segunda-feira, 23 de março de 2026

Bens do Vorcaro

 *De mansão a Picasso: veja bens de luxo rastreados no caso Master*


Liquidante do Banco Master rastreia uma série de bens supostamente ligados a Daniel Vorcaro para ressarcir credores. 


O processo de liquidação do Banco Master envolve o rastreamento de uma série de bens, que incluem de quadro de Pablo Picasso a mansões no Brasil e nos Estados Unidos. Os bens foram parar em nomes de empresas, fundos de investimentos e, até, em nome de uma sugar baby.


Os itens constam de documentos do liquidante do banco, tanto no Brasil quanto no exterior, que busca evitar que supostos desvios do Master evaporem, além de mapear o patrimônio que pode ser usado para pagar os credores do banco.


O grosso do dinheiro rastreado está em fundos, como o Astralo 95, que traz cifras bilionárias. No entanto, os bens de luxo adquiridos por Vorcaro, familiares e empresas ligados a ele chamam a atenção por indicarem o estilo ostentação do banqueiro que, depois, viria causar prejuízo bilionário aos seus credores.


Um dos bens rastreados é o quadro Mousquetaire, de Pablo Picasso, comprado em 2019 por U$ 6,4 milhões. A obra de 1967 faz parte de uma série de pinturas de Picasso que se referem ao livro Os Três Mosqueteiros, de Alexandre Dumas.


Também são citados, dois quadros de Basquiat sem título. Uma das obras, que foi comprada em 2024 por U$ 4,5 milhões, teria causado hesitação em Vorcaro por ele temer referência ao demônio. Durante conversas com a ex-noiva, Vorcaro envia uma série de imagens, incluindo de um Basquiat, como opção para decorar o apartamento do casal.


Os bens entraram na mira do liquidante devido à suspeita de uma tentativa de venda, em meio à crise do Master.


*Mansões, jatinho e iate*


Documentos que tramitam na Justiça dos Estados Unidos também citam uma mansão avaliada em U$ 35 milhões comprada pelo pai e a irmã de Vorcaro. Conforme investigação do liquidante, Henrique e Natalia ocupam os cargos de presidente e vice-presidente da Sozo Real Estate Inc., empresa registrada na Flórida e proprietária de um imóvel de alto padrão em Windermere, nos Estados Unidos.


O imóvel, com 3,5 mil metros quadrados de área construída e equipado com quadra oficial de basquete, pista de boliche e campo de futebol, foi adquirido em 2023. O Metrópoles apurou que Henrique teria procurado pessoas próximas na tentativa de encontrar um interessado em comprar o bem.


Além dessa mansão, a Justiça de São Paulo autorizou, em caráter liminar, a inclusão de ordem de protesto em 16 imóveis ligados aos familiares de Vorcaro.


Outra decisão judicial visa dificultar a venda de hotel de luxo, jatinho e iate supostamente ligados a Daniel Vorcaro. De acordo com a petição do liquidante, um jato Gulfstream G700, o iate Monde Bleu e o Botanique Hotel & Spa teriam sido comprados com dinheiro em tese passado por uma rede de fundos interligados, tais como o Astralo 95, o FIDC Rio Vermelho e o FIP Lunar, para ocultar patrimônio de uso pessoal de Vorcaro.


*De suggar baby e supermodelo*


Em outra ação, são citados mais 19 imóveis, sendo o mais valioso uma mansão em Brasília, avaliada em R$ 36 milhões, em nome da empresa Super Empreendimentos, que era controlada pelo cunhado de Vorcaro, Fabiano Zettel, segundo a PF.


No nome da mesma empresa, também é citada uma cobertura duplex no Jardim Paulista, bairro rico de São Paulo, avaliada em R$ 30 milhões. Esse é o mesmo imóvel que Vorcaro chegou a oferecer à modelo Izabel Goulart como um investimento na marca de produtos de beleza que seria lançada por ela, conforme revelado pelo Metrópoles.


