segunda-feira, 29 de junho de 2026

Call Matinal 2906

 Call Matinal

29/06/2026

Julio Hegedus Netto, economista

 

MERCADOS EM GERAL

 

FECHAMENTO (2606)

MERCADOS

Na sexta-feira (26), o Ibovespa fechou em alta de 0,76%, aos 173.295,14 pontos, após oscilar entre 171.123,94 e 173.964,44.  Volume somou R$ 23,7 bilhões. Na semana, índice subiu 2,95%.

 

PRINCIPAIS MERCADOS

Os índices futuros de NY sobem após relatos de que os EUA e o Irã recuaram de uma nova escalada que ameaçava o frágil cessar-fogo que sustentava as negociações de paz. Os Estados Unidos e o Irã concordaram em cessar os ataques mútuos, segundo um alto funcionário americano, enquanto os dois lados planejam se reunir na terça-feira na capital do Catar para resolver a disputa sobre o Estreito de Ormuz.

 

 

MERCADOS 5h30

 

 

Índices

Comentários

EUA

Dow Jones Futuro: +0,42%

S&P 500 Futuro: +0,78%

Nasdaq Futuro: +1,19%

Índices futuros de NY sobem após relatos de que os EUA e o Irã recuaram de uma nova escalada que ameaçava o frágil cessar-fogo que sustentava as negociações de paz.

Ásia-Pacífico

 

 

 

Shanghai SE (China), +1,16%

Nikkei (Japão): +0,15%

Hang Seng Index (Hong Kong): +1,57%

Nifty 50 (Índia): -0,52%

ASX 200 (Austrália): +0,68%

 

Europa

 

 

 

STOXX 600: +0,08%

DAX (Alemanha): +0,17%

FTSE 100 (Reino Unido): +0,01%

CAC 40 (França): -0,55%

FTSE MIB (Itália): +0,49%

 

Commodities

 

 

 

Petróleo WTI, +1,18%, a US$ 70,05 o barril

Petróleo Brent, +0,79%, a US$ 72,56 o barril

Minério de ferro negociado na bolsa de Dalian, +0,67%, a 746 iuanes (US$ 109,74)

Bitcoin, +0,72%, a US$ 59.803,80

 

 

NO DIA, 2906

Abrindo a semana ainda de olho nas estocadas entre Israel e Hezbolah, com ambos anunciando que não irão recuar sob a retirada ou não do Líbano. No cenário doméstico, a semana começa cheia de indicadores, com destaque para o IGP-M de junho e o Relatório Focus, que ajudam a calibrar as apostas para inflação e Selic. Também saem a Nota de Política Monetária e Operações de Crédito do BC e o resultado primário do Governo Central de maio, enquanto Lula lança o programa "Desenrola Adimplentes" e Galípolo participa de evento do BIS, na Suíça. No Cenário Internacional), o foco se divide entre dados de atividade e falas de dirigentes de bancos centrais, em meio à escalada das tensões entre Estados Unidos e Irã, que recoloca o petróleo no centro das atenções. Na Europa, saem a confiança do consumidor da zona do euro e a inflação da Espanha, além de discurso de Christine Lagarde (BCE) e fala de Huw Pill (BoE). Nos EUA, o índice de manufatura do Fed de Dallas e leilões de Treasuries ajudam a medir o humor com a economia americana, enquanto à noite Japão e China divulgam dados de desemprego, produção industrial e PMI composto.

 

Boa semana a todos!

 

 Agenda 29 de junho a 02 de julho

 

Segunda-feira, 29/06

Indicadores

06h00 – Zona do euro: Comissão Europeia – Sentimento econômico (jun)

08h00 – Brasil: FGV – IGP-M (jun)

08h25 – Brasil: BC – Relatório Focus

08h30 – Brasil: BC – Nota de política monetária e crédito (mai)

09h30 – Brasil: Tesouro – Resultado primário do Governo Central (mai)

09h30 –  Brasil: Lula lança Desenrola Adimplentes

22h30 – China: PMI composto oficial (jun)

Leitura de fim de semana

 *Leitura de Domingo: FGC avalia se melhor opção econômica para Digimais é resgate ou liquidação*


Por Cynthia Decloedt e Altamiro Silva Junior


São Paulo, 23/06/2026 - O resgate financeiro do Banco Digimais, envolvendo um empréstimo do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) ao potencial comprador, voltou aos holofotes após a operação da Polícia Federal que apura fraudes contra o sistema financeiro e determinou a busca e apreensão de até R$ 670 milhões do bispo Edir Macedo, dono do banco. A Broadcast apurou que o FGC segue com estudos em torno da viabilidade econômica de tal transação, os quais estão em estágio inicial.


