quarta-feira, 15 de julho de 2026

CIência e IA

 

https://braziljournal.com/manifesto-de-economistas-pede-acao-contra-impacto-social-da-ai/


Entre "Segundas Intenções" e "obviedades" da tal carta sobre os riscos da IA, como filósofo, escritor e profissional de tecnologia, preciso expressar aqui minha análise crítica deste documento assinado por líderes da tecnologia e premiados com o Nobel:


1. A carta é notavelmente curta, apenas três afirmações: (a) que a IA pode se tornar mais poderosa em 10 anos, (b) que isso poderia gerar uma transformação econômica maior que a Revolução Industrial, em prazo menor, causando desemprego em massa, (c) e que economistas, formuladores de políticas e líderes tecnológicos devem agir agora. Isto seguido por uma longa lista de assinaturas. Essa desproporção (três frases e cerca de 250 nomes) deve ser considerada, pois o gênero discursivo aqui não é o 𝐚𝐫𝐠𝐮𝐦𝐞𝐧𝐭𝐨, é o 𝗺𝗮𝗻𝗶𝗳𝗲𝘀𝘁𝗼 𝗽𝗼𝗿 𝗮𝘂𝘁𝗼𝗿𝗶𝗱𝗮𝗱𝗲. O texto em si 𝗻ã𝗼 𝗱𝗲𝗺𝗼𝗻𝘀𝘁𝗿𝗮 𝗻𝗮𝗱𝗮; ele apenas 𝗮𝘁𝗲𝘀𝘁𝗮. A força retórica se dá pelas láureas dos signatários, não por lógica robusta e incontestável.

2. Praticamente todo o conteúdo empírico da carta está no condicional, e isso é feito com cuidado gramatical. Observe os verbos das expressões "pode se tornar", "isso poderia impulsionar", "poderia trazer". Nenhuma das duas primeiras teses da carta é uma afirmação factual, são 𝗰𝗲𝗻á𝗿𝗶𝗼𝘀. A própria comparação com a Revolução Industrial é uma analogia histórica, não uma previsão testável. E falar em prazo "menor" é pura extrapolação, já que não há precedente que a fundamente.

3. O truque retórico central da carta reside na única frase no modo imperativo, que refere a exigência de ação. Ou seja, a carta constrói uma certeza (o dever de agir agora) sobre premissas explicitamente incertas O próprio título converte a especulação em urgência moral. Ou seja, a hipótese vira mandato sem passar pela demonstração.

4. É preciso notar ainda que a carta não especifica o modo de agir. Agir como? Com quais políticas? Falar em incentivos, salvaguardas e instituições é linguagem deliberadamente vazia. Cada leitor e cada signatário pode projetar seu conteúdo preferido. É por isso que Daron Acemoglu e Vinod Khosla podem assinar o mesmo documento, pois 𝗲𝗹𝗲 𝗻ã𝗼 𝗰𝗼𝗺𝗽𝗿𝗼𝗺𝗲𝘁𝗲 𝗻𝗶𝗻𝗴𝘂é𝗺 𝗰𝗼𝗺 𝗻𝗮𝗱𝗮.

5. Os temas da ansiedade sobre desemprego, a comparação com a Revolução Industrial e este gênero de uma "carta aberta assinada por notáveis" se traduz como mais uma série de considerações que já foram exaustivamente enunciadas. Ou seja: nem o diagnóstico, nem a analogia, nem o formato são novos. O que é novo é a composição da coalizão. E ATENÇÃO: é aí que mora o 𝘀𝘂𝗯𝘁𝗲𝘅𝘁𝗼 𝗱𝗮 𝗰𝗮𝗿𝘁𝗮. Trata-se de 𝗽𝘂𝗯𝗹𝗶𝗰𝗶𝗱𝗮𝗱𝗲 𝗱𝗲 𝗰𝗮𝗽𝗮𝗰𝗶𝗱𝗮𝗱𝗲 𝗱𝗶𝘀𝗳𝗮𝗿ç𝗮𝗱𝗮 𝗱𝗲 𝗮𝗹𝗲𝗿𝘁𝗮 e de 𝗿𝗲𝗶𝘃𝗶𝗻𝗱𝗶𝗰𝗮çã𝗼 𝗱𝗲 𝗷𝘂𝗿𝗶𝘀𝗱𝗶çã𝗼.

O que a carta faz e quer é converter incerteza em urgência, e urgência em autoridade para um grupo específico. E isso é ainda mais perigoso do que os riscos da #IA.

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