quarta-feira, 8 de julho de 2026

O Debate sobre a Incerteza: do cotidiano à Economia Pós-Keynesiana

1. Por que esse debate volta sempre à tona

Há um debate que cresce no meio acadêmico, no corporativo, na sociedade como um todo, e que revela uma simbiose interessante entre a academia e o mercado: é o que disserta sobre como lidamos com a incerteza

É importante porque a incerteza também "conversa" com as tomadas de decisão do mercado - especialmente, com a alocação de recursos entre os diversos ativos disponíveis.

No meio acadêmico, temos uma discussão bem interessante que separa os keynesianos (ou os pós) e os neoclássicos, ou defensores do livre mercado. Os primeiros nos levam a saber como chegar ao pleno emprego, ao longo prazo com estabilidade e previsibilidade. Para isso, há a necessidade do uso do ferramental da teoria keynesiana (Teoria Geral do Emprego e da Moeda, John Maynard Keynes, 1946), que considera que as flutuações de demanda precisam ser mitigadas pelas intervenções do setor público, estimulando consumo e investimento.

Para isso, o multiplicador keynesiano ganha destaque. É um conceito macroeconômico que indica que um aumento inicial nos gastos (como investimentos do governo) gera um aumento mais do que proporcional no PIB. Tem-se daí que o debate keynesiano passa pelo ambiente econômico em que predomina a incerteza. Ninguém tem como prever crises ou como diriam, flutuações de demanda. 

Na visão neoclássica, os mercados tendem a se "autoajustar", não sendo necessárias correções a partir dos gastos do setor público. Parte-se da errônea visão de que o processo é natural e previsível, a partir das ocorrências passadas. A longo prazo, a economia tende a se ajustar e chegar a um estado de equilíbrio ou estabilidade. O problema aqui é que para chegarmos ao longo prazo, uma sucessão de curtos prazos, de erros de percurso, precisam ser superados. 

No mercado financeiro, muitos tentam enquadrar o tempo a partir da apuração do nível de risco, que é mensurável a partir da probabilidade de ocorrência. A incerteza, no entanto, não é controlável ou mensurável, é um "salto no escuro". 

Toda esta discussão, no entanto, é acadêmica, passando pela teoria econômica. Observamos a teoria pós-keynesiana, que tem a incerteza tem como norteador, uma "ponte no tempo, para o futuro" tendo como destaque a "preferência pela liquidez". 

É a decisão da demanda por moeda, de acordo com o momento analisado, tendo as escolhas por precaução, transação ou mesmo, especulação. Nisso, a taxa de juros passa a ser o motivador para estes eventos, com destaque para a moeda como um ativo e para o fato da taxa de juros ser o "preço" a ser remunerado, de acordo com o que se enxerga no futuro. 

Outra visão é aquela mais voltada para a Economia Comportamental, com a autora Simone Stolzoff, na publicação do livro HOW TO NOT KNOW. Para ela, "aceitar a incerteza não significa resignação, mas sim desenvolver mais clareza, adaptabilidade e capacidade de julgamento". Explora-se neste livro a nossa crescente intolerância coletiva à incerteza e funciona como um guia prático e filosófico para aprender a abraçar o desconhecido. 

2. A perspectiva comportamental: How to Not Know

Para Dan Kawa, economista da Partner Investments, "o livro How to Not Know, de Simone Stolzoff, traz reflexões práticas sobre esse tema, mostrando que aceitar a incerteza não significa resignação, mas sim desenvolver mais clareza, adaptabilidade e capacidade de julgamento. Stolzoff defende que a nossa capacidade de lidar com a ambiguidade está atrofiando."

Segundo a autora, "alimentados pelo acesso instantâneo à informação e por algoritmos projetados para nos dar respostas imediatas, criamos uma falsa ilusão de controle. No entanto, diante de cenários complexos - como crises climáticas, transições de carreira ou flutuações econômicas (olha os pós-keynesianos aqui), a busca cega por certezas gera ansiedade profunda." 