Por outro lado, fontes afirmam que o BTG Pactual, que assinou um acordo de intenção de compra do Digimais no início de abril, pode desistir de ficar com a instituição, em razão de as condições precedentes à aquisição não terem sido cumpridas. A venda do Digimais seguiria novas regras do FGC, publicadas em janeiro deste ano, prevendo a realização de um leilão de venda de instituições em dificuldades financeiras. Além do leilão, o FGC deveria fazer um empréstimo para viabilizar a troca de controle. Em 2010, a venda do Banco Panamericano, que pertencia ao empresário Silvio Santos, foi viabilizada por um empréstimo do FGC.


Segundo fontes, os estudos do FGC estão sendo feitos por consultores independentes, para avaliar se o empréstimo seria mais barato ao fundo do que a cobertura de garantias a depositantes em caso de uma eventual liquidação. Até dezembro do ano passado, o Digimais tinha R$ 9,2 bilhões em depósitos a prazo, dos quais a grande maioria - R$ 8,6 bilhões - estavam em CDBs. O FGC dá cobertura de até R$ 250 mil por CPF e por conglomerado, até o teto de R$ 1 milhão. No balanço de 2025, o Digimais cita que seus parceiros de distribuição são Nubank, XP, BTG, Ágora, Itaú Corretora e Inter.


Ao anunciar o acordo, no começo de abril, o BTG comunicou que a conclusão da operação estava condicionada ao lançamento do processo, à declaração da proposta do BTG como vencedora e à obtenção de aprovações regulatórias, incluindo o Banco Central e o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade).


Este leilão para venda de bancos passou a ser permitido por mudanças feitas pelo Conselho Monetário Nacional (CMN) nas regras de funcionamento do FGC. As medidas publicadas em janeiro deste ano ampliam o escopo de atuação do FGC em situações de "dificuldade financeira relevante" de instituições financeiras. Isso inclui o suporte a operações de mudança de controle societário da instituição em crise para evitar sua quebra.


*Aporte de Edir Macedo*


Em 2025, o Digimais teve lucro de R$ 31 milhões, com retorno patrimonial (ROE) de apenas 4,2%, um dos menores do mercado financeiro.


O índice de Basileia, que mede a capitalização do banco e sua capacidade de empresas, *fechou 2025 em 12,08%, acima do mínimo de 11% exigido pelo Banco Central. O indicador era projetado para aumentar para 13,5%, por conta de um aporte feito por Edir Macedo, de R$ 250 milhões, em dezembro, mas só aprovado pelo BC em março de 2026.*


A taxa de inadimplência do banco de Edir Macedo estava bem acima da média do mercado, em 12,37%, considerando atrasos acima de 90 dias. O banco teve uma série de problemas em carteiras como financiamento de veículos, que fez a inadimplência disparar, chegando a 43% ao final de 2022.


*Alerta*


Um dia antes da operação da Polícia Federal a agência de classificação de risco Fitch Ratings rebaixou as notas do banco e ao mesmo tempo retirou todas as classificações, por falta de "informações financeiras suficientes, confiáveis e verificáveis", de acordo com comunicado.


Para justificar o rebaixamento, a agência cita o default do banco de Edir Macedo como uma "possibilidade real", impulsionado por "incertezas consideráveis em relação ao perfil financeiro do Digimais".


Procurado, o BTG não se pronunciou. O Digimais não retornou até o fechamento desta reportagem.


Contato: cynthia.decloedt@estadao.com; altamiro.junior@estadao.com


Broadcast+

Juro alto: causas e consequencias

 Juros altos asfixiam a economia. A solução não está apenas no Banco Central, mas principalmente na política fiscal.


