segunda-feira, 6 de julho de 2026

CBF tem dono e veste toga

 O fiasco da seleção brasileira não tem apenas uma causa, claro. O problema é complexo e de difícil solução. Mas, se há algo que resume bem o atual descalabro em que se encontra a administração do futebol tupiniquim, são as interferências relatadas neste artigo.

👇
“O futebol brasileiro tem um novo centro de poder. Ele não fica na Barra da Tijuca, sede da CBF. Fica em Brasília, num prédio de faculdade particular fundada por um ministro do Supremo Tribunal Federal.
A história começa em 16 de agosto de 2023, quando o Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa, o IDP, assinou um contrato com a CBF para gerenciar a CBF Academy, o braço da confederação responsável por cursos de capacitação, certificação e pós-graduação na área do futebol. O IDP foi fundado por Gilmar Mendes, ministro do STF, e é dirigido por seu filho, Francisco Schertel Mendes. Foi Francisco quem assinou o acordo. Do outro lado da mesa estava Ednaldo Rodrigues, então presidente da CBF.
Os números do contrato impressionam. O instituto da família Mendes fica com 84% de toda a receita gerada pelos cursos. A CBF, dona da marca, da estrutura e do prestígio, fica com os 16% restantes. Em 2023, a CBF Academy arrecadou R$ 9,2 milhões. Em 2024, foram R$ 5,9 milhões. Os números de 2025 ainda não vieram a público. E o detalhe que quase ninguém comenta: o contrato tem validade de dez anos. Vale até 2033.
Quatro meses depois, a conta chegou ao STF
Em dezembro de 2023, quatro meses após a assinatura do contrato, o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro afastou Ednaldo Rodrigues da presidência da CBF por irregularidades no acordo que havia legitimado seu mandato. A entidade que acabara de assinar um contrato milionário com o instituto de um ministro do STF ficou, de repente, sem o presidente que assinou o contrato.
A reação foi rápida. A CBF contratou, por R$ 6,5 milhões, um advogado para atuar nos tribunais superiores. O PCdoB, partido do secretário-geral da CBF, entrou com uma ação no Supremo. E aqui a história ganha o contorno que a diferencia de uma simples disputa de cartolas: o processo caiu, por sorteio, nas mãos de Gilmar Mendes. Segundo reportagem da revista Piauí, o rito comum indicaria a distribuição do caso ao ministro André Mendonça, que já havia atuado em matéria correlata. Não foi o que aconteceu.
Em janeiro de 2024, Gilmar Mendes derrubou a decisão do TJ-RJ e devolveu Ednaldo Rodrigues à presidência da CBF. O ministro sócio-fundador do instituto que recebe 84% da receita dos cursos da CBF decidiu, monocraticamente, quem comandaria a CBF. Questionado sobre o evidente conflito de interesses, Gilmar respondeu que se tratava apenas de “um contrato de direito privado dirigido pela direção do IDP”. Como se a direção do IDP não fosse seu próprio filho.
O cartola sem cargo
A partir dali, a influência da família Mendes dentro da CBF só cresceu. A mesma reportagem da Piauí apontou que Gilmar influenciou a nomeação de seis diretores da entidade. Pessoas ligadas ao IDP assumiram posições estratégicas na confederação. E Francisco Mendes, o filho do ministro, deixou a discrição dos bastidores para assumir um protagonismo que nenhum cargo oficial justifica. Porque ele não tem cargo oficial na CBF. Nunca teve.
Mesmo assim, Francisco liga para presidentes de federações estaduais. Articula politicamente. Liderou excursões de dirigentes brasileiros por Inglaterra, Alemanha e Espanha, discursando em nome do grupo. Em dezembro de 2025, foi eleito vice-presidente da Federação Matogrossense de Futebol, numa chapa apoiada pela estrutura da CBF e pelo presidente do Superior Tribunal de Justiça Desportiva. Um detalhe curioso: Francisco mora em Brasília, a mais de mil quilômetros de Cuiabá. O endereço registrado nos documentos da chapa era o da capital federal.
Nem a troca de comando na CBF alterou o quadro. Ednaldo caiu de vez em maio de 2025, desta vez sem socorro do Supremo, e Samir Xaud assumiu a presidência prometendo revisar contratos. O contrato do IDP segue de pé. E a influência de Francisco, segundo quem circula pelos corredores da Barra da Tijuca, só aumentou.
“Quem convocou o Neymar fui eu”
O episódio mais revelador veio dos próprios lábios do personagem. Segundo a coluna de Lauro Jardim, no jornal O Globo, Francisco Mendes teria dito a interlocutores, durante o Fórum Jurídico de Lisboa, o evento apelidado de “Gilmarpalooza” que seu pai promove anualmente em Portugal, que foi ele o responsável pela volta de Neymar à Seleção Brasileira para a Copa do Mundo.
A frase atribuída a ele é direta: “Quem convocou o Neymar fui eu”.
Pense no que isso significa. A convocação da Seleção Brasileira, decisão técnica que deveria caber exclusivamente ao treinador, estaria sendo reivindicada, ainda que em tom de vaidade de bastidor, por um advogado sem qualquer função na CBF, cuja única conexão formal com a entidade é um contrato de cursos assinado pelo instituto de seu pai. Neymar, vale lembrar, foi convocado mesmo lesionado, ficou fora dos amistosos preparatórios e não entrou em campo na estreia do Brasil na Copa.
Isso não é parceria educacional
Há quem diga que o contrato entre IDP e CBF é legal. Provavelmente é. Contratos de direito privado entre entidades privadas não exigem licitação. Mas legalidade e legitimidade são coisas distintas, e o Brasil já deveria ter aprendido essa lição.
Um ministro do STF é sócio-fundador de um instituto que fatura milhões com a maior entidade esportiva do país. Esse mesmo ministro decide, no Supremo, quem preside essa entidade. O filho desse ministro, diretor do instituto, transita pela confederação como se fosse dono dela, indica aliados, articula eleições de federações e se vangloria de interferir na escalação da Seleção. Tudo isso amarrado por um contrato que vale até 2033 e que entrega ao instituto 84% de uma receita construída com a marca da CBF.
O senador Eduardo Girão chegou a protocolar requerimento no Senado pedindo explicações sobre a relação entre a CBF e o IDP. A pergunta que ele fez continua sem resposta: onde termina o interesse público e onde começa o interesse privado de quem julga?
O futebol é o maior patrimônio cultural do povo brasileiro. A CBF movimenta bilhões, define carreiras, mobiliza paixões nacionais. Quando essa estrutura passa a orbitar os interesses de uma família com assento no Supremo Tribunal Federal, não estamos diante de uma parceria educacional.
Estamos diante do aparelhamento da CBF. Com contrato assinado, receita garantida e prazo de validade: 2033.”
Rogerio Pires é professor, pesquisador e gestor público com atuação na área de educação tecnológica e políticas de inovação no Estado do Rio de Janeiro.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

CBF tem dono e veste toga

  O fiasco da seleção brasileira não tem apenas uma causa, claro. O problema é complexo e de difícil solução. Mas, se há algo que resume bem...