quinta-feira, 26 de março de 2026

Nelson Rodrigues

 Nelso Rodrigues é implacável


Somos uma democracia? Faço a questão não só para os leitores portugueses, como para os brasileiros. A questão é ela própria uma provocação. Questionar sobre a democracia é admitir que esta não é perfeita. Não é intocável. Não foi Churchill que disse que as democracias são o modelo de governação menos imperfeito? Francis Fukyama ficou famoso por defender o fim da história. A humanidade encontrou finalmemte o modo redentor de se governar: as democracias liberais. 


Mas Nelson Rodrigues e autores como Gasset eram pessimistas. Aliás, o pessimismo sobre as democracias é bem antigo. Já Platão ou Aristóteles tinham críticas muito duras às democracias. Estas facilmente podem se entregar a tiranias. Nem que seja a tirania da maioria. Ou a tirania da estupidez organizada. Lembram-se de Kafka sobre os partidos políticos? Um idiota é um idiota. Mil idiotas é um partido político. 


Temos exemplos da história também. A República de Weimer também era uma democracia. A primeira República portuguesa também era mais ou menos uma democracia. Por esta ordem de ideias, a Coreia do Norte também é uma democracia. Os órgãos políticos são eleitos (com 99,9% dos votos) e a democracia está inscrita na Constituição do país. 


Pode-se fazer várias críticas às democracias de Portugal ou do Brasil. Primeiro, são democracias formais, inscritas na lei. Só que é impossível haver uma democracia e não haver democratas. As democracias precisam do espírito democrata. Como o respeito pelas diferenças ideológicas. Ou a tolerância pela dissenção face às maiorias de opinião. Porque democracia implica o primado da lei que protege as minorias das tiranias da maioria. 


Mas voltando a Nelson Rodrigues, podemos rapidamente perceber outros problemas das democracias. Ser democrata é tomar decisões. Decisões com impacto colectivo. Milhares de decisões que precisam de ser fundamentadas e racionais. Ora, a modernidade torna difícil estas decisões. É preciso ter espírito crítico. É preciso estudar os assuntos. É preciso paciência, cuidado e esforço. E muitos poucos estão para isso. Até é mais fácil usar a classe política como bode expiatório para nos livrar da responsabilidade destas decisões. 


Outro problema é que muitos interesses particulares entram em rota de colisão com a racionalidade de gerir o bem comum. É que ninguém faz lobby pelo bem comum. E os interesses particulares sabem defender-se e sabem lutar pelos seus interesses. 


E no meio do ruído até tornar-se difícil perceber o que são interesses particulares e o que é bem comum. Ate porque há interesses particulares que usam como escudo o bem comum. 


Obviamente, que o tom desta crónica é pessimista. Mas convém terminar com uma nota de esperança. A democracia será sempre uma jornada inacabada, um processo que nunca tem fim. Existe democracia? Claro que sim. Mas há que reconhecer as suas imperfeições. Imperfeições permanentes. Ainda assim é preciso gostar da democracia. Mesmo que esta nos enlouqueça. É que a alternativa pode ser bem pior.

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