O Brasil continua convivendo com uma das maiores taxas reais de juros do mundo. Mesmo com a Selic iniciando um ciclo de queda, empresas e famílias seguem pagando uma conta pesada: crédito caro, consumo reprimido, investimentos adiados e aumento da inadimplência. Os gastos com juros já ultrapassam R$ 1 trilhão por ano, drenando recursos que poderiam estar financiando crescimento, infraestrutura e geração de empregos.

O problema é que juros estruturalmente baixos não são decretados pelo Banco Central. Eles são consequência de credibilidade fiscal. Enquanto o governo amplia despesas obrigatórias, subsídios e déficits recorrentes, o mercado exige um prêmio de risco maior para financiar a dívida pública. O resultado é um círculo vicioso: mais gastos, mais dívida, mais juros e menos crescimento.

Os sinais já aparecem por toda parte. O endividamento das famílias atingiu níveis recordes, as recuperações judiciais de empresas continuam avançando e o setor produtivo perde competitividade. O Brasil chegou a gastar mais de 8% do PIB apenas com juros da dívida, percentual muito superior ao observado em economias emergentes comparáveis. É um custo silencioso que reduz a capacidade de investimento de toda a sociedade.

A discussão central para as eleições não deveria ser quem promete gastar mais, mas quem apresenta um plano crível para controlar o crescimento das despesas públicas, melhorar a qualidade do gasto e recuperar a confiança na trajetória fiscal do país. Sem responsabilidade fiscal, não existem juros baixos sustentáveis. E sem juros baixos, o crescimento econômico continuará sendo apenas uma promessa adiada.





Cenário e ciclos

 Resumo dos Ciclos de Crises e Cenários 2026


Crises de liquidez ocorrem historicamente em intervalos médios de 10 a 15 anos.

Estamos em 2026, dentro da janela crítica de risco.

Grande Depressão (1929–1939): especulação e política monetária restritiva.

Intervalo de ~40 anos até o choque do petróleo.

Choque do Petróleo (1973–1979): geopolítica e energia.

Intervalo de ~14 anos até o crash da bolsa.

Crash da Bolsa (1987): alavancagem e pânico de liquidez.

Intervalo de ~10 anos até a crise asiática.

Crise Asiática (1997–1998): dívidas externas e fuga de capitais.

Intervalo de ~11 anos até a crise global.

Crise Financeira Global (2008–2009): hipotecas subprime e alavancagem bancária.

Intervalo de ~12–15 anos até o choque da COVID.

Choque de Liquidez COVID (2020): pandemia e paralisação global.

Intervalo de ~6 anos até 2026.

Média histórica confirma ciclos de 10–15 anos.

O risco sistêmico atual é elevado.

Tensões financeiras, geopolíticas e climáticas se acumulam.

Cenário 1: Hegemonia do dólar.

Crises contidas, dólar atrai liquidez global.

Probabilidade: 35%.

Cenário 2: Fragmentação monetária parcial.

Comércio internacional usa moedas alternativas.

Dívidas ficam mais complexas em múltiplas moedas.

Polarização e geoeconomia aceleram divisão em blocos.

Probabilidade: 40%.

Cenário 3: Crise sistêmica e ruptura.

Bolha de IA, colapso imobiliário chinês e bloqueio em Taiwan.

Fragmentação irreversível em dois sistemas financeiros.

Eventos climáticos extremos agravam.

Probabilidade: 25%.

Conclusão: cenário mais provável é fragmentação parcial.

O dólar ainda mantém força relativa.

Crise sistêmica é menos provável, mas plausível.

Ciclos históricos mostram que excessos raramente se resolvem sem choque.

Recuperações pós-crise podem ser em V, U, W ou L.

V: rápida queda e rápida retomada.

U: estagnação prolongada antes da recuperação.

W: dupla recessão com recaída.

L: queda profunda sem retorno por décadas.

Estratégias de proteção são essenciais.

Diversificação global reduz riscos.

Ativos reais oferecem resiliência.

Liquidez preventiva garante sobrevivência em choques.

Hedging climático mitiga riscos ambientais.

Proteção geopolítica evita concentração em áreas instáveis.

