quarta-feira, 27 de maio de 2026

A lição coreana q o Brasil ignora

 A lição coreana que o Brasil ignora


O economista Nilson Teixeira argumenta que o sucesso econômico da Coreia do Sul não nasceu principalmente de política industrial, subsídios ou grandes conglomerados, mas de um investimento consistente e prioritário em educação básica de qualidade. Nos anos 1950, a Coreia era tão pobre quanto o Brasil. Hoje possui renda per capita quase três vezes maior, forte presença tecnológica global e produtividade muito superior.

O artigo destaca que o Brasil passou décadas observando o modelo coreano, mas frequentemente concentrou atenção em seus grandes grupos industriais e políticas de exportação, ignorando o fundamento que sustentou todo o crescimento: alfabetização, ensino fundamental sólido, formação rigorosa de professores e avaliação permanente dos resultados educacionais.

Segundo o autor, a Coreia seguiu uma sequência clara:

1. Educação infantil e fundamental.
2. Ensino médio.
3. Ensino superior.

O Brasil fez o contrário em muitos momentos, expandindo universidades e programas de acesso ao ensino superior sem resolver os problemas estruturais da educação básica. O resultado é que apenas cerca de metade dos jovens brasileiros alcança níveis mínimos de proficiência em leitura, enquanto a Coreia se aproxima da universalização dessas competências.

O texto aponta seis prioridades para o Brasil:

* Universalizar a educação infantil e fortalecer o ensino fundamental.
* Melhorar a qualidade do aprendizado, não apenas o acesso.
* Profissionalizar e valorizar a carreira docente.
* Avaliar continuamente os resultados e corrigir desvios.
* Criar incentivos baseados em mérito e desempenho.
* Separar a carreira de gestor escolar da carreira de professor, profissionalizando a gestão.

Principal conclusão

A Coreia estruturou primeiro a base, depois o meio e só então o topo do sistema educacional. O Brasil inverteu essa lógica. Para o autor, sem uma revolução na educação básica, qualquer plano de desenvolvimento econômico, industrial ou tecnológico terá alcance limitado. O verdadeiro diferencial coreano não foi apenas fabricar carros, navios ou semicondutores, mas formar capital humano capaz de criar, operar e aprimorar essas indústrias ao longo de décadas.

A década da volatilidade tática

 A Década da Volatilidade Tática: O Raio-X da Indústria de Fundos no Brasil (2016–2026)

A indústria de fundos de investimento no Brasil encerra um ciclo de dez anos (2016–2026) marcada por uma profunda transformação estrutural. O que assistimos não foi apenas o crescimento nominal do ecossistema, mas uma migração tectônica de patrimônio ditada por ciclos agressivos da taxa Selic e por um redesenho regulatório sem precedentes.

Para quem gerencia, aloca ou distribui capital, os números dessa década desenham um retrato claro da maturidade — e dos desafios estruturais — do mercado financeiro doméstico.

 1. O Crescimento Nominal vs. A Dança das Cadeiras do Market Share

Em 2016, a indústria de fundos operava com um Patrimônio Líquido (PL) consolidado na casa dos R$ 3,4 trilhões. Dez anos depois, em 2026, o bolo total quase triplicou, consolidando-se entre R$ 8,5 trilhões e R$ 9,0 trilhões.

No entanto, o dado mais relevante não é o crescimento do bolo, mas como as fatias foram redistribuídas:

📊 O Comparativo de Market Share (% do PL Total)

• Renda Fixa & Crédito Privado: Saltou de ~50% a 53% em 2016 para dominantes ~60% a 65% em 2026.

• Multimercados: Representava ~22% a 24% em 2016, viveu um pico de quase 26% no auge do juro baixo (2019/2020), e recuou para ~18% a 20% em 2026.

• Ações (Equities): Oscilava entre ~8% a 10% em 2016 e encolheu para a faixa de ~5% a 7% em 2026, após um ciclo crônico de resgates.

• Previdência Privada (FIEs): Avançou de ~12% a 14% para ~15% a 17% do PL total da indústria, consolidando-se como o grande veículo de blindagem patrimonial.

 2. O Fenômeno dos Isentos, o Cerco do CMN e a Matemática do Gross-Up

Se existe um segmento que roubou a cena na segunda metade desta década, foi o de ativos e fundos isentos de Imposto de Renda para pessoa física. O apetite do investidor por rentabilidade líquida transformou o mercado de capitais. No entanto, a verdadeira disrupção estrutural ocorreu no início de 2024, quando o Conselho Monetário Nacional publicou duas normas implacáveis: as Resoluções CMN nº 5.118 e nº 5.119.

• CMN 5.118 (O veto aos lastros "cosméticos"): Barrou a farra dos CRIs e CRAs estruturados por empresas de fora dos setores imobiliário e do agronegócio (como redes de varejo ou companhias de telefonia que usavam recebíveis de aluguéis ou contratos comerciais para captar com isenção). O estoque de novos papéis corporativos isentos simplesmente secou.

• CMN 5.119 (O freio bancário): Restringiu o uso de recursos de LCIs e LCAs e, crucialmente, estendeu os prazos mínimos de carência desses títulos para o investidor de varejo (as LCIs saltaram de 90 dias para 9 meses de prazo mínimo), reduzindo drasticamente a liquidez desse ecossistema.

Com a escassez desses títulos de crédito direto nas plataformas, os Fundos de Debêntures Incentivadas (Lei 12.431) tornaram-se os grandes herdeiros desse fluxo bilionário de capital, mantendo o benefício fiscal na cota do fundo focado em infraestrutura nacional.

🧮 A Força Gravitacional do Gross-Up na Alta Renda

Nas mesas de alocação de Wealth Management, a análise de fundos e títulos isentos é inteiramente pautada pelo cálculo do gross-up (a taxa equivalente que um produto tributado precisaria render para igualar o retorno do ativo isento).

Quando traduzimos essa assimetria fiscal para a régua preferida do mercado brasileiro, o prêmio regulatório revela distorções impressionantes tanto em termos relativos (% do CDI) quanto em spread real absoluto (CDI + %):

Para ilustrar o tamanho dessa distorção competitiva, consideremos um cenário onde a taxa DI de mercado está estabelecida em 14,4% ao ano e um fundo de debêntures incentivadas consegue entregar um retorno líquido equivalente a exatamente 100% do CDI (14,4%).

Assumindo o horizonte de longo prazo, onde incide a alíquota marginal mínima de 15% de Imposto de Renda sobre os fundos tradicionais, o cálculo do rendimento equivalente bruto nominal é:

Taxa Equivalente Bruta = 14,4% / (1 - 0,15) = 14,4% / 0,85 = 16,94% ao ano

A partir desta taxa bruta de 16,94%, derivamos duas métricas de comparação direta para os fundos tributados concorrentes:

 1. Gross-Up Relativo (% do CDI): Dividindo o retorno bruto nominal pela taxa DI de mercado (14,4%), chegamos a 117,64% do CDI.

 2. Gross-Up Absoluto (Spread sobre o CDI): Subtraindo a taxa DI base (14,4%) do retorno bruto nominal (16,94%), o prêmio se traduz em um spread linear exato de CDI + 2,54% ao ano.

