sexta-feira, 19 de junho de 2026

O sentido do doutoramento

 

Pensei bastante e até relutei antes de escrever esta publicação, mas resolvi arriscar. Ela é, acima de tudo, um desabafo. Ainda assim, espero que os que decidiram dedicar um tempinho à leitura possam compreender o que existe por trás de um doutorado. E que aqueles que já passaram por experiências semelhantes possam se reconhecer aqui.

O que um doutorado tem a ver com o mundo corporativo?

Essa é, provavelmente, a pergunta que mais escuto quando as pessoas descobrem que tenho um doutorado. Geralmente, ela vem de quem não conhece ou de pessoas que acham que conhecem a experiência acadêmica em profundidade.

Se analisarmos o que faz uma operação corporativa funcionar bem, veremos que o método científico deveria estar na base de tudo. Processos e fluxos precisam ter começo, meio e fim. Problemas surgem o tempo todo, e resolvê-los exige análise, formulação de hipóteses, criatividade, testes, métricas, implementação...

Não é exatamente isso que um pesquisador faz?

Parte-se de uma pergunta, constrói-se uma ou mais hipóteses, definem-se objetivos, coletam-se dados e, por fim, chegam-se a conclusões. Trata-se de um ciclo estruturado de tomada de decisão que, a meu ver, é extremamente valioso em qualquer organização.

“Ah, mas falta experiência com a burocracia corporativa…”

Será mesmo? Quem já participou de projetos de pesquisa financiados sabe muito bem o que isso significa. Gestão de orçamento, cumprimento de cronogramas, prestação de contas, editais, coleta de documentação, relatórios, apresentações… tudo isso faz parte do dia a dia acadêmico.

A verdade é que o mestrado e, principalmente, o doutorado quando vividos de forma ativa desenvolvem uma bagagem riquíssima, aplicável a diversas áreas. Além do conhecimento técnico, que de fato é mais específico, fortalecem habilidades que aparecem constantemente nas descrições de vagas: pensamento analítico, autonomia, organização, proatividade, inteligência emocional, criatividade, colaboração e aprendizagem rápida.

“Ah, mas se você é pesquisador, por que foi para o mundo corporativo?”

A primeira resposta é simples: uma vez pesquisador, sempre pesquisador.
Idealmente, o pensamento científico deveria ser algo cultivado desde a escola. Assim, formaríamos adultos mais críticos, funcionais e capazes de transitar bem entre diferentes contextos. Na prática, porém, a resposta é outra: infelizmente, nasci em um país onde a pesquisa não recebe o devido valor. Não tive oportunidade de seguir na carreira, pois os salários, em geral, não são atrativos, e são raros os casos de pesquisadores financeiramente bem-sucedidos no Brasil e aqui vale esclarecer que “bem-sucedido” não significa milionário.

Enfim… este é um pequeno desabafo.

Seria extremamente valioso se o mundo corporativo passasse a enxergar essa trajetória com outros olhos. A experiência acadêmica não é apenas “teórica”: ela é, sim, uma experiência profissional completa, estruturada e altamente relevante.

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