O ciclo de 2026 exige cautela estratégica.

Fragmentação monetária parcial é o cenário dominante.

O dólar ainda pode reforçar hegemonia.

Crise sistêmica permanece como risco latente.

A história mostra que rupturas são quase inevitáveis em ciclos de liquidez.

Adley Piovesan, economista há 38 anos, escritor, CFO da Aruatech sustentabilidade e CEO da Realtrader.

O momento Suez

 *O "Momento Suez" dos EUA sob a ótica do MPCP*


A comparação de Ray Dalio entre os Estados Unidos de 2026 e a Crise de Suez representa um alerta sobre os ciclos históricos de ascensão e declínio das grandes potências.

O Reino Unido perdeu sua condição de potência hegemônica quando sua capacidade financeira deixou de sustentar sua projeção geopolítica.

Segundo Dalio, os EUA enfrentam pressões semelhantes: dívida crescente, déficits elevados, perda relativa de confiança de alguns credores e avanço de alternativas ao dólar.

Pela ótica do Modelo Piovesan de Convergência dos Paradoxos (MPCP),
MPCP = (Dívida + Juros + Energia) ÷ (Produtividade + Crescimento + Liquidez)

Os Estados Unidos apresentam deterioração no numerador, mas continuam possuindo o denominador mais robusto do planeta.

Lideram inovação, inteligência artificial, mercado de capitais, universidades, segurança jurídica e capacidade militar, fatores que sustentam sua posição estrutural.

Ao mesmo tempo, intensifica-se a disputa entre dois grandes blocos:
Eixo das Democracias: liderado pelos Estados Unidos e seus aliados, concentrando inovação, capital, instituições e alianças militares.

Eixo das Ditaduras: liderado por China, Rússia e Irã, buscando reduzir a dependência do dólar, ampliar o uso de moedas locais, acumular ouro e construir sistemas financeiros alternativos.

Nesse contexto, a dominância do dólar não tende a desaparecer abruptamente, mas a sofrer uma erosão gradual.

O mundo caminha para uma ordem multipolar, na qual o dólar permanece como principal moeda de reserva, embora com menor participação relativa ao longo do tempo.

Conclusão Estratégica

O "Momento Suez" dos EUA não significa necessariamente o fim da hegemonia americana, mas o início de uma fase de transição em que a liderança dependerá menos do poder financeiro isolado e mais da capacidade de preservar produtividade, inovação, alianças estratégicas e credibilidade institucional.

Síntese Piovesan: o maior risco para os Estados Unidos não é apenas o crescimento da dívida, mas permitir que Dívida + Juros cresçam persistentemente mais rápido que Produtividade + Crescimento + Liquidez.

Se essa relação permanecer desequilibrada, a hegemonia tenderá a enfraquecer gradualmente; se o denominador voltar a acelerar, os EUA poderão prolongar sua liderança por muitas décadas, ainda que em um sistema internacional mais multipolar.

*Adley Piovesan, economista há 38 anos, escritor, CFO da Aruatech sustentabilidade e biomateriais e CEO da Realtrader.*

Anatemas...

 Ótimo artigo do Gustavo Franco nesta semana, O MENSAGEIRO. Nada mais acertado.

Discute pq a Selic É ELEVADA, hoje em 14,25%, havendo um piso para redução.

Acho incrível como mtos críticos à Selic CONSEGUEM público para fazer as suas "reclamações". Em maioria, nada entendem de mercado financeiro, de financiamento da dívida pública, de rolagem de títulos, de rigidezes deste mesmo mercado pela piora fiscal.

Quando a dívida bruta vai aumentando, e ela já se aproxima de 80% do PIB, as expectativas dos agentes vão se deteriorando também, e a rolagem de títulos, em diferentes prazos, vencimentos, tipos, encargos, também vão se alterando.

Vai se tornando mais difícil emitir títulos longos, estes sempre com prêmios mais atrativos (ou caros), e mais fácil colocar os mais curtos, todos considerando o risco fiscal.

Não tem jeito. A piora fiscal leva a piora nas condições de financiamento e aí, claro, os encargos financeiros se tornam mais elevados, abusivos até.