Um terceiro imóvel citado em nome da Super Empreendimentos é outro duplex, na Vila Nova Conceição, com valor estimado em R$ 3,2 milhões.


Outro apartamento citado fica em um prédio de luxo na Avenida Presidente Juscelino Kubitschek, também na Vila Nova Conceição, avaliado em R$ 4,3 milhões. O imóvel foi inicialmente adquirido pela Viking Participações, ligada a Vorcaro, e vendido à Super Empreendimentos, que, por sua vez, doou o apartamento a Karolina Santos Trainotti, com quem o banqueiro mantinha um relacionamento.


https://www.metropoles.com/sao-paulo/mansao-picasso-master

Helio Schwartsman

 Entre bispos e reis


HÉLIO SCHWARTSMAN


Eu tive um xadrez do Mequinho, o conjunto bem vagabundo de tabuleiro e peças de xadrez fabricado pela Gulliver. Até tínhamos um tabuleiro melhor em casa, mas, para carregar de um lado para outro, o jogo da Gulliver estava de bom tamanho. Como toda criança que cresceu nos anos 1970, eu não tinha como deixar de admirar os feitos enxadrísticos de Henrique Costa Mecking, o Mequinho, ainda que, em casa, nós o víssemos com certa desconfiança dada sua proximidade com o regime militar.


Mas nunca gostei tanto de xadrez a ponto de estudar teoria e me tornar mais que um jogador medíocre ou de me debruçar sobre a trajetória de Mequinho e tentar entender o que aconteceu com o garoto-prodígio que quase chegou lá. "Entre Bispos e Reis", a biografia de Mequinho escrita por Uirá Machado, resolveu meu segundo problema. O primeiro permanecerá sem solução.


Antes de continuar, o alerta que costumo lançar quando o autor do livro que resenho é meu amigo: não tenho como transcender à benevolência da amizade, então cabe ao leitor aplicar os descontos que julgar necessários.


Voltando ao livro, Uirá não se limita a narrar a ascensão de Mequinho, descrever suas façanhas, as derrotas, a doença, a conversão religiosa, o afastamento dos tabuleiros e a volta, ainda que num nível mais baixo que o da primeira fase. Ele aproveita Mequinho para contar a história do xadrez, sua geopolítica nos tempos da Guerra Fria e até a neurociência por trás da diferença abissal entre jogadores comuns e mestres. Tudo isso sem esquecer os truques sujos que os competidores de alto nível usam para desconcentrar o adversário. Como Uirá conhece tudo de todos os esportes — foi ele quem me explicou o que era um duplo twist carpado sem olhar no Google —, também reflete sobre os fatores que levam a performances de excelência, esportivas e em outras áreas.


"Entre Bispos...", ao tentar capturar as múltiplas faces de uma figura ao mesmo tempo genial, difícil e frágil, também funciona como uma investigação sobre a complexidade humana.


Hélio Schwartsman

Jornalista, foi editor de Opinião. É autor de "Pensando Bem…"


