domingo, 31 de maio de 2026

Leitura de domingo 2

 *Leitura de Domingo: Economia experimenta espiral negativa forte, diz Ricardo Lacerda/BR Partners*


Por Cynthia Decloedt


São Paulo, 28/05/2026 - Há um risco altíssimo para a sobrevivência de várias empresas no Brasil e de uma crise mais ampla no crédito, no cenário precificado pelo mercado de juro elevado por período indefinido de tempo. "Isso está matando as empresas agora, tirando margem de manobra nas negociações de seus passivos, a capacidade de alavancagem e de investimento. Há uma espiral negativa na economia muito forte", diz o empresário e sócio fundador do banco de investimento BR Partners, Ricardo Lacerda.


Ele destaca que essa é uma nuance da atual crise que vem passando despercebida, mas que tem obrigado companhias a refazer contas, reprecificar seus ativos e renegociar dívidas com uma visão de que o ciclo de corte de juro será curto e manterá o custo do dinheiro alto. Segundo o Lacerda, empresas com endividamento por volta de duas vezes seu fluxo de caixa, que eram consideradas saudáveis, têm dificuldade de honrar seus compromissos atualmente dado o patamar da Selic.


Para o banqueiro, não há outra saída que não seja o ajuste fiscal, para que a economia fique menos dependente da política monetária em momentos como o atual, em que o cenário externo tem limitado a capacidade de ação do Banco Central. Lacerda acredita que seja qual for o próximo governo, a questão do ajuste fiscal terá que ser enfrentada. "Precisamos de um plano de política fiscal que permita ao Brasil ter um juro nominal e um juro real de um dígito. Ninguém tem bola de cristal para saber o que seria o gatilho de uma crise de crédito mais severa. Mas eu acho que talvez a gente não esteja longe dela, e caminhando para um cenário mais crítico", afirma.


De toda a forma, mesmo com a sinalização de ajuste, o banqueiro estima que seu reflexo não será imediato e o mercado poderá presenciar números recorde de reestruturações por mais 24 meses.


*Leia a seguir os principais trechos da entrevista:*



*Broadcast: Por que vivemos tantas reestruturações de empresas nesse momento?*


Ricardo Lacerda: Estamos saindo de um ambiente de juros muito baixos na pandemia, quando muitas empresas fizeram aquisições, muitas vezes por valores altos, financiadas com uma lógica de custo de capital que mudou radicalmente. O juro saiu daqueles 2% para perto de 15%, onerando demais. Havia expectativa de redução, mas por questões fiscais do Brasil e pelo cenário internacional, com guerra no Oriente Médio, petróleo e inflação, o mercado passou a entender que vamos conviver com juros altos por um período prolongado. Quando você olha a curva futura, até vencimentos longos, o juro nominal e o real estão muito altos, e isso dificulta planejamento. Some a isso mudanças estruturais pós-pandemia - varejo, cadeia produtiva, custo de mão de obra - e você tem um volume recorde de reestruturações.


*Broadcast: O senhor acredita que, não fosse a guerra pressionando o petróleo e limitando o corte de juros, o número de reestruturações seria menor?*


Lacerda: O mercado antecipa tudo. No fim do terceiro trimestre e início do quarto trimestre do ano passado, houve algum alento: entrou mais recurso no Brasil e havia perspectiva de queda mais significativa, talvez para 12%, 11% ou "dez e poucos". Com a guerra, isso foi reprecificado. A perspectiva virou algo como cair de 15% para 13%, na melhor das hipóteses - talvez nem isso. O que está se materializando é um ciclo de corte muito mais raso e curto. Todo mundo está tendo que se posicionar e reprecificar seus ativos para um ambiente de juros altos por um período muito prolongado.


*Broadcast: Quão prolongado será esse período?*


Lacerda: Temos hoje um cenário em que há o impacto na curva de juro, de curtíssimo prazo, da guerra e do preço de petróleo, mas muito pior do que isso, há um impacto de longo prazo. As empresas estão refazendo as contas. Aquelas empresas que historicamente tinham um nível de alavancagem de três, quatro vezes, digamos considerados normais e que poderiam se endividar, ainda que temporariamente, ficaram inviáveis. Hoje vemos boas empresas, com alavancagem relativamente baixa, com o endividamento por volta de duas vezes seu fluxo de caixa, com dificuldade de honrar seus compromissos. Isso tirou a capacidade de investimento do sistema e a capacidade de alavancagem, e o custo vai ser muito alto para as empresas e também para o País. Se não houver mudança na política fiscal, se não houver perspectiva de redução de juros para um patamar de um dígito, vamos ter de conviver com uma situação muito mais negativa.


*Broadcast: E com quais consequências?*


Lacerda: A consequência é continuar a quebradeira que estamos vendo e uma redução significativa do poder de investimento das companhias. Empresas acima de duas, duas vezes e meia de alavancagem, já não conseguem reduzir endividamento com geração de caixa; trabalham para servir a dívida. Isso é insustentável e reduz completamente a capacidade de alavancagem do sistema como um todo. A gente precisa de um plano de política fiscal que permita juro nominal e juro real de um dígito. Ninguém tem bola de cristal para dizer qual seria o gatilho de uma crise de crédito mais severa, mas talvez não estejamos longe de um cenário mais crítico.


