terça-feira, 7 de abril de 2026

Revista Piauí - Uma chance para Flávio

 *Uma chance para Flávio*


O arranjo – aquele arranjo, com “terceira via”, com PowerPoint, com editorial, com tudo – já está operante


Como era previsível, o escândalo do Banco Master se misturou ao processo eleitoral. Na pororoca que define o atual momento do país, ficou difícil discernir onde acaba um e onde começa o outro. Tem razão quem desconfia que as investigações podem ser prejudicadas pela disputa política; tem ainda mais razão quem acredita que o andamento e os resultados das eleições serão impactados pelas investigações. As duas coisas não são excludentes. Lembremo-nos dos efeitos da Lava Jato e no acordão que a estrangulou depois que o PT foi varrido do poder e ferido de morte na sucessão de Michel Temer, o Breve.


Muita coisa ainda virá à tona neste pântano que se formou em torno de Daniel Vorcaro. Com aquilo que já se sabe, pode-se dizer, sem medo de errar, que a crise tem potencial para provocar grandes estragos na vida nacional e deixar como saldo um cenário de terra arrasada, nivelando tudo por baixo. Já vimos isso antes.


Em 2018, o descrédito das instituições e a descrença nos políticos conduziram ao topo da República um deputado de extrema direita que havia feito carreira vociferando contra a Nova República e a democracia. Saudoso da ditadura e entusiasta da tortura, ele defendia o fuzilamento de adversários e se apresentava como vingador de um sistema corrompido.


À classe dominante, que o via com reservas – mas não em razão de suas credenciais antidemocráticas; isso, a rigor, não fazia nenhuma diferença –, Jair Bolsonaro ofertou os serviços de Paulo Guedes, seu Posto Ipiranga – “Pergunta lá”, ele sabe. Banqueiro com perfil agressivo e fama de apostador, Guedes se transformou no fiador do salto no escuro, o elo entre as taras autoritárias do capitão e as taras antipopulares do mercado.


Um pouco antes da eleição, no perfil publicado pela piauí, Guedes elogiava o candidato e se gabava de sua capacidade de domesticá-lo. Ao ser indagado se era possível amansar Bolsonaro, ele responde: “Acho que sim, já é outro animal.”


Paulo Guedes sempre pertenceu à segunda divisão dos economistas brasileiros. Mas, num governo de párias, alimentado pelo ressentimento e vocacionado para a destruição – das normas legais, do meio ambiente, das conquistas sociais, dos avanços civilizatórios –, ele despontava como uma espécie de sábio. Um sábio duvidoso, que se vangloriava de ter lido Keynes “três vezes no original”, arrotando erudição de almanaque, na mesma reunião ministerial em que Bolsonaro expôs as tripas do governo e praticamente demitiu Sergio Moro na frente dos demais, ao reclamar, em tom exaltado, que não conseguia aparelhar a Polícia Federal.


O encontro se deu em abril de 2020, com a pandemia escalando. Os termos usados pelo presidente e a forma com que se dirige a seus auxiliares diretos compõem a fisionomia daquele governo e explicitam a essência do bolsonarismo. Vale a pena refrescar a memória. Com a palavra, o pai do senador Flávio Bolsonaro:


É a putaria o tempo todo para me atingir, mexendo com a minha família. Já tentei trocar gente da segurança nossa no Rio de Janeiro, oficialmente, e não consegui. E isso acabou. Eu não vou esperar foder minha família toda de sacanagem, ou amigos meus, porque não posso trocar alguém da segurança na ponta da linha – que pertence à estrutura nossa. Vai trocar! Se não puder trocar, troca o chefe dele; não pode o chefe dele? Troca o ministro. E ponto final! Não estamos aqui para brincadeira.


Poucos dias depois, Sergio Moro pediu demissão do Ministério da Justiça: “Tenho que preservar minha biografia”, disse, ao anunciar sua saída do governo.


Moro desistiu rápido de sua biografia. Sim, a coisa é mais antiga, mas fiquemos por aqui. Já em 2022, voltou a apoiar Bolsonaro contra Lula, elegendo-se senador. No mês passado, trocou o União Brasil pelo PL para concorrer ao governo do Paraná. Ao lado de Flávio, pré-candidato à Presidência da República, e de Valdemar Costa Neto, presidente do partido, o ex-juiz disse em seu discurso de recepção que “política se faz com pessoas de palavra”. A seguir, dirigiu-se a Flávio chamando-o de “presidente” e “vossa excelência”. Só faltou pedir escusas por não ter ajudado o rapaz a se livrar das investigações das rachadinhas, como o pai dele havia lhe solicitado gentilmente naquela reunião memorável.


