Política tarifária de Trump é "gol contra" e prejudica EUA, diz estudo
Trabalho de instituto alemão cita o Brasil e mostra que 96% dos custos das sobretaxas são absorvidos por companhias e consumidores americanos
VALOR 5junho2026 Rafael Vazquez e Eduardo Belo
A iniciativa do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de retomar a sua política tarifária contra o Brasil e outros países é um "gol contra" e prejudica empresas e consumidores americanos, segundo estudo conduzido por economistas e pesquisadores ligados ao Kiel Institute, think thank com sede em Kiel, Alemanha. O estudo cita especificamente o exemplo do Brasil. Enquanto Trump afirma que a taxação ajudará a equilibrar as relações comerciais a favor do seu país e reparar injustiças, o trabalho dos pesquisadores Julian Hinz, Aaron Lohmann, Hendrik Mahlkow e Anna Vorwig, intitulado "America"s Own Goal: Who Pays the Tariffs?", aponta que o governo americano está insistindo em jogar contra os próprios interesses: importadores e consumidores americanos arcam com quase todo o custo.
Exportadores estrangeiros absorvem apenas 4% do ônus tarifário. Os 96% restantes são repassados a compradores americanos, diz o levantamento.
Sem comentar o estudo propriamente, especialistas ouvidos pelo Valor têm avaliação semelhante. "No fim do dia, tarifas são um tiro no pé de Trump", comenta Lívio Ribeiro, pesquisador do FGV Ibre e sócio da BRCG Consultoria.
"Está bem mapeado que quem paga é o próprio agente americano, não necessariamente o consumidor na largada, mas pode ser o importador ou o lojista que está absorvendo a maior parte do aumento de custo", afirma. "Inúmeros artigos apontam e quantificam que isso está acontecendo."
Para ele, a inflação decorrente das tarifas ainda não chegou "em toda a sua plenitude" para a sociedade americana. O que está afetando mais - e incomodado o consumidor dos Estados Unidos -, no momento, é o preço do combustível, pressionado pela guerra com o Irã. Mas a chegada do aumento de custos aos preços finais é questão de tempo, defende.
Com a economia americana surpreendendo para cima, com mercado de trabalho deixando de piorar uma "sensação geral de maior aquecimento" da atividade, afirma Ribeiro, "os intermediários americanos, os que usam insumos, o pessoal do varejo e até o da logística vão acabar repassando esses custos adiante".
Otaviano Canuto, ex-vice-presidente do Banco Mundial, integrante do Policy Center for the New South, também entende que o custo fica para a própria economia dos EUA. "Às vezes as empresas optam por redução da margem de lucro para absorver o impacto, mas isso não tem sustentação. Mais cedo ou mais tarde elas terão que reajustar", afirma.
Para Canuto, o ônus maior, além do ônus para o consumidor, é das indústrias que precisam de insumos que foram sobretaxados, "porque perdem competitividade".
Nesta semana, após as conclusões de investigações iniciadas no ano passado sob a seção 301 da sua Lei de Comércio de 1974, o escritório do representante comercial dos EUA (USTR) anunciou que pretende impor tarifas de 25% a uma boa dos produtos brasileiros exportados para o país sob acusações tão diversas quanto dispersas, como a consolidação do Pix como meio de pagamento que supostamente prejudica a concorrência de empresas americanas, além de uma suspensão temporário à rede social X por não cumprir determinações da justiça brasileira e outros temas como o desmatamento.
Houve ainda o anúncio que o Brasil, junto com ao menos mais 60 países, pode sofrer uma taxação extra de mais 12% às suas exportações aos EUA devido a denúncias de trabalho forçado, sob a alegação de que as práticas, mesmo sendo a exceção e não a regra das empresas no país, prejudica a competitividade de companhias americanas.
O movimento a partir da seção 301 da Lei de Comércio americana ameaça retomar o tarifaço de 2025, quando os EUA impuseram "tarifas de reciprocidade" a quase todos os países do mundo.
De acordo com o Kiel Institute, a receita alfandegária dos EUA aumentou em aproximadamente US$ 200 bilhões em 2025, mas a sobretaxação foi repassada quase inteiramente aos americanos, o que fere a lógica da política tarifária.
O estudo cita nominalmente o exemplo do Brasil, que chegou a ter produtos sobretaxados em 50% durante 2025, até que os EUA concedessem isenções e depois a Suprema Corte invalidasse a imposição tarifária por decreto.
Ao estimar o efeito dinâmico das tarifas aplicadas ao Brasil em 2025, os pesquisadores identificaram que os produtos brasileiros que circularam pelos EUA durante o período aumentaram mais do que as mercadorias exportadas por outros países do continente.