O Impacto no Portfólio: Para competir com um ativo isento de 100% do CDI sob uma taxa base de 14,4%, um fundo de crédito privado tradicional (tributado) precisa entregar 117,64% do CDI ou, em termos absolutos, CDI + 2,54%. Para capturar esse nível de spread no mercado tributado, o gestor é obrigado a assumir um risco de crédito de qualidade muito inferior (High Yield agressivo), enquanto o fundo isento entrega a mesma eficiência real alocado em grandes emissores High Grade de infraestrutura.

 3. A Anatomia das Demais Classes de Ativos

💼 Renda Fixa Tradicional: O Motor de Liquidez

O crescimento da Renda Fixa além dos isentos esconde uma mudança qualitativa. Em 2016, o volume estava massivamente alocado em fundos DI soberanos de grandes bancos comerciais. Mesmo com os choques de volatilidade — como o Credit Crunch do início de 2023 (evento Americanas e Light) que travou o mercado secundário —, a classe provou sua resiliência. O retorno da Selic aos dois dígitos capturou o fluxo de fuga de risco (flight to quality), mantendo a renda fixa tradicional como o colchão de liquidez compulsório do mercado.

🔮 Multimercados: Do Auge à Busca por Sobrevivência Global

Os fundos Multimercados Macro, historicamente a "joia da coroa" da gestão independente brasileira, viveram duas metades muito distintas nesta década.

• A Era de Ouro (2016-2020): Capturaram com precisão o fechamento da curva de juros doméstica e o rali de ativos locais, atraindo volumes gigantescos de captação líquida.

• A Ressaca Macro (2021-2024): A velocidade do aperto monetário global (Fed) e do Banco Central do Brasil impôs perdas severas aos maiores players do mercado. Entre 2022 e 2024, a classe registrou saídas líquidas acumuladas superiores a R$ 290 bilhões.

A resposta da indústria tem sido a especialização: para estancar os resgates, o volume remanescente migrou internamente para estratégias quantitativas (sistemáticos), arbitragem e mandatos Global Macro puramente descorrelacionados do risco Brasil.

📈 Ações: O Ciclo de "Financial Deepening" que Virou Fumaça

O movimento de sofisticação e popularização da Bolsa (2018–2021), que levou o Ibovespa à máxima histórica e multiplicou o PL de gestoras focadas em Stock Picking por fatores de até 5x, enfrentou a dura realidade do custo de oportunidade. Com o juro real rodando consistentemente elevado na metade final da década, manter capital em estratégias Long Only de crescimento (growth) tornou-se proibitivo para o investidor. O resultado foi o mais longo ciclo de resgates da história da classe, mitigado em volume financeiro apenas pela resiliência de fundos focados em Value Investing e dividendos.

 4. O Redesenho Regulatório das Estruturas de Alta Renda

Além do cerco do CMN aos isentos, o mapa do grande capital foi redesenhado por outras duas forças normativas marcantes do período:

• A Lei dos Fundos Exclusivos (Lei 14.754/2023): O fim do diferimento tributário para fundos fechados de alta renda e a introdução do come-cotas semestral (maio e novembro) retiraram o apelo puramente fiscal dessas estruturas. Bilhões de reais migraram para fundos de Previdência e carteiras administradas diretas.

• A Consolidação da Resolução CVM 175: O novo marco regulatório simplificou a engrenagem operacional das gestoras através da criação de classes e subclasses sob o mesmo CNPJ. Mais importante ainda: a introdução da responsabilidade limitada do cotista blindou o patrimônio dos investidores em casos de PL negativo, pavimentando o caminho para o crescimento de volumes em ativos alternativos e estruturados (FIDCs e FIPs).

Conclusão: A Ditadura do CDI e a Maturidade da Indústria

A análise consolidada dos últimos 10 anos deixa uma lição clara: no Brasil, o CDI continua exercendo uma força de gravidade quase irresistível sobre a alocação de ativos. O ensaio de diversificação estrutural em direção ao risco (ações e multimercados) visto na virada da década passada mostrou-se cíclico.

No entanto, a indústria que opera o PL de quase R$ 9 trilhões é incomparavelmente mais madura, transparente e flexível do que aquela de R$ 3,4 trilhões de 2016. A sobrevivência e o crescimento no mercado brasileiro passaram a exigir dos gestores uma combinação milimétrica de três fatores: geração de alfa, eficiência tributária e gestão rigorosa de liquidez.

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BDM Matinal Riscala

 *Rosa Riscala: IPCA-15 testa os limites do BC*


… O mercado tenta calibrar até onde vai o risco geopolítico no Oriente Médio e qual será o tamanho da conta inflacionária da guerra. Os novos ataques entre Estados Unidos e Irã voltaram a elevar dúvidas sobre a estabilidade do cessar-fogo e sobre a normalização do Estreito de Ormuz, mantendo o Brent perto de US$ 100 e reacendendo apostas de juros mais altos por mais tempo no mundo. Em Nova York, enquanto as ações seguem comprando inteligência artificial e renovando recordes, os juros continuam comprando guerra. No Brasil, o foco se volta hoje para o IPCA-15 de maio, em meio à percepção de que os núcleos e os serviços seguem desconfortáveis para o Banco Central.


JURO COMPRA GUERRA – O mercado voltou a reduzir apostas em uma solução rápida para o conflito no Oriente Médio, após novos ataques entre Estados Unidos e Irã reacenderem dúvidas sobre a estabilidade do cessar-fogo e a normalização do tráfego no Estreito de Ormuz.


… O Brent voltou a se aproximar de US$ 100 depois de os Estados Unidos realizarem ataques classificados como “autodefesa” no sul do Irã, mirando plataformas de lançamento de mísseis e embarcações com capacidade de espalhar minas.


… Em resposta, Teerã acusou Washington de violar o cessar-fogo em vigor, afirmou que “nenhuma agressão ficará sem resposta” e disse ter derrubado um drone americano, enquanto o líder supremo Mojtaba Khamenei também fazia alertas.


… Segundo o iraniano, “as nações e terras da região não serão mais um escudo para as bases americanas”.


… Apesar do discurso oficial da Casa Branca defendendo a continuidade das negociações, investidores passaram a enxergar uma distância maior entre um eventual acordo formal e uma paz efetivamente estável na região.


… O presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, afirmou estar pronto para firmar um “acordo digno” com os Estados Unidos, enquanto Marco Rubio admitiu que um entendimento ainda pode levar “alguns dias” para ser concluído.


… As negociações seguem travadas em pontos considerados centrais, como a liberação de US$ 24 bilhões em ativos iranianos congelados, o destino dos estoques de urânio enriquecido e as condições de navegação pelo Estreito de Ormuz.


… O Comando Central dos Estados Unidos desmentiu relatos de retomada da escolta naval no estreito, reforçando a percepção de que o fluxo marítimo segue vulnerável, mesmo após o Irã afirmar que permitiu a passagem de 25 embarcações comerciais nas últimas horas.


