domingo, 30 de agosto de 2026

Ajuste fiscal

 *Estadão: Ajuste fiscal é condição para evitar uma crise maior no País, afirmam economistas*


São Paulo, 29/08/2026 - Os economistas Elena Landau e José Roberto Mendonça de Barros são críticos do comportamento de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). Na avaliação deles, a Corte vive uma crise de credibilidade e eles defendem uma discussão mais ampla sobre o processo de eventual impeachment de seus integrantes.


“Eu era contra impeachment de ministro do Supremo como bandeira política, porque esse assunto veio por conta da discussão de 8 de Janeiro e tal”, afirma Elena Landau, economista e advogada. “Hoje, a pauta sobre o Supremo não é uma pauta bolsonarista. Hoje, a pauta do Supremo é uma pauta da sociedade. E a sociedade não compra mais que os abusos do Supremo são em nome da democracia.”


“No caso específico do Supremo, eu acho que ele não percebeu, porque vive numa bolha, mas passou do ponto de não retorno”, acrescenta Mendonça de Barros, ex-secretário de Política Econômica e sócio-fundador da MB Associados.


Elena Landau e Mendonça de Barros participaram do quarto debate da série do Estadão que discute os desafios econômicos para o próximo governo, a partir de 2027, quando se inicia um novo mandato presidencial.


Os dois também mostraram pessimismo com a economia e dizem que o próximo governo - seja qual for o resultado da eleição - precisa avançar com uma agenda fiscal se quiser evitar uma piora acentuada da economia brasileira. “Se houver reeleição e a opção for manter a política atual sem nenhuma correção, o problema pode aparecer rapidamente. Não sei se isso deve ser chamado de otimismo, mas as circunstâncias podem impor uma mudança”, diz Mendonça de Barros. Segundo Elena Landau, “as medidas econômicas necessárias são relativamente conhecidas”. “O problema é político”, afirma.


O Brasil enfrenta problemas de governança no setor público e no privado. Qual é a dimensão desse problema?

Elena Landau: O pano de fundo é uma crise institucional e moral. O Congresso passou a fazer política pública muitas vezes voltada para seus próprios interesses, descolado da sociedade. O Executivo também está isolado, com acúmulo de sigilos e perda de transparência. E o Judiciário está envolvido em uma série de controvérsias, do Supremo às instâncias inferiores. Sabemos quais são as fórmulas para sair disso. É preciso fortalecer as instituições, recolocá-las em seus papéis e recuperar uma relação mais harmônica entre os Poderes. No setor público, isso é ainda mais importante, porque qualquer desvio afeta toda a sociedade. A crise institucional desestimula o bom investidor, o servidor público e o cidadão que procura agir dentro das regras de transparência e responsabilidade. José Roberto chama isso de problema de gestão e governança. Eu chamo de crise moral e institucional. No fundo, estamos falando da mesma coisa.


Mendonça de Barros: Concordo com a Elena. E acrescentaria que esse processo não começou agora. Ele vem se acumulando e está se tornando mais visível. A imprensa e diferentes setores da sociedade passaram a reagir, o que me impede de ser totalmente pessimista. Minha experiência mostra que o Brasil costuma mudar quando chega perto do abismo. Foi assim com a inflação. Sem uma situação-limite, prevalecem a acomodação e a resistência às reformas. Hoje, além do problema institucional, temos um problema econômico grave, ligado ao desequilíbrio fiscal. O crescimento vem desacelerando, as recuperações judiciais aumentaram e os instrumentos que ajudaram o País em outros momentos se esgotaram. A China impulsionou a economia na primeira década do século; depois vieram o agronegócio e o petróleo. Mais recentemente, houve aumento da carga tributária. O diagnóstico está cada vez mais claro: sem reorganizar minimamente as finanças públicas, o Banco Central terá pouca margem para reduzir os juros. Estamos nos aproximando de uma situação perigosa, agravada pela incerteza internacional.


Elena Landau: Minha preocupação é também saber quem terá legitimidade e capacidade para comandar uma saída. Fernando Henrique Cardoso chegou ao governo depois de participar diretamente da formulação do Plano Real e reuniu uma equipe que sabia onde queria chegar. Michel Temer, apesar de todas as dificuldades políticas, também montou rapidamente uma equipe com um diagnóstico claro. Hoje, as soluções econômicas estão sobre a mesa. O problema está na capacidade política de executá-las. Minha maior preocupação é com os Poderes, a representatividade e, especialmente, o Supremo. Aquele que, em tese, pode errar por último, precisa também estar sujeito às consequências de erros graves. Se a população está apática e descrente das instituições, como o investidor olha para o Brasil? Há uma taxa de juros elevada que pode compensar parte do risco, mas a incerteza institucional pode afastar investimentos.


