quarta-feira, 1 de julho de 2026

Jonas FEDERIGHI Jr

 Há décadas acompanho a degradação institucional brasileira e cheguei a uma conclusão incômoda: excluído Lula, não consigo identificar uma figura que tenha causado impacto tão profundo e duradouro sobre o sistema de Justiça brasileiro quanto Gilmar Mendes.


Na minha visão, o chamado “garantismo” deixou de ser uma ferramenta legítima de proteção contra abusos do Estado para se transformar em um mecanismo que, na prática, ampliou a sensação de impunidade das elites políticas e econômicas. O resultado não foi mais justiça. O resultado foi mais descrença, mais insegurança jurídica e uma população cada vez mais convencida de que existem regras para os poderosos e regras para o cidadão comum.

Quando observo o destino da Lava Jato, vejo um marco dessa transformação. Milhões de brasileiros tiveram a impressão de assistir não apenas à correção de excessos processuais, mas ao desmonte de uma das maiores investigações de corrupção da história do país. Em nome de teses jurídicas sofisticadas, condenações foram anuladas, provas foram invalidadas e personagens centrais da política nacional retornaram ao jogo. Para boa parte da população, a mensagem foi devastadora: no Brasil, o sistema sempre encontra um caminho para proteger os seus.

O mais grave é que essa percepção transcende partidos. Ela alimenta a convicção de que a corrupção deixou de ser um desvio para se tornar um componente estrutural do poder. Enquanto o cidadão trabalha, paga impostos e enfrenta a violência crescente, a elite política, burocrática e jurídica parece viver em um universo paralelo, protegida por interpretações que raramente beneficiam quem está fora dos círculos de influência.

Por isso considero que o debate sobre Gilmar Mendes não é apenas sobre um ministro do Supremo. É sobre o modelo institucional que ajudamos a construir. Um modelo em que a busca por garantias individuais, necessária em qualquer democracia, perdeu o equilíbrio e passou a conviver com um sentimento coletivo de impunidade. E quando a sociedade deixa de acreditar que o crime compensa menos do que a honestidade, o prejuízo não é apenas jurídico. É moral, econômico e civilizacional.

A pergunta que fica é simples: quantas décadas mais o Brasil suportará convivendo com um sistema que parece cada vez mais eficiente para proteger os poderosos do que para proteger os cidadãos? 





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