… O presidente Donald Trump cancelou viagem a Camp David e decidiu realizar reunião com todo o gabinete na Casa Branca nesta quarta-feira, poucas horas depois da escalada envolvendo embarcações iranianas e alvos militares no Golfo.


… No pano de fundo, Israel ampliou operações no Líbano, enquanto o presidente do Fed de Minneapolis, Neel Kashkari, afirmou que uma “série” de altas de juros pode voltar à mesa caso a guerra pressione ainda mais a inflação global.


… A nova tensão trouxe perdas aos ativos domésticos; já em Nova York, as bolsas ignoraram parcialmente a guerra, com o avanço das ações ligadas à inteligência artificial levando o S&P 500 e o Nasdaq a novos recordes na volta do feriado de Memorial Day (abaixo).


CONSEGUIU A FOTO – Mesmo com uma guerra na agenda, Trump encontrou tempo para receber Flávio Bolsonaro na Casa Branca e o senador aproveita para transformar a reunião em demonstração de prestígio internacional e consolidação de sua pré-candidatura ao Planalto.


… Para ele, o fato de ter sido recebido no Salão Oval é prova de que existe “uma alternativa séria, sólida e confiável” ao governo Lula.


… Flávio disse ainda que apresentou ao presidente americano propostas ligadas à exploração de minerais críticos e terras raras no Brasil, defendendo uma parceria estratégica entre os dois países caso seja eleito.


… O senador também afirmou que pediu a Trump que PCC e Comando Vermelho sejam classificados pelos Estados Unidos como organizações terroristas – assumindo uma postura polêmica atribuída à extrema-direita e que pode atingir a soberania do Brasil.


… Segundo Flávio, a conversa durou cerca de 1h40 e incluiu comentários de Trump sobre Jair Bolsonaro, além da entrega de uma “challenge coin”, medalha usada pelas Forças Armadas americanas como símbolo de reconhecimento.


… O encontro acontece em meio à repercussão da relação entre Flávio e Daniel Vorcaro, financiador do filme Dark Horse, que atingiu a sua candidatura ao Palácio do Planalto, conforme mostraram as últimas pesquisas eleitorais.


BRB & MASTER – O desenho para uma solução da crise do Banco de Brasília está fechado e ganha grande espaço na mídia.


… União e Governo do Distrito Federal avançaram em um acordo preliminar para viabilizar a capitalização do BRB, mas a solução ainda depende da adesão do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) e de um sindicato de bancos públicos e privados.


… O desenho discutido no STF prevê um empréstimo bilionário ao GDF junto ao FGC, com fiança de bancos e contragarantias atreladas aos repasses do Fundo de Participação dos Estados (FPE) e do Fundo de Participação dos Municípios (FPM).


… O governo federal deixou claro que não haverá aval direto da União para a operação, principal ponto de resistência da Fazenda desde o início.


… Em contrapartida, a União se comprometeu a flexibilizar os limites do Programa de Ajuste Fiscal do Distrito Federal para permitir uma operação de crédito acima do teto atual, hoje limitado a cerca de R$ 900 milhões.


… O valor em discussão gira em torno de R$ 5 bilhões, embora o pedido original do GDF ao FGC tenha alcançado R$ 6,6 bilhões.


… O BRB tenta fechar um rombo provocado pelas operações envolvendo o Banco Master e trabalha contra o tempo para recompor índices mínimos de capital exigidos pelo Banco Central.


… Em documento enviado ao BC e anexado ao processo no STF, o banco informou que está submetido a um termo de comparecimento do regulador e tem até o dia 29 para apresentar medidas de recomposição patrimonial.


… Além do empréstimo, o GDF tenta levantar recursos por meio da securitização de dívida ativa via FDIC, enquanto o BRB busca alterar as condições de letras financeiras subordinadas para reforçar capital principal.


… O termo de conciliação também prevê que o GDF terá de adotar medidas de ajuste fiscal como contrapartida para viabilizar o socorro ao BRB e estabelece que recursos recuperados de atos ilícitos ligados ao caso serão direcionados para liquidar a operação de auxílio ao banco.


… Apesar do avanço das negociações, interlocutores envolvidos nas tratativas afirmam que a solução ainda está longe de ser concluída e depende da avaliação econômica e jurídica do FGC e das instituições financeiras que participariam do consórcio.


… Uma nova reunião entre União, GDF, Banco Central, AGU e BRB está marcada para amanhã, quinta-feira, no STF, enquanto a CAE do Senado aprovou convocação do presidente do banco, Nelson de Souza, para depor sobre a crise na próxima semana.


ESCALA 6X1 – O presidente da comissão especial, deputado Alencar Santana (PT-SP), afirmou que a PEC será votada no colegiado nesta quarta-feira, às 10h, e, segundo o presidente da Câmara, Hugo Motta, o texto pode ir ao plenário já amanhã, quinta-feira.


… O avanço acelerado da proposta provocou reação do setor produtivo, que passou a pressionar por mais tempo de discussão e criticou a condução do debate. Representantes empresariais reuniram-se ontem com Davi Alcolumbre.


… Alertando para impactos sobre emprego, produtividade e competitividade, disseram que a mudança tem caráter “eleitoreiro”.


… O presidente da Fiesp, Paulo Skaf, criticou a tramitação da proposta na Câmara e afirmou que o tema está sendo tratado de forma “irresponsável” e “açodada”. Segundo ele, a discussão mistura jornada semanal e modelo de escala.


… Afirmando que a proposta ignora diferenças entre setores, defendeu que mudanças continuem sendo tratadas por negociação coletiva.


… No Senado, parlamentares avaliam que Davi Alcolumbre não deve travar a tramitação da PEC, diante da pressão eleitoral em torno do tema e da proximidade das eleições de outubro, mas o período de transição para as novas normas pode voltar à pauta.


CURTAS DA POLÍTICA – Mais duas pesquisas eleitorais para a disputa presidencial serão divulgadas hoje, do site Jota e Indexa (10h).


AÉCIO. O PSDB e o Cidadania formalizaram convite para que Aécio Neves dispute novamente a Presidência da República em 2026. O deputado afirmou estar “disposto” e “preparado” para a candidatura, embora tenha evitado confirmar decisão definitiva neste momento.


MOVE BRASIL. CMN aprovou mudanças nas regras do programa, ampliando de 60 para 120 meses o prazo de financiamento para renovação da frota de ônibus e micro-ônibus. Segundo a Fazenda, a medida busca reduzir o valor das parcelas.


PROFESSORES. O Senado aprovou ontem reajuste de 5,4% no piso salarial dos professores da educação básica da rede pública, elevando o valor para R$ 5.130,63. O texto também redefine a fórmula de reajuste do piso com base na inflação e na evolução das receitas do Fundeb.


COMBUSTÍVEIS. Projeto que cria mecanismo de compensação tributária para reduzir o impacto da alta dos combustíveis deve ser votado hoje…


… O texto permite usar receitas extraordinárias do petróleo para compensar reduções de tributos federais sobre combustíveis fósseis, em meio ao choque provocado pela guerra no Oriente Médio…


… O relatório preserva vantagens tributárias para biocombustíveis, flexibiliza regras de compensação de créditos de PIS/Cofins para o etanol e obriga o governo a demonstrar o impacto das medidas nas contas públicas.