*Broadcast: De uma crise de crédito mais ampla, que atinja o sistema como um todo?*


Lacerda: Exatamente. Uma retração do crédito mais ampla em função dos problemas, de aumento de inadimplência, de tal maneira que tudo fique paralisado. Existe um risco de isso acontecer, já que há aumento de inadimplência tanto na pessoa física, quanto no setor corporativo. Mas acho que o impacto mais nefasto é a limitação da capacidade de investimento. Então aquele nível de juros excessivos, tanto nominal quanto real, que parecia transitório, pode tomar um caráter permanente. E aí é preciso reprecificar toda a capacidade de investimento e de alavancagem do sistema.


*Broadcast: Ou seja, há necessidade de um ajuste fiscal para que o juro recue, já que as empresas e o País não aguentam ficar dependentes dos bons ventos externos?*


Lacerda: Exato. Temos de analisar a situação com frieza. Acho que, certo ou errado, esse governo conseguiu manter um crescimento positivo ao longo dos quatro anos, manter a inflação sob controle e a taxa de desemprego em um nível muito baixo. Há indicadores econômicos positivos, quando se olha o quadro geral. Mas parte disso foi conquistado com um estímulo fiscal muito forte e que está claro que o País não tem condições de manter. É preciso, independente do resultado da eleição (presidencial de outubro), que se tenha uma política fiscal que permita um patamar de juro nominal e de juros reais no Brasil na casa de um dígito. Porque isso é o que vai trazer a capacidade de investimento das empresas, que vai poder gerar mais crescimento. Não dá mais para tapar o sol com a peneira, achando que a gente vai conseguir indefinidamente manter esses indicadores econômicos positivos à custa desse estímulo fiscal. Esse é o grande nó da economia brasileira hoje.


*Broadcast: O senhor acha que o ajuste será endereçado pelo próximo governo, independente de legenda partidária?*


Lacerda: Necessariamente terá de ser endereçado, caso contrário poderá haver uma situação de hiperinflação ou de calote na dívida, que são coisas que a gente já viveu no passado e que, obviamente, estamos muito distantes. Acho importante que essa solução venha proativamente e não reativamente, porque reativamente será preciso corrigir uma série de coisas, uma recessão, uma hiperinflação, problema de insolvência ou pode ter uma combinação de todas essas coisas.


*Broadcast: O que o senhor acha que vai acontecer este ano, especificamente, em relação a essa onda de reestruturações, continua aumentando?*


Lacerda: Eu acho que no curto prazo, sem dúvida alguma, e para além das grandes que estamos presenciando neste momento. Há uma série de empresas menores, que estão fora do radar dos grandes investidores, que estão com muita dificuldade. Vivemos um recorde nos pedidos de recuperação judicial e nos pedidos de recuperação extrajudicial. Temos visto inclusive negociações amigáveis também batendo recordes. No horizonte nos próximos 18 a 24 meses, acredito que o patamar de reestruturações de dívida vai aumentar muito.


*Broadcast: Qual deve ser o impacto, portanto, para as empresas, o País e para o sistema financeiro?*


Lacerda: O sistema financeiro, obviamente, sofre um pouco com isso, mas ainda tem um nível de rentabilidade muito forte e uma solidez muito grande, consegue absorver. O mercado de capitais para crédito privado, que cresceu muito a partir de 2017 e 2018, está machucado. Muitas pessoas físicas que compraram créditos privado estão perdendo dinheiro e vão pensar duas vezes para investir novamente. Isso é ruim e está dado. Mas o principal impacto é a diminuição da capacidade de alavancagem do sistema. Reduz a capacidade de investimento da economia como um todo.


*Broadcast: Há alguma particularidade nesse ciclo de reestruturações e crise entre as empresas que a difere das anteriores, como Lava Jato ou Covid?*


Lacerda: Estamos vendo uma onda mais generalizada porque não há perspectiva de redução de juros no curto prazo. Com endividamento excessivo, as companhias perderam margem de manobra: não conseguem refinanciar a custos menores para reorganizar passivos e ganhar eficiência. Por isso tende a se ampliar. Quem não conseguiu se desalavancar até agora dificilmente vai conseguir daqui para frente, dado o patamar de juros. E acho que o Banco Central talvez tenha esperado demais para iniciar o ciclo de corte e acabou sendo pego pela guerra, um evento exógeno que impede uma redução mais longa e profunda. Vamos conviver com juros altos por um período prolongado; é preciso mudar essa equação para as empresas se replanejarem.


*Broadcast: Por que os grandes conglomerados estão em crise?*


Lacerda: Não são só as gigantes que estão em crise. Mas muitas empresas gigantes tiveram mais condições de se alavancar em um determinado momento da economia e buscar grandes projetos. Era um cenário de juro muito baixo e de potencial de crescimento econômico. Foi uma mudança para pior nessa equação muito grande.


*Broadcast: Mas as grandes empresas não conseguiram ver essa mudança antecipadamente, não aproveitaram bem as oportunidades?*


Lacerda: É caso a caso. Muitas vezes dava para ter planejado melhor e há erros de gestão. Mas ninguém esperava uma mudança tão drástica para um cenário pior. A subida de 2% para 15% foi relevante, mas o principal é que a perspectiva de cair de forma consistente ficou muito baixa. Podemos estar fadados a ficar nesse patamar altíssimo por um período indefinido. Nenhuma política monetária eficiente deveria manter juros reais nesses níveis por tanto tempo, mas a dinâmica fiscal aponta para juros permanentemente altos. É isso que está matando agora: o mercado e a curva de juros estão precificando um período indefinido de juros muito altos, colocando muitas empresas em altíssimo risco de sobrevivência.