Por isso, eu achar engraçado estes neófitos do mundo, não só do mundo real, do mercado também, acharem um "absurdo", os encargos financeiros da dívida. Vão lá, ignorantes que são, falar mal dos "rentistas".

Ora, o Tesouro, para poder financiar sua dívida, precisa colocar os títulos no mercado (tesouro direto, manja?) e os demandantes são todos nós, os bancos, os fundos de pensão, os gringos, a pessoa física.

Todos nós financiamos a dívida pública. Não tem nada disso de "rentista"....cansativo este debate.

Só os ignorantes ou oportunistas polemizam sobre isso.

Daí a necessidade urgente de reduzir este passivo fiscal no País.

Fui...






Americanas...

 *Fraude com aval bancário*

Publicada em 26/06/2026 às 22:00


A investigação da Polícia Federal sobre a fraude bilionária na Americanas aponta que ao menos dois grandes bancos ajudaram a varejista a esconder informações relevantes dos auditores independentes. Fechado com Santander e Itaú no início de 2017, o acordo permitiu mascarar o real nível da dívida financeira da companhia e consolidou o esquema de resultados fictícios.


A informação foi apresentada por Fábio Abrate, ex-diretor do grupo Americanas, em delação premiada firmada com o Ministério Público Federal e homologada pela Justiça Federal em 2025. O Bastidor teve acesso exclusivo a trechos do depoimento citados pela Polícia Federal no relatório que embasou a segunda fase da Operação Disclosure, deflagrada nesta quinta-feira, 25.


No documento, a PF afirma que o escândalo da Americanas representa “a maior fraude corporativa do Brasil”. “A manipulação contábil perdurou por pelo menos 10 anos e envolveu praticamente toda a estrutura de governança, as maiores instituições financeiras do país e duas das maiores empresas de auditoria independente”, diz o relatório.


Para entender o papel dos bancos no esquema, é preciso antes compreender os dois principais mecanismos da fraude.


O primeiro era a criação de VPCs fictícias, sigla para verbas de propaganda cooperada. No varejo, essas verbas são pagas por fornecedores para bancar a divulgação de produtos em lojas, folhetos e promoções. Na Americanas, segundo a PF, elas passaram a ser inventadas para melhorar artificialmente os resultados.


Quando o desempenho real da companhia não era suficiente para atingir as metas, diretores determinavam o lançamento de verbas inexistentes. Na prática, esses valores reduziam no papel o custo das mercadorias vendidas e inflavam indicadores acompanhados pelo mercado, como margem bruta e Ebitda. O rombo acumulado com VPCs fictícias chegou a 20,6 bilhões de reais.


Para sustentar a fraude, a companhia também produzia documentos falsos. Segundo o relatório, cartas antigas de fornecedores eram alteradas no Word, com troca de datas e valores, salvas em PDF e entregues aos auditores. “Era totalmente amador”, admitiu Marcelo Nunes, outro ex-diretor da Americanas que fechou acordo de delação. Mesmo assim, o método funcionou por mais de uma década.


O segundo mecanismo era o risco sacado, operação em que bancos antecipam pagamentos a fornecedores e depois recebem da empresa, com juros, em prazo maior. Na Americanas, essa dívida com os bancos era registrada como se fosse uma obrigação comum com fornecedores, e não como dívida financeira.


A classificação escondia do mercado o tamanho real do endividamento da companhia. O risco sacado chegou a 14,1 bilhões de reais em 2021. Quando o escândalo veio à tona, a reclassificação necessária para revelar esse montante como dívida financeira foi de 15,9 bilhões de reais. Hoje, o total da fraude da Americanas é estimado em 54,2 bilhões de reais.


As duas frentes se complementavam. As VPCs falsas inflavam artificialmente o resultado. O risco sacado escondia a dívida usada para sustentar o caixa. No balanço, uma fraude ajudava a encobrir a outra.


A PF encontrou indícios de que as fraudes começaram em 2009 e seguiram sem grandes obstáculos até 2016. A partir dali, Santander e Itaú se tornaram peças importantes para manter o esquema de pé.