MAIS AGENDA – A quarta-feira traz como destaque o IPCA-15 de maio, em meio à tentativa do mercado de medir até que ponto o alívio da gasolina consegue compensar a pressão persistente dos núcleos de inflação, em um ambiente contaminado pelo choque do petróleo.


… O IBGE divulga o indicador às 9h e a mediana das Projeções Broadcast aponta desaceleração para 0,56% em maio, após alta de 0,89% em abril, enquanto a taxa acumulada em 12 meses deve subir para 4,59%, acima do teto da meta.


… A expectativa é de descompressão relevante em Transportes, puxada pela queda da gasolina, mas com pressão ainda importante em alimentação, energia elétrica e principalmente nos serviços – forte preocupação do Banco Central.


… A média dos núcleos deve desacelerar apenas marginalmente, de 0,47% para 0,46%, reforçando a percepção de inflação qualitativamente ainda desconfortável para o Copom seguir com o ciclo de flexibilização monetária.


… Economistas destacam que serviços subjacentes, alimentação fora do domicílio e itens intensivos em mão de obra seguem pressionados, enquanto a alta do petróleo e o risco de prolongamento da guerra no Oriente Médio mantêm o viés inflacionário no radar.


… Às 14h30, o Banco Central divulga o fluxo cambial semanal e o Tesouro apresenta o relatório mensal da dívida pública de abril.


LULA – Na agenda corporativa, o presidente participa no Amazonas de evento da Petrobras e da Transpetro para o anúncio de investimentos de R$ 2,8 bilhões no Estado até 2030, incluindo retomada de aportes em Urucu.


NO EXTERIOR – A agenda de indicadores é mais esvaziada, mas investidores acompanham a conferência do Banco do Japão, que reúne dirigentes do Fed, BCE, BoE e FMI em Tóquio, com a participação de Philip Jefferson, Austan Goolsbee, Lorie Logan e Lisa Cook.


JAPÃO – Em discurso preparado para a conferência do BoJ, o presidente do BC japonês, Kazuo Ueda, alertou na noite de ontem que os choques de energia causados pelo petróleo podem se espalhar pela inflação subjacente.


… Segundo ele, um impacto inicialmente temporário pode se tornar duradouro e se propagar pela economia, ao afetar salários, expectativas e preços. Os comentários acontecem a três semanas da próxima decisão de juros.


TODO DIA ELE FAZ TUDO SEMPRE IGUAL – Quando o mercado acha que um acordo de paz está a um triz de sair, Trump ou o Irã dão um jeito de baixar a convicção sobre um desfecho próximo da guerra de quase três meses.


… O otimismo voltou a ser colocado à prova pelos ataques pontuais dos americanos contra lançadores de mísseis do Irã, interpretados como “flagrante violação” do cessar-fogo pelo Teerã: “nenhuma agressão ficará sem resposta”.


… A piora na percepção de risco sobre a guerra puxou o petróleo Brent novamente para perto dos US$ 100, com o barril para entrega em julho escalando 3,58%, para US$ 99,58, e resgatando o receio do choque sobre a inflação.


… Antes de o conflito estourar, no fim de fevereiro, a estimativa para a Selic terminal rodava em torno de 12%, mas de lá para cá o estresse foi tanto, que agora a aposta majoritária no mercado financeiro é de 14% no final do ano.


… Só cresce a sensação de que a taxa básica ficará mais alta por mais tempo para acomodar o efeito inflacionário da guerra. Ontem, o Citi elevou a previsão para a Selic deste ano (13,25% para 13,75%) e IPCA de 2027 (3,7% para 3,9%).


… Segundo o banco, o Copom elevou o tom hawkish em sua comunicação no último encontro de política monetária, em abril, destacando ainda um processo de desancoragem das expectativas de inflação em horizontes mais longos.


… Na avaliação do Citi, os subsídios do governo envolvendo os preços dos combustíveis podem limitar o impacto no consumidor no curto prazo, mas não reduzem a tendência de inflação acima da meta no médio e longo prazos.


… Ouvido pelo Broadcast, o economista-chefe da Porto Asset, Felipe Sichel, advertiu que o câmbio, que até aqui vinha funcionando como um importante aliado para o alívio da inflação, pode virar um ponto de incerteza.


… “O câmbio já não está conseguindo performar tão bem. O dólar acima de R$ 5 deixa de ser um fator positivo.”


… O que se tem notado nos últimos dias é que o real mudou um pouco o padrão e já não tem conseguido faturar tanto quanto antes as investidas de alta do petróleo. O dólar completou ontem seis pregões acima de R$ 5,00.


… Os sinais renovados de tensão no Oriente Médio levaram a moeda a subir de leve (+0,17%), cotada a R$ 5,0274.


… De olho na inflação, os juros futuros corrigiram parte da queda da véspera: Jan/27 subiu a 14,065% (de 14,006%); Jan/28, 13,835% (13,698%); Jan/29, 13,815% (13,674%); Jan/31, 13,895% (13,801%); e Jan/33, 13,970% (13,899%).


MUNDO À PARTE – Em Nova York, o boom da Inteligência Artificial falou mais alto do que a cautela com a guerra e o medo de que o Fed antecipe uma alta do juro para dezembro, garantindo recordes históricos do S&P 500 e Nasdaq.


… O setor de tecnologia voltou a brilhar: Micron disparou 19,29% e atingiu a marca de US$ 1 trilhão em valor de mercado, depois de o UBS triplicar o preço-alvo para a fabricante de chips de memória, de US$ 535 para US$ 1.625.


… O novo target representa valorização de aproximadamente 115% em relação ao fechamento de sexta-feira. Outra estrela do dia foi a Qualcomm, que saltou 4,48%, após fechar acordo com a dona do TikToK para fornecer chips de IA.


… Na volta do feriado do Memorial Day, o Nasdaq avançou 1,19%, aos 26.656,18 pontos, e o S&P 500 subiu 0,61%, para 7.519,12 pontos. Só o Dow Jones fechou em baixa, de 0,23%, mas segue acima dos 50 mil pontos (50.461,68).


… Descolado do otimismo de Wall Street com as gigantes de tecnologia, o Ibovespa reproduziu o perigo da interrupção da trégua entre os Estados Unidos e o Irã. Caiu 0,69%, a 176.589,03 pontos, com giro de R$ 22,4 bilhões.


… Os bancos corrigiram o rali da véspera. BB ON caiu 2,49% (R$ 21,11), Bradesco PN perdeu 1,27% (R$ 17,84), Itaú PN registrou queda de 0,64% (R$ 40,06), Santander unit recuou 1,16% (R$ 27,32) e BTG unit, -0,72% (R$ 55,50).


… As ações da Vale também recuaram (-0,62%; R$ 83,07), em dia de queda firme do minério de ferro (-1,95%).


… O desempenho da bolsa só não foi pior em razão das ações da Petrobras (ON, +0,41%, a R$ 48,89; e PN, +0,09%, a R$ 43,44), sustentadas pelo petróleo, ainda que tenham mostrado fôlego reduzido, comparadas à commodity.