Contato: cynthia.decloedt@estadao.com


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UBS e o risco fiscal

 https://valor.globo.com/financas/intraday/post/2026/05/ubs-wealth-ve-duvidas-fiscais-por-tras-do-nivel-de-estresse-do-juro-longo-no-brasil.ghtml


🔹 *UBS VÊ RISCO FISCAL COMO PRINCIPAL FATOR POR TRÁS DOS JUROS LONGOS ELEVADOS NO BRASIL*


A *UBS Global Wealth Management* avalia que a manutenção dos juros de longo prazo em níveis próximos de *14%* no Brasil não pode ser explicada apenas pelo movimento dos juros americanos. Segundo a instituição, a principal razão para o estresse da curva doméstica é o aumento do *prêmio de risco fiscal* exigido pelos investidores.


De acordo com o estudo, as dúvidas sobre a *trajetória da dívida pública*, a expansão dos gastos do governo e a dificuldade de implementação de ajustes fiscais mais robustos continuam pressionando os custos de financiamento do país.


A UBS destaca que os juros longos brasileiros permanecem elevados desde o final de *2024*, quando o anúncio da ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda veio acompanhado de medidas de contenção de gastos consideradas insuficientes pelo mercado.


Segundo a análise, o diferencial entre o prêmio de risco dos títulos brasileiros e dos títulos americanos voltou a subir significativamente. Esse spread, que havia recuado para cerca de *150 pontos-base* ao longo de 2024, atualmente gira em torno de *300 pontos-base*.


Para a equipe liderada por *Solange Srour*, esse comportamento indica uma deterioração predominantemente doméstica da percepção de risco, mais relacionada à política fiscal brasileira do que ao ambiente global de juros elevados.


A UBS também observa que, embora os *Treasuries* tenham sofrido pressão recente, o aumento dos rendimentos nos Estados Unidos está ligado principalmente à resiliência da economia americana e não a preocupações relevantes com a situação fiscal do país.


📌 Na visão da UBS, uma melhora consistente dos juros de longo prazo no Brasil dependerá menos de ajustes fiscais pontuais e mais de mudanças estruturais que convençam os investidores sobre a sustentabilidade da dívida pública e a credibilidade do regime fiscal no longo prazo.

Leitura de domingo 1

 *Leitura de Domingo: PEC da 6x1 afasta-se de padrão internacional por rigidez e transição curta*


Por Mateus Maia


Brasília, 27/05/2026 - O relatório da Proposta de Emenda à Constituição que prevê o fim da escala de trabalho 6x1 se distancia do padrão internacional de regulação da jornada de trabalho, segundo estudo do Centro de Liderança Pública (CLP). De acordo com a análise, a proposta levaria o Brasil a adotar uma regra mais rígida - com dois dias obrigatórios de folga por semana - e um prazo de transição considerado curto para adaptação. A PEC deve ir à votação nesta semana na Câmara dos Deputados.


Na avaliação do CLP, o texto tem dois efeitos centrais: reduz a jornada e, ao mesmo tempo, endurece a forma de distribuir as horas trabalhadas ao exigir duas folgas semanais. Segundo a entidade, o impacto ainda não foi plenamente mensurado, principalmente em setores que exigem operação contínua ou ampla cobertura de turnos, como comércio, alimentação, hotelaria, saúde, segurança, transporte e serviços pessoais. Nesses segmentos, o desafio não seria apenas o aumento do custo da hora trabalhada, mas também a reorganização de escalas, a negociação de turnos e a cobertura de horários de pico com menor flexibilidade.


A nota técnica do CLP comparou o texto com a experiência de 22 países e concluiu que o modelo mais comum no exterior combina limites diário e semanal de horas com a exigência de descanso mínimo semanal - geralmente ao menos um dia -, sem impor dois dias fixos de folga para todos. A Organização Internacional do Trabalho (OIT) e a União Europeia adotam parâmetros de descanso mínimo, mas não determinam dois dias obrigatórios por semana.


Mesmo em países com jornadas menores, a distribuição dos dias de trabalho tende a preservar flexibilidade. A França, por exemplo, tem jornada legal de 35 horas, mas permite até seis dias de trabalho por semana, desde que respeitados limites diários e semanais e o descanso mínimo. Japão, China e México seguem lógicas semelhantes.


O estudo também aponta que a rigidez pode afetar parte dos trabalhadores que a medida busca beneficiar. Para muitas pessoas - especialmente mulheres - a questão não é apenas o total de horas, mas a forma como elas se organizam ao longo da semana. Em alguns casos, cinco dias com oito horas integrais pode ser menos conveniente do que seis dias com turnos mais curtos. Quem precisa buscar filhos na escola, cuidar de familiares ou conciliar dois empregos pode preferir jornadas menores em mais dias. A obrigatoriedade de duas folgas semanais reduziria a margem para esses arranjos.


