Sobre a Venezuela, o resumo da ópera é o seguinte: num país democrático, o poder emana do povo. Entre nações a conversa é outra: o poder emana da força.
Sou Economista com dois mestrados, cursos de especialização e em Doutoramento. Meu objetivo é analisar a economia, no Brasil e no Mundo, tentar opinar sobre os principais debates da atualidade e manter sempre, na minha opinião essencial, a independência. Não pretendo me esconder em nenhum grupo teórico específico. Meu objetivo é discorrer sobre varios temas, buscando sempre ser realista.
domingo, 4 de janeiro de 2026
Amilton de Aquino
Pensatas sobre a Venezuela
O que vem a seguir na Venezuela?
Artur Wichmann, CIO da XP
A experiência histórica mostra que remover um ditador costuma ser muito mais fácil do que construir, posteriormente, um governo funcional e estável
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“May you live in interesting times” — suposta praga chinesa
Não era este o texto que gostaríamos de escrever como o primeiro do ano. No entanto, é essa a realidade que se impõe: iniciamos o ano com mais um evento de grande relevância geopolítica.
Escrevemos imediatamente após os acontecimentos e, por isso, o que pode ser afirmado de forma definitiva ainda é limitado. Ainda assim, alguns fatos parecem estar fora de dúvida. O governo norte-americano conduziu uma operação que resultou na captura do ditador venezuelano Nicolás Maduro e de sua esposa. Até o momento, as acusações divulgadas referem-se ao tráfico internacional de drogas.
Há precedentes para esse tipo de ação? Sim, embora nenhum com características exatamente idênticas. O caso mais próximo é a invasão do Panamá, em 1989, que removeu do poder o ditador Manuel Noriega, posteriormente levado aos Estados Unidos, julgado e condenado a 40 anos de prisão. Portanto, embora rara, a ação atual não é inédita.
A questão central, porém, diz menos respeito ao passado e muito mais ao futuro: o que vem a seguir? A partir daqui, entramos no terreno da especulação. Quem governa a Venezuela agora? O presidente norte-americano afirma que os Estados Unidos exercerão controle temporário até a realização de eleições para um novo governo. Em contrapartida, a vice-presidente venezuelana declara que o país resistirá a qualquer tentativa de controle externo.
Aqui surge o primeiro grande problema. Do ponto de vista americano, declarar que exercerá o controle é a parte simples. Para que esse controle se concretize, seria necessária alguma forma de ocupação militar — o que os próprios americanos chamam de boots on the ground. Já do lado venezuelano, resistir significaria enfrentar a força militar mais poderosa do planeta e, talvez mais relevante, fazê-lo sem apoio popular significativo.
No horizonte, devem surgir questionamentos institucionais relevantes, especialmente sobre a capacidade do presidente norte-americano de conduzir ações militares ofensivas sem aprovação do Congresso — algo que, segundo nosso entendimento, seria inconstitucional. Esse debate, no entanto, pertence ao futuro.
No momento, nosso objetivo não é emitir juízos morais sobre se os fins justificam os meios, mas sim analisar os possíveis impactos econômicos e de mercado.
Na verdade, o governo americano parece ter copiado as páginas da doutrina de “realpolitik” do saudoso Henry Kissinger.
As ações foram baseadas no:
Realismo;
Uma visão de interesse nacional acima de ideologia;
Legitimidade acima de justiça;
Pragmatismo e flexibilidade.
Em suma, pura realpolitik.
O que nos cabe é analisar os possíveis impactos econômicos e de mercado.
O canal mais direto é o preço do petróleo, embora o efeito esteja longe de ser claro. Segundo dados da Agência Internacional de Energia (IEA), a produção venezuelana gira em torno de 945 mil barris por dia. O mercado físico de petróleo encontra-se atualmente bem abastecido, e países da OPEP dispõem de capacidade ociosa mais do que suficiente para compensar essa eventual perda de oferta.
Paradoxalmente, no longo prazo, o efeito pode ser o oposto. A Venezuela possui as maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo, estimadas em mais de 300 bilhões de barris. Nos anos 1990, sua produção chegou a quase 3,5 milhões de barris por dia. O presidente norte-americano já declarou que um dos objetivos da operação é garantir o acesso de empresas americanas a essas reservas. Evidentemente, isso demandará tempo, dada a condição altamente depreciada da infraestrutura local.
Do ponto de vista de contágio regional e instabilidade geopolítica, os efeitos iniciais parecem limitados. A Venezuela já era um país isolado, com um governo amplamente considerado ilegítimo pela comunidade internacional após fraudes eleitorais. O risco de contágio poderia aumentar caso os Estados Unidos optem por estender esse tipo de ação à Colômbia — um ator ainda mais relevante no narcotráfico global e cujo presidente vem antagonizando o governo Trump há algum tempo.
De modo geral, portanto, os impactos imediatos sobre os mercados parecem restritos.