Mendonça de Barros: Há, por outro lado, uma oportunidade. O Brasil é um dos poucos países que vêm atravessando relativamente bem o tumulto provocado pela reorganização da economia global. Temos recursos naturais competitivos, produzimos bens de que o mundo precisa, podemos ampliar a produção e estamos fora das principais zonas de conflito. Isso pode trazer uma transferência de renda do exterior e novos investimentos. É uma das alavancas que podem ajudar o País a enfrentar os problemas internos.


E como vocês veem 2027? O Brasil sai do abismo ou cai nele? 

Mendonça de Barros: Acho que 2027 será pior do que este ano. Nossa projeção é de crescimento de 1,8% neste ano e de apenas 1% no próximo. Com esse ritmo, o País pode se aproximar de uma recessão. O melhor cenário seria a percepção, entre os agentes políticos e econômicos, de que o risco se tornou real. Essa percepção já chegou às empresas e aos investidores. A questão é saber se quem vencer a eleição terá capacidade de reconhecer o problema e agir.


Elena Landau: Sou pessimista porque não vejo, até agora, uma movimentação compatível com a gravidade da situação. A discussão eleitoral ainda gira, por exemplo, em torno de saber se os juros causam a dívida ou se a dívida provoca juros altos. Há um número crescente de recuperações judiciais, famílias endividadas e uma desaceleração econômica em curso. É possível produzir um choque de credibilidade, mas isso dependerá do vencedor da eleição e da equipe que formar. Se Lula for reeleito, terá de promover mudanças difíceis, como reformas nas despesas obrigatórias. Se vencer a oposição, será preciso saber se terá equipe e força política para aprovar um programa consistente. Meu otimismo está no próprio País. Quando as condições aparecem, o investimento privado responde, como ocorreu nas concessões e nas parcerias público-privadas. O problema é que o Brasil continua recorrendo a soluções fragmentadas: cria-se um subsídio aqui, uma linha de crédito ali, um benefício para determinado setor. O resultado é uma economia cada vez mais complexa e dependente de exceções.


Mendonça de Barros: Há também mudanças estruturais importantes. O antigo sistema de proteção à indústria nacional está sendo desafiado. A entrada de produtos chineses, especialmente dos carros elétricos, aumentou a concorrência e está obrigando empresas instaladas no País a reduzir preços e ganhar eficiência. Os símbolos da indústria brasileira também mudaram. Empresas como Embraer e WEG representam uma economia mais integrada à competição internacional.


Elena Landau: Exatamente. A concorrência é fundamental. O problema é que os lobbies continuam fortes. Todo setor se considera importante o suficiente para merecer um tratamento especial. Acho que seria necessário regulamentar de forma mais transparente a atividade de lobby. Mas o exemplo precisa vir de cima. Não adianta exigir transparência de representantes privados se os próprios dirigentes dos Poderes se reúnem para discutir acordos políticos sem dar explicações à sociedade. Também é preciso distinguir o lobby de decisões baseadas em uma visão equivocada da economia. Muitas vezes, o governo cria subsídios e linhas especiais de crédito acreditando que isso estimulará o investimento, mas essas exceções reduzem a eficácia da política monetária e acabam pressionando os juros. Uma estrutura tributária mais simples e isonômica reduziria os espaços para privilégios, lobby e corrupção. Quanto mais “caixinhas” existirem, maior será a disputa por benefícios.


Mendonça de Barros: O ponto central continua sendo o ajuste fiscal. Não será suficiente para resolver todos os problemas, mas é a condição inicial para recuperar a credibilidade e permitir uma redução mais consistente dos juros. Mudanças complexas costumam depender de catalisadores. A percepção de que estamos nos aproximando de uma situação-limite pode produzir esse movimento. Se houver um ajuste fiscal minimamente consistente, poderá se formar um círculo virtuoso: mais credibilidade, juros menores e recuperação da atividade.


Elena Landau: Concordo que as medidas econômicas necessárias são relativamente conhecidas. O problema é político. Reduzir o crescimento das despesas obrigatórias significa discutir temas como Previdência, salário mínimo e vinculações orçamentárias. Minha dúvida é se o próximo presidente terá capacidade de fazer isso. Tenho receio de que o debate eleitoral termine em promessas incompatíveis com a situação fiscal e que, depois da eleição, o governo seja obrigado a mudar radicalmente de rumo.