Do lado das empresas, o CLP avalia que a proposta combina maior custo e menor flexibilidade. Companhias maiores tenderiam a absorver parte do impacto com tecnologia e reorganização, enquanto pequenos negócios - como restaurantes e comércios de bairro, frequentemente com margens mais baixas - podem enfrentar mais dificuldade. O estudo menciona riscos como informalização, pejotização, redução de contratações e aumento de rotatividade. Levantamento do CLP indica ainda que comércio, construção, agropecuária e parte dos serviços estariam entre os mais expostos.


O prazo de transição, de 14 meses, é considerado insuficiente para uma mudança constitucional com efeitos sobre a maior parte da economia. O CLP argumenta que uma implementação ampla e simultânea também dificulta a avaliação dos resultados ao longo do tempo.


Como alternativa, o CLP defende transição gradual - por setor ou porte de empresa -, permitindo monitorar impactos sobre emprego, salários, informalidade e preços antes da adoção integral. A sugestão é iniciar por setores menos dependentes da escala 6x1 e avançar progressivamente para os mais sensíveis.


A conclusão do estudo é que, ao combinar redução de horas com a proibição ampla da escala em seis dias, a PEC pode encarecer o trabalho formal, reduzir a flexibilidade para trabalhadores e empresas e ampliar a informalidade. Para o CLP, o debate deveria priorizar um desenho de transição que melhore a qualidade de vida do trabalhador sem comprometer a proteção do emprego formal.


Contato: mateus.maia@broadcast.com.br


Broadcast+

Destino da Toky

 https://valor.globo.com/empresas/noticia/2026/05/29/com-pedido-de-recuperao-judicial-grupo-toky-v-prejuzo-saltar-no-1-trimestre.ghtml


🔹 *GRUPO TOKY AMPLIA PREJUÍZO NO 1º TRIMESTRE E AUDITORIA APONTA INCERTEZA SOBRE CONTINUIDADE OPERACIONAL*


O *Grupo Toky*, controlador das marcas *Tok&Stok* e *Mobly*, registrou prejuízo líquido consolidado de *R$ 75,5 milhões* no primeiro trimestre de 2026, uma piora de *71,9%* em relação ao mesmo período do ano passado.


O prejuízo atribuível aos acionistas da controladora somou *R$ 56,8 milhões*, representando um aumento de *75%* nas perdas na comparação anual.


Há duas semanas, a companhia entrou com pedido de *recuperação judicial*, envolvendo dívidas de aproximadamente *R$ 1,1 bilhão*.


A receita líquida totalizou *R$ 309,4 milhões* entre janeiro e março, queda de *18,9%* na comparação com o primeiro trimestre de 2025. O *GMV (volume bruto de mercadorias)* recuou *15,7%*, para *R$ 418,6 milhões*.


Segundo a empresa, problemas de abastecimento e restrições temporárias de estoque reduziram a disponibilidade de produtos para venda, afetando diretamente a geração de caixa e a liquidez no curto prazo.


A administração também citou a *retração do consumo*, influenciada pelos *juros elevados* e pelo *alto endividamento das famílias*, como fatores que pressionaram os resultados.


O *Ebitda* caiu *73,2%* no período, para *R$ 14,2 milhões*, enquanto as despesas financeiras aumentaram para *R$ 50,2 milhões*, impactadas principalmente pelo endividamento assumido na aquisição da Tok&Stok e por operações de antecipação de recebíveis.


Outro ponto que chamou atenção foi o relatório da auditoria *Grant Thornton*, que apontou *incerteza relevante sobre a continuidade operacional da companhia*.


Segundo os auditores, o elevado nível de prejuízos, combinado com a situação financeira da empresa e o estágio inicial da recuperação judicial, impede uma avaliação conclusiva sobre os impactos do processo e sobre a capacidade futura de continuidade das operações.


📌 O resultado reforça os desafios enfrentados pelo Grupo Toky em meio ao processo de recuperação judicial. Além da queda nas vendas e do aumento das despesas financeiras, o alerta da auditoria sobre a continuidade operacional tende a permanecer como um dos principais pontos de atenção para investidores e credores.

Fundos imobiliários

 *Os bastidores do tombo de quase 60% de um dos principais fundos imobiliários da bolsa*

 Resumir

Guilherme Guilherme28/05/26 07:56


A crise do FII Cartesia, conhecido pelo dividend yield elevado, expõe calote no CRI Helvetia, obras paradas e negociações frustradas com investidor institucional, derrubando o fundo e deixando milhares de cotistas sem dividendo


Uma crise sem precedentes em um dos principais fundos de papel da bolsa de valores vem chacoalhado o mercado imobiliário.


Presente no IFIX e conhecido pelo dividend yield elevado — que chegou a cerca de 40% nos últimos 12 meses —, o Cartesia Recebíveis Imobiliários FII (CACR11) acumula desvalorização próxima de 60% desde o fim de abril, quando anunciou a suspensão dos dividendos.


A perda em valor de mercado foi de R$ 230 milhões, absorvida pelos mais de 26,5 mil investidores que tinham cotas do fundo no início de maio. A justificativa da gestora Cartesia Capital para interromper a distribuição aos cotistas foi a “frustração prolongada das entradas de caixa” em projetos da carteira.


A inadimplência mais relevante apontada pela gestora envolve o CRI Helvetia, operação com saldo devedor de R$ 58,9 milhões. O CRI, que tem a Helvetia 5 Administradora de Imóveis como devedora, é ligado ao Helvetia Le Jardin, empreendimento horizontal de alto padrão em Indaiatuba, no interior de São Paulo.