FSP 21.03.2026

sexta-feira, 20 de março de 2026

Fabio Alves

 FÁBIO ALVES: CRESCE TEMOR DE RECESSÃO GLOBAL ENTRE INVESTIDORES


O tombo nos preços de metais industriais, ontem, pode ter sido o primeiro indício de que a preocupação maior dos investidores com o impacto da guerra no Irã sobre as cadeias globais de produção poderá migrar de pressões inflacionárias para uma recessão mundial. Com o conflito no Oriente Médio completando hoje três semanas, é cada vez maior a probabilidade de analistas de bancos e de consultorias internacionais começarem a divulgar novas rodadas de revisões para baixo de crescimento do PIB mundial. Os países da Ásia vão sofrer o maior impacto no PIB, uma vez que dependem não somente de boa parte do petróleo que é escoado pelo Golfo Pérsico, como também de outros insumos importantíssimos para a fabricação de vários produtos finais, como automóveis, embalagens, entre outros. O Golfo Pérsico, por exemplo, é responsável por 15% da produção mundial de polietileno e de 9% de polipropileno. O problema é que, na fotografia de hoje, não há sinais de que os ataques militares pelos Estados Unidos e Israel, com as retaliações pelo Irã à infraestrutura de países ao longo do Golfo Pérsico, estejam próximos de acabar. Na sessão de negócios de ontem, chamou atenção a queda na cotação de alumínio, de 4,4%, a maior em um único dia desde 2018. Mas ao longo da sessão de negócios, o preço do alumínio chegou a cair quase 9%. Esse comportamento é de surpreender porque, logo após o início do conflito no Oriente Médio, o preço do alumínio chegou a disparar 10% na reabertura dos mercados, acompanhando a alta nas cotações de petróleo e de gás natural, diante do temor inicial com a impossibilidade de escoar o produto pelo Estreito de Ormuz. O Golfo Pérsico é responsável por 9% da produção mundial desse metal. Aliás, fica no Bahrein a maior fundição de alumínio do mundo. A Alba, empresa que opera essa fundição, declarou “força maior” para os seus contratos de fornecimento por causa dos ataques do Irã aos países do Golfo. A reversão nos preços do alumínio ontem, passando a cair fortemente, acompanhou o desempenho de outros metais industriais pelo mesmo motivo: quanto mais a guerra no Oriente Médio se prolongar, maior será o impacto na atividade econômica global, com destruição de demanda. “A queda forte nos preços dos metais industriais ontem, com o alumínio caindo quase 9% em determinado momento, é um sinal claro dos temores de recessão”, diz Volkmar Baur, analista do banco alemão Commerzbank. O preço do cobre - metal considerado referência da atividade econômica, por seu uso generalizado na indústria mundial - caiu 2% ontem, acumulando uma perda de quase 9% em março até o pregão de ontem. Aliás, o paládio e a platina acumulam perdas maiores em março até ontem. O paládio caiu ontem 5,5%, levando a queda acumulada em março para 15%. Já a perda acumulada neste mês da platina é de 17%. Nas três primeiras semanas da guerra, a atenção dos mercados globais ficou muito concentrada nas oscilações dos preços de petróleo, afetando o humor dos investidores e o apetite para os ativos de risco. É possível que, a partir de agora, os investidores e analistas comecem a ficar mais sensíveis às oscilações nos preços de metais industriais e de outras matérias-primas, como fertilizantes. Se o conflito no Oriente Médio passar de quatro semanas sem sinal de acabar, mantendo o preço do barril do petróleo Brent acima de US$ 100, é possível que projeções mais sombrias para o desempenho do PIB global comecem a pipocar nas telas dos investidores. A reação nos preços de metais ontem mostrou que a análise dos impactos da guerra no Irã e o fechamento do Estreito de Ormuz poderá dar maior peso ao estrago nas cadeias globais de produção. (fabio.alves@estadao.com) Fábio Alves é jornalista do Broadcast

Prediction Market

 *OPINIÃO. ‘Prediction markets’ não são derivativos*


Udo Seckelmann, Pedro Heitor de Araújo e Raphael


20 de março de 2026


O advento dos mercados preditivos está criando uma indústria multibilionária – por enquanto um duopólio formado pela Polymarket e a Kalshi – e suscitando um debate regulatório: os prediction markets se enquadram juridicamente como derivativos?


E, em caso afirmativo, estariam eles sujeitos à competência da CVM?


 Antes de enfrentar essas questões, contudo, é necessário esclarecer o que se entende por prediction markets. Os prediction markets são ambientes que permitem a negociação de contratos vinculados a eventos futuros e incertos, tais como àqueles relacionados a eleições, economia, esportes, clima.