Mendonça de Barros: Se houver reeleição e a opção for manter a política atual sem nenhuma correção, o problema pode aparecer rapidamente. Não será preciso esperar três anos. A inflação pode acelerar, o câmbio subir e empresas começarem a enfrentar dificuldades. Não sei se isso deve ser chamado de otimismo, mas as circunstâncias podem impor uma mudança. A casa está deteriorada e será necessário construir algum tipo de sustentação.


Como vocês avaliam o próximo Congresso e o debate sobre o Supremo?

Elena Landau: Eu era contra impeachment de ministro do Supremo como bandeira política, porque esse assunto veio por conta da discussão de 8 de Janeiro e tal. Totalmente deslocada. Hoje, a pauta sobre o Supremo não é uma pauta bolsonarista. Hoje, a pauta do Supremo é uma pauta da sociedade. E a sociedade não compra mais que os abusos do Supremo são em nome da democracia. Pelo contrário, os abusos vêm fragilizando o sistema democrático. Sou a favor do impeachment de um ministro do Supremo, porque acho que, já que você erra por último, você tem de também sofrer as consequências de um erro grave. Chegou a um ponto que o ministro do Supremo precisa de carro blindado para ir à praia, porque ele não consegue andar na rua mais. Talvez, um processo de impeachment - não vou dizer qual, porque tem vários candidatos - seja uma maneira de dizer: ‘Olha, você está errando muito. Está abusando do seu direito de ser, entre os Três Poderes, aquele que, no fundo, tem o poder de julgar os outros dois’. E tudo indica que vamos ter um Congresso mais à direita, o que significa uma questão da governabilidade no caso de reeleição do Lula, que hoje já é considerado um Executivo fraco, de como é que ele vai se adaptar com os desafios da sua própria herança. Por outro lado, se for um candidato da oposição, o Congresso vai ter de apoiar esse candidato da oposição se ele vier com as ideias que tem de vir. No Congresso, tem de voltar à comissão, tem de parar o regime de urgência.


Mendonça de Barros: No caso específico do Supremo, acho que ele não percebeu, porque vive numa bolha, mas passou do ponto de não retorno. Basicamente é isso. Não tem mais o respeito que tinha antes. Acho que vai acontecer alguma coisa do tipo, alguma coisa séria de impeachment de pelo menos um caso. Não sei se vai chegar até o fim, mas vai mostrar seriamente que esses senhores não têm mais todo o poder que julgam ter. Vai ter de acontecer de fora. É o mesmo argumento. Esse choque tem de vir de fora, porque, obviamente, lá não tem a menor chance de sair. No Congresso, como é muita gente, eu acho mais complicado. Eu acho que a chance de alguma melhora no Congresso é de uma nova geração chegar, porque essa geração que comanda dificilmente vai mudar.


Elena Landau: O País precisa recuperar uma referência institucional e uma ideia de que boas práticas devem prevalecer sobre as más. Hoje, há uma sensação de desorganização e de perda de confiança que afeta desde o comportamento cotidiano até o funcionamento das instituições. Também não conseguimos enfrentar adequadamente o avanço do crime organizado, que se expandiu para diferentes setores da economia. É um dos sinais mais preocupantes da deterioração institucional.


Mendonça de Barros: A situação é mais complexa do que parece. O Brasil precisa interromper uma trajetória de deterioração econômica e institucional. Isso não acontecerá de forma rápida. Reconstruir a governança democrática, a governança privada e a confiança nas instituições levará tempo. Mas o primeiro passo é mudar a direção. O ajuste fiscal é uma condição básica. Depois, será necessário reconstruir, gradualmente, as regras, a transparência e a capacidade das instituições de funcionar dentro de seus limites. Sem isso, continuaremos apenas escorregando.


(LUIZ GUILHERME GERBELLI)


Broadcast+

Correios

 *Correios: Prejuízo líquido sobe no 1º semestre, a R$ 5,5 bi, mais cai no 2º tri, a R$ 2,4 bi*


Por Aramis Merki II


São Paulo, 29/08/2026 - Os Correios registraram prejuízo líquido de R$ 5,55 bilhões no primeiro semestre de 2026, alta de 30,36% ante o resultado negativo de R$ 4,26 bilhões de igual período de 2025.


No segundo trimestre, o prejuízo líquido foi de R$ 2,39 bilhões, queda de 5,5% em relação ao prejuízo de R$ 2,53 bilhões registrado no mesmo período de 2025. Na comparação com o primeiro trimestre de 2026, quando o prejuízo foi de R$ 3,16 bilhões, houve redução de 24,4%.


