domingo, 4 de janeiro de 2026

Fabio Alves

 *A ofensiva de Trump na Venezuela e o risco político subestimado pelos investidores para 2026*


Tensões entre as grandes potências devem se acirrar para níveis que colocam os mercados globais contra a parede neste ano


Fábio Alves


A ofensiva militar dos Estados Unidos na Venezuela, com a captura do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa, não foi uma surpresa completa para muitos investidores e analistas, diante da escalada recente das tensões entre os dois países.


Mas ainda assim, uma crise geopolítica global mais grave - na América Latina e em outras partes do planeta - segue sendo o risco mais subestimado nos cenários dos investidores para 2026.


Muita atenção tem sido dada pelo mercado aos riscos envolvendo a Inteligência Artificial, especialmente após as ações das gigantes do setor de tecnologia terem acumulado ganhos impressionantes. Também há a preocupação sobre como o Federal Reserve (Fed) irá conduzir sua política monetária em 2026, quando, em maio, assumirá seu comando um nome a ser indicado pelo presidente Donald Trump em substituição a Jerome Powell.


O que parece ainda não estar devidamente precificada é uma maior volatilidade geopolítica, com novos focos de tensão.


O mercado já tem no radar a complexa e arrastada negociação para a paz entre a Rússia e a Ucrânia.


Todavia, a postura agressiva de Trump na política externa, perdendo pouco tempo em sanções ao petróleo venezuelano e pressões com ataques pontuais a petroleiros, pode mudar o xadrez de outros embates e disputas geopolíticas mundo afora.


Basta ver a reação de duas grandes potências nucleares aos ataques ordenados por Donald Trump na Venezuela. A Rússia condenou o que chamou de “agressão armada”.


Em comunicado, o Ministério das Relações Exteriores da China declarou: “Tais atos hegemônicos dos EUA violam gravemente o direito internacional e a soberania da Venezuela, e ameaçam a paz e a segurança na América Latina e na região do Caribe. A China se opõe firmemente a isso”.


Não há dúvida que as tensões entre as grandes potências devem se acirrar para níveis que colocam os mercados globais contra a parede em 2026.


E, por tabela, o movimento de busca por proteção deve seguir dando suporte para ativos considerados refúgio para turbulências, como o ouro.


O estrategista global do banco francês Société Générale, Albert Edwards, projeta a cotação do ouro a US$ 5.000 a onça-troy no fim de 2026, citando, entre os principais motivos, riscos geopolíticos. Na sexta-feira passada, o metal fechou cotado a US$ 4.329,60 por onça-troy.


Em 2025, o preço do ouro disparou impressionantes 64%, maior ganho desde 1979. No dia 26 de dezembro, o ouro atingiu a cotação recorde histórica de US$ 4.549.


Se a volatilidade geopolítica for maior do que está precificado pelos investidores, gerando tensão e abalos nos mercados, as projeções de uma cotação do ouro a US$ 5 MILpoderão estar defasadas.


O fator que complica mais o cenário é que em novembro deste ano acontecerão as eleições de meio de mandato para renovar o Congresso americano. O partido republicano domina a Câmara e o Senado. Mas a taxa de aprovação de Trump vem caindo e gerando um alerta em relação ao desempenho dos republicanos na eleição de novembro. Perder o controle de uma das Casas no Congresso poderá ser um tiro fatal para o restante do mandato de Trump.


Assim, se essa perda de popularidade continuar, Trump poderá ficar acuado e tomar decisões intempestivas na política externa para desviar o foco de eleitores americanos insatisfeitos. E esse risco talvez não esteja adequadamente dimensionado no mercado, como o ataque militar a Venezuela mostrou.



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