… Apesar de os novos ataques no Oriente Médio terem relembrado a onda inflacionária, os juros dos Treasuries voltaram do feriado em queda: Note de dois anos a 4,042% (de 4,122%) e de 10 anos, a 4,493% (de 4,559%).


… No câmbio, o dólar reprecificou os riscos e subiu contra suas três principais moedas rivais. O iene caiu a 159,32/US$, o euro teve queda marginal de 0,05%, para US$ 1,1635, e a libra perdeu 0,38%, a US$ 1,3451.


CIAS ABERTAS NO AFTER – PETROBRAS afirmou que não há decisão ou informação relevante relacionada ao terreno da Refit…


… A manifestação ocorreu após questionamento da CVM sobre reportagem envolvendo possível desapropriação da área da antiga refinaria de Manguinhos.


AZUL. A companhia informou que terá ADSs listadas na Nyse American a partir de 1º de junho. A empresa reiterou expectativa de migrar para a New York Stock Exchange em julho, após saída do mercado OTC.


USIMINAS. A BlackRock passou a deter participação equivalente a 9,8% das ações preferenciais da companhia, incluindo derivativos.


ONCOCLÍNICAS. A companhia negou proposta concreta de aporte de R$ 500 milhões, mas confirmou que avalia internamente eventual recuperação extrajudicial…


… A empresa afirmou que mantém conversas preliminares com credores conduzidas pela BR Partners.


CEMIG. A Aneel aprovou reajuste médio de 6,5% nas tarifas da Cemig-D, com vigência a partir do dia 28…


… Já a proposta de revisão tarifária da CELESC-D prevê alta média de 11,77% e entrará em consulta pública.


ORIZON. A companhia aprovou a 9ª emissão de debêntures, no valor de R$ 150 milhões.


BANCO DO NORDESTE. O banco fechou acordo com a Tokio Marine para distribuição de seguro residencial híbrido, sem exclusividade.

Bankinter Portugal Matinal

 Análise Bankinter Portugal 


NY +0,6% US tech +1,7% US Semis +5,5% UEM -1,1% España -0,5% VIX 17% Bund 2,98%. T-Note 4,49%. Spread 2A-10A USA=+45pb B10A: ESP 3,40% PT 3,34% ITA 3,70% FRA 3,66% Euribor 12m 2,78% (fut.12m 3,071%) USD 1,164 JPY 185,3 Ouro 4. 508$. Brent 99,6$. WTI 93,9$. Bitcoin -1,6% (76.001$). Ether -1,5% (2.076$). 


:: SESSÃO: Deverá vir marcada por um tom de consolidação. Não há, por agora, novidades decisivas na frente geoestratégica, embora o mercado continue pendente da possibilidade de um acordo entre o Irão e os EUA, que ajudaria a estabilizar ainda mais o preço do petróleo e a reduzir parte da incerteza recente. Com o petróleo bruto a movimentar-se perto dos 100$/barril e as yields ainda contidas, com o Bund <3,0% e o T-Note <4,50%, o mais provável é que as bolsas se movam hoje sem uma direção especialmente definida, numa sessão mais de espera do que convicção. 


A agenda macro do dia tem pouca capacidade para mudar o rumo. Após a decisão do RBNZ em manter taxas de juros (2,25%), em linha com o esperado, e umas referências asiáticas sem demasiada leitura para o mercado global, a atenção continuará no PCE americano de amanhã e nas inflações preliminares europeias de sexta-feira.


Neste contexto, e depois de uma sessão, ontem, em que Wall St. voltou a apoiar-se na força da tecnologia e dos semis para continuar a marcar máximos, dá a sensação de que o mercado entra numa fase mais exigente. A realidade é que as avaliações começam a estar mais questionadas e que, a partir destes níveis, já não basta inércia positiva para continuar a avançar com a mesma facilidade. O mercado já descontou uma temporada de resultados claramente melhor do que o esperado e também assumiu que a macro resistiu mais do que o esperado. Por isso, a secção em alta seguinte precisa de novos catalisadores que permitam justificar múltiplos mais exigentes e sustentar avanços das bolsas sem que a fragilidade do movimento aumente. 


O mais razoável seria uma fase de consolidação dos níveis alcançados. Não terá de ser interpretado como um sinal negativo, mas como um ajuste saudável após uma subida intensa e focada em alguns setores muito concretos. Para que o mercado possa retomar uma tendência em alta mais sólida, seria desejável um reajuste adicional nas expetativas de inflação, de forma às obrigações poderem respirar um pouco e as yields relaxarem. Esse movimento seria especialmente importante, porque permitiria aliviar a pressão sobre umas avaliações que, em determinados segmentos, voltam a exigir bastante perfeição em crescimento e lucros. 


FIM

Xico Graziano

 Minha mãe Ignez, 96 anos, perguntou-me outro dia, ao visitá-la em Araras (SP): “Como faço para saber se aquilo que a gente lê na internet é verdadeiro ou falso?”.

Tomei como exemplo um fato ocorrido recentemente na Argentina. Um açougueiro da cidade de Trelew, situada a 1.300 km de Buenos Aires, na Patagônia, teve a ideia de vender carne de burro. Preparou uns cortes, fez uma linguiça e, com ajuda de um pequeno restaurante, divulgou a novidade. O preço, barato, menos da metade da carne bovina, agradou. Vendeu 500 kg em 2 dias.

Alguém, malicioso, politizou o sucesso da iniciativa. Escreveu na rede social que o governo de Javier Milei tinha empobrecido o povo, levando os argentinos a abandonarem a parrilha, substituindo-a pela carne de burro para sobreviver. Culpa da direita. Viralizou.

Irritada, a Casa Rosada, sede do governo federal, utilizou seu perfil “Escritório de Resposta Oficial” no X para esclarecer que a notícia sobre a carne de burro refletia um caso isolado na Patagônia. Não tinha nada a ver com a política econômica. A polêmica correu a nação. Estava em jogo a imagem do país.
O assunto repercutiu no Brasil. No ambiente polarizado e tóxico do debate nacional, o burro argentino serviu de estopim para a guerra de narrativas entre os extremos. O ICL (Instituto Conhecimento Liberta), ligado à esquerda, tendo como sócio o influencer Felipe Neto, publicou em manchete: “Argentinos recorrem à carne de burro contra a fome durante crise econômica no país”.

O pessimismo provocado pela notícia se chocava com o otimismo dos índices econômicos, conforme mostrado por relatório do Banco Mundial. O equilíbrio das contas públicas e a forte queda da inflação traziam sinais de prosperidade no país. Em resumo: combatendo o caos populista, o governo Milei tem conseguido o milagre de salvar a Argentina.

Se você ler a história completa saberá que é simplesmente mentira que o consumo de carne de burro tenha estourado na Argentina. Na realidade lá ocorreu, como também no Brasil, uma forte elevação no preço da carne bovina.

O consumo doméstico de carnes na Argentina, somando o conjunto delas –avícola, suína e bovina– cresceu 3,85% em 2025, situando-se ao redor de 115 kg/hab/ano. Está acima do consumo médio per capita brasileiro, de 100 Kq/hab/ano. A carne bovina, entretanto, cedeu espaço às demais carnes na Argentina, caindo perto de 5 kg per capita/ano.