O CRI entrou em default oficialmente nesta semana, após a Helvetia 5 não realizar o pagamento das notas comerciais previsto para 22 de maio de 2026. Mas os problemas envolvendo a operação são antigos, com uma sequência de waivers para evitar a declaração de vencimento antecipado da dívida desde julho de 2023.


Documentos obtidos pelo NeoFeed confirmam esse histórico. Os primeiros descumprimentos envolviam a falta de demonstrações financeiras auditadas da Helvetia 5.


Depois, o problema se ampliou para o descumprimento da curva de vendas e para o fluxo de caixa da operação: em outubro de 2023, R$ 1 milhão foi transferido do fundo de obras para o fundo de reserva para pagar juros dos CRIs, “haja vista a inexistência de fluxo de recebimentos”, diz o documento.


Nos anos seguintes, as pendências documentais da operação se acumularam. No relatório anual de 2025, a Oliveira Trust, agente fiduciário dos CRIs Helvetia, informou que desde 2023 não havia recebido os comprovantes de destinação dos recursos previstos na operação.


Pelos documentos do CRI, a Helvetia 5 deveria comprovar semestralmente a aplicação dos recursos, com relatório de destinação, relatório de medição, relatório de obras e cronograma físico-financeiro.


Ainda de acordo com o agente fiduciário, também não haviam sido entregues as demonstrações financeiras auditadas da Helvetia 5 referentes aos períodos de 2022 a 2025 nem o balanço patrimonial das fiduciantes T.A.R.E.F. e Vila Nova Conceição.


De acordo com fontes próximas à operação ouvidas pelo NeoFeed, as obras do empreendimento Helvetia Le Jardin foram interrompidas em setembro do ano passado devido à falta de pagamentos à SteelCorp, construtora contratada para a execução do projeto. Segundo a fonte, a falta de pagamentos teria começado entre junho e agosto do ano passado.


O projeto completo envolvia a construção de 48 casas, mas apenas 12 foram construídas, e uma das frentes do projeto, o Bougainville, ainda estava em fase de aprovação de projetos na Prefeitura de Indaiatuba, segundo documentos de acompanhamento mensal dos CRIs.


Os documentos da operação mostram que o CRI tinha pagamentos mensais de juros e amortização indicativa de 0,5% ao mês do saldo devedor, além de mecanismo de cash sweep mínimo de R$ 500 mil caso o fundo de obras superasse 105% do saldo de obras a incorrer.


Em março de 2026, o relatório de acompanhamento do CRI registrava recebimento de R$ 886,9 mil da devedora e pagamento do mesmo valor aos titulares do papel, sendo R$ 581,5 mil em juros e R$ 305,4 mil em amortização de principal. O saldo devedor atualizado, porém, ainda somava R$ 61,6 milhões, e o fundo de reserva aparecia zerado, abaixo do mínimo exigido de R$ 1,744 milhão.


Embora a operação já apresentasse sinais de estresse havia anos, a gravidade do problema só ficou explícita para os cotistas do CACR11 no fim de abril, quando a Cartesia suspendeu a distribuição de dividendos.


Até então, a gestora vinha tratando o Helvetia nos relatórios gerenciais como uma operação em acompanhamento, ancorada na expectativa de venda massificada das unidades do Helvetia Le Jardin a um investidor institucional.


Nos relatórios de 2025 e do início de 2026, a venda ao investidor institucional ainda aparecia como uma solução em negociação — primeiro com expectativa de conclusão no quarto trimestre de 2025, depois no primeiro trimestre de 2026 e, por fim, no segundo trimestre.


Foi apenas no relatório de abril que a gestora afirmou que a estratégia de venda dos imóveis “não se concretizou” e vinculou a suspensão dos proventos à “frustração prolongada das entradas de caixa” em projetos da carteira.


*As negociações*


A Cartesia nunca nomeou o investidor institucional por trás da potencial compra dos imóveis. Mas fontes consultadas pelo NeoFeed e documentos obtidos pela reportagem apontam o Nest Eagle FII, gerido pela Nest Asset, como o investidor institucional por trás das negociações.


O Nest Eagle é destinado à compra de imóveis de luxo para renda e entrou na mira de tribunais de contas e do Ministério Público no ano passado após receber investimentos de regimes próprios de previdência social (RPPS). Seus maiores aportes vieram do RioPrevidência, do estado do Rio de Janeiro, e dos RPPS de São Roque e Cajamar.


A mesma apuração revelou que, em fevereiro de 2025, cotistas do Nest Eagle aprovaram em assembleia a aquisição de imóveis com potenciais conflitos de interesse.


Entre esses imóveis estava a autorização para comprar até 20 casas no empreendimento Jardin D’L’Helvetia, o mesmo ligado ao CRI Helvetia e que tinha a SteelCorp, ligada a um ex-sócio da Nest Asset, como construtora contratada.


A compra dos imóveis, porém, estava condicionada a fatores que não se concretizaram — entre eles, um nível de captação considerado satisfatório.


O início das negociações para a venda massificada dos imóveis foi informado pelo CACR11, que já detinha dívida atrelada ao projeto, no relatório gerencial de julho de 2025.


