Com a aproximação das eleições de outubro, é curioso observar dois movimentos que parecem contraditórios. Por um lado, um sentimento generalizado de fatalismo. A polarização política, confirmada e reforçada pelas pesquisas de voto, indicam que estamos fadados a ter que escolher entre os candidatos menos ruins, responsáveis, cada qual à sua maneira, pela situação em que a maior parte do país se encontra, com a economia se arrastando, as contas pública fora de controle, a má qualidade das políticas sociais e as instituições em frangalhos. Por outro, uma grande mobilização de associações, organizações sociais, institutos de pesquisa e think tanks para formular projetos e propostas a serem levadas aos ouvidos do futuros governantes, na esperança de que ele se dignem a ouvir e quem sabe executar o que propõem seus futuros súditos. Será que eles estarão dispostos a prestar atenção e agir conforme as evidências e propostas desenvolvidas com bons métodos e racionalidade, ou continuarão a agir, simplesmente, conforme suas ideias preconcebidas e interesses de curto prazo?
Depende, em parte, de que tipo de propostas e que nível de governo. Duas pesquisas recentes ajudam a entender o que ocorre. A primeira, feita com quase dois mil prefeitos brasileiros[1], mostra que eles valorizam evidência, pagam para conhecer resultados de avaliações de impacto e ajustam suas crenças de forma bastante racional. Mas só fazem o que está sendo sugerido quando forem propostas baratas, sem custo político, sem exigir orçamento, aprovação legislativa ou reorganização da máquina pública. A outra pesquisa, feita na Espanha com quase seis mil municípios, mostra que a ideologia do mensageiro importa mais do que o conteúdo da mensagem. A proposta, no caso, era como atrair mais turistas para os municípios melhorando as informações disponíveis sobre eles na Internet, feita por organizações alinhadas ou de oposição aos governos locais.[2] Quando o mensageiro era do mesmo lado, muitos prefeitos faziam o que era proposto; quando vinha da oposição, era como se não existisse. Propostas vindas de instituições com boa reputação mas não alinhadas tinham efeitos intermediários.Não basta estar certo: é preciso ser ouvido por quem já concorda, ou ter reputação suficiente para atravessar a desconfiança ideológica. Mas, como no estudo brasileiro, não basta que a proposta seja bem feita e ideologicamente alinhada, ela precisa ser barata e simples de implementar. Na maioria dos casos, falta orçamento, quadros técnicos, continuidade administrativa e, com frequência, disposição para arcar com o desgaste político de uma mudança.
Se esta dificuldade existe para propostas simples a nível das prefeituras, elas são maiores ainda para propostas complexas para governos estaduais ou para o governo federal.Isto não torna o trabalho de diagnóstico e elaboração de propostas um exercício inútil, mas permite entender melhor o seu alcance. Só em casos excepcionais propostas bem fundamentadas, mas caras e complexas, são adotadas diretamente pelos governantes. Mas elas podem ter um efeito de longo prazo, de formação das agendas de política pública. Propostas bem construídas circulam pela imprensa, alimentam colunas de opinião, aparecem em debates eleitorais e aos poucos tornam-se parte do vocabulário comum, inclusive de adversários ideológicos, que raramente citam a fonte original mas acabam absorvendo os argumentos. Para isto, além de tecnicamente bem elaboradas, elas precisam ser claramente inteligíveis e comunicáveis em suas ideias centrais, sem se perder em detalhes. Não basta elaborar um bom projeto e esperar que ele que ele se imponha pela força dos dados e dos argumentos. A comunicação não é um canal secundário, mas, quando bem feita, é tão ou mais eficaz do que o próprio projeto ou proposta que lhe deu origem.
O que traz um dilema que quem trabalha com políticas públicas conhece bem: que grau de detalhe, ou especificidade, as boas propostas precisam ter? Propostas amplas — melhorar o ensino médio, profissionalizar a gestão municipal — são fáceis de comunicar e não assustam ninguém, mas são vazias demais para orientar qualquer decisão. Propostas detalhadas, com desenho de implementação, cronograma, fontes de financiamento e identificação de quem ganha e quem perde são as únicas capazes de gerar mudança real, mas criam mais pontos de atrito: quanto mais específica, maior a chance de que algum detalhe desagrade mesmo a quem, por afinidade política, estaria disposto a adotá-la.
Não há solução fácil, mas os dois estudos sugerem um caminho: apostar menos na crença de que a evidência e lógica falam por si e mais em uma estratégia de comunicação. Pensar quem leva a mensagem e para quem, aceitando que o mesmo conteúdo pode precisar de portadores diferentes conforme o interlocutor. Formular propostas certas é a parte fácil. Fazê-las atravessar a desconfiança política e a real capacidade de execução é o verdadeiro trabalho, e é nisso que os formuladores de propostas para o próximo governo deveriam pensar, tanto quanto no conteúdo técnico de suas recomendações.
[1] Hjort, Jonas, Diana Moreira, Gautam Rao, and Juan Francisco Santini. 2021. “How research affects policy: Experimental evidence from 2,150 Brazilian municipalities.” American Economic Review 111(5):1442-80.
[2] Garcia-Hombrados, Jorge, Marcel Jansen, Ángel Martínez, Berkay Özcan, Pedro Rey-Biel, and Antonio Roldán-Monés. 2024. Ideological Alignment and Evidence-Based Policy Adoption. Institute of Labor Economics (IZA).
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