Tenha apreço pelo saber. E tome muito cuidado com a desinformação. Pesquise sempre a FONTE da informação.
(https://lnkd.in/dTDHwjSb)

A inteligência artificial e a humanidade

 A inteligência artificial e a humanidade

Encíclica de Leão XIV aborda IA não como ameaça apocalíptica, mas teste moral. O maior risco não é de máquinas que pensem como humanos, mas que humanos pensem como máquinas
26 mai. 2026
Estadão Editorial
A humanidade voltou a construir torres para conquistar o paraíso. Não de pedra, mas de dados, chips, modelos matemáticos e plataformas capazes de escrever textos, reconhecer rostos, prever comportamentos, moldar a atenção e influenciar decisões em escala planetária. Em sua primeira encíclica, Magnifica humanitas, Leão XIV adverte que a questão crucial da era da inteligência artificial (IA) não está na potência dessas ferramentas, mas no tipo de civilização que se organiza ao redor delas. Estamos diante da alternativa entre “construir uma nova Torre de Babel” ou erguer uma comunidade em que técnica e dignidade permaneçam reconciliadas.
Não há tecnofobia nem entusiasmo ingênuo. Tecnologias não devem ser nem demonizadas nem idolatradas. O papa reconhece que a IA pode ampliar capacidades humanas, reduzir sofrimento, acelerar descobertas científicas, melhorar vidas. Mas adverte que a tecnologia não é neutra: “Toda escolha de design reflete uma visão de humanidade”. Sistemas automatizados embutem prioridades, incentivos, critérios de eficiência e concepções implícitas sobre o que merece atenção, recompensa ou exclusão.
Esse ponto instala a discussão num terreno mais fecundo do que as fantasias sobre robôs conscientes ou máquinas rebeldes. A questão é antropológica. Uma civilização orientada pela lógica algorítmica tende a reinterpretar a experiência humana segundo categorias de cálculo, previsão e otimização. “Para um algoritmo, um erro é uma falha a ser corrigida; para uma pessoa, porém, o erro pode ser catalisador de uma transformação profunda.”
Algoritmos corrigem desvios para maximizar resultados. Pessoas amadurecem por meio de limites, arrependimento, experiência e responsabilidade. A inteligência artificial pode simular linguagem, raciocínio e criatividade. Não possui consciência moral, vulnerabilidade ou capacidade de sacrifício. Não há amor artificial. “Nenhum sistema computacional pode criar um coração capaz de se entregar.” A observação pode soar teológica, mas toca um nervo crucial numa cultura fascinada por transformar seres humanos em projetos permanentemente aperfeiçoáveis.
Dados, infraestrutura computacional, plataformas digitais e modelos de IA estão sob controle de um número reduzido de governos e corporações. Quem controla esses sistemas influencia consumo, reputação, trabalho e imaginação coletiva. A encíclica descreve esse ecossistema como uma infraestrutura invisível, aparentemente neutra, mas carregada de escolhas morais e políticas.
A Rerum novarum (1891), de Leão XIII, surgiu quando a máquina ameaçava reduzir trabalhadores a engrenagens descartáveis. A Revolução Industrial reorganizou o trabalho. A revolução digital reorganiza percepção, julgamento, linguagem e relações sociais. O risco não se limita à exploração econômica, mas alcança a própria ideia de ser humano.
Plataformas digitais moldam a percepção coletiva da realidade. “A verdade é um bem comum”, insiste o papa, num momento em que sistemas generativos diluem a fronteira entre autêntico e sintético. No mercado de trabalho, ganhos extraordinários de produtividade convivem com formas silenciosas de precarização e fragmentação social. Na guerra, a automação promete decisões mais rápidas e precisas enquanto aliena a responsabilidade moral e reduz seres humanos a padrões estatísticos.
Nada disso leva o pontífice a defender freios obscurantistas ao desenvolvimento tecnológico. A encíclica aponta noutra direção: prudência institucional, transparência, responsabilidade e controle democrático sobre sistemas capazes de alterar radicalmente a vida social.
Babel, afinal, nunca simbolizou excesso de conhecimento, mas excesso de soberba. O risco maior da inteligência artificial está menos em máquinas que se pareçam conosco, e mais numa sociedade que enxergue a si mesma segundo a lógica das máquinas. Leão lembra que “um rosto humano que pede para ser contemplado permanece no centro da nossa história”. A advertência cristológica, lida em registro antropológico, é uma síntese provocadora para um tempo fascinado por sistemas capazes de processar volumes infinitos de informação e cada vez mais esquecido de contemplar aquilo que continua irredutivelmente humano.

Kurt Vonnegut

 Perturbadores, livros de Vonnegut dos anos 1960 espelham Gaza e Ucrânia hoje


ALCIR PÉCORA


[RESUMO] No final dos anos 1960, o escritor Kurt Vonnegut Jr. emergiu como referência da contracultura ao fundir sátira e ficção científica numa prosa alucinada, modo com que expôs a longa marcha de horrores no século 20. Relançados agora no Brasil, dois de seus principais romances, ambos de humor sombrio, indagam por que a estupidez é tão constante em nossas sociedades e dizem muito sobre como, ainda hoje, normalizamos a barbárie.


Os dois livros do escritor norte-americano Kurt Vonnegut Jr. (1922–2007) que reli agora — "Mãe Noite", publicado em 1961, e "Matadouro-Cinco", de 1969 — pertencem a um momento de consolidação de sua carreira.


Vonnegut tornou-se uma das figuras centrais da ficção norte-americana do pós-guerra ao fundir sátira e ficção científica numa prosa tão deliciosa de ler como insuportável de entender, com o perdão do oxímoro.


Mas, de fato, oxímoros nunca faltaram na descrição de críticos como Jerome Klintowitz ou Robert. Tally Jr., que pensavam os romances dele como sombriamente cômicos, e cujo uso da ficção científica era, antes de tudo, uma completa exposição dos horrores da civilização do século 20. Vonnegut tornava estranhamente cômica e, ao mesmo tempo, irrespirável a distopia real do seu tempo.


Acrescento que, para mim, que o leu na adolescência, no Brasil, os seus livros representavam uma espécie de emanação da contracultura — claro, não da mesma maneira que Ken Kesey, Timothy Leary ou John Sinclair —, mas numa posição próxima à de autores de ficção científica como Arthur C. Clarke, Frank Herbert e até Robert Heinlein, com a diferença óbvia de que Vonnegut era muito menos interessado no futuro do que eles.


O certo é que, nos anos 1960, a excitação paranoica da Guerra Fria e o envolvimento dos Estados Unidos na Guerra do Vietnã acabavam com as ilusões a propósito do longo casamento entre patriotismo, capitalismo, igreja, tecnologia e aparato militar.


E uma vez que esses votos sinistros estão sendo renovados agora mesmo, em todo o mundo — e, aqui, na forma intrinsecamente ridícula do bolsonarismo —, é preciso louvar o senso de ocasião da Intrínseca ao reeditá-lo, ainda que as edições não tragam aparato crítico.