A um só tempo paroquial e grotesca, a cerimônia de filiação do herói (e depois vilão) da Lava Jato ao partido de Bolsonaro, cobrindo de mesuras o filho presidenciável do próprio Bolsonaro, aponta para algo maior, de alcance nacional. Mesmo preso, Jair Messias engoliu a terceira via, ou o que a imprensa hegemônica insiste em chamar assim, mais por conveniência – para preservar sua autoimagem ou alimentar ilusões de civilidade – do que lastreada na realidade.


O centro político, aquilo que justificaria esse nome, terceira via, está em grande parte incorporado ao governo Lula, expressando-se, por exemplo, em figuras como Geraldo Alckmin, vice-presidente, e Simone Tebet, que acaba de deixar o Ministério do Planejamento. A ideia de terceira via no Brasil deveria estar vinculada – deveria – ao compromisso inegociável com a democracia, e não a negociações oportunistas em torno da anistia aos que tentaram instaurar um regime autoritário no país. Quando a terceira via vira isso, ela funciona como linha auxiliar da extrema direita golpista, legitimando-a como opção de poder em nome de um ideal de vida comum: o antipetismo.


Historicamente, a terceira via está ligada aos esforços feitos a partir dos anos 1980, e sobretudo na década de 1990, para criar uma alternativa de poder socialmente responsável, ou minimamente comprometida com a coesão social, capaz de fazer frente ao liberalismo desenfreado da era Reagan e Thatcher, autora da célebre máxima “Não existe sociedade, existem homens e mulheres individualmente, e existem famílias”.


A terceira via seria uma espécie de aggiornamento da social-democracia num momento em que o velho Estado de bem-estar social, o welfare state, já havia se esgotado. Em termos substantivos, ela tem pouco a ver com o negocismo ecumênico de um Gilberto Kassab e rigorosamente nada a ver com um tipo como Tarcísio de Freitas, que tem Bolsonaro como grande referência e se deixa fotografar vestindo o boné do Maga.


A imprensa local, no entanto, alimentou a esparrela de que o governador de São Paulo seria o cara da terceira via. Menos hipócrita, o mercado sempre viu em Tarcísio a possibilidade de um bolsonarismo sem Bolsonaro. Mas, sem Bolsonaro, é Tarcísio quem não sabe andar. Ele fez muitas concessões ao padrinho, submetendo-se a cenas constrangedoras de vassalagem. Não foi suficiente. O chefe preferiu buscar sua opção dentro do clã. Com Eduardo inviabilizado, e sendo Carlos desde sempre inviável, sobrou para o primogênito. Tem a mansão em Brasília, tem a loja-lavanderia de chocolates, tem o escândalo das rachadinhas bem documentado, tem o vínculo umbilical com a banda podre da polícia e a milícia do Rio de Janeiro. Mas, como diria Bolsonaro, e daí?


No início de dezembro, quando, na cadeia, o pai deu ao filho Zero Um a missão de representá-lo na chapa presidencial, a reação predominante foi de desconfiança e contrariedade, algo entre “não parece sério, tomara que não seja sério”. Houve quem dissesse, com razão, que Bolsonaro preferia perder com Flávio a ganhar com Tarcísio. Quatro meses depois, o cenário da sucessão é outro. Começou a mudar ainda em dezembro, com a revelação do contrato suspeitíssimo do Master com o escritório de Viviane Barci de Moraes, mulher do algoz de Bolsonaro.


Com o Supremo Tribunal Federal capturado na teia de Vorcaro – com Xandão, com Toffoli, com tudo –, o enredo falacioso de que Bolsonaro seria prisioneiro de um sistema corrompido ganhou tração e furou a bolha. A vitimização do golpista conquistou novos adeptos. Flávio subiu nas pesquisas e até segunda ordem se transformou no adversário de Lula.


Era previsível que os bolsonaristas aproveitassem o presente histórico para associar o escândalo ao atual governo, apontando o presidente petista como grande beneficiário da orgia xando-vorcaro-tantrayayônica. Não importa quão fantasiosa seja essa versão. É  assim que eles operam, é disso que Carluxo gosta. Da imprensa profissional, espera-se outra coisa.


