Por Malu Gaspar, 11/6/2026
Junho já entrou para o calendário nacional como o mês em que o Festival de Cinismo que Assola o País — ou Feciapá, na sigla que acabo de inventar — vive seu ápice. Como se fosse a coisa mais normal do mundo, o Congresso para, e o Judiciário entra em operação padrão para que políticos, autoridades, empresários, advogados, lobistas e jornalistas migrem para Lisboa por uma semana para integrar e cobrir o maior evento de lobby judicial do mundo, o Gilmarpalooza, promovido pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes e seus braços acadêmicos, IDP e FGV.
Como reação a quem aponta o atentado à ética e à independência judicial que o evento representa, virou moda entre os frequentadores propagar a qualidade das palestras — ainda que não se tenha produzido um texto de repercussão sobre seu conteúdo, nem se consiga explicar por que precisam todos ir para a Europa, muitos à custa do contribuinte, para discutir temas que poderiam perfeitamente ser debatidos no Brasil.
Talvez porque ficaria chato ter de dar satisfação sobre um painel montado só para representantes de bets se defenderem da dura perseguição que sofrem, coitados — ou os planos de saúde, os cartórios, as mineradoras —, enquanto na programação paralela o presidente da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) debate alegremente a “evolução regulatória” de “ativos tokenizados” com um dos advogados do Banco Master perante a própria CVM.
Master que, aliás, foi o sujeito oculto do Fórum Jurídico de Lisboa — para quem não sabe, nome oficial do convescote. A sombra do escândalo fez minguar a plateia de políticos e autoridades, de ministros do governo Lula aos integrantes de Cortes superiores. Não adiantou Gilmar ter procurado vários deles para cobrar presença. O único do STF a comparecer foi Alexandre de Moraes, que, além de protagonista do caso Master, foi também estrela do evento.
Um dos momentos mais comentados foi o encontro em que ele e o banqueiro André Esteves, dono do BTG Pactual, se reuniram para acertar os ponteiros. Como Esteves sempre foi o maior adversário de Vorcaro na Faria Lima, Moraes passou a responsabilizá-lo por reportagens sobre sua ligação com o dono do Master. Agora que o foco se voltou para o Centrão e para o dark horse Flávio Bolsonaro, parece ter se aberto uma brecha para a pacificação.
Nos cafés, jantares e festas onde o Gilmarpalooza realmente acontece, a guerra de que mais se falava é travada entre os dois polos do Supremo: André Mendonça, que comanda o caso Master, e os anfitriões de Lisboa, que buscam jogar uma boia de salvação a Daniel Vorcaro.
Dez dias antes, Gilmar pediu vista no julgamento da Segunda Turma do STF sobre a prisão preventiva de Henrique e Felipe Vorcaro, respectivamente pai e primo do dono do Master. Segundo a Polícia Federal (PF), o primeiro dirigia uma milícia privada que espionava e ameaçava pessoas. O primo, Felipe, punha em operação o pagamento da mesada de R$ 300 mil ao senador Ciro Nogueira (PP-PI).
Quando Gilmar parou o julgamento, já havia dois votos pela manutenção da prisão de Henrique e um pela de Felipe. Como só votam nesse caso quatro dos cinco ministros da Turma (Dias Toffoli, o quinto elemento, sempre se declara impedido), com dois votos pela soltura eles já poderiam ser liberados. O jogo nada secreto aí é convencer o quarto ministro, Kassio Nunes Marques, a acompanhar Gilmar, derrubando a ordem de Mendonça.
Da cela na PF, Vorcaro vem sendo informado de tudo o que se passa. Isso ajuda a explicar por que sua segunda negociação para uma delação premiada está prestes a fracassar sem que ele entregue informações novas, nem confesse crimes. Vorcaro ainda acredita ser possível que seus amigos em Brasília deem um jeito de resgatá-lo. Com os brasileiros ligados na Copa do Mundo e depois na campanha eleitoral, vai que se abre uma brecha?
Embora pareça uma ideia absurda, convém dar uma olhada nos dados trazidos pela pesquisa Genial/Quaest que acaba de ser divulgada. O grupo dos que acreditam que o Master não é problema específico de uma força política, mas de todas, é o maior entre os entrevistados, com 44%. Mesmo com 65% considerando que Flávio Bolsonaro não deveria ter pedido dinheiro para o filme sobre o pai e 60% afirmando ver suspeita de ilegalidade, 76% dizem que não mudaram de voto por causa do episódio.
O recado aí é claro: num país em que anomalias como o Gilmarpalooza passam a integrar o calendário político do país sem que ninguém mais se incomode, faz sentido esperar que a maior fraude financeira de nossa História com o tempo também seja incorporada a uma paisagem repleta de casos de pilhagem e corrupção. Seria apenas mais um episódio a abrilhantar o Feciapá, a única coisa que nunca falha no Brasil.
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