O centro da imaginação alucinada de Vonnegut estava ancorado numa pergunta dura: o que faz com que a estupidez e a abjeção continuem a se manifestar tão sistematicamente nas sociedades? Em "Mãe Noite", essa questão avança a partir da fórmula algo sentenciosa de que "somos aquilo que fingimos ser". O interesse dela é que dissolve a crença reconfortante de que exista, sob uma máscara social forçada, uma identidade íntegra, preservada daquilo que o sujeito mostra em seus atos concretos.


Assim, o protagonista do romance, Howard W. Campbell Jr., é um americano que foi criado, viveu e se casou na Alemanha nazista, tornando-se ele próprio um funcionário importante da propaganda do regime, conquanto trabalhasse secretamente como espião para os aliados.


No entanto, o nazismo adquire um papel tão habitual em sua vida que o próprio Campbell, morando em Nova York depois da guerra, percebe que já não tem direito de imaginar que não foi aquele que passou a vida toda fingindo ser. A impostura, aqui, revela-se não como o ser de um outro, do qual pudesse se diferenciar, mas como o processo de fabricação do seu próprio ser.


E como a impostura marca o ser de Campbell, também o nazismo ganha uma feição de farsa ideológica sem grandeza alguma, incapaz de possuir transcendência, mesmo a do mal, mais ou menos na linha de Hannah Arendt.


Não há metafísica na miséria, por assim dizer. Para Vonnegut, a eficácia política do horror moderno reside justamente em seu rebaixamento: na repetição de slogans, no grotesco gritado do palanque, na pobreza mental transformada em espetáculo de crença e de patriotismo. Não há grandeza nenhuma nesses excessos, apenas representação pública fajuta do que Campbell, dramaturgo e propagandista, acaba sendo de verdade.


O papel que ele representa quotidianamente e a eficácia da sua fala pública se enovelam a tal ponto que já não há nenhum sujeito exterior àquilo que ele faz ou diz. O romance resiste, portanto, a qualquer moral fundada na distinção reconfortante entre parecer e ser: uma máscara não encobre nada, ela conforma perfeitamente o rosto encoberto e expõe o ridículo do mascarado.


A base da invenção de "Matadouro-Cinco" não está muito distante disso, apenas a crise da identidade se expande para o próprio limite da linguagem da catástrofe. O protagonista do romance é um soldado norte-americano, Billy Pilgrim, o qual, exatamente como ocorreu com Vonnegut, é aprisionado pelos alemães e levado para Dresden.


A cidade alemã não oferecia nenhum perigo para os aliados, não guardava nenhum contingente militar ou empresa bélica; no entanto, Dresden foi palco de um dos mais atrozes bombardeios aliados da Segunda Guerra, feito com bombas convencionais, mas suficientes para assassinar milhares de pessoas.


Hoje se contabiliza em torno de 25 mil o número de mortos no bombardeio, incluindo idosos, mulheres e crianças, que obviamente nada tinham a ver com objetivos militares. Toda a cidade se tornou escombros, ou, na imagem cruelmente irônica de Vonnegut, uma "paisagem lunar".


No romance, porém, o horror do bombardeio não chega ao leitor como evento traumático em bruto, mas mediado por relatórios, prefácios, estatísticas, justificativas estratégicas, patriotadas e conversas moles de todo tipo. Assim, a memória de Billy já nasce ferida por essas mediações e o que ele viveu realmente está, por assim dizer, circuitado por elas.


A extraordinária abertura de "Matadouro-Cinco" deriva justamente dessa percepção do curto-circuito: antes que a história de Billy Pilgrim realmente comece, o narrador se demora na dificuldade de escrevê-la; e, quando afinal começa, começa duas vezes, pois já não é possível acreditar na inocência de um ponto de vista inaugural seguro.


A partir daí o plot do romance é bem extravagante: Billy sobrevive ao bombardeio, volta aos Estados Unidos, casa-se com uma herdeira rica, tem um casal de filhos e parece a normalidade em pessoa, descontado o tempo que passou internado num hospital psiquiátrico para tratar os traumas da guerra. A certa altura da sua vida, porém, Billy sofre um acidente com o ônibus da sua firma de optometria e é o único sobrevivente.


Depois disso, embora "depois" seja uma palavra destruída pelo romance e jamais possa ser entendida como "por causa disso", Billy passa a contar em programas de rádio e de televisão a sua vida entre os extraterrestres. Diz ele que, no dia do casamento da sua filha, fora abduzido por alienígenas vindos do planeta Tralfamadore e levado para um zoo intergalático, para onde também é conduzida uma atriz famosa, com a qual acaba tendo um bebê.


E isso não é tudo: Billy diz que aprendeu com os tralfamadorianos a se "descolar" da ordem do tempo, o que lhe permite visitar, quantas vezes quiser, todos os momentos da sua vida. É como se todos eles, incluindo o momento de sua morte, estivessem on-line todo o tempo, e ele pudesse revivê-los, vezes e vezes sem fim.


A fórmula que abre o segundo capítulo já é impactante; permitam-me citá-la em inglês, pois há uma razão para isso: "Listen: Billy Pilgrim has come unstuck in time". Na tradução de Daniel Pellizzari para a edição da Intrínseca, ficou assim: "Escuta só: Billy Pilgrim ficou solto no tempo".


Bem lida essa fórmula, ela equivale ao programa formal do livro todo: a experiência do bombardeio de Dresden arranca o sujeito da crença numa sucessão temporal contínua e inteligível. Para perceber isso, a expressão inglesa é bem mais precisa: "unstuck" indica que um encaixe foi rompido, e não que se ganhou algum meio para uma travessia mais livre, como "solto" poderia dar a entender.


Assim, quando "viaja" no tempo, Billy se desprende do regime que ligava uma experiência à outra, com aristotélicos começo, meio e fim da narrativa, passando a enxergar a sucessão como mera ilusão, pois tudo está lá indefinidamente para sempre.


O mais relevante a perceber aqui, porém, é que, em Vonnegut, o trauma não admite qualquer regime edificante. É verdade que recebe um tratamento literário, como um tipo muito especial de ficção científica, mas é, simultaneamente, um tratamento esvaziado de qualquer fascínio tecnológico típico do gênero.


Bem diferentemente disso, a ficção do trauma o converte basicamente num instrumento de leitura moral da história. Talvez esteja aí o ponto em que o romance guarda afinidade com a geração hippie, que o leu devotadamente.


Ela também lia ficção científica, e não apenas para sonhar viagens interestelares escapistas, mas sobretudo como modo de estranhar a normalidade criminosa do presente do Vietnã — o que faz pensar que hoje poderíamos reler "Matadouro-Cinco" para estranhar a invasão da Ucrânia, o massacre de Gaza, o bombardeio do Irã, e tantos outros atos criminosos notórios que recebem normalização propagandística no Instagram.


O sarcasmo de Vonnegut, porém, diferentemente do dos hippies, não está interessado em celebrar uma expansão da consciência. Ele registra, em tom de aporia, o quanto a própria crítica da civilização podia conviver com destroços humanos irredutíveis a qualquer utopia compensatória.