 Nesses mercados, os participantes compram e vendem posições binárias — de “sim” ou “não” — conforme suas perspectivas acerca da ocorrência ou não do evento objeto de especulação.


O preço desses contratos varia entre zero e um, e por meio dele se indica a probabilidade que o próprio mercado atribui ao resultado: quanto mais próximo de um, maior a expectativa de que aquele evento se concretize; quanto mais próximo de zero, menor essa expectativa. 


Assim, os prediction markets convertem expectativas dispersas em preços, funcionando como uma ferramenta altamente eficiente para a projeção de cenários futuros.


Nos EUA, esses contratos vêm sendo qualificados como uma modalidade específica de derivativos, os swaps, cuja oferta está sujeita ao crivo da Commodity Futures Trading Commission (CFTC), a autoridade responsável pela regulação e fiscalização do mercado de derivativos no país.


 Se transportarmos este entendimento para a realidade brasileira, os contratos negociados nas plataformas de prediction markets seriam enquadrados como derivativos, uma espécie de valor mobiliário nos termos do art. 2º da Lei nº 6.385/1976. 


A partir dessa classificação jurídica, a competência para regular e fiscalizar essa atividade recairia sobre a CVM. 


Na prática, isso implicaria que as plataformas responsáveis por viabilizar a oferta e negociação desses contratos seriam classificadas como “entidades administradoras de mercado organizado,” devendo, portanto, observar as regras da CVM aplicáveis, as quais se dividem em dois eixos normativos centrais: as normas sobre a (i) oferta e distribuição pública de valores mobiliários, e (ii) negociação de valores mobiliários no mercado secundário – que contemplam as normativas sobre as entidades administradoras de mercado organizado e as demais infraestruturas necessárias para o pleno funcionamento do mercado secundário, como os depositários centrais, custodiantes e escrituradores.


Diante das complexas repercussões regulatórias, cabe indagar se os contratos negociados nos prediction markets atendem aos requisitos normativos que caracterizam um derivativo.


 Neste ponto, assume especial relevância a definição de derivativos constante da Resolução CMN nº 4.662/18 que – apesar da eficácia restrita ao âmbito regulatório do CMN, não vinculando, de forma direta, a atuação da CVM – ainda assim é a única que estabelece parâmetros objetivos para a classificação de derivativos.


Esta Resolução caracteriza como derivativo o instrumento: (a) cujo valor de mercado é determinado pela variação de taxas, preço de instrumento financeiro, mercadorias (commodities), índices ou outra variáveis similares, desde que, no caso de variáveis não financeiras, estas não sejam específicas em relação a uma das partes; (b) cujo investimento líquido inicial é nulo ou reduzido em relação ao valor do contrato; e (c) preveja liquidação em data futura.


 À luz desses requisitos, nos parece que os contratos negociados nas plataformas de prediction markets não se encaixam no conceito de derivativo delineado pelo Conselho Monetário Nacional. Há duas razões para isso. 


Primeiro, a existência de eventos de caráter não financeiro e/ou sem similitude alguma com taxas, preços, mercadorias (commodities) ou índices. 


Segundo, a ausência de alavancagem financeira, uma vez que o participante tem ciência, desde o início, do valor máximo que poderá perder na transação – inexistindo margens de garantia, ajustes diários ou qualquer mecanismo que permita assumir uma exposição econômica superior ao capital efetivamente investido.


 Sob essa perspectiva, os mercados preditivos podem ser compreendidos menos como instrumentos de transferência de risco financeiro — a característica central dos derivativos — e mais como mecanismos de agregação descentralizada de expectativas e informações, cuja função socioeconômica reside na produção de conhecimento probabilístico.


Esta distinção estrutural enfraquece a subsunção automática desses contratos ao regime jurídico dos derivativos, cuja disciplina jurídica imporia às plataformas de prediction markets – em sua maioria startups – a observância de um arcabouço regulatório extenso e altamente oneroso, com elevação significativa dos custos de conformidade e da complexidade operacional, criando barreiras relevantes de entrada e concentrando a atividade em poucos participantes com elevada capacidade financeira e institucional.


