Terra sem lei
Elena Landau elena.landau@eusoulivres.org ADVOGADA E ECONOMISTA
A falta de respeito ao próximo, às autoridades e às leis está em todas as classes sociais
Esta semana, vi um vídeo em que um adolescente agredia um professor em sala de aula. Arremessou uma camisa molhada, rasgou a própria prova e a dos colegas e saiu dando gargalhadas. O professor pediu demissão. Sozinho, não consegue lidar com as agressões frequentes. Não há punição para esses delinquentes. Se os mestres desistem, não restará mais esperança. Mas nossos problemas vão além destes frequentes episódios chocantes em sala de aula. A falta de respeito ao próximo, às autoridades e às leis está por todos os lugares e em todas as classes sociais.
Reclamamos de entregadores e suas bicicletas nas calçadas, mas, ao menos, estão trabalhando. O que dizer de pais e mães carregando seus filhos nas e-bikes, na contramão ou a caminho do trabalho, trafegando pelas calçadas com seus fones de ouvido, indiferentes aos pedestres? Avançar o sinal e fechar cruzamentos é o novo normal nos bairros de renda alta. Motoristas não ligam: “Se todo mundo faz, eu também faço” e seguem sem culpa pelo acostamento de uma estrada engarrafada ou parados tranquilamente em fila dupla.
Viajei para torcer pela seleção sem muitas ilusões. Só não esperava um Brasil apático. No intervalo do trágico jogo contra a Noruega, uma brasileira, fingindo-se de distraída, furou a fila do banheiro e entrou pela saída: “Vou apenas lavar as mãos”. Mentira, claro. Quando reclamei, veio a resposta: “Cala a boca ou faço xixi em você”. A norueguesa à minha frente comentou: “Ela está usando o símbolo do seu país!”. Sim, estava enrolada na bandeira onde se lia “Ordem e Progresso”. Envergonhada, pedi desculpas.
Dizem que o exemplo vem de cima. Deve ser por isso que estamos lascados. Os Três Poderes estão focados em melar a investigação sobre Vorcaro. Não se fala mais de contrato nem de resort. Segundo um senador, mandado de busca virou patacoada. Normal ter tanto dinheiro vivo em casa, afinal, os juros reais são só 10% ao ano. A máfia do orçamento vai dominando o noticiário e penduricalhos são legalizados, enquanto a população segue endividada.
Gilmar Mendes “assumiu” a presidência da CBF, acumulando sua função no STF. Em breve, o veremos em uma mesa-redonda comentando jogos. Não por acaso, a seleção virou piada.
A escalação que me importa é a que vai comandar o Brasil nos próximos anos. Sobrevivendo, podemos pensar no hexa em 2030. As eleições não trazem esperança. Flávio lê cartinha do papai, envolto em escândalos, e segue em frente, impávido colosso. Lula mostra o dedo do meio e chama de palhaçada a lei eleitoral que limita suas inaugurações e ainda ameaça não obedecer.
Imoral? Ilegal? E daí?
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