quinta-feira, 25 de junho de 2026

Jairo José da Silva

 O cancelamento do doutorado de Étienne Klein levanta algumas questões sérias sobre doutorados.

A banca que leu sua tese não se deu conta dos plágios? A função de uma banca de doutorado é avaliar a originalidade do trabalho, e se ela não conseguiu detectar o plágio, que capacidade ela tinha para avaliar a originalidade?
A verdade é que defesas de tese são quase sempre um circo onde quase ninguém lê a tese. Presume-se que o orientador o tenha feito e todos acreditam nele.
Eu participei de bancas em que o colega ao meu lado, ao notar que meu exemplar da tese estava todo anotado, perguntou assustado: você vai falar disso tudo?! Eu tenho que sair daqui às cinco horas!
Uma tese de doutorado deveria ser o trabalho inicial de uma carreira, em que o candidato mostra que é capaz de conduzir uma pesquisa. Só isso. Deveria ser o pior trabalho de um acadêmico, mas em muitos casos, no Brasil pelo menos, não só é o melhor, mas é o único. Grande parte dos nossos acadêmicos não faz mais pesquisa nenhuma depois do doutorado.
Depois da defesa, a maioria das teses vão acumular poeira nas bibliotecas das universidades: jamais serão publicadas, nunca mais serão lidas. É tudo um faz-de-conta.
Não seria melhor eliminar a necessidade de uma tese, substituindo-a por uma demonstração muito mais cabal que o candidato aprendeu a fazer pesquisas, um trabalho publicado numa revista séria?
Boas revistas têm critérios rígidos de publicação e um trabalho aceito e publicado demonstra o que se quer demonstrar: o candidato se tornou, de fato, um pesquisador.
Isso eliminaria as bancas e todo o circo das defesas de tese. E tornaria o plágio muito mais difícil, pois o trabalho publicado teria passado pelo escrutínio de críticos anônimos que conhecem muito bem o assunto.
Mesmo em teses originais, o núcleo de originalidade pode ser condensado em 20 páginas, as 300 restantes são, quase sempre, pura “encheção de linguiça”. Impossível que tudo ali seja original, e só não é plágio porque o autor soube colocar as aspas onde elas eram devidas. O que o separa do plagiador são as aspas, nada mais.
Melhor eliminar isso tudo. Vira doutor quem for capaz de publicar um trabalho original de pesquisa numa revista séria. Ou, no caso de algumas humanidades, um livro original numa editora comercial ou acadêmica de prestígio. A banca poderia apenas avaliar a seriedade da revista ou da editora.
O número de doutores diminuiria drasticamente.

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