A estúpida inveja de Pelé e Zico
José Nêumanne Pinto
Uma sórdida e nojenta campanha contra a lisura de Pelé, o maior jogador da história do futebol mundial, foi iniciada antes da Copa do Mundo de Estados Unidos, México e Canadá, em série exibida na televisão pela Netflix, teoricamente, sobre o Mundial do México, em 1970.
Antes que a bola rolasse na América do Norte o brasileiro foi apresentado na série em questão a uma versão mentirosa sobre o tricampeonato mundial de futebol realizado a primeira vez numa das sedes da disputa atual pela terceira vez no México, segunda nos Estados Unidos e primeira no Canadá.
Na referida série o maior craque do principal esporte profissional do Brasil foi definido como um serviçal da ditadura militar em nosso país e também um bobalhão indigno do reconhecimento universal com que foi consagrado. Nada poderia ser mais injusto.
No final dos anos 60 seleção da Confederação Brasileira de Desportos (CBD) enfrentou antes das eliminatórias da Fifa enorme descrédito depois da sensacional vitória no mundial da Suécia em 1958, o bicampeonato no Chile em 1962, em que a seleção canarinha foi beneficiada pela organização da disputa ao não ser marcado um pênalti para a Espanha no terceiro jogo e no desaparecimento do árbitro da semifinal para que o craque do torneio, Mané Garrincha, não fosse impedido de atuar na final após ter sido expulso na semifinal contra os donos da casa, o Chile.
Em 1966 uma campanha desastrosa para a disputa do tricampeonato na Grã Bretanha, favorecida, foi ajudada pela brutalidade contra o maior craque da história no jogo contra Portugal para facilitar a vitória da anfitriã e dona da Fifa. Na vigência de uma ditadura militar a seleção canarinha fez brilhante campanha nas eliminatórias treinada pelo competente jornalista João Saldanha, afastado do cargo por pressão dos militares sob a alegação de ser militante do Partido Comunista Brasileiro. Substituído por Mário Zagalo, o mais brilhante treinador do Brasil, contudo, este foi representado pelo melhor de seus elencos e venceu a disputa.
Na década de 1970, tive a oportunidade de testemunhar a veneração da torcida local na sede do Mundial, pelo maior craque de todos os tempos no Encontro Mundial da Comunicação em Acapulco, no México. No Encontro Mundial da Comunicação, organizado pela mais popular rede de televisão mexicana, a Televisa, Edson Arantes do Nascimento, presente à mesa da delegação brasileira, da qual espantei-me com a popularidade do maior craque de nosso tricampeonato. À mesa do almoço Pelé atendia gentilmente a uma fila enorme de fãs querendo abraço e autógrafo, vencendo no teste de popularidade até o então presidente do México, Luís Etcheverria, numa demonstração de que os mexicanos não esqueciam o maior de todos os craques consagrado no tri do México..
No Brasil, contudo, a crônica esportiva perseguia o rei mundial do futebol de todos os tempos por ter dedicado seu milésimo gol, feito nunca alcançado por outros craques, às criancinhas desamparadas e também por nunca ter manifestado quaisquer crenças políticas.
Desde então, abundantemente craques indiscutíveis, mas sem a mesma genialidade de Edson Arantes do Nascimento, passaram a ser citados como seus substitutos no reinado da bola. Grandes jogadores, tais como o holandês Johann Cruyff, os portenhos Diego Maradona e Lionel Messi, o português Cristiano Ronaldo, o alemão Franz Beckenbauer, o britânico Harry Kane e o francês Killian Mbappé proclamaos como herdeiros, mas são nenhum deles amarrou as chuteiras do Rei inconteste.
Pelé fez o milésimo gol aos 30 anos. Ronaldo persegue o mesmo feito aos 40. Como Messi. Mas os demolidores do rei nunca cansaram de inventar lorotas. Ele também era venerado pelos gols que perdia. Como o drible no arqueiro uruguaio Mazurkiévicz numa jogada semelhante à de Vini Jr. na área do Japão na disputa da rodada de 16 avos da segunda-feira 29 de junho em Houston, Texas. Esquecido também pelos sabichões das narrações e narrativas foi o chute do próprio campo em 1970 no México contra a Tchecoslováquia. Passa em branco como o feito inigualável da invencibilidade de Pelé em jogos em que atuou ao lado de Mané Garrincha, outro gênio. Pode ser que ainda apareça outro igual. Mas até agora não apareceu.
Enquanto isso, só medíocres tentam impor seu desconhecimento. Nenhum dos locutores dessa Copa lembra o fato histórico de que foi o filho de Dondinho e dona Celeste quem inventou o soccer nos EUA, agora na segunda Copa junto com o capitão Carlos Alberto Torres, a convite simplesmente de Henry Kissinger. Como também memhum narrador ou ex-craque lembrou-se do fato de Zico ter criado o futebol japonês. Os invejosos preferem levar para as mesas redondas quem devia ser esquecido, como Filipão dos 7 a 1 da Alemanha no Mineirão. E fazem de Felipe Melo um professor após haver tirado da jogada Júlio César, o melhor goleiro do mundo na época, na derrota para a Holanda na semifinal de 1998. É pouco ou querem mais, hein?
*Jornalista, poeta e escritor
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