Udo Seckelmann é sócio da área de Gambling & Crypto do Bichara e Motta Advogados. Pedro Heitor de Araújo e Raphael Cvaigman são advogados no mesmo escritório.


https://braziljournal.com/opiniao-prediction-markets-nao-sao-derivativos/

Planner x Rio previdência x Master

 *Ex-presidente da RioPrevidência atribui à corretora Planner aportes de R$ 510 milhões no Master*


Deivis Marcon Antunes afirmou em depoimento antes de ser preso que a corretora havia sido credenciada pela RioPrevidência e fez quatro operações com o Banco Master; procurada, a empresa não se manifestou


*Rombo da Rioprevidência é 500 vezes maior que perdas do fundo com o Master*


Operação na Rioprevidência destaca um problema maior: o déficit estrutural da Previdência fluminense, que supera R$ 20 bilhões anuais.


Em um depoimento prestado antes de sua prisão pela Polícia Federal, o ex-presidente da RioPrevidência Deivis Marcon Antunes atribuiu à corretora Planner aportes de R$ 510 milhões do fundo no Banco Master. Ele negou ser o responsável pelos aportes e disse que a responsabilidade é da diretoria de investimentos da RioPrevidência - o fundo de aposentadoria dos servidores do Estado do Rio.


O depoimento reforça o elo entre os aportes da RioPrevidência e a corretora, que não é investigada pela Polícia Federal, mas guarda relações com personagens e investimentos ligados ao Master. A corretora teve Maurício Quadrado como sócio até 2020. Depois, ele se associou a Daniel Vorcaro no Banco Master. Mais tarde, ele deixou o banco. Procurada, a Planner não se manifestou.


O depoimento, ao qual o Estadão teve acesso, foi prestado à Polícia Civil do Rio de Janeiro. Antunes afirmou que a Planner se credenciou na RioPrevidência e que tinha a função de “custódia de títulos e compra e venda de títulos”. Ele afirma que a empresa realizou “quatro operações com o Banco Master”.


Segundo o ex-presidente da RioPrevidência, foram uma operação de R$ 230 milhões, outra de R$ 120 milhões e duas de R$ 80 milhões. Antunes afirmou que a RioPrevidência contrata corretoras porque não tem mesa de operações, e que a autarquia escolhe as empresas que oferecem as melhores taxas de rentabilidade.


Antunes afirmou ainda que, quando surgiram notícias das dificuldades financeiras do Master, em setembro de 2025, a RioPrevidência cobrou do banco a devolução dos valores investidos ou novas garantias. O Master, então, ofereceu precatórios equivalentes a R$ 1,2 bilhão. O banco, porém, foi liquidado e a operação nunca se concretizou.


Em pelo menos dois trechos do depoimento, Antunes afirmou que a escolha dos investimentos não passava por uma decisão da presidência, mas sim da diretoria de investimentos, então ocupada por Eucherrio Lenner, que também é investigado pela Polícia Federal. O Estadão não conseguiu contato com Lenner.


O ministro do Superior Tribunal de Justiça Carlos Pires Brandão negou um habeas corpus movido pela defesa do ex-presidente do RioPrevidência e manteve Antunes preso preventivamente durante as investigações. A decisão foi tomada no dia 13.


Antunes foi preso no dia 3 de fevereiro por agentes da Polícia Federal e da Polícia Rodoviária Federal. Ele desembarcou no Aeroporto de Guarulhos, na Grande São Paulo, de uma viagem aos Estados Unidos, e pretendia seguir viagem para o Rio.


O voo de Antunes previa conexão em Guarulhos com destino ao Aeroporto do Galeão, no Rio. Ele, porém, não compareceu ao embarque. Em vez disso, alugou um carro e seguiu para o Rio pela Rodovia Dutra. Acabou preso em Itatiaia, já no Estado do Rio, a cerca de 200 quilômetros de São Paulo.


