segunda-feira, 13 de julho de 2026

Intervenções do BCB no mercado cambial

 *Leitura de Sábado: Intervenções do BC em câmbio durante maio e junho surpreendem mercado*


Por Antonio Perez


São Paulo, 06/07/2026 - A estratégia do Banco Central de aproveitar o fluxo cambial positivo no primeiro trimestre para reduzir o estoque de contratos de swap cambial tradicional e deixar de rolar linhas (venda de dólares com compromisso de recompra) foi executada por meio de intervenções que surpreenderam analistas e provocaram ruídos no mercado de câmbio.


O episódio que causou mais desconforto foi a oferta de 10 mil contratos de swap cambial reverso (US$ 500 milhões) realizada em 6 de maio. Na prática, o BC executou uma compra de dólar futuro, o que tende a jogar a taxa de câmbio para cima. A operação representou a primeira venda de swap cambial reverso de forma isolada - ou "seca", no jargão do mercado - desde novembro de 2016.


Nos dias anteriores ao anúncio da intervenção, o dólar emendava o terceiro pregão abaixo de R$ 5,00 e se aproximava de R$ 4,90 - o que levou parte dos analistas a cogitar a possibilidade de que a autarquia estivesse tentando moderar o ritmo de apreciação do real, àquela altura a moeda de melhor desempenho no mercado global de câmbio. Como foi aceita apenas uma proposta, outra hipótese foi de que a operação havia sido direcionada a um "player" específico.


Para a head de câmbio da Tesouraria do Santander, Roberta Guimarães, o BC apenas aproveitou o momento favorável para o real, em meio à alta do petróleo com o conflito no Oriente Médio, para dar sequência à estratégia de reduzir o estoque de swaps cambiais tradicionais.


"Aproveitaram que o dólar estava rodando abaixo de R$ 5,00 para fazer essa operação 'seca' de swap reverso. Foi uma atuação que fez certo barulho e gerou um pouco de desconforto, mas não teve nenhuma pressão no câmbio", afirma Guimarães. "O real começou a perder força em seguida porque houve uma virada do dólar para cima no exterior, com a reprecificação dos juros americanos. Não houve relação com a atuação do BC."


Depois de uma queda de 4,36% em abril e de ter fechado abaixo do nível de R$ 4,90 nos dias 8, 11 e 12 de maio - após, portanto, a operação surpreendente do BC -, o dólar à vista começou a ganhar força. A moeda americana encerrou maio com alta de 1,82% frente ao real e subiu mais 2,38% em junho, quando atingiu os maiores níveis desde fins de março. Termômetro do comportamento do dólar em relação a uma cesta de seis moedas fortes, o índice DXY superou a marca dos 101,000 pontos no fim de junho, atingindo o maior nível em mais de um ano.


Além da valorização da moeda americana no exterior, com o aumento das apostas de alta dos juros nos Estados Unidos até o fim do ano, e da queda de mais de 20% do petróleo, na esteira das negociações de paz no Oriente Médio, analistas apontam questões domésticas que podem ter levado o real a perder tração - o aumento das preocupações fiscais diante de medidas de estímulo ao crédito pelo governo federal e a desidratação da pré-candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) ao Palácio do Planalto.


Apesar de elogiar a estratégia do Banco Central de aproveitar o fluxo cambial positivo para reduzir o estoque de swaps cambiais tradicionais, o economista Sérgio Goldenstein, sócio-fundador da Eytse Estratégia, viu com estranheza a oferta "seca" de swaps reversos. Naquele momento, em que o choque de oferta de petróleo alimentava os riscos inflacionários, qualquer ação para conter a apreciação do real parecia contraproducente, por obstruir um dos canais mais importantes de transmissão da política monetária, observa.


"Foi difícil entender a motivação da oferta 'seca' de swap reverso. Mas a redução do estoque de swaps cambiais tradicionais, que estava acima de US$ 100 bilhões, alivia a pressão sobre a curva de swap cambial, o que encarece o hedge e favorece o carry trade. De forma indireta, isso beneficia o real", afirma Goldenstein, ex-chefe do Departamento de Mercado Aberto (Demab) do BC.


Casadão em dose dupla


Houve certa surpresa e ruído também com as intervenções realizadas no fim de junho. O BC vendeu ao todo US$ 2 bilhões à vista e comprou valor equivalente em dólar futuro via contratos de swap cambial reverso, em operações conhecidas como "casadões", realizadas nos dias 22 e 26. Sem sinais de escassez de divisas e com o cupom cambial (juro em dólar) de curto prazo comportado, não parecia haver motivo para injeção de dólares no mercado spot.


Para a head de câmbio da Tesouraria do Santander, a opção pelos "casadões" levou em conta a demanda fraca em leilões de contratos de swap cambial tradicional e o vencimento de US$ 2 bilhões em linhas no início de julho. Em vez de rolar as linhas, o BC realizou "casadões", combinando a redução de estoques de swaps cambiais e irrigando o mercado à vista. "Ele apenas trocou um instrumento por outro. E os 'casadões' foram absorvidos de forma bem tranquila", afirma Guimarães.


Embora operadores não identificassem demanda adicional por divisas nos dias das intervenções, dados do Banco Central divulgados na última quarta-feira mostraram que o fluxo cambial total entre os dias 22 e 26 de junho foi negativo em US$ 1,028 bilhão, com saídas líquidas de US$ 2,571 bilhões pelo canal financeiro e entrada líquida de US$ 1,543 bilhão via comércio exterior.


"O BC provavelmente atuou de forma preventiva para evitar qualquer estresse com o fluxo cambial negativo na reta final do mês, ao mesmo tempo em que reduziu o estoque de swaps tradicionais", afirma o diretor da Tesouraria do Travelex Bank, Marcos Weigt, ressaltando que a autoridade monetária tem um mapeamento constante das necessidades do mercado e atua quando identifica demanda pontual.


Contato: antonio.perez@estadao.com


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