quinta-feira, 19 de março de 2026

Fernando Dourado - Pelo mundo

 As Chocarrices de Trump e o Sorriso do Lagarto.


Vou contar uma pequena história. Em outubro de 1988, eu estava no Japão, imerso num ofurô, lendo as folhas enroladas das mensagens de fax que chegavam do outro lado do mundo. Numa matéria de jornal, falava-se da visita do presidente Sarney a Moscou. Eu tinha terminado um périplo pela Ásia que começara na Jakarta, com escalas de trabalho em Cingapura, Kuala Lumpur, Bangkok, Taipei e Hong Kong. Estava na hora de voltar para São Paulo. Mas então me ocorreu que não custava ir à Rússia, me encaixar na comitiva presidencial e conversar com alguns órgãos que estavam no meu radar desde que Mikhail Gorbachev viera à luz. Pedi então que o escritório refizesse meu trajeto. Era um escambo pouco inteligente. Trocaria uma primeira classe num Boeing 747 da Varig - puro luxo - por uma primeira na Aeroflot, a bordo de um precário Ilyushin IL-62. Mas o primeiro mandamento da vida internacional é a renúncia. O segundo é a resistência à frustração. O terceiro? Um fígado saudável. Terminada a visita de 4 dias, voaria para alguma capital europeia e voltaria para casa. Enquanto emitiam a nova passagem e providenciavam o visto que me seria entregue na chegada ao aeroporto de Sheremetyevo, eu me articulava com os canais diplomáticos para figurar ao lado do pelotão principal, com as graças do embaixador Sardenberg. Eu não tinha tratativas em curso na URSS. O momento, porém, pedia que eu refinasse a leitura sobre a Perestroika e a Glasnost, mantras do novo líder. Um dia conto mais.  


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O que quero relatar aqui se prende sobretudo ao longo voo de mais de 10 horas. Quando embarquei em Narita, tirei o casaco e entreguei-o à comissária. Na primeira classe, geralmente os sobretudos, capotes e até paletós eram pendurados num rack que ficava no meio da cabine afunilada, no nariz do avião. Mas na Aeroflot era diferente. A comissária de uniforme azul podia até ser uma linda mulher, mas era difícil imaginá-la trabalhando no ramo da hospitalidade de alta gama. Apontando o bagageiro acima do assento, ainda me advertiu, num tom que poderia ter assustado um incauto, que eu logo iria precisar dele. Ou, pelo menos, assim eu entendi. Decolamos em direção a Niigata e, depois da travessia do mar, entramos no espaço aéreo russo sobre Vladivostok. Era um voo diurno. Teríamos claridade praticamente até a chegada. Na altura de Khabarovsk, o almoço foi servido. Ganhei duas bandejas rigorosamente iguais. Cada uma consistia de um Lego de manteiga congelada; um tijolo pardo de pão preto; arenque defumado com raiz forte; um filé alto com duas vagens, paupérrimo de molho e sem sabor; e uma sobremesa que não me dei ao trabalho de ver o que era. "Por que duas?", perguntei. "First Class", ela respondeu. Antes, tinham servido "champanska" da Geórgia e, é claro, havia vodka. Sobre Irkutsk, no Baikal, me esforcei para distinguir alguma coisa, mas só havia o branco infinito da Sibéria em todas as direções, apesar de ainda estarmos no outono.    


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O sorriso que a aeromoça me negava, ela o dava com folga a um sujeito encorpado sentando à minha frente, na diagonal, que recebeu afagos até dos tripulantes. Envergando os quepes enormes, eles saíam para saudá-lo com deferência, descobrindo a cabeça. Ele praticamente não comeu. Só tomou chá, mordiscou uma pêra e leu o tempo todo. Quando todo mundo ensaiava dormir, ele permanecia ativo. Acabou um livro volumoso e, imediatamente, começou outro. Nas margens, fazia anotações. Eu não dormia nem que quisesse. Por um sortilégio da engenharia aeroespacial soviética, que um dia eu conheceria mais de perto, cada vez que alguém ia ao banheiro e batia a porta, minha mesinha desabava sobre os joelhos. Ademais, o frio reinante na cabine era inaudito. Não duvido que estivéssemos a 14° internamente. Seria efeito dos -80° lá de fora? Não há nexo nisso. O fato é que todo mundo estava hiper agasalhado e o que não faltava era cobertor. Não me atrevi a perguntar quem era o homem. Nem depois que, na chegada a Moscou, ele desceu direto para uma limusine ZIL que o aguardava na pista. O que me chamou a atenção ali foi que o sujeito tinha o dever de casa na ponta da língua. Fosse ele ligado ao Exército, à diplomacia ou à Nomenklatura do Partido, eu sentia, aos meus 30 anos, que ele sabia línguas, filologia, geopolítica, história, filosofia e que, eventualmente, era um apaixonado por literatura, balé e música. Na Rússia de então faltava muita coisa. Mas havia sede de conhecimento. Havia gente pensante.   


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O que quero dizer? Quem está à frente de um país não precisa ser um sábio nem um erudito. Aliás, raramente eles se dão bem num terreno em que a força é o vetor dominante - mais do que o jeito, o direito e o conhecimento. O que é a política? É entregar o bife sem matar o boi. Reagan foi um grande líder apesar do saber bisonho. Ele ouvia as cabeças ao lado. Quando vejo um sujeito tosco como Trump desencadear uma guerra contra o Irã, não estou preocupado com a popularidade deles nos EUA nem no mundo. O que preocupa é que ele não tem noção das coisas. A falta de livros, o vício acendrado na espetacularização midiática, a ignorância do Direito, a falta de cancha internacional e a necessidade narcísica de brincar de herói, o faz entrar numa barca furada que pode castigar o mundo. A impressão que dá é que, contrariamente ao russo do avião - que espelha a cabeça de quem domina as variáveis, e Putin é outro dessa estirpe -, as pessoas só dizem a Trump o que ele quer ouvir. Duvido que ele ache no mapa onde fica o estreito de Ormuz.    

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Putin está se beneficiando desses ventos. A Ucrânia sai perdendo, muito embora também tenha se tornado uma referência militar na guerra de drones e tenha abiscoitado um nicho de negócios. Ormuz é a jugular da economia. Índia e China, ou seja, 35% da população do mundo dependem do petróleo que transita por ali - embora não só. O arsenal bélico saudita é decorativo, apesar de impressionante. Se o Irã resolver destruir as usinas de dessalinização do Golfo, ele desestabiliza a região. Isso porque dá para viver sem dinheiro, sem petróleo, sem Bulgari, sem Rolls-Royce. Mas não dá para viver sem água. Trump embarca nessas aventuras baseado em premissas fracas, de sustentação precária. Petróleo a três dígitos, frota naval exaurida e tripulações à beira de um ataque de nervos são apenas alguns dos indícios de que começar a brincadeira sem saber como ela vai se desdobrar é temerário. Não há um país da região que tenha dormido tranquilo desde então. Washington solta bravatas. Pede o engajamento dos europeus e não consegue. No impasse de uma guerra de muito desgaste, é possível que Trump pense em tomar um Cuba Libre. Não digo que Putin calcule bem todos os seus passos. A Ucrânia é uma prova disso. Ela não é a Chechênia assim como o Irã não é a Venezuela. Ademais, a cadeia de comando é patética. Quem é o jovem Kushner? O genro de Trump. Quem é Witkoff? Um aliado nos negócios.  


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Os livros não salvam o mundo. Mas funcionam como anteparo ao patético e ao desastre.

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