Falou-se muito nas últimas semanas a respeito do PowerPoint que foi ao ar no programa Estúdio i, da GloboNews, na tarde de 20 de março. Sob o título de um quadro que anunciava as “Conexões de Daniel Vorcaro”, destacavam-se, praticamente coladas à foto do ex-banqueiro, as imagens de Lula (com a faixa presidencial), de Gabriel Galípolo (atual presidente do Banco Central) e a estrela do PT (com a inscrição “PT da Bahia” embaixo, em letras miúdas), além de Guido Mantega (ministro da Fazenda dos governos Lula e Dilma entre 2006 e 2014).


Havia, além deles, mais oito personagens, entre os quais Alexandre de Moraes, todos conectados a Vorcaro, a diferentes distâncias, por barbantinhos. A estética do material, bastante rudimentar, destoava do padrão das artes da emissora, mais parecendo um trabalho escolar, ou uma daquelas lives bolsonaristas. Mas essa é uma observação lateral e subjetiva. Escandalosa, objetivamente falando, foi a inclusão de Lula e de Galípolo no quadro. Nada, nenhum critério jornalístico, justificaria tais escolhas. Fica até difícil tratar como um simples “erro” algo tão grosseiro e carregado de intenções.


A jornalista Andréia Sadi, apresentadora do programa, se retratou no ar, três dias depois, lendo uma nota institucional durante pouco mais de 1 minuto. O material exibido, disse ela, estava “errado e incompleto”. E voltou a repetir no final: “Diante de um material incompleto e em desacordo com os nossos princípios editoriais, a gente pede desculpas.”


É claro que a retratação foi positiva. A ressalvar, talvez, que a ênfase do mea culpa tenha recaído sobre o caráter “incompleto”, e não sobre o que estava “errado” no PowerPoint. E o mais grave: o espectador sai da nota tendo que adivinhar qual era, afinal, o erro, ou os erros, uma vez que a emissora não menciona nomes nem publica o quadro “certo e completo”, ou pelo menos um quadro certo, ainda que necessariamente incompleto.


Bem menos comentado foi o editorial que o jornal Folha de S.Paulo publicou em sua primeira página, na edição de 15 de março, um domingo. Editoriais na capa são parte da tradição do jornal. Mas foi-se o tempo em que tinham capacidade de fazer diferença no debate público. Essa perda de influência tem a ver com o declínio progressivo e acentuado das edições impressas, não há dúvida. A ideia de capa ficou obsoleta, e a própria edição dominical perdeu parte de seu prestígio. Não será o texto em questão que vai reverter essa tendência.


PF e imprensa implodem pacto de silêncio – este é o título do editorial. O texto começa assim: Foi abalado o pacto de silêncio tacitamente firmado nos últimos anos entre altas autoridades e a elite política do país em torno das evidências de alastramento da corrupção. As “altas autoridades”, ficamos sabendo na sequência, são os ministros do STF – o texto cita quatro deles nominalmente. Já a “elite política” se resume a… quem adivinha? Sim, a Lula e ao governo do PT. Ao longo de oito parágrafos, e depois de 404 palavras, o editorial da Folha se refere a Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, duas vezes, em dois parágrafos distintos. Mas, apesar de tratar de Daniel Vorcaro, não menciona nenhuma vez os partidos da direita – nenhum deles –, nem inclui na sua “elite política” nomes como Ibaneis Rocha, Ciro Nogueira, Davi Alcolumbre, Cláudio Castro, Antonio Rueda ou Nikolas Ferreira.


Numa primeira leitura, o que salta aos olhos é essa omissão, ou o pacto de silêncio entre o jornal e o Centrão. É algo escandaloso, mas o problema mais grave não está aí. Ele reside na mensagem subliminar que coloca Lula e o STF no mesmo saco na largada da corrida eleitoral. Associar o escândalo do Master à esquerda é fichinha. Associar o STF desmoralizado a Lula é coisa de profissionais. O editorial da Folha realiza, na capa do jornal de domingo, a operação que os golpistas tentam fazer o tempo todo no submundo das redes sociais. E assim, com esse duplo twist carpado, em nome do combate à corrupção, a Folha, que já se definiu como um jornal a serviço da democracia, dá as boas-vindas a Flávio Bolsonaro.



https://piaui.uol.com.br/materia/uma-chance-para-flavio-bolsonaro/um

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