A receita líquida de vendas e serviços somou R$ 4,01 bilhões no segundo trimestre, queda de 5,41% ante os R$ 4,24 bilhões registrados um ano antes. Na comparação com o primeiro trimestre de 2026, porém, a receita cresceu 3,8%, segundo o balanço de resultados publicado neste sábado, 29.


Em nota, a empresa aponta que os resultados ocorrem em meio à implementação de um plano de reestruturação, que inclui revisão de despesas e contratos, reorganização da companhia, aumento da eficiência operacional e medidas para ampliar a geração de receitas.


"O resultado acumulado do semestre permanece desafiador e reforça a necessidade de continuidade das medidas de reestruturação, com foco na recuperação sustentável das receitas, o aumento da eficiência operacional, a revisão de despesas e contratos e a modernização do modelo de negócios", afirma a administração dos Correios em nota que acompanha os resultados.


O governo já assumiu compromisso de realizar um aporte de capital no montante de R$ 6 bilhões até o final de 2027 nos Correios. O compromisso de injetar recursos está previsto no contrato do empréstimo de R$ 12 bilhões obtido pela estatal no ano passado com cinco bancos e garantia do Tesouro Nacional. O ministro do Planejamento e Orçamento, Bruno Moretti, informou que o aporte estará incluído na proposta de Lei Orçamentária Anual (PLOA) de 2027.


Contato: merki@broadcast.com.br


Broadcast+

sábado, 29 de agosto de 2026

Peguei do grande Roberto Freire

 O texto a que me refiro é do Cronista Artificial

"Talvez essa seja a verdadeira sensação de ditadura. Ela começa quando o cinismo deixa de ser objeto do jornalismo e passa a ser admirado como competência política. Foi essa a sensação vendo a GloboNews depois da entrevista de Lula. Lula não precisa convencer que algo é verdadeiro. Precisa apenas dizer com segurança suficiente para que o painel examine se funcionou com o eleitor. Respondeu bem? Neutralizou o problema? Recuperou sua agenda social? Sustentou a narrativa? Percebam a mudança de profissão. A pergunta jornalística deveria ser: isso é verdade? A pergunta do marketing político é: isso colou? Quando uma redação abandona a primeira pergunta para se concentrar na segunda, ela deixa de analisar o poder de fora. Passa a analisar a eficácia do poder como faria uma equipe de campanha. E é aí que aparece algo muito mais inquietante do que uma imprensa simplesmente comprada: uma imprensa instrumentalizada. Instrumentalizada não significa que exista alguém distribuindo ordens ou envelopes. É algo mais sofisticado. Existem códigos, consensos profissionais, manuais de redação, escolhas terminológicas e enquadramentos que determinam como determinados temas devem ser tratados, quais palavras são aceitáveis e até qual percepção da realidade deve ser considerada legítima. Troca-se “favela” por “comunidade”, por exemplo. Parece apenas uma escolha vocabular. Mas ela revela uma profissão que passou a acreditar que também lhe cabe administrar a maneira correta de nomear — e, portanto, de perceber — a realidade. Depois de algum tempo, ninguém precisa mandar. O código já foi internalizado. E quando esse código cultural, moral e linguístico coincide com o código do grupo que ocupa o poder, a imprensa pode continuar se considerando independente enquanto funciona como instrumento de legitimação desse mesmo poder. Por isso a cena é tão reveladora. Não parecia uma bancada examinando criticamente o que Lula acabara de dizer. Parecia uma reunião de pós-campanha: onde foi bem, onde neutralizou danos, onde recuperou terreno, onde sua narrativa ressoou. O cinismo vira técnica. A técnica vira mérito. O mérito vira análise positiva. Numa democracia saudável, a imprensa observa o poder. Quando começamos a viver essa sensação de ditadura, acontece algo diferente: ligamos a televisão procurando jornalismo e encontramos uma sala analisando a performance do governante como se estivesse discutindo o próprio produto. A imprensa não foi necessariamente comprada. Ela foi instrumentalizada.

sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Argentina, de Javier Milei (Antonio Cabrera)

 

A Argentina não tem maioria no Congresso. E, mesmo assim, está reformando o país.

Javier Milei nunca teve bancada própria suficiente para governar sozinho. Precisa negociar, construir apoio e formar maiorias a cada votação.

Nesta semana, conseguiu mais três avanços importantes:

1. Reforma da Carta Orgânica do Banco Central: a Câmara aprovou a proibição do financiamento direto do Tesouro pelo BCRA por meio de emissão monetária e recolocou a preservação do valor da moeda como missão central da instituição.