Antunes havia deixado a direção do fundo em 23 de janeiro, após ter sido deflagrada a Operação Barco de Papel, da Polícia Federal, que apura suspeitas de gestão fraudulenta, desvio de recursos e corrupção envolvendo o sistema previdenciário dos servidores do Estado do Rio.


Durante a gestão de Antunes e de outros dois ex-diretores, a RioPrevidência aplicou cerca de R$ 1 bilhão em letras financeiras do Banco Master, modalidade considerada de alto risco.


https://www.estadao.com.br/economia/rioprevidencia-corretora-planner-aportes-master/

Malu Gaspar

 Malu Gaspar 👇☑️


“Apesar da anulação de multas e das sentenças que sepultaram judicialmente a Lava-Jato, nenhum cidadão razoavelmente informado deixou de saber o que se deu nos meandros do poder naquele período, e ninguém nega o que ocorreu no petrolão. 


O que deixamos de saber, porque a apuração foi interrompida, é até onde o Judiciário estava envolvido no rolo. Toda vez que a investigação enveredou por esse caminho, bateu no muro. 


Em setembro de 2019, o grupo de trabalho que atuava no gabinete da procuradora-geral da República, Raquel Dodge, pediu demissão, em protesto contra a decisão de não investigar o então presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Dias Toffoli. 


Ele havia sido citado em duas delações de empreiteiros — de Marcelo Odebrecht, que se referia a ele como “amigo do amigo do meu pai”, e de Leo Pinheiro, da OAS, que disse ter feito uma reforma na casa de Toffoli e ainda ter dado R$ 1 milhão para o irmão dele comprar a renúncia de um político de Marília (SP). 


A Vaza-Jato já estava na praça com grande repercussão desde 2019, assim como um pedido de suspeição de Sergio Moro, mas o ex-juiz de Curitiba só foi considerado suspeito pelo Supremo em março de 2021, alguns meses depois de vir à tona a delação do presidente da Fecomércio, Orlando Diniz, que afirmava manter vários advogados ligados a juízes e ministros de Cortes superiores em sua folha de pagamento. 


Desde então, o Judiciário, mais especificamente o STF, se envolveu cada vez mais na política, tendo como pano de fundo a festa das emendas parlamentares e o oba-oba dos eventos de lobby mundo afora, disfarçados de discussão jurídica de alto nível. (…)


Eis que agora, depois de sua segunda prisão ser confirmada pela Segunda Turma do STF, Vorcaro promete uma “delação séria”. O recado enviado por seus advogados aos investigadores é que ele não pretende poupar ninguém. 


Se a intenção realmente se confirmar, é certo que boa parte do Centrão virará alvo de inquérito, assim como um naco do petismo, alguns governadores e ainda figuras-chave na burocracia de instituições que deveriam fiscalizar o setor financeiro, como o Banco Central. 


A esta altura, porém, isso é o mínimo, até porque muita coisa que Vorcaro poderia contar já está no material apreendido pela PF em celulares e computadores e nos relatórios de inteligência financeira produzidos pelo Coaf. 


O que nenhum policial federal ou procurador da República minimamente competente poderá deixar de perguntar ao dono do Banco Master é o que, de fato, ele pretendia comprar ao desembolsar R$ 35 milhões por uma fatia do resort Tayayá, de que Toffoli era sócio, qual o verdadeiro escopo do contrato de R$ 130 milhões fechado com Viviane Barci de Moraes, ou ainda o que ele queria saber se Alexandre de Moraes conseguira bloquear, nas mensagens enviadas ao ministro horas antes de ser preso. 


As respostas a essas questões definirão se essa delação será para valer, ou se de novo aceitaremos que se enfiem os esqueletos em algum esconderijo, apenas para vê-los reencarnar em novo escândalo num futuro não muito distante.”

quinta-feira, 19 de março de 2026

Fernando Dourado - Pelo mundo

 As Chocarrices de Trump e o Sorriso do Lagarto.


