sábado, 30 de maio de 2026

Relativismo

 Vivemos um tempo mais perigoso que no início do séc. XX. Quem deseja g3nocídio e prega isto abertamente é o Irã, h4mas, h3zbollah, h0utis, isis, jih4d isl4mica, etc. e quem canta o slogan pedindo limpeza étnica "from the river..." 

Um texto ótimo: 


"Quando tudo é genocídio, nada mais é:


Quanto mais graves são as palavras, mais levianamente são usadas 

Por Sheila Leirner 29/05/2026 | 03h00


A Proposta Legislativa (1.424/2026) apresentada por Tabata Amaral, em 26 de março, para tipificar o antissemitismo no Brasil, surge num momento em que a própria definição do fenômeno parece dissolver-se no debate público. Não por falta de evidências — que se acumulam —, mas por uma curiosa operação intelectual: a de relativizar esse racismo justamente quando ele reaparece sob novas formas. E quando, entre outros, uma universitária como Lilia Schwarcz — além de repudiar a proposta —, usa “genocídio” enquanto palavra de militância. 


O antissemitismo não é uma opinião. É uma forma histórica específica de hostilidade, com longa tradição, mutável em suas formas, mas constante em sua estrutura: a atribuição ao judeu — enquanto indivíduo ou coletividade — de uma culpa essencial, de uma potência conspiratória, ou de uma responsabilidade imaginária pelos males do mundo. Hoje, esse mecanismo reaparece frequentemente sob a forma de uma linguagem política aparentemente legítima. O alvo já não é “o judeu” em termos explícitos, mas o Estado hebreu — Israel — que passa a ser tratado não como um ator entre outros no cenário internacional, mas como encarnação singular do mal. Quando se exige desse Estado um padrão de comportamento que não é exigido de nenhum outro, ou quando se mobilizam contra ele categorias extremas — como “genocídio” — sem o devido rigor jurídico e histórico, entra-se em uma zona ambígua onde crítica e estigmatização se confundem. É precisamente essa zona que a proposta de Tabata Amaral busca esclarecer. 


Paralelamente, há um fenômeno inquietante no debate contemporâneo: quanto mais graves são as palavras, mais levianamente são usadas. E, ao mesmo tempo, maior parece ser a dificuldade em nomear com precisão aquilo que deveriam designar. Existe uma inflação moral de “genocídio”, “fascismo”, “ódio”, expressões que se banalizaram. 


George Orwell já advertia, em seu célebre ensaio sobre a linguagem política, que a corrupção dos vocábulos precede — e prepara — a corrupção do pensamento. No entanto, em seu discurso em rede social, a historiadora afirma ser “profundamente contra o genocídio praticado pelo Estado de Israel que levou à morte de tantos civis”.

“Sou contra”, diz, “acuso e chamo de genocídio”. 


Genocídio não é uma metáfora. Tanto quanto o antissemitismo, não é uma opinião, um sentimento, nem um rótulo moral disponível para a indignação imediata. É uma categoria jurídica que implica a intenção de exterminar deliberadamente um povo — conceito rigoroso definido após a 2.ª Guerra Mundial. Não por acaso, o procurador do Tribunal Penal Internacional, Karim Khan, declarou recentemente que “não há, até o momento, nenhuma evidência de genocídio em Gaza” e que “o clamor público não é prova”. 


Que país “genocida” se defende atacando alvos terroristas e emitindo apelos sistemáticos de evacuação, como fez o Exército israelense em Gaza e, depois, em abril, à população libanesa ao sul do rio Zahrani? 


O deslize não é apenas semântico, mas de pensamento. Pensar é resistir ao “espírito do tempo” quando necessário. Mas isso exige independência — e são raros os que a têm. Usar esse termo como instrumento militante para sinalizar “virtude” e pertencimento ideológico é um ato de irresponsabilidade intelectual. 


Ademais, a banalização rebaixa a discussão. Mais grave: dilui o próprio sentido de tragédias históricas que deram origem à palavra. Como lembrava Hannah Arendt, compreender não é absolver — é distinguir. E, no entanto, o que chama a atenção não é a posição política de certas figuras públicas — cada um tem o direito de pensar o que quiser —, mas a facilidade e a certeza tranquila com que transitam entre os papéis de historiador, juiz, militante e consciência moral da sociedade. 


A mensagem de Schwarcz, na mesma plataforma, segue um roteiro conhecido: começa pela defesa da democracia, passa pela denúncia do ódio, afirma abertura ao erro — e, apoiada nessa “autoridade moral” cuidadosamente construída, desemboca em uma acusação extrema. Há ali muito de éthos e páthos, quase nada de logos. Trata-se de uma retórica eficaz para certo público, mas sustentada por fragilidade conceitual. 


A carta aberta a essas declarações, publicada recentemente por uma advogada criminalista, fundadora e presidente de uma associação de combate ao antissemitismo, tem o mérito de recolocar o debate em seus termos corretos. Não se trata de censura, nem de interditar a polêmica, mas de responsabilizar palavras. 


Na França, sob a presidência de Emmanuel Macron, foi adotada a definição da Aliança Internacional para a Memória do Holocausto (IHRA, na sigla em inglês), segundo a qual determinadas formas de antissionismo — sobretudo as que estigmatizam Israel ou negam sua legitimidade — podem constituir expressão de antissemitismo e ser objeto de sanção. 


O Brasil, país marcado por profundas desigualdades e tensões, não está imune a essas derivas. Ao contrário: a importação acrítica de conflitos externos, somada à superficialidade da discussão nas redes, favorece simplificações perigosas. É nesse contexto que a proposta de Tabata ganha relevância. Não como instrumento de repressão, mas como tentativa de restaurar um mínimo de clareza em uma questão cada vez mais contaminada por slogans e polarizações. Vale notar que o próprio texto da proposta afirma explicitamente que críticas a Israel, quando comparáveis às dirigidas a qualquer outro país, não configuram antissemitismo — o que desmonta, de saída, a tese de censura frequentemente invocada. 


Quando palavras extremas servem para explicar tudo, já não explicam mais nada. "


Opinião por Sheila Leirner Jornalista, escritora, crítica de arte, foi curadora-geral da 18ª e da 19ª Bienais de São Paulo


Estadão /Opinião /Colunas"

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