"Após a imposição de uma tarifa de 50%, os exportadores brasileiros não reduziram substancialmente seus preços em dólares. Os coeficientes estimados rondaram em torno de zero, com intervalos de confiança que excluem reduções de preços economicamente significativas. Essa constatação confirma nossos resultados de referência em um cenário no qual os exportadores brasileiros não "absorveram" a tarifa. O ônus da tarifa de 50% foi repassado quase integralmente aos importadores dos EUA", conclui o estudo.
O efeito negativo para os exportadores brasileiros tende a ser, portanto, a redução do volume de comércio com os EUA. Mas os autores apontam que as empresas e os consumidores americanos também perdem.
O levantamento também identifica um efeito similar na Índia, mas, ao obter mais dados alfandegários da Índia do que do Brasil na investigação, os autores detectaram ainda mais claramente que o efeito atingido é apenas a queda do volume do comércio, sem ganhos para a população americana.
Embora uma das justificativas usadas por Trump é, que ao evitar a entrada de produtos estrangeiros massivamente no país, os EUA retomarão a força industrial que perdeu durante a globalização acelerada, sobretudo a partir da década de 1990, os autores argumentam que os EUA são um mercado importante, mas não o único, e que no médio e longo prazo os países devem encontrar mercados alternativos para seus produtos.
Além disso, segundo escrevem os pesquisadores, muitos importadores dos EUA têm relações de longa data com fornecedores estrangeiros e não podem facilmente mudar de parceiros. "Isso dá aos fornecedores existentes um poder de precificação. Eles sabem que seus clientes nos EUA não podem substituí-los imediatamente e, portanto, enfrentam menos pressão competitiva para reduzir os preços", afirma o estudo.
Carlos Primo Braga, professor associado da Fundação Dom Cabral e ex-diretor do Banco Mundial lembra que os Estados Unidos já usaram a Seção 301 contra o Brasil, na década de 1980, conta a então Lei de Informática brasileira. "Isso gerou tarifas e também e implicações para a exportação de bens de informática para o Brasil. A lei da informática não foi alterada de forma significativa, embora em relação à propriedade intelectual tivesse havido medidas para melhorar a proteção de copyright", afirma. Ma a mudança só ocorreu na década de 1990 e teve muito mais a ver com mudanças na política comercial brasileira do que por imposição da Seção 301.
Na visão de Primo Braga, as decisões desta semana mostram de modo "muito claro que se trata de recuperar as políticas tarifárias que tinham se tornado impedidas por decisão da Suprema Corte" em fevereiro.
"Existe um aspecto político em relação ao Brasil, mas é importante o Brasil reconhecer que isso é parte de uma estratégia global dos Estados Unidos em relação à utilização de tarifas", afirma o professor associado da Fundação Dom Cabral.
"A estratégia do Brasil, como já ocorreu no ano passado, é diversificar as suas exportações", comenta Primo Braga. Além de procurar alternativas, o país deve apostar também no acordo de livre-comércio entre União Europeia e Mercosul, em implementação provisória desde o início de maio, recomenda.
"A ideia de tarifa para ajudar a indústria local está cheia de buracos, e 95% dos economistas analisam de forma muito cética a reindustrialização americana a partir da tarifação", comenta Otaviano Canuto.
Ele afirma que as tarifas específicas da Seção 301 sobre o Brasil, assim como as outras sobre 60 países por trabalho forçado nada mais são que um meio de Trump "reerguer a muralha tarifária que ele colocou no ano passado" e foi derrubada pela Suprema Corte em fevereiro.
Para Lívio Ribeiro, a situação ainda não está definida. Não me parece que o escopo final esteja definido. "A Seção 301 é específica, tem uma investigação longa, que pode chegar a ideias estapafúrdias, que é o que estamos enxergando não somente no caso do Brasil, mas também na taxação a países que usam práticas trabalhistas inadequadas", afirma.
A decisão sobre trabalho forçado é o tipo de questão, que por ser ampla e pouco fundamentada, costuma "gerar muito ruído e acaba gerando espaço para negociação", diz. "Mas a Seção 301 específica do Brasil, a que sugere taxação de 25%, é resultado de uma abertura de painel, de investigação e de debates em que as justificativas apresentadas pelo governo brasileiro claramente não foram aceitas pelo negociador americano." Nesse caso, comenta, é mais difícil é mais difícil dizer se e quando se pode flexibilizar as propostas, cujo tom é "mais político e ideológico que comercial".
Para Ribeiro, Trump tem um problema imediato, a eleição legislativa de meio de mandato, que ocorre no fim do ano e na qual "a situação está ficando cada vez pior para ele, em função de atoleiros em que se meteu e de vespeiros nos quais ele resolveu por a mão". Políticas como essa de tarifaço não vão melhorar as condições "nas coisas que são mais importantes para a governabilidade agora que é manter maioria nas duas casas legislativas na eleição", afirma.
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