quarta-feira, 25 de março de 2026

Roberto Menescal

 O guardião da bossa nova


Lembranças de Roberto Menescal, o remanescente da turma que criou o gênero.

Por Norma Couri, para o Valor, de São Paulo


Sexta-feira,20demarçode2026 | Valor


                 A bossa nova tem um guardião. Roberto Menescal viveu 70 de seus 88 anos no ritmo que nasceu misturando linguagens de samba tocado como swing, jazz, soul, bebop e séculos de batuque africano. Único sobrevivente da turma que criou o gênero, o instru- mentista, compositor, cantor e produtor, que no fim do ano passado lançou o álbum “O Lado B da Bossa”, é peça-chave para todos os movimentos bossanovistas, os que vão acontecer neste ano e nos próximos.

Para quem acredita que a bossa nova surgiu quando rapazes da zona sul do Rio de Janeiro ouviram Chet Baker cantando baixinho, Menescal contes- ta: “O vizinho do apartamento do Ronaldo Bôscoli batia com a vassoura sempre que a empolgação do ensaio aumentava”.

Menescal gravou “O Lado B da Bossa” com Cris Delanno, parceira de quase quatro décadas. Ele diz se en- cantar com a nova geração: Theo Bial, 28 anos, que o acompanhou numa turnê; Luísa Sonza, 27 anos, dona do Golden Jobim e do gato Menesca, com quem lançou um álbum; além da britânica Olivia Dean, 26 anos, e da americana Billie Eilish, 24 anos, que incorporaram a bossa nova e ganharam o Grammy 2026.


Valor: Carlos Lyra dizia que a bossa nova é música para quem tem conhecimento cultural, feita para a classe média, que encolheu aqui, daí o sucesso lá fora.

Roberto Menescal: O Brasil hoje é metade sertanejo. Mas metade das 500 mú- sicas lançadas por dia na internet são da IA. Uma revolução.


Valor: Bossa nova foi uma revolução. A “onda” começou com o som de 1 minuto e 59 segundos do violão de João Gilberto?

Menescal: “Chega de Saudade” foi um marco. Foi composta para Elizeth Cardo- so por Tom e Vinicius de Morais para o LP “Canção do Amor Demais”. Mas no dia da gravação Tom levou um sujeito que toca- va um violão “diferente”. Era João. Mal Elizete começou a cantar ele cortou, “não é assim que se canta, não”. Deu faísca no estúdio, mas o produtor Aloysio de Oliveira e Tom apoiaram, a música foi para o João antes do LP da Elizete sair.


Valor: João Gilberto tinha fama de ser difícil.

Menescal: Insuportável. Se pediam para ele cantar mais alto, indicava o bo- tão de volume, “aumenta você o som”. Quando a bossa nova se consagrou nos palcos do Carnegie Hall, em Nova York, em 1962, um repórter da revista Time queria dar capa com o João. E o João: “Não vou abrir, vi que eles põem batom no sujeito da capa”. No mesmo dia se re- cusou a cantar “Garota de Ipanema” para o saxofonista Stan Getz, que estava es- tourando lá. “O som dele parece o de uma galinha tocando.” O vexame foi tanto que a mulher dele, Astrud, tentou minimizar cantarolando a letra para o Getz. Virou cantora ali.


Valor: Dizem que Gato, o siamês do João, se suicidou depois de ouvir o mesmo acorde 12 horas seguidas.

Menescal: Por isso o João não apareceu no show onde Tom e eu o aguardávamos. Fui à casa dele e o encontrei deprimido. “Estava ensaiando, fui falar com Gato, ele pulou da janela.” Nem o gato aguentava mais o João. Mas era um gênio.


Valor: Roberto Carlos rivalizava com a bossa nova?

Menescal: Ele começou conosco, não deu certo, a voz meio fanhosa, se con- fundia com a do João. Dei um tempo nele, Roberto reagiu, “bicho, é minha voz”. Não demorou muito, estourou com a Jovem Guarda.


Valor: Como Nara Leão entrou nesse grupo?

Menescal: Foi na minha festa de 15 anos, convidei sem saber que ela tinha 11 anos. Nossa turma era mais velha, fi- camos amigos, namorados, mas o pai dela não queria que a Nara, já com 16 anos, voltasse tarde para casa. Ofereceu o apartamento na avenida Atlântica com 15 metros para o mar de Copacaba- na. Era um entra e sai de ensaios, segun- do Ronaldo Bôscoli tínhamos de tirar a gravata das músicas. Não ficava bem um garoto de 18 anos da zona sul do Rio me- lancólico, cantando “Ninguém Me Ama, Ninguém Me Quer”.


Valor: Mas ela rompeu com o grupo da bossa nova.

