Leitura de Domingo: Bolsa tem rali silencioso e há espaço para mais, diz Zanlorenzi, do BTG
Por Vinicius Novais
São Paulo, 12/01/2026 - O salto de mais de 30% do Ibovespa em 2025 foi "um dos ralis mais silenciosos" já vistos, avalia o chefe da mesa de ações do BTG Pactual, Jerson Zanlorenzi, à Broadcast. A alta, explica, foi ancorada quase exclusivamente no investidor estrangeiro, graças a dois freios para o dinheiro local: Selic a 15% - "um prêmio alto para ficar parado" - e volatilidade elevada. "Sobrou basicamente o estrangeiro, que capturou a oportunidade do rali", resume. O movimento teve como destaque o desempenho de empresas ligadas à economia doméstica. Cogna, outras educacionais, Movida e Ecorodovias ganharam com a perspectiva de um ciclo longo de afrouxamento monetário. O BTG projeta Selic perto de 12% no fim de 2026 e cortes possivelmente maiores que os 300 pontos-base hoje precificados, o que ainda pode destravar valor em small caps. Para 2026, a eleição presidencial é o principal vetor de volatilidade, embora a Bolsa siga "barata" e siga atraindo fluxo externo. Leia a entrevista abaixo:
Broadcast: Vimos um rali na Bolsa em 2025, com o Ibovespa subindo mais de 30% no período. Como o senhor viu esse movimento?
Jerson Zanlorenzi: Esse rali da Bolsa talvez tenha sido um dos mais silenciosos. Poucos investidores conseguiram capturar todo esse movimento. Isso aconteceu porque o nível de volatilidade estava muito elevado. As informações disponíveis, tanto no cenário internacional quanto no local, eram repletas de incertezas. Isso levou os investidores a não prestar muita atenção na Bolsa, que estava realmente de graça e podia ser uma grande oportunidade no começo do ano. E a segunda razão é a Selic de 15%. É um prêmio alto para o investidor 'não fazer nada'. Se estou recebendo 15% ao ano, muitas vezes isento nas aplicações, por que se arriscar em ações? Isso tirou o investidor pessoa física da Bolsa. Houve, nos últimos dois anos, R$ 500 bilhões de resgates dos fundos multimercados e de ações, afastando também o investidor profissional. Ficamos basicamente apenas com o investidor estrangeiro, que foi quem conseguiu absorver esse movimento. Por isso, a alta foi silenciosa, ancorada quase exclusivamente no investidor estrangeiro, que capturou o rali.
Broadcast: A Cogna e outras empresas de educação lideraram as altas do Ibovespa no ano. Como o senhor vê esse movimento?
Zanlorenzi: Foi uma alta muito expressiva de todo o setor. É importante olhar um pouco do passado. Esse setor foi massacrado nos últimos dois anos. A Cogna, que hoje ronda os R$ 3, já chegou a valer cerca de R$ 6. Já houve uma depreciação de preço muito grande que, obviamente, os investidores em algum momento entenderam que já havia sido suficiente. Além disso, houve também um movimento para small caps no Brasil, com o fortalecimento da perspectiva de queda de juros. As empresas ligadas à economia local foram bem neste ano. Normalmente, se a Bolsa vai bem, Petrobras e Vale são destaque, mas em 2025 não foi assim. O setor de educação, Movida, Ecorodovias e supermercados surfaram na perspectiva de queda de juros.
Broadcast: Quando esse movimento de corte de juros se iniciar, essas ações devem subir mais ou os investidores olharão para outros setores?
Zanlorenzi: Esse movimento ainda vai continuar, porque vemos que o Brasil deve entregar um ciclo de corte longo. Na nossa perspectiva, os juros devem se aproximar de 12% ao fim de 2026. E, quando olhamos historicamente, o mercado até subestima os cortes: quando precifica 300 pontos-base, corta 450. Um corte maior poderia movimentar bastante e destravar valor para as empresas, que também vão reduzir drasticamente o custo da dívida. Então, foi sim um bom ano para empresas locais, mas ainda há espaço para precificar essa grande melhora do custo de dívida aqui no Brasil que pode vir.
Broadcast: Olhando para a ponta negativa, não há um padrão setorial. Acredita que as empresas foram mais penalizadas por questões internas de cada um.
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