2. Inocência Fiscal II: amplia garantias ao contribuinte e limita o poder do Fisco de revisar períodos anteriores sem elementos concretos.

3. Mercosul–Singapura: o Parlamento argentino concluiu a ratificação do acordo de livre comércio, abrindo um mercado asiático com tarifa zero para os bens agrícolas e industriais do Mercosul.

Não foi maioria automática. Foi articulação política para fazer uma agenda avançar.

E os números ajudam a explicar por quê:

Pobreza: 41,7% → 28,2%.
PIB: -1,3% em 2024 → +4,5% em 2025.
Inflação: 211,4% → 31,5%.
Dívida bruta: 154,6% do PIB em 2023 → 80,3% em 2025.
Aluguéis reais em Buenos Aires: queda superior a 30% nos novos contratos.

Enquanto isso, o Brasil continua atolado no problema fiscal.

Pelo mesmo indicador do FMI, a dívida bruta brasileira chegou a 93,3% do PIB em 2025, acima dos 80,3% da Argentina. Para 2026, o Fundo projeta 97,8% para o Brasil e 70,4% para a Argentina.

E recentemente o próprio Tesouro brasileiro chegou a cancelar leilão de NTN-B em meio às dificuldades de formação de preços e à forte tensão no mercado de títulos públicos.

A diferença começa a ficar desconfortável.

A Argentina, mesmo sem maioria parlamentar, tenta atacar as causas de sua crise.
O Brasil continua administrando as consequências da sua.

Reformas exigem votos.
Mas, antes dos votos, exigem direção e coragem.

Piso do economista

 


Por que a taxa de juros é tão alta no Brasil?, por Ana Paula Vescovi

 Por que a taxa de juros é tão alta no Brasil?


Essa discussão tem ganhado destaque e está presente em vários fóruns, especialmente nesse período eleitoral.

Ontem, na FGV EESP, participei de um seminário dedicado a essa pergunta. O encontro, promovido pelo professor Márcio Holland, também marcou o lançamento de seu livro “Taxa de Juros no Brasil: caminhos para o Brasil conviver com taxas de juros civilizadas”. Participei do painel ao lado de Felipe Scudeler Salto e Daniela Lima , com mediação de Juliana Rosa comentários de Márcio Holland.

Essa é uma das questões mais antigas da economia brasileira, especialmente no pós-estabilização. Talvez parte da dificuldade esteja na busca por uma única resposta.

Antes de responder, é preciso separar o juro global, o componente cíclico da política monetária, o prêmio de prazo (~0,9 p.p.) e o risco soberano. (~1,4 p.p.).

Depois de descontados esses componentes, o Brasil continua apresentando um juro real estruturalmente elevado, e entre os maiores do mundo.

A literatura aponta múltiplas causas: baixa poupança, risco cambial, fricções financeiras, baixa produtividade, rigidez fiscais, histórico inflacionário e elevada sensibilidade das expectativas. A explicação parece estar na combinação desses fatores e na forma como eles se reforçam.

O fiscal merece atenção especial porque atua por diferentes canais.

A expansão fiscal pressiona a demanda e pode exigir maior restrição monetária. O aumento da dívida eleva o prêmio exigido pelos investidores, afetando a curva longa, o câmbio e as condições financeiras. O FMI estima que um esforço fiscal estrutural adicional de 0,6% do PIB poderia permitir juros entre 0,4 e 0,7 ponto percentual menores.

Há ainda um terceiro canal. Em situações de maior fragilidade fiscal, a deterioração das expectativas eleva os juros e o serviço da dívida, reforçando a própria percepção de fragilidade.

O fiscal é parte central da explicação, mas não a esgota. Mesmo quando descontamos da curva de juros o componente associado ao risco soberano, os juros reais brasileiros permanecem elevados.

A agenda, portanto, vai muito além da política monetária: estabilizar a dívida pública, melhorar a qualidade do gasto, elevar a produtividade e a capacidade de oferta, reduzir fricções financeiras (assimetrias tributárias, crédito direcionado e atuação parafiscal), e preservar as âncoras fiscal e monetária, o regime de câmbio flutuante e a credibilidade da política econômica.

O objetivo deveria ser construir uma economia que precise de juros menores para permanecer estável.

Eliana Cardoso

 


Editorial OESP

  Duas coisas chamam a atenção neste novo editorial do Estadão: a veemência das críticas ao Careca do Master e a mudança de tom em relação a...