É importante deixar claro: isso não significa minimizar o risco de uma crise humanitária. Há, neste momento, um vácuo de poder que pode desencadear uma onda de violência. A economia local, já profundamente deprimida, pode praticamente paralisar, e a interrupção de serviços básicos e do abastecimento de alimentos é uma possibilidade concreta.
O desfecho dependerá, em grande medida, da existência — ou não — de um plano americano para o day after. A experiência histórica mostra que remover um ditador costuma ser muito mais fácil do que construir, posteriormente, um governo funcional e estável.
Doutoramento na China
Universidades chinesas como o Instituto de Tecnologia de Harbin começaram a mudar a lógica do doutoramento: em vez de exigir apenas uma tese clássica, alguns programas já aceitam tecnologias reais e operacionais como resultado final.
Não é sobre escrever mais.
É sobre construir.
Sistemas, protótipos, soluções aplicadas: coisas que funcionam fora do PDF.
Isto contrasta com o padrão dominante no Ocidente, onde o doutoramento ainda é medido sobretudo por papers, citações e prestígio académico.
Na China, o critério começa a deslocar-se: valor é aquilo que se traduz em capacidade prática.
E isto não acontece por acaso.
O país está a apostar em áreas tecnológicas críticas e precisa de investigadores capazes de transformar conhecimento em produção, inovação e autonomia.
Não basta compreender, é preciso executar.
Não basta argumentar, é preciso entregar.
Com isso, a universidade deixa de ser apenas um espaço de validação intelectual e passa a ser parte ativa da estratégia nacional de inovação.
O doutoramento, nesse modelo, deixa de ser o fim da teoria. Torna-se o começo de algo que vai para o mundo.
No fundo, a China parece estar a responder uma pergunta que muitos evitam: para que serve formar doutores hoje?
E talvez a mensagem seja dura, mas clara: numa corrida tecnológica, o conhecimento que não vira capacidade fica para trás.
Fabio Alves
*A ofensiva de Trump na Venezuela e o risco político subestimado pelos investidores para 2026*
Tensões entre as grandes potências devem se acirrar para níveis que colocam os mercados globais contra a parede neste ano
Fábio Alves
A ofensiva militar dos Estados Unidos na Venezuela, com a captura do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa, não foi uma surpresa completa para muitos investidores e analistas, diante da escalada recente das tensões entre os dois países.
Mas ainda assim, uma crise geopolítica global mais grave - na América Latina e em outras partes do planeta - segue sendo o risco mais subestimado nos cenários dos investidores para 2026.
Muita atenção tem sido dada pelo mercado aos riscos envolvendo a Inteligência Artificial, especialmente após as ações das gigantes do setor de tecnologia terem acumulado ganhos impressionantes. Também há a preocupação sobre como o Federal Reserve (Fed) irá conduzir sua política monetária em 2026, quando, em maio, assumirá seu comando um nome a ser indicado pelo presidente Donald Trump em substituição a Jerome Powell.
O que parece ainda não estar devidamente precificada é uma maior volatilidade geopolítica, com novos focos de tensão.
O mercado já tem no radar a complexa e arrastada negociação para a paz entre a Rússia e a Ucrânia.
Todavia, a postura agressiva de Trump na política externa, perdendo pouco tempo em sanções ao petróleo venezuelano e pressões com ataques pontuais a petroleiros, pode mudar o xadrez de outros embates e disputas geopolíticas mundo afora.
Basta ver a reação de duas grandes potências nucleares aos ataques ordenados por Donald Trump na Venezuela. A Rússia condenou o que chamou de “agressão armada”.
Em comunicado, o Ministério das Relações Exteriores da China declarou: “Tais atos hegemônicos dos EUA violam gravemente o direito internacional e a soberania da Venezuela, e ameaçam a paz e a segurança na América Latina e na região do Caribe. A China se opõe firmemente a isso”.
Não há dúvida que as tensões entre as grandes potências devem se acirrar para níveis que colocam os mercados globais contra a parede em 2026.
E, por tabela, o movimento de busca por proteção deve seguir dando suporte para ativos considerados refúgio para turbulências, como o ouro.
O estrategista global do banco francês Société Générale, Albert Edwards, projeta a cotação do ouro a US$ 5.000 a onça-troy no fim de 2026, citando, entre os principais motivos, riscos geopolíticos. Na sexta-feira passada, o metal fechou cotado a US$ 4.329,60 por onça-troy.
Em 2025, o preço do ouro disparou impressionantes 64%, maior ganho desde 1979. No dia 26 de dezembro, o ouro atingiu a cotação recorde histórica de US$ 4.549.
Se a volatilidade geopolítica for maior do que está precificado pelos investidores, gerando tensão e abalos nos mercados, as projeções de uma cotação do ouro a US$ 5 MILpoderão estar defasadas.
