e disputam assinatura e tempo de consumo. Os fabricantes de TV querem controlar a tela inicial. Clubes e ligas detêm direitos e querem monetizar diretamente seus fãs. A TV 3.0 é uma esperança no horizonte - mas não chega amanhã. O espelho imperfeito A Globo ainda reúne um conjunto de capacidades que poucos concorrentes conseguem combinar: promoção cruzada, venda publicitária, operação confiável, presença regional, talentos, relacionamento com anunciantes e força cultural para transformar um evento em acontecimento nacional. Mas nada disso assegura controle da jornada. É possível produzir o evento, promovê-lo e reunir milhões de pessoas — enquanto outra empresa controla a interface, monetiza a repercussão e a relação cotidiana com o consumidor. A Disney passou três décadas tateando como competir nesse mundo. Durante esse período, protegeu o modelo pago, testou produtos digitais, ocupou plataformas de terceiros e administrou dentro do possível a canibalização. Fez isso a partir de uma definição anterior: ESPN era sua marca esportiva. Cada janela seria explorada para preservar e estender o negócio pago. Talvez Mickey seja um bom espelho - com ressalvas. A ESPN perdeu metade da audiência desde 2013, brigou com gigantes e 80% dos assinantes de seu plano completo ainda chegam por meio de pacotes. Não há garantias nesse mundo novo. E o mercado brasileiro é peculiar. O Premiere, por exemplo, é uma jabuticaba: uma terceira camada de venda que os clubes ameaçam destruir a cada renegociação - sem perceber quão difícil é criar esse valor. Pode não ser necessário escolher uma marca única para cada vertical. Mas precisa haver uma estratégia capaz de atribuir a cada porta uma função: alcance, descoberta, assinatura, monetização ou relacionamento — e de julgar cada decisão pelo efeito sobre o conjunto, não apenas sobre o P&L de um produto. A própria Globo formulou o princípio quando organizou os portais em três eixos partindo de uma clareza singela: o serviço importa mais do que a marca. A marca é consequência do serviço que ela presta. Se não há um serviço realmente diferente para o usuário, criar outra marca pode ser apenas a organização interna se projetando para fora. O princípio funcionou nos portais, mas nunca foi aplicado à própria estrutura. Assim, cada produto protegeu seu território, o que tornou difícil uma resposta sistêmica quando outros atores avançavam sobre a relação com o consumidor. A Disney entendeu que não poderia impedir a multiplicação das portas, mas precisava definir aonde elas deveriam levar. Claro que, num ambiente fragmentado, simplificar a mensagem costuma ser recomendável. De que adianta ter 15 marcas brigando por espaço no algoritmo alheio? A ESPN nasceu em 1979 quando a transmissão via satélite reduziu uma barreira de entrada e tornou possível uma programação inteiramente esportiva. Hoje, as plataformas globais ergueram novas barreiras: infraestrutura, tecnologia, dados, recomendação e cobrança demandam investimentos amplos e constantes. Na semana passada, mais de dez canais diferentes transmitiram jogos de futebol no YouTube brasileiro. Teve Champions League, Bundesliga, La Liga, Copa Peruana, campeonatos tcheco, egípcio, escocês... uma longa cauda de competições. O empresário Carlos Salvador criou um script para atualizar a agenda de transmissões e colocou em sua conta no X: no último sábado foram 42 partidas ao vivo; no domingo foram 26. Tudo de graça. Além de Cazé TV, getv, Goat, Uol e NSports, agora temos outros entrantes: Sportynet, Jovem Pan, Gol BR, Live Alviverde, Canal do Benja e até a Romário TV. A quantidade não significa que todos esses direitos tenham muito valor, nem prova que o modelo seja sustentável. Mas revela a velocidade com que a antiga escassez de oferta foi substituída por uma abundância fragmentada. Quanto desse impulso se deve ao investimento das empresas de apostas? No modelo antigo, o canal recebia um valor fixo por assinante, tivesse audiência ou não. No YouTube, cada canal compra direitos, disputa a tela inicial e monetiza a atenção que capturar (junto com a plataforma). Nenhum deles é dono da vitrine. O agregador manda. Amazon, Google e Netflix pretendem controlar a interface, a cobrança, os dados e a circulação do consumidor. Prime Video e YouTube já atuam como operadoras digitais e pretendem abraçar toda a jornada do consumidor. A Netflix percebeu que, para continuar nesse jogo, precisava se mexer. Começou a investir em conteúdo breve (e vertical), a contratar criadores e fechou um acordo com a TF1, principal rede francesa, para transmitir seu conteúdo ao vivo. Custa caro ser shopping - muita gente prefere ser loja… mas a torta da distribuição será sempre maior. Nos EUA, o YouTube TV funciona como uma operadora tradicional reconstruída pela internet. O YouTube aberto, lá como cá, agrega transmissões financiadas por publicidade. De um lado o bundle pago, do outro a agregação gratuita da atenção - os dois modelos da TV tradicional reconfigurados. Seja pela assinatura, seja pela publicidade, a interface, a descoberta e grande parte dos dados ficam com o Google. O que impede Amazon e Netflix de tentarem algo semelhante? As duas plataformas não têm camada gratuita. Talvez o Brasil seja uma oportunidade para esse teste. O Globoplay terá fôlego para ser shopping nacional nesse mundo de investimento intensivo? Isso porque nem mencionamos o pessoal de IA - que já começou a vender publicidade. Em menos de dois anos, a Globo vai transmitir as Olimpíadas de 2028. É um megaevento no qual vai dividir direitos com a Cazé TV. Em Olimpíadas, descoberta e usabilidade são mais importantes do que numa Copa do Mundo. São muitos eventos simultâneos - tanto que a página de agenda dos sites é sempre a mais acessada. Ter plataforma própria pode ser um ativo… mas casar usabilidade, experiência e conveniência não é simples na era das múltiplas telas. Precisa planejar e investir com antecedência - e ter clareza de que megaeventos são multiplicadores. É provável que a Cazé TV abra o maior número possível de canais gratuitos no YouTube. A Globo poderá fazer o mesmo no getv. Qual será o papel do Sportv e da TV Globo nesse cenário? E o do Globoplay? Onde o brasileiro vai encontrar, entender e viver as Olimpíadas? O evento dura 15 dias. Mas ecoa. A disputa está longe de ser apenas com a Cazé. |
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