Daí o relevo extraordinário dos bordões e tantas outras pequenas fórmulas linguísticas do romance. Talvez seja meio chato deter-se nessas miudezas, mas elas são fundamentais no livro. O melhor exemplo é a expressão em inglês "So it goes", que aparece dezenas de vezes.


Na tradução de Pellizzari, ela fica "É assim mesmo", que não está mal, mas que talvez possa ser melhorada. Sem dúvida, é bem melhor do que a de Cássia Zanon, de 2005, da L&PM, que a traduz por "Coisas da vida" e cai numa armadilha, pois o narrador não comenta os eventos desafortunados com sabedoria resignada; registra-as com automatismo alienado, como se a frequência da matança tivesse já mecanizado o próprio idioma da reação.


Daí vem outro exemplo formular reiterativo importante, que é "And so on", que Pellizzari e Zanon traduzem ambos por "E assim por diante", fórmula que é talvez um pouco mais organizada do que a do inglês, pois, a rigor, "And so on", combinado com o anterior "So it goes", produz um sintagma tão bobo como "É isso", "E por aí vai", "Etc."


As expressões simplesmente prolongam séries, e, no caso, como uma continuação indefinida de fatos absurdos e indescritíveis. Outro exemplo de pequena fórmula abstrusa empregada no romance é "Listen", que marca a entrada brusca num regime de narração, que já começa quebrado, pois a voz já não está ali, mas apenas o registro escrito.


E outro ótimo exemplo é o "Poo-tee-weet?" que fecha o livro sem oferecer sentido algum, apenas ecoando uma pergunta sem resposta. A onomatopeia do canto do passarinho figura a ruína do discurso articulado diante do massacre vivido por Billy.


Com esses exemplos, quero dizer que a força de "Matadouro-Cinco" nasce justamente do emprego dessa gramática precária. Vonnegut quer encontrar formas verbais pobres, desajeitadas, quase sem sentido, que tornem perceptível nelas mesmas o total colapso da existência em face do crime cometido em Dresden.


Aquela guerra não foi nenhuma briga de mocinhos contra bandidos: foi um massacre horrendo em que cada lado desceu o mais baixo que pôde para destruir o oponente. Em termos críticos, o mais impressionante é perceber que essa gramática precária, enquanto procedimento literário, é o exato oposto de querer ornamentar a experiência extrema com invenções espirituosas ou expressões poéticas elevadas.


Isso não quer dizer que o romance renuncia à comicidade ou à literatura, pois ele continua mortalmente engraçado e dono de uma rara pegada literária. No entanto, essas expressões quebradas retiram da piada qualquer inocência recreativa. O riso que produz é o de uma consciência em crise obrigada a reconhecer que a catástrofe moderna se torna ainda mais abjeta quando dispõe de todos os clichês adequados para a sua veiculação pública anestesiada.


Nesse ponto, "Mãe Noite" e "Matadouro-Cinco" convergem absolutamente. No primeiro, a propaganda mostra que o sujeito tende a ser reduzido ao papel que representa; no segundo, que a memória da destruição já chega até nós contaminada pelos códigos com que a sociedade se apressa a arquivá-la.


"Não olhe para trás", alerta o episódio bíblico da destruição de Sodoma e Gomorra. Mas Campbell e Billy são como a mulher de Ló e não como os "justos" que se salvam: eles olham para trás e viram estátuas de sal, para sempre.


É por isso que, em ambos, a linguagem comparece menos como instrumento de comunicação do que como meio constitutivo da experiência histórica do horror. E o horror não existe primeiro, puro, para "depois" ser descrito. Ele continua operando através dessas vozes, máscaras, relatórios, slogans, fórmulas, bordões, autoencenações etc.


É nesse sentido também que Vonnegut se distingue dos demais distopistas, que projetam uma arquitetura do futuro. É impossível para um leitor de Vonnegut Jr. elevar ou transferir o seu mundo para uma ideia de sociedade futura. O que ele faz é uma exposição satírica do quanto o presente histórico se organiza segundo procedimentos correntes de desumanização. A tartamudice de sua prosa é o método pelo qual ele nos devolve o real, deformado o bastante para que enfim se reconheça a miséria da verdade.


Antes de terminar, queria deixar uma dica aos futuros leitores de Vonnegut: os seus vários livros têm muitas recorrências internas, reaparições de nomes, lugares-comuns, personagens e motivos reiterados, formando uma espécie de rede móvel. "Matadouro-Cinco", em particular, reinscreve personagens já conhecidos de outros livros, incluindo o Howard Campbell de "Mãe Noite", de sorte que a leitura da obra inteira vai produzindo uma espécie de vizinhança ficcional, um circuito de ecos, pode-se dizer, no qual cada romance parece lateralmente reabrir um outro.


Talvez seja então possível dizer que, para quem o leu nos anos 1970, Vonnegut oferecia uma combinação rara. De um lado, trazia a língua da ficção científica, já consagrada por autores que falavam aos jovens. De outro, sabotava por dentro a promessa compensatória de qualquer imaginação tecnológica triunfante.


O seu alvo era a guerra, mas a guerra enquanto forma avançada da "racionalidade" capitalista, na qual a mercadoria era o princípio difuso de achatamento do humano. Dessa forma, Vonnegut evidenciava a comicidade sinistra com que a sociedade do capital aprendeu a explicar o inexplicável dos desastres que causa.


Relidos hoje, "Mãe Noite" e "Matadouro-Cinco" ainda são romances perturbadores. Continuam a mostrar, cada um a seu modo, que o problema da guerra não é apenas a barbárie que ela efetua, mas a facilidade com que as suas piores catástrofes adquirem linguagens correntes e narrativas normalizadas.


Em "Mãe Noite", o sujeito torna-se aquilo que encena repetidamente, e, portanto, a máscara designa o "eu". Em "Matadouro-Cinco", a catástrofe só pode ser dita por uma linguagem de resíduos; o trauma arruína a fala que, por sua vez, torna-se a onomatopeia do massacre.


Enfim, os dois romances deixam claro que a literatura, especialmente depois do século 20, já não pode pretender inocência formal, porque as próprias formas —as do discurso político, da publicidade, do relatório acadêmico, da filosofia edificante, da psiquiatria, da fantasia tecnológica, do jornalismo, do testemunho, da identidade, da autoficção etc. etc.— já foram contaminadas por dentro pelo problema moral proposto por Vonnegut.


As bombas já caíram e continuam a cair; crimes hediondos foram cometidos contra a humanidade e continuam a sê-lo, como se não fosse nada demais, assimilando o horror à normalidade. Por isso mesmo a família humana faz o maior sucesso no zoo de Tralfamadore.


Mãe Noite

Preço R$ 69,90 (240 págs.)

Autoria Kurt Vonnegut

Editora Intrínseca

Tradução André Czarnobai


Matadouro-Cinco

Preço R$ 69,90 (240 págs.)

Autoria Kurt Vonnegut

Editora Intrínseca

Tradução Daniel Pellizzari


Alcir Pécora

Professor titular de teoria literária da Unicamp


Foto: O escritor americano Kurt Vonnegut - Reuters/Reuters


FSP 23.05.2026

Minerva fechando capital

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