Em fevereiro daquele ano, a Comissão de Valores Mobiliários publicou um ofício sobre operações de risco sacado. A CVM alertava que essas operações não poderiam ser avaliadas apenas pelo nome ou pelo formato usado no contrato. O que importava era a realidade da transação. Se, na prática, o banco estava financiando a empresa compradora, a dívida precisava aparecer no balanço como dívida financeira, com juros e encargos registrados no resultado. Para a CVM, esconder essa natureza da operação distorcia as informações apresentadas ao mercado e era irregular.


A orientação criou um problema para a Americanas. Segundo diz Abrate na delação, as cartas de circularização dos bancos, até então tratadas como uma etapa simples da auditoria, passaram a ser um ponto sensível. Essas cartas eram usadas pelos auditores para confirmar diretamente com as instituições financeiras as dívidas, aplicações e outros ativos e passivos existentes entre os bancos e a companhia.


Se os bancos informassem o risco sacado como dívida financeira, os auditores teriam acesso ao endividamento que a Americanas mantinha fora dessa classificação no balanço. A fraude ficaria exposta.


Na auditoria de 2015, realizada no início de 2016, o tema ainda era novo. Segundo Abrate, nem a companhia, nem os auditores, nem os bancos tiveram tempo para discutir em profundidade como o risco sacado seria informado nas circularizações e contabilizado.


No ano seguinte, para a auditoria referente ao exercício de 2016, a questão se tornou inevitável. Abrate, então diretor de Relações com Investidores da B2W, controlada pela Americanas, foi designado para conversar com os bancos. Ele foi escolhido, segundo seu próprio relato, porque era o executivo com melhor interlocução com as instituições financeiras.


A missão era saber como os bancos classificariam o risco sacado nas cartas enviadas aos auditores. Abrate levou a Santander e Itaú a posição da companhia: a Americanas tratava as operações como comerciais e, portanto, defendia que elas ficassem fora das cartas de circularização.


O argumento financeiro também foi colocado na mesa. Abrate afirma na delação que informou aos bancos que, se os valores do risco sacado fossem apresentados aos auditores como dívida financeira, a Americanas deixaria de usar o produto. A razão era simples: o limite de endividamento bancário seria extrapolado e os indicadores financeiros da companhia ficariam muito ruins.


Segundo ele, as primeiras conversas ocorreram com André Juaçaba, no Santander, e Gustavo Balassiano, no Itaú. Nenhum dos dois tinha autonomia para resolver o assunto. A discussão, então, subiu dentro dos bancos.


No Itaú, segundo Abrate, Gustavo Balassiano encaminhou o tema ao diretor José Rudge, que levou a discussão ao Comitê Executivo do banco. O comitê era presidido por Cândido Bracher e tinha a participação dos diretores Alberto Fernandes, André Rodrigues, Eduardo Vassimon e Caio David.


No Santander, André Juaçaba submeteu a questão às esferas competentes. Abrate afirmou acreditar que, como ocorreu no Itaú, o tema foi levado ao Comitê Executivo do Santander, com participação de Jean Pierre, chefe de Juaçaba, de Sérgio Rial, então presidente do banco, e de outros diretores.


A decisão dos dois bancos foi a mesma. Depois das consultas internas, Santander e Itaú informaram a Abrate que concordavam com o entendimento da Americanas. O risco sacado seria tratado como operação comercial e não seria informado nas cartas de circularização, em desacordo com a CVM.


Segundo Abrate, os bancos chegaram a esse entendimento para não perder uma operação que “rendia muito dinheiro”. O risco sacado, afirmou o delator, não era realizado apenas com a Americanas e suas controladas.


A partir daquele momento, as operações de risco sacado deixaram de aparecer nas cartas enviadas aos auditores. Segundo Abrate, o entendimento firmado no início de 2017 seguiu até 2022.


No caso do Santander, a atuação foi além. Segundo Abrate, durante a negociação da redação das cartas de circularização, André Juaçaba pediu que a Americanas alterasse o teor da solicitação de informações enviada ao banco. A mudança permitiu que o Santander respondesse à auditoria sem incluir as operações de risco sacado.


Segundo Abrate, o banco orientou a companhia sobre como redigir a solicitação para que pudesse respondê-la sem inserir essas operações. Naquele dia, o executivo estava em São Paulo e entrou em contato com a sede da Americanas, no Rio de Janeiro, para avisar que uma nova carta de solicitação chegaria do Santander e precisaria ser assinada e reenviada ao banco.