Menescal: Foi por causa do Bôscoli, que ela namorava. Eu o levei a Buenos

Aires para gravar o LP “O Barquinho” com a Maysa, e ele engatou um namoro com ela “só durante a temporada ar- gentina”. Ele não contava com a im- prensa convocada para o aeroporto da volta onde ela apresentou Bôscoli como “meu noivo”. Nara soube pelos jornais. Bôscoli tentou consertar, me pediu para entregar duas alianças, que a Nara jo- gou no meio da rua. “Vou sair, procurar outros amigos.” Encontrou sambistas, cantou “Se alguém perguntar por mim, diz que fui por aí, levando um violão, debaixo do braço...”, se enturmou com o pessoal do Cinema Novo e se casou com o Cacá Diegues.


Valor: O Bôscoli também se casou com a Elis e aprontou.

Menescal: Meu parceiro era barra-pe- sada com mulheres. Eu fazia as músicas, ele ia além de só fazer as letras para as cantoras da noite, e a Elis, que não era fácil, descobriu tudo.


Valor: Elis era muito difícil?

Menescal: Só peguei pessoas difíceis. Ela insistia em só gravar inéditas, e queria o Chico Buarque. O Francis Hime, parceiro dele, dizia que não tinha “nenhuma Brastemp”, mas fui lá ouvir umas fitas e de repente ouvi “Quando olhaste bem, nos olhos meus...”. Eletrizei, e o Francis mandou esquecer, “o Chico há três anos não consegue terminar a letra”. Fiz uns arranjos na música pronta, botei Elis para gravar a letra pelo meio fazen- do la-ra-li la-ra-la no final, e levei para o Chico. Ele ouviu e disse “que coisa boni- ta, o que é?”. De repente deu um clique, “mas essa aí eu não terminei”. Não de- morou, pegou um papel de embrulho em cima da mesa, começou a rabiscar e em cinco minutos terminou “Atrás da Porta”. Com o LP, Elis passou dos 15 mil para 180 mil discos vendidos.


Valor: É verdade que “Águas de Março” foi roubada do Tom?

Menescal: Fui eu que roubei para a Elis. Fui vasculhar a casa do Tom para achar outra inédita, justo no dia em que ele ensaiava com a cantora Rosana Sa- bença. Quando ouvi os primeiros acor- des, liguei o gravador escondido e, mal a moça saiu, avisei ao Tom: “Gravei, roubei, vai para a Elis”. Ele ficou aflito, nem discuti. “Diz para a moça que eu roubei.”


Valor: Mas Elis e Tom se estranhavam, como aparece no documentário “Elis e Tom” filmado pelo Jom Tob Azulay.

Menescal: Convenci os dois a se en- frentarem na gravação dos Estados Uni- dos, Elis achando que Tom não ia querer e Tom atravessado, “com aquela gauchi- nha?”. Tom reclamou dos arranjos do César Camargo Mariano, do piano que era de “pau”, em vez de elétrico, mas Elis meteu bronca. Ainda bem que eu tinha convidado o Azulay, meu colega de mer- gulho no Arpoador, que filmou tudo.


Valor: Tom não se chateou?

Menescal: Teve coisa pior. O Tom me chamou para ouvir a gravação de “Castelos de Amor” que ele e Vinicius tinham feito para Dolores Duran. Dolores foi lo- go dizendo: “A música é ótima, só vou fa- zer outra letra”. Tom ficou numa saia justa: “Mas é do poetinha...”. Dolores virou as costas e só voltou com a letra pronta, eu de testemunha. Convidou Vinicius, que fez cara de espanto quando escutou. “Ah, você está vendo só, do jeito que eu fiquei e que tudo ficou...”, mas com a grandeza que tinha, foi ouvindo “Por Causa de Você” atento, e no final admitiu, “Neguinha, a letra é tua”.z


Valor: Você também produziu Gal e Caextano no primeiro LP.

Menescal: Foi “Domingo”, de 1967, a Gal trouxe o Caetano da Bahia para gravar com ela, ali, estava começando. De- pois já vinha com o disco pronto, só sugeri uma vez “Dans mon Île”, de Henri Salvador, que eu e Nara ouvimos dezenas de vezes num filme da Metro antes da bossa nova nascer. Mas a Gal eu produzi, tirei aqueles paninhos baianos, o pé descalço sujo no palco, tentei convencer a não usar um músico só porque era baiano. Levei um sapato na cara. Só vol- tamos a nos entender quando ela acei- tou fazer Socila para aprender a usar sal- to alto. Deu “Gal Tropical”, 1, 2 milhão de discos vendidos.


Valor: Muitas emoções vividas, não?

Menescal: Nada como o ácido que os Novos Baianos colocaram no meu café, e voltei dirigindo por cima dos cantei- ros sem entender por que os carros vi- nham todos na minha direção. Mas sem nostalgia, só tenho saudade do futuro.

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