O Nest Eagle já havia levantado R$ 157,8 milhões em sua primeira oferta — quase toda destinada a RPPS — e estava com uma segunda oferta em andamento quando a Cartesia passou a citar a negociação do Helvetia Le Jardin com um investidor institucional. O plano, desta vez, era captar até R$ 360,2 milhões para o Nest Eagle.


Naquele mesmo mês de julho, porém, os investimentos feitos por RPPS ainda na primeira oferta do fundo passaram a ser questionados pelo Ministério Público de Contas de São Paulo, com o primeiro caso envolvendo o RPPS de São Roque. Em setembro, o RPPS de Cajamar, que já havia investido R$ 25 milhões na segunda oferta do Nest Eagle, também passou a ser questionado pelo MPC-SP.


A segunda oferta do Nest Eagle foi encerrada em 8 de outubro, com captação de apenas R$ 28,9 milhões, ante os R$ 360,2 milhões inicialmente previstos.


Mesmo após a baixa captação da segunda oferta ser confirmada pelo Nest Eagle, a Cartesia reafirmou, no relatório gerencial de outubro, que o incorporador estava “em negociação direta com um investidor institucional para venda massificada das unidades em estoque do empreendimento” e que esperava concluir as tratativas ainda no quarto trimestre.


“Por tal razão, a velocidade das obras foi reduzida com foco na área de lazer e infraestrutura, uma vez que tal venda exigiria algumas customizações a cargo do adquirente”, afirmou a gestora. Mas, segundo uma fonte próxima à operação, a SteelCorp já teria deixado a obra.


O relatório também apontava que “as vendas do empreendimento foram interrompidas ao atingir 23%, em decisão estratégica que considerou aguardar a conclusão da Fase 1 para venda de unidades prontas, com maior valor de mercado”.


Já sob questionamentos de órgãos de controle, em novembro, o Nest Eagle submeteu à ratificação dos cotistas a compra com potenciais conflitos de interesse de até 20 imóveis no Helvetia Le Jardin — aprovada em fevereiro. Desta vez, porém, 64,18% das cotas votaram contra a operação.


Mesmo assim, nos relatórios seguintes, a Cartesia continuou tratando a venda ao investidor institucional como uma negociação em andamento. Em novembro e dezembro, a expectativa de conclusão das tratativas foi adiada para o primeiro trimestre de 2026. Em fevereiro, o prazo passou para o segundo trimestre.


A virada veio no relatório de abril, quando, ao explicar a suspensão dos dividendos, a gestora citou a “inércia das partes societárias envolvidas no CRI Helvetia” para resolver o rumo do empreendimento, “originalmente concebido para aquisição dos imóveis por fundo de investimento focado em locação de imóveis de alto padrão”.


O relatório que confirmou o fim das negociações foi divulgado somente após a rescisão do contrato de consultoria imobiliária entre o Nest Eagle e a Viracondo Holding e Investimentos, em 14 de abril de 2026.


Documentos do próprio CRI Helvetia também aproximam a Viracondo e a Nest da estrutura da operação.


Nos contratos, as notificações destinadas à Helvetia 5 Administradora de Imóveis, devedora do CRI, deveriam ser enviadas para arthur@viracondo.com.br, com cópia para imobiliario@nestam.com.br, e-mails de domínio da Viracondo e da Nest Asset, respectivamente. O responsável pelo recebimento das notificações, segundo os documentos, era Arthur Gaz, COO da Viracondo.


O mesmo endereço e o mesmo contato da Viracondo aparecem nas notificações destinadas à T.A.R.E.F. e à Vila Nova Conceição, sócias da Helvetia 5 e fiduciantes das quotas dadas em garantia no CRI.


*A oferta da SteelCorp*


Embora a Cartesia tenha informado o fim das negociações para a venda massificada ao investidor institucional apenas no relatório de abril, fontes próximas à operação afirmam que as tratativas já haviam sido encerradas no fim do ano passado.


Sem a saída institucional esperada, a própria SteelCorp passou a negociar uma potencial compra do empreendimento para tentar reduzir o prejuízo com a operação. Uma das condicionantes, porém, envolvia a compra com desconto dos CRIs detidos pela Cartesia.


As negociações, segundo fontes disseram ao NeoFeed, duraram cerca de dois meses e foram encerradas há aproximadamente 40 dias, após falta de acordo entre a SteelCorp e a Cartesia sobre o desconto da dívida. Em nenhum momento, a Cartesia informou a existência das negociações aos seus cotistas.


Procurados, SteelCorp e Cartesia. Após a publicação da reportagem, a gestora Nest encaminhou o seguinte posicionamento:


A análise preliminar de uma potencial aquisição de imóveis pelo fundo Nest Eagle, incluindo troca de informações, diligências e comunicações, não configura compromisso de compra, obrigação formal ou vínculo econômico definitivo com a incorporadora, o CRI ou a estrutura financeira do projeto. Não existe contrato assinado, deliberação válida ou documento que comprove qualquer compromisso de aquisição dos imóveis mencionados.


A autorregulação da ANBIMA trata a avaliação de ativos, a análise de aderência à política de investimento, as avaliações econômico-financeiras e as análises jurídicas, técnicas e ambientais como etapas próprias do processo de seleção e alocação. Portanto, a existência de análise, troca de informações ou due diligence é compatível com o dever ordinário de gestão, e não com uma obrigação automática de aquisição.