Vou contar uma pequena história. Em outubro de 1988, eu estava no Japão, imerso num ofurô, lendo as folhas enroladas das mensagens de fax que chegavam do outro lado do mundo. Numa matéria de jornal, falava-se da visita do presidente Sarney a Moscou. Eu tinha terminado um périplo pela Ásia que começara na Jakarta, com escalas de trabalho em Cingapura, Kuala Lumpur, Bangkok, Taipei e Hong Kong. Estava na hora de voltar para São Paulo. Mas então me ocorreu que não custava ir à Rússia, me encaixar na comitiva presidencial e conversar com alguns órgãos que estavam no meu radar desde que Mikhail Gorbachev viera à luz. Pedi então que o escritório refizesse meu trajeto. Era um escambo pouco inteligente. Trocaria uma primeira classe num Boeing 747 da Varig - puro luxo - por uma primeira na Aeroflot, a bordo de um precário Ilyushin IL-62. Mas o primeiro mandamento da vida internacional é a renúncia. O segundo é a resistência à frustração. O terceiro? Um fígado saudável. Terminada a visita de 4 dias, voaria para alguma capital europeia e voltaria para casa. Enquanto emitiam a nova passagem e providenciavam o visto que me seria entregue na chegada ao aeroporto de Sheremetyevo, eu me articulava com os canais diplomáticos para figurar ao lado do pelotão principal, com as graças do embaixador Sardenberg. Eu não tinha tratativas em curso na URSS. O momento, porém, pedia que eu refinasse a leitura sobre a Perestroika e a Glasnost, mantras do novo líder. Um dia conto mais.  


*


O que quero relatar aqui se prende sobretudo ao longo voo de mais de 10 horas. Quando embarquei em Narita, tirei o casaco e entreguei-o à comissária. Na primeira classe, geralmente os sobretudos, capotes e até paletós eram pendurados num rack que ficava no meio da cabine afunilada, no nariz do avião. Mas na Aeroflot era diferente. A comissária de uniforme azul podia até ser uma linda mulher, mas era difícil imaginá-la trabalhando no ramo da hospitalidade de alta gama. Apontando o bagageiro acima do assento, ainda me advertiu, num tom que poderia ter assustado um incauto, que eu logo iria precisar dele. Ou, pelo menos, assim eu entendi. Decolamos em direção a Niigata e, depois da travessia do mar, entramos no espaço aéreo russo sobre Vladivostok. Era um voo diurno. Teríamos claridade praticamente até a chegada. Na altura de Khabarovsk, o almoço foi servido. Ganhei duas bandejas rigorosamente iguais. Cada uma consistia de um Lego de manteiga congelada; um tijolo pardo de pão preto; arenque defumado com raiz forte; um filé alto com duas vagens, paupérrimo de molho e sem sabor; e uma sobremesa que não me dei ao trabalho de ver o que era. "Por que duas?", perguntei. "First Class", ela respondeu. Antes, tinham servido "champanska" da Geórgia e, é claro, havia vodka. Sobre Irkutsk, no Baikal, me esforcei para distinguir alguma coisa, mas só havia o branco infinito da Sibéria em todas as direções, apesar de ainda estarmos no outono.    


