quinta-feira, 26 de março de 2026

Logica perversa da desonestidade

 A lógica perversa da desonestidade


Houve um tempo que acreditei que o melhor caminho para construir relações era o da confiança, o da cumplicidade e o da abertura. O raciocínio implícito é este: se és de confiança és respeitado e és uma pessoa com quem se pode contar nas adversidades. 


A lógica parece sólida. Mas já na adolescência comecei a ver que a lealdade não é muito tida em conta. Até é vista com desconfiança. Se és leal é porque tens algum problema ou és terrivelmente ingénuo. E não há nada mais perigoso do que a ingenuidade. 


Mais tarde constatei que o modelo padrão persistia. E acabei por perceber que a lógica das relações humanas é bem diferente do que romantizava na juventude. Hoje compreendo a lição e vou simplificar para esta crónica. 


O ponto essencial das relações humanas reside no risco implícito ou explícito de alguém te trair ou enganar. O ser humano reaje mais ao dano, à dor do que à amizade ou o valor que podes trazer à relação. E isto tanto é verdadeira nas amizades, como nas relações com as mulheres ou profissionais. O jogo que é feito é o seguinte: qual é o risco objectivo de te tramar? Este é sempre o cálculo fundamental que fazem contigo. E tu tens de deixar sempre bastante explícito que este risco é elevado. 


Ainda assim. A questão não é só o risco. Há um segundo ponto fundamental que é preciso esclarecer. A maioria das pessoas querem entender até que ponto tu podes ser cúmplice das suas vidas. Até que ponto estás disposto a sacrificar a honestidade intelectual ou pessoal para te tornares cúmplice dos seus esquemas, vida pessoal, ambições ou interesses. E isto sempre no pressuposto que há um nós e eles. E estamos sempre em combate contra eles. 


Muitas amizades são puramente tribais. Como se houvesse uma tribo baseada numa aliança e cumplicidade contra outras tribos e alianças. E até nas pequenas cidades existem tribos ou facções. As empresas ou os partidos são uma manta de retalhos de facções, alianças e interesses. Um ponto importante nesta questão é perceber uma coisa muito simples: seja qual for a organização que faças parte, nunca estás ao serviço dessa organização. Estás sempre, mas sempre ao serviço de alguém dessa organização. 


Portanto, até agora três pontos: risco, cumplicidade e interesses. Até no trabalho intelectual a lógica se mantém. Qual é o risco de te atacar? Quem são os teus cúmplices? E quais são os teus interesses? Nada é desinteressado ou imaculado.  


Este é o eixo da desonestidade intelectual. É um jogo. E se há coisa que percebi com a minha experiência é que é fundamental perceber o jogo. 


O ponto final é compreender o tabuleiro do jogo. É que mapa não é território. E nem sempre é fácil entender qual é o jogo. É que existem mil distracções que te fazem pensar que o jogo é um quando é outro. Tens sempre de perceber qual é o jogo que importa nas organizações que fazes parte, mesmo que sejam organizações informais. 


Esta é a lógica perversa da desonestidade. E há desonestidade muitas vezes em todos estes pontos. Há desonestidade nas alianças, no risco, no tabuleiro ou na cumplicidade. O jogo pode estar viciado em todas as partes. 


E vejam que conheço pessoas até bastante inteligentes que não sabem o que fazer nestes jogos. Há gente que tem medo da própria sombra. Meteram-se em jogos que não conheciam as peças nem o tabuleiro. Daí a expressão: Fia-te na virgem e não corras. 


É que eu conheço casos em que já não dá para fugir. Há gente que é escrava até os cabelos. Têm medo de se olhar ao espelho e ver o reflexo da sua decadência.

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