Também não procede a afirmação de que a operação de compra dos imóveis não ocorreu em razão da captação inferior da segunda oferta do fundo. A captação refletiu condições gerais de mercado, como juros elevados e cenário adverso para investimentos, sem qualquer comprovação de relação direta com a aquisição analisada. Da mesma forma, a menção a e-mails da gestora em documentos operacionais apenas demonstra participação em avaliações preliminares, e não obrigação de compra.


A interpretação da assembleia de novembro de 2025 também é equivocada. A deliberação tratava exclusivamente da substituição do administrador do fundo, e não da aprovação ou rejeição da aquisição dos imóveis. Portanto, não é juridicamente válido afirmar que os cotistas votaram contra a operação imobiliária.


Por fim, não há relação entre a rescisão contratual envolvendo o Nest Eagle e a Viracondo com a suspensão de dividendos do CRI. A tentativa de conectar eventos distintos apenas por proximidade temporal cria uma narrativa sem suporte documental. Sem contrato, aprovação formal ou documento vinculante, não há base para afirmar que o fundo tenha assumido compromisso de aquisição ou causado os efeitos econômicos sugeridos.


O NeoFeed reitera que mantém as informações publicadas e reforça que no “Termo De Apuração De Consulta Formal Iniciado Em 10 De Novembro De 2025 E Finalizado Em 25 De Novembro De 2025”, todas as pautas do dia foram rejeitadas pelos cotistas.


São elas: Transferência da administração do fundo e de todos os atos a ela correlatos; Alteração dos dispositivos do regulamento do fundo a fim de adaptá-lo às regras e padrão adotados pela nova administradora; Ratificação da aprovação dos ativos em potencial conflito de interesses, conforme deliberado em assembleia realizada em 25 de fevereiro de 2025; Aquisição de ativos imobiliários, ativos de liquidez ou outros ativos em situação de conflito de interesses (os dois últimos referem-se justamente à compra dos imóveis do Helvétia).


https://neofeed.com.br/negocios/os-bastidores-do-tombo-de-quase-60-de-um-dos-principais-fundos-imobiliarios-da-bolsa/

sábado, 30 de maio de 2026

Relativismo

 Vivemos um tempo mais perigoso que no início do séc. XX. Quem deseja g3nocídio e prega isto abertamente é o Irã, h4mas, h3zbollah, h0utis, isis, jih4d isl4mica, etc. e quem canta o slogan pedindo limpeza étnica "from the river..." 

Um texto ótimo: 


"Quando tudo é genocídio, nada mais é:


Quanto mais graves são as palavras, mais levianamente são usadas 

Por Sheila Leirner 29/05/2026 | 03h00


A Proposta Legislativa (1.424/2026) apresentada por Tabata Amaral, em 26 de março, para tipificar o antissemitismo no Brasil, surge num momento em que a própria definição do fenômeno parece dissolver-se no debate público. Não por falta de evidências — que se acumulam —, mas por uma curiosa operação intelectual: a de relativizar esse racismo justamente quando ele reaparece sob novas formas. E quando, entre outros, uma universitária como Lilia Schwarcz — além de repudiar a proposta —, usa “genocídio” enquanto palavra de militância. 


O antissemitismo não é uma opinião. É uma forma histórica específica de hostilidade, com longa tradição, mutável em suas formas, mas constante em sua estrutura: a atribuição ao judeu — enquanto indivíduo ou coletividade — de uma culpa essencial, de uma potência conspiratória, ou de uma responsabilidade imaginária pelos males do mundo. Hoje, esse mecanismo reaparece frequentemente sob a forma de uma linguagem política aparentemente legítima. O alvo já não é “o judeu” em termos explícitos, mas o Estado hebreu — Israel — que passa a ser tratado não como um ator entre outros no cenário internacional, mas como encarnação singular do mal. Quando se exige desse Estado um padrão de comportamento que não é exigido de nenhum outro, ou quando se mobilizam contra ele categorias extremas — como “genocídio” — sem o devido rigor jurídico e histórico, entra-se em uma zona ambígua onde crítica e estigmatização se confundem. É precisamente essa zona que a proposta de Tabata Amaral busca esclarecer. 


Paralelamente, há um fenômeno inquietante no debate contemporâneo: quanto mais graves são as palavras, mais levianamente são usadas. E, ao mesmo tempo, maior parece ser a dificuldade em nomear com precisão aquilo que deveriam designar. Existe uma inflação moral de “genocídio”, “fascismo”, “ódio”, expressões que se banalizaram. 


George Orwell já advertia, em seu célebre ensaio sobre a linguagem política, que a corrupção dos vocábulos precede — e prepara — a corrupção do pensamento. No entanto, em seu discurso em rede social, a historiadora afirma ser “profundamente contra o genocídio praticado pelo Estado de Israel que levou à morte de tantos civis”.

“Sou contra”, diz, “acuso e chamo de genocídio”. 


Genocídio não é uma metáfora. Tanto quanto o antissemitismo, não é uma opinião, um sentimento, nem um rótulo moral disponível para a indignação imediata. É uma categoria jurídica que implica a intenção de exterminar deliberadamente um povo — conceito rigoroso definido após a 2.ª Guerra Mundial. Não por acaso, o procurador do Tribunal Penal Internacional, Karim Khan, declarou recentemente que “não há, até o momento, nenhuma evidência de genocídio em Gaza” e que “o clamor público não é prova”. 