Na prática, segundo a investigação, o Santander não apenas deixou de informar a dívida financeira aos auditores. Também ajudou a moldar o documento usado para manter essa dívida fora do alcance da auditoria independente.


Os demais bancos seguiram o entendimento de Santander e Itaú. A partir de então, as cartas de circularização passaram a ser emitidas sem as informações sobre risco sacado. Para o mercado, o dado deixou de ser transparente.


O papel dos bancos na ocultação do risco sacado não aparece apenas na delação de Fábio Abrate, embora esse seja o relato mais detalhado. A PF também encontrou conversas de WhatsApp e e-mails, localizados em dispositivos apreendidos, que mostram tratativas entre funcionários da Americanas e de instituições financeiras sobre a alteração das cartas de circularização enviadas aos auditores.


As delações de Marcelo Nunes e Flávia Carneiro, ambos ex-diretores, reforçam esse quadro. Nunes relata a reação interna de pânico após a CVM exigir mais transparência sobre o risco sacado, em 2016, e diz que Abrate assumiu a negociação com os bancos. Carneiro descreve as circularizações bancárias como parte da dinâmica da fraude, e não como um episódio isolado.


Esse conjunto de elementos levou a PF a abrir uma frente específica sobre a atuação das instituições financeiras. Na decisão que autorizou buscas contra acionistas de referência da Americanas, a Justiça Federal afirma que mensagens, e-mails e relatórios policiais corroboram as fraudes envolvendo risco sacado, VPCs e cartas de circularização.


Segundo o documento, as comunicações envolveram diretores da Americanas, funcionários de bancos e fornecedores, com o objetivo de submeter documentos à auditoria externa e camuflar a real situação financeira da varejista. O juiz também registrou a participação ativa de representantes de bancos em tratativas para emitir cartas de circularização sem menção a operações creditícias relevantes, como o risco sacado.


A decisão afirma ainda que a apuração não se limita aos interlocutores operacionais dos bancos. Para o juiz, os valores bilionários envolvidos e a necessidade de aprovação interna nas instituições financeiras indicam que operações dessa dimensão não avançavam sem conhecimento de escalões superiores.


O Bastidor procurou o Santander e o Itaú na tarde desta sexta-feira, 26, por meio de suas assessorias de imprensa.


Ao Santander, perguntou se o banco confirma as discussões com a Americanas sobre o tratamento do risco sacado nas cartas de circularização, qual foi a participação de André Juaçaba e Sérgio Rial nas tratativas e com base em qual análise jurídica, contábil ou regulatória a instituição sustentou o entendimento de que as operações deveriam ser tratadas como comerciais. O banco não respondeu até a publicação desta reportagem.


Ao Itaú, perguntou se o banco confirma que o tema foi levado ao Comitê Executivo, qual foi a participação de Gustavo Balassiano, José Rudge e dos integrantes do comitê, com base em qual análise o banco sustentou a classificação do risco sacado como operação comercial e se houve revisão interna desse posicionamento.


Em nota, o Itaú disse que não é investigado e que colabora com as autoridades desde 2023, prestando todas as informações solicitadas sobre o caso Americanas. O banco afirmou que sofreu perdas bilionárias com o episódio e que já comprovou, por meio de documentos apresentados à Justiça, “a lisura de sua conduta e da atuação de seus funcionários”. Disse ainda que recusou pedidos da antiga gestão da Americanas para alterar cartas de circularização, que sempre alertou auditores e reguladores sobre a existência das operações de risco sacado e da exposição da varejista a fornecedores, e que chegou a interromper por mais de seis meses as operações de risco sacado com a companhia. O Itaú afirmou, por fim, que sempre atuou com “rigor ético e regulatório” e que confia no trabalho das autoridades.


https://obastidor.com.br/economia/fraude-com-aval-bancario/

Papo de Economista

 Papo de Economista  1) Assistindo ao documentário do Primo Rico, no 24 hs...sobre Eike Baptista. Vale a pena dar uma espiada, lá no YouTube...