O livro propõe que o "não saber" não deve ser encarado como uma fraqueza, mas sim como uma habilidade essencial para a inovação, empatia e tomada de decisões. Dan Kawa enumera os principais aprendizados:

  • A incerteza faz parte da vida — aceitá-la é o primeiro passo para tomar melhores decisões.
  • Confiança não exige certeza. É possível decidir bem mesmo sem todas as respostas.
  • Pensar em probabilidades e cenários é mais útil do que tentar prever o futuro.
  • Foque no que pode ser controlado e evite a ilusão de controlar o restante.
  • Tolerar dúvidas reduz a ansiedade e melhora a qualidade do julgamento.
  • Faça boas perguntas e esteja disposto a mudar de ideia diante de novas evidências.
  • Em ambientes incertos, testar, aprender e ajustar costuma funcionar melhor do que buscar o plano perfeito.
  • Resiliência e adaptabilidade são mais importantes do que capacidade de previsão.
  • Diversificação aumenta a robustez em investimentos, carreira e vida.

Quem convive melhor com a incerteza tende a tomar decisões mais racionais e consistentes — uma conclusão que ecoa, décadas antes, uma tradição teórica específica da economia.

3. A raiz acadêmica: a incerteza na economia pós-keynesiana

Essa conexão entre incerteza e tomada de decisão é um dos pilares centrais do pensamento pós-keynesianismo, corrente na qual a demanda por moeda passa pelo comportamento dos agentes diante do ambiente econômico e da incerteza.

Nessa visão, própria de uma economia monetária de produção (ou o capitalismo), a demanda por moeda se transforma — por transação, precaução ou especulação — dependendo do momento econômico e do grau de incerteza percebido. É daí que vem a célebre frase de Keynes: "a longo prazo, estaremos todos mortos."

Os principais expoentes são:

Paul Davidson (1930–2024) (Importante macroeconomista americano e principal, expoente da vertente americana da economia pós-keynesiana, foi um dos fundadores do Journal of Post Keynesian Economics)Suas contribuições centrais:

  • Incerteza fundamental e o axioma ergódico — ao contrário da economia clássica, o futuro não pode ser previsto estatisticamente a partir do passado (rejeição do axioma ergódico); as decisões econômicas são tomadas sob incerteza radical.
  • A moeda como fator central — a moeda não é um mero meio de troca neutro, mas uma forma de reter riqueza (preferência pela liquidez) em um mundo incerto, o que afeta diretamente o nível de emprego e a produção.
  • Crítica à economia convencional — rejeição de modelos que assumem mercados com autorregulação automática ou flexibilidade de preços capaz de garantir o pleno emprego.

Victoria Chick Economista pós-keynesiana britânica, famosa por suas contribuições ao entendimento e reexame da Teoria Geral de Keynes;

Fernando Cardim de Carvalho Principal expoente do pensamento pós-keynesiano no Brasil, professor emérito da UFRJ e aluno de doutorado de Paul Davidson. Foi meu professor no mestrado acadêmico da UFF, mencionado como ponto de partida desta reflexão.

4. Obras de referência dos três autores

AutorObraFoco
Paul DavidsonMoney and the Real World (Moeda e o Mundo Real)Uma das obras mais clássicas do autor
Paul DavidsonPost Keynesian Macroeconomic TheoryMacroeconomia pós-keynesiana
Paul DavidsonPost Keynesian Theory and PolicyPolíticas econômicas
Victoria ChickMacroeconomia após Keynes: um reexame da Teoria Geral (trad. Forense Universitária)Reexame da Teoria Geral
Victoria ChickSobre Moeda, Método e Keynes (Editora Unicamp)Coletânea de ensaios
Fernando Cardim de CarvalhoKeynes e os Pós-Keynesianos: princípios de macroeconomia monetária da produção (Alta Books)Síntese da obra de Keynes
Fernando Cardim de CarvalhoMoeda, produção e acumulação (Editora UnB)Perspectiva pós-keynesiana
Fernando Cardim de CarvalhoMoeda e Sistema Financeiro: ensaios em homenagem a Fernando Cardim de Carvalho (Editora UFSM)Homenagem e ensaios teóricos

5. Fechando o círculo do debate

O que une as duas visões - leitura comportamental de Stolzoff e teoria monetária de Davidson, Chick e Cardim - é a mesma constatação: a incerteza não é um problema a ser resolvido, mas uma condição a ser administrada. Seja na alocação de ativos de um investidor, seja na decisão de reter moeda por precaução, seja na escolha de carreira de uma pessoa, o que diferencia boas decisões de más decisões não é a eliminação da incerteza — é a capacidade de bem administrá-la, gerenciá-la, tentar controlá-la, embora isso seja impossível. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Call Matinal

28/07/2026 Julio Hegedus Netto, economista   MERCADOS EM GERAL   FECHAMENTO (2707) MERCADOS Na segunda-feira (27), o Ibovespa ...