Que país “genocida” se defende atacando alvos terroristas e emitindo apelos sistemáticos de evacuação, como fez o Exército israelense em Gaza e, depois, em abril, à população libanesa ao sul do rio Zahrani? 


O deslize não é apenas semântico, mas de pensamento. Pensar é resistir ao “espírito do tempo” quando necessário. Mas isso exige independência — e são raros os que a têm. Usar esse termo como instrumento militante para sinalizar “virtude” e pertencimento ideológico é um ato de irresponsabilidade intelectual. 


Ademais, a banalização rebaixa a discussão. Mais grave: dilui o próprio sentido de tragédias históricas que deram origem à palavra. Como lembrava Hannah Arendt, compreender não é absolver — é distinguir. E, no entanto, o que chama a atenção não é a posição política de certas figuras públicas — cada um tem o direito de pensar o que quiser —, mas a facilidade e a certeza tranquila com que transitam entre os papéis de historiador, juiz, militante e consciência moral da sociedade. 


A mensagem de Schwarcz, na mesma plataforma, segue um roteiro conhecido: começa pela defesa da democracia, passa pela denúncia do ódio, afirma abertura ao erro — e, apoiada nessa “autoridade moral” cuidadosamente construída, desemboca em uma acusação extrema. Há ali muito de éthos e páthos, quase nada de logos. Trata-se de uma retórica eficaz para certo público, mas sustentada por fragilidade conceitual. 


A carta aberta a essas declarações, publicada recentemente por uma advogada criminalista, fundadora e presidente de uma associação de combate ao antissemitismo, tem o mérito de recolocar o debate em seus termos corretos. Não se trata de censura, nem de interditar a polêmica, mas de responsabilizar palavras. 


Na França, sob a presidência de Emmanuel Macron, foi adotada a definição da Aliança Internacional para a Memória do Holocausto (IHRA, na sigla em inglês), segundo a qual determinadas formas de antissionismo — sobretudo as que estigmatizam Israel ou negam sua legitimidade — podem constituir expressão de antissemitismo e ser objeto de sanção. 


O Brasil, país marcado por profundas desigualdades e tensões, não está imune a essas derivas. Ao contrário: a importação acrítica de conflitos externos, somada à superficialidade da discussão nas redes, favorece simplificações perigosas. É nesse contexto que a proposta de Tabata ganha relevância. Não como instrumento de repressão, mas como tentativa de restaurar um mínimo de clareza em uma questão cada vez mais contaminada por slogans e polarizações. Vale notar que o próprio texto da proposta afirma explicitamente que críticas a Israel, quando comparáveis às dirigidas a qualquer outro país, não configuram antissemitismo — o que desmonta, de saída, a tese de censura frequentemente invocada. 


Quando palavras extremas servem para explicar tudo, já não explicam mais nada. "


Opinião por Sheila Leirner Jornalista, escritora, crítica de arte, foi curadora-geral da 18ª e da 19ª Bienais de São Paulo


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sexta-feira, 29 de maio de 2026

Coluna do Estadão

 *Coluna do Estadão: Barroso critica tentativa de ampliar cobertura do FGC no caso Master*


Por Eduardo Barretto, do Estadão


Brasília, 28/05/2026 - O advogado Luís Roberto Barroso, ex-presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), criticou nesta quinta-feira, 28, em referência ao caso Master, a tentativa de aumentar o valor coberto pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC), que protege investidores em caso de falência de um banco. Uma emenda com esse objetivo foi apresentada pelo senador Ciro Nogueira (PP-PI), que foi alvo da Polícia Federal (PF) no início do mês por supostas mesadas recebidas do dono do Master, Daniel Vorcaro. O senador nega irregularidades.


"Não há como um país se tornar desenvolvido sem a elevação da ética pública e da ética privada. Não é só a propina, que já é um mal suficiente do ponto de vista moral. É o conjunto de decisões erradas que se tomam pelas razões erradas. Do aumento do FGC a qualquer outra mudança em que você faz mal para o País para atender a algum interesse privado", afirmou Barroso durante o evento Brasília Tech Summit, promovido pelo Amado Mundo.


Segundo a PF, Vorcaro encomendou ao banco o texto de uma emenda que foi posteriormente apresentada por Ciro Nogueira a uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) no Senado para favorecer a empresa. Os textos eram idênticos, afirmou a PF. O banqueiro disse em mensagens que Ciro era "um dos grandes amigos de vida".


Em conversas no celular, Vorcaro comentou que a emenda apresentada pelo parlamentar "saiu exatamente como mandei". Essa mensagem foi enviada pelo banqueiro em 13 de agosto de 2024, mesmo dia em que o senador apresentou a emenda para elevar de R$ 250 mil para R$ 1 milhão o valor coberto pelo FGC por CPF. Vorcaro descreveu a medida como uma "bomba atômica no mercado financeiro".


No último dia 7, a PF cumpriu um mandado de busca na casa de Ciro Nogueira em Brasília. A corporação afirmou ao Supremo Tribunal Federal que o senador recebia mesadas de até R$ 500 mil de Vorcaro. A defesa do ex-ministro da Casa Civil do governo Bolsonaro diz que "repudia qualquer ilação de ilicitude sobre suas condutas".


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