O fator que complica mais o cenário é que em novembro deste ano acontecerão as eleições de meio de mandato para renovar o Congresso americano. O partido republicano domina a Câmara e o Senado. Mas a taxa de aprovação de Trump vem caindo e gerando um alerta em relação ao desempenho dos republicanos na eleição de novembro. Perder o controle de uma das Casas no Congresso poderá ser um tiro fatal para o restante do mandato de Trump.
Assim, se essa perda de popularidade continuar, Trump poderá ficar acuado e tomar decisões intempestivas na política externa para desviar o foco de eleitores americanos insatisfeitos. E esse risco talvez não esteja adequadamente dimensionado no mercado, como o ataque militar a Venezuela mostrou.
https://www.estadao.com.br/economia/fabio-alves/trump-e-o-risco-politico-subestimado-nos-cenarios-dos-investidores-para-2026/?utm_source=estadao:app&utm_medium=noticia:compartilhamento
Dan Kawa
*Dan Kawasaki: "A Whole New World"*
By *Dan Kawa*
"A whole new world. A dazzling place I never knew" - Tim Rice
O principal destaque deste início de ano foi o ataque militar conduzido pelos EUA na Venezuela, acompanhado da prisão de Nicolás Maduro, ditador que dominava o país por décadas.
Trata-se de um evento de elevada relevância geopolítica, que deve ser interpretado como mais um passo no processo de reconfiguração da chamada “nova ordem mundial”.
Nesse contexto, observa-se uma ampliação da influência norte-americana no continente americano, associada ao avanço de agendas de viés liberal e de direita em diversos países da região. Sem entrar no mérito normativo ou avaliativo sobre a legitimidade dessa postura, a análise aqui se limita à leitura objetiva dos fatos e de suas implicações para o equilíbrio geopolítico regional e global.
Do ponto de vista econômico, o controle do setor de petróleo venezuelano pelos EUA tende a resultar em mais oferta estrutural ao mercado global, menor volatilidade e preços com viés mais baixo no médio prazo, ao mesmo tempo em que aumenta a previsibilidade e a segurança do fornecimento. Ao reduzir riscos políticos, sanções e interrupções recorrentes, parte do prêmio geopolítico embutido no preço do petróleo tende a ser comprimida, com efeito desinflacionário marginal e maior estabilidade para cadeias energéticas alinhadas à órbita americana.
O avanço da influência dos EUA sobre mais um país das Américas reforça a leitura de uma região cada vez mais alinhada a políticas econômicas liberais e a agendas de direita, ao menos no plano institucional e regulatório. Sem juízo de valor, o movimento aponta para maior abertura a capital privado, integração aos mercados internacionais e redução do espaço para modelos intervencionistas, consolidando um eixo regional mais próximo da órbita econômica americana.
sexta-feira, 2 de janeiro de 2026
Alexandre Manoel
Liquidez, produtividade e formalização caminham juntas
O Valor publicou hoje (2/1/2026) uma análise que escrevi sobre o saque-aniversário do FGTS. Ao restringir o acesso à liquidez do trabalhador formal, perde-se um instrumento que ajudava a reduzir informalidade, rotatividade e distorções no mercado de trabalho.
Vale a reflexão: políticas que retiram liberdade econômica tendem mesmo a proteger o trabalhador?
https://lnkd.in/dmF-jrFC
Guia para PHD
O doutorado nunca foi uma qualificação única e homogênea. Seu significado varia entre países, sistemas educacionais e instituições. Além disso, o seu conceito está em constante evolução à medida que práticas de pesquisa, financiamento e trajetórias profissionais se transformam.
Ailton Braga
Hoje, 02/02/2026, saiu no Blog do IBRE da FGV, artigo meu em que faço análise da interação entre política fiscal e política monetária, a p...
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https://www.facebook.com/share/p/1Am5q44Ya4/ "Pode parecer incrível, mas os bandidos não desistem, e como diria Pero Vaz de Caminha, n...
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🚨 RESUMO DA SEMANA VINLAND 🚨 VINLAND (24 a 28 de março de 2025) ________________________________________ *1. Governo busca “pouso suave” ...
Historicamente associado às carreiras acadêmicas, o doutorado hoje já não pode ser compreendido como um “passaporte” automático para a universidade. Cada vez mais, ele representa um período exigente de formação avançada, que combina pesquisa original com o desenvolvimento de competências transferíveis, tais como comunicação, ética, trabalho em equipe, gestão de projetos e pensamento crítico.
O desafio central, como aponta este editorial, é manter o equilíbrio, ou seja, ampliar a formação sem esvaziar o seu núcleo que é a construção da autonomia intelectual e da capacidade de produzir conhecimento novo.
Em um contexto de expansão do número de doutores e de restrição de empregos acadêmicos, talvez a pergunta mais honesta não seja apenas o que é um doutorado, mas para o que ele forma e como podemos ser mais transparentes sobre isso com quem escolhe esse caminho.