A farsa do PT ‘antissistema’-------
O presidente do PT, Edinho Silva, publicou um vídeo numa rede social no qual defende que o partido deve “enfrentar a polarização” dialogando, ora vejam, “com quem está do outro lado”. O discurso, que em outra boca poderia soar como um raro sopro de sensatez em meio à crispação do ambiente político brasileiro, mal esconde o cinismo de quem o profere. Mais ainda quando, no mesmo fôlego, o dirigente petista sustentou que o PT seria o verdadeiro partido “antissistema”, rótulo que, obviamente, tenta colar à candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva à reeleição.
É difícil saber por onde começar a desmontar essa mistificação. Talvez pelo que é mais evidente: o PT exerceu o poder central por 18 dos últimos 24 anos.
Não é nem jamais pode ser associado a qualquer coisa que soe “antissistema”. O PT não apenas governou o País por longos períodos desde a redemocratização, como moldou práticas políticas, apresentou ou sancionou leis que construíram o “sistema” tal como isso se apresenta hoje, povoou órgãos públicos e influenciou decisivamente o funcionamento das instituições. Se há algo que não cabe em qualquer petista, a começar pelo mais poderoso e proeminente deles, é essa fantasia de outsider.
A tentativa de Edinho Silva de promover uma espécie de rebranding do PT seria risível, não fosse tão ofensiva à memória coletiva da Nação. Este jornal não nega a legitimidade de um partido político
que venceu eleições limpas e que assumiu e deixou o poder, alternadamente, de acordo com as regras do jogo democrático. Mas não podemos aceitar calados essa deliberada distorção da realidade factual. Esse “sistema” que ora tanto se critica – com seus vícios, distorções e afastamento do interesse público – foi, em grande medida, construído sob governos petistas.
O segundo ponto é ainda mais desconcertante. O apelo ao diálogo feito por Edinho Silva contrasta frontalmente com o comportamento de seus próprios correligionários petistas. Foi sob a liderança de Lula, é sempre bom lembrar, que se consolidou no Brasil a divisão simplista da sociedade entre “nós” e “eles” como método de atuação política. Após o escândalo do “mensalão”, que desconstruiu o mito do PT como o partido da “ética na política”, o recurso à polarização – vale dizer, a negação da voz de adversários políticos – passou a ser um instrumento de mobilização e ação política desde o Palácio do Planalto.
Essa lógica atravessou governos e campanhas. Nem Dilma Rousseff nem Lula, enquanto presidentes da República, notabilizaram-se por esforços consistentes de pacificação nacional. Ao contrário: a retórica de confronto permanente com críticos e adversários do PT é que foi estimulada. Nem membros históricos do partido escaparam da virulência petista – Marina Silva que o diga. A radicalização posterior, insuflada por Jair Bolsonaro, não tem o condão de apagar esse passado.
Hoje, um petista de quatro costados,
como o sr. Edinho Silva, chamar ao diálogo depois de anos de incentivo ao dissenso entre os cidadãos soa menos como autocrítica e mais como cálculo eleitoral.
Não se está diante de um reconhecimento sincero da parcela de responsabilidade que cabe ao PT por essa polarização estéril que paralisa o Brasil, mas de uma tentativa de explorar o genuíno mal-estar de um eleitorado cansado de conflitos e descrente de que as instituições republicanas – o tal “sistema” – trabalham em seu benefício, e não em prol dos interesses corporativos das castas que as ocupam.
Ademais, flertar com o ideário “antissistema”, sobretudo em se tratando de um partido estruturado e representativo como o PT, tem consequências nefastas que vão muito além da disputa eleitoral.
Ao sugerir que a concertação entre a miríade de interesses da sociedade pode ser feita fora do “sistema” – vale dizer, fora da política e das instituições republicanas –, abre-se perigoso espaço para a negação da ordem democrática. A história recente, não só do Brasil, mostra que esse tipo de discurso, quando levado às últimas consequências, não dá em coisa boa.
O País precisa de diálogo. Mas precisa também de reformas que aproximem o Estado da sociedade. Quando um partido central para a política nacional, como o PT, tenta se vender como a antítese do sistema que ajudou a moldar, não só ofende a inteligência do eleitor, como agrava a desordem que marca o debate público.
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