Os pontos de preocupação do PIB do quarto trimestre
Queda forte dos investimentos no último período fechou um ano de mal desempenho de um indicador importante para a capacidade futura de crescimento do país
Por Fabio Graner — Brasília
03/03/2026 10h36 Atualizado agora
Apesar da alta de 2,3% no ano, a fotografia do PIB no último trimestre do ano passado tem alguns pontos de preocupação que não podem ser desprezados. A queda do investimento, tecnicamente chamada de Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF), é um dos pontos principais de atenção. O indicador caiu 3,5% na comparação com o terceiro trimestre, no qual já tinha tido uma virtual estagnação, e recuou 3,1% quando olhado em relação ao mesmo período do ano anterior, o que reforça o sinal negativo.
Ao longo de 2025, os investimentos mostraram muita volatilidade, mas uma tendência de deterioração. Depois de começarem o ano acelerado, desde o segundo trimestre os números foram muito ruins. Como o resultado, em relação ao tamanho da economia, a FBCF caiu para 16% do PIB no quarto trimestre de 2025 e na média do ano ficou em 16,8%, ligeiramente abaixo dos 16,9% de 2024.
Fundamental para elevar a capacidade de crescimento do país a longo prazo, esse indicador é um dos que mais rapidamente responde à alta da taxa de juros. Não só a taxa de curto prazo definida pelo BC se manteve em 15%, mas também a chamada “parte longa da curva de juros”, que nada mais é do que as taxas dos títulos públicos com prazo que variam de 5 a 40 anos, tem se mantido muito elevada.
Uma amostra disso é que a parte fixa da TLP, a taxa de referência do BNDES que considera os títulos atrelados à inflação de 5 anos, se mantém acima de 7% real há mais de um ano (encostando em 8% em parte do período), um nível proibitivo para um grande número de empresas, especialmente do setor industrial.
Não à toa, a indústria teve um ano sofrível, com queda de 0,2%, e um último trimestre ainda pior, recuando 0,6% em comparação com o já estagnado terceiro trimestre.
O efeito da política monetária restritiva também fica mais destacado no desempenho do consumo das famílias, que ficou parado no quarto trimestre, depois de ter tido discreta queda no anterior. Isso pode ajudar a entender o desempenho fraco da popularidade do governo Lula nos últimos meses.
É preciso ficar claro que era esse o objetivo mesmo da alta dos juros, colocar um freio na animação dos agentes econômicos, tanto empresários como consumidores.
O que os números divulgados nessa manhã pelo IBGE revelam também é que o resultado só não foi pior porque o consumo do governo acelerou no segundo semestre, com altas superiores a 1%, após um controle maior na primeira metade do ano.
Se está claro que a política de contenção do BC para derrubar a inflação deu certo, um problema para a atuação da autoridade monetária persiste: a dinâmica do setor de serviços. Fonte de maior preocupação para o esforço de levar o IPCA à meta, o segmento não só seguiu crescendo ao longo de todo ano como acelerou nos últimos três meses de 2025, com elevação de 0,8% sobre o trimestre imediatamente anterior.
Se no agregado os dados do PIB corroboram a necessidade e até urgência de se iniciar o ciclo de corte dos juros, a combinação de consumo do governo e PIB de serviços em alta, ainda mais em um contexto de crescente incerteza internacional por conta do conflito no Oriente Médio, vai exigir muita sabedoria de Gabriel Galípolo e companhia.
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