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O sorriso que a aeromoça me negava, ela o dava com folga a um sujeito encorpado sentando à minha frente, na diagonal, que recebeu afagos até dos tripulantes. Envergando os quepes enormes, eles saíam para saudá-lo com deferência, descobrindo a cabeça. Ele praticamente não comeu. Só tomou chá, mordiscou uma pêra e leu o tempo todo. Quando todo mundo ensaiava dormir, ele permanecia ativo. Acabou um livro volumoso e, imediatamente, começou outro. Nas margens, fazia anotações. Eu não dormia nem que quisesse. Por um sortilégio da engenharia aeroespacial soviética, que um dia eu conheceria mais de perto, cada vez que alguém ia ao banheiro e batia a porta, minha mesinha desabava sobre os joelhos. Ademais, o frio reinante na cabine era inaudito. Não duvido que estivéssemos a 14° internamente. Seria efeito dos -80° lá de fora? Não há nexo nisso. O fato é que todo mundo estava hiper agasalhado e o que não faltava era cobertor. Não me atrevi a perguntar quem era o homem. Nem depois que, na chegada a Moscou, ele desceu direto para uma limusine ZIL que o aguardava na pista. O que me chamou a atenção ali foi que o sujeito tinha o dever de casa na ponta da língua. Fosse ele ligado ao Exército, à diplomacia ou à Nomenklatura do Partido, eu sentia, aos meus 30 anos, que ele sabia línguas, filologia, geopolítica, história, filosofia e que, eventualmente, era um apaixonado por literatura, balé e música. Na Rússia de então faltava muita coisa. Mas havia sede de conhecimento. Havia gente pensante.   


*


O que quero dizer? Quem está à frente de um país não precisa ser um sábio nem um erudito. Aliás, raramente eles se dão bem num terreno em que a força é o vetor dominante - mais do que o jeito, o direito e o conhecimento. O que é a política? É entregar o bife sem matar o boi. Reagan foi um grande líder apesar do saber bisonho. Ele ouvia as cabeças ao lado. Quando vejo um sujeito tosco como Trump desencadear uma guerra contra o Irã, não estou preocupado com a popularidade deles nos EUA nem no mundo. O que preocupa é que ele não tem noção das coisas. A falta de livros, o vício acendrado na espetacularização midiática, a ignorância do Direito, a falta de cancha internacional e a necessidade narcísica de brincar de herói, o faz entrar numa barca furada que pode castigar o mundo. A impressão que dá é que, contrariamente ao russo do avião - que espelha a cabeça de quem domina as variáveis, e Putin é outro dessa estirpe -, as pessoas só dizem a Trump o que ele quer ouvir. Duvido que ele ache no mapa onde fica o estreito de Ormuz.    

*


Putin está se beneficiando desses ventos. A Ucrânia sai perdendo, muito embora também tenha se tornado uma referência militar na guerra de drones e tenha abiscoitado um nicho de negócios. Ormuz é a jugular da economia. Índia e China, ou seja, 35% da população do mundo dependem do petróleo que transita por ali - embora não só. O arsenal bélico saudita é decorativo, apesar de impressionante. Se o Irã resolver destruir as usinas de dessalinização do Golfo, ele desestabiliza a região. Isso porque dá para viver sem dinheiro, sem petróleo, sem Bulgari, sem Rolls-Royce. Mas não dá para viver sem água. Trump embarca nessas aventuras baseado em premissas fracas, de sustentação precária. Petróleo a três dígitos, frota naval exaurida e tripulações à beira de um ataque de nervos são apenas alguns dos indícios de que começar a brincadeira sem saber como ela vai se desdobrar é temerário. Não há um país da região que tenha dormido tranquilo desde então. Washington solta bravatas. Pede o engajamento dos europeus e não consegue. No impasse de uma guerra de muito desgaste, é possível que Trump pense em tomar um Cuba Libre. Não digo que Putin calcule bem todos os seus passos. A Ucrânia é uma prova disso. Ela não é a Chechênia assim como o Irã não é a Venezuela. Ademais, a cadeia de comando é patética. Quem é o jovem Kushner? O genro de Trump. Quem é Witkoff? Um aliado nos negócios.  


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Os livros não salvam o mundo. Mas funcionam como anteparo ao patético e ao desastre.

Legado

 Obras? Nenhuma!  Além de viagens caras e desnecessárias, das 1001 Noites, Lula passou os dias a pensar em uma única coisa: elevar ou criar ...