*Leitura de Domingo: Economia experimenta espiral negativa forte, diz Ricardo Lacerda/BR Partners*
Por Cynthia Decloedt
São Paulo, 28/05/2026 - Há um risco altíssimo para a sobrevivência de várias empresas no Brasil e de uma crise mais ampla no crédito, no cenário precificado pelo mercado de juro elevado por período indefinido de tempo. "Isso está matando as empresas agora, tirando margem de manobra nas negociações de seus passivos, a capacidade de alavancagem e de investimento. Há uma espiral negativa na economia muito forte", diz o empresário e sócio fundador do banco de investimento BR Partners, Ricardo Lacerda.
Ele destaca que essa é uma nuance da atual crise que vem passando despercebida, mas que tem obrigado companhias a refazer contas, reprecificar seus ativos e renegociar dívidas com uma visão de que o ciclo de corte de juro será curto e manterá o custo do dinheiro alto. Segundo o Lacerda, empresas com endividamento por volta de duas vezes seu fluxo de caixa, que eram consideradas saudáveis, têm dificuldade de honrar seus compromissos atualmente dado o patamar da Selic.
Para o banqueiro, não há outra saída que não seja o ajuste fiscal, para que a economia fique menos dependente da política monetária em momentos como o atual, em que o cenário externo tem limitado a capacidade de ação do Banco Central. Lacerda acredita que seja qual for o próximo governo, a questão do ajuste fiscal terá que ser enfrentada. "Precisamos de um plano de política fiscal que permita ao Brasil ter um juro nominal e um juro real de um dígito. Ninguém tem bola de cristal para saber o que seria o gatilho de uma crise de crédito mais severa. Mas eu acho que talvez a gente não esteja longe dela, e caminhando para um cenário mais crítico", afirma.
De toda a forma, mesmo com a sinalização de ajuste, o banqueiro estima que seu reflexo não será imediato e o mercado poderá presenciar números recorde de reestruturações por mais 24 meses.
*Leia a seguir os principais trechos da entrevista:*
*Broadcast: Por que vivemos tantas reestruturações de empresas nesse momento?*
Ricardo Lacerda: Estamos saindo de um ambiente de juros muito baixos na pandemia, quando muitas empresas fizeram aquisições, muitas vezes por valores altos, financiadas com uma lógica de custo de capital que mudou radicalmente. O juro saiu daqueles 2% para perto de 15%, onerando demais. Havia expectativa de redução, mas por questões fiscais do Brasil e pelo cenário internacional, com guerra no Oriente Médio, petróleo e inflação, o mercado passou a entender que vamos conviver com juros altos por um período prolongado. Quando você olha a curva futura, até vencimentos longos, o juro nominal e o real estão muito altos, e isso dificulta planejamento. Some a isso mudanças estruturais pós-pandemia - varejo, cadeia produtiva, custo de mão de obra - e você tem um volume recorde de reestruturações.
*Broadcast: O senhor acredita que, não fosse a guerra pressionando o petróleo e limitando o corte de juros, o número de reestruturações seria menor?*
Lacerda: O mercado antecipa tudo. No fim do terceiro trimestre e início do quarto trimestre do ano passado, houve algum alento: entrou mais recurso no Brasil e havia perspectiva de queda mais significativa, talvez para 12%, 11% ou "dez e poucos". Com a guerra, isso foi reprecificado. A perspectiva virou algo como cair de 15% para 13%, na melhor das hipóteses - talvez nem isso. O que está se materializando é um ciclo de corte muito mais raso e curto. Todo mundo está tendo que se posicionar e reprecificar seus ativos para um ambiente de juros altos por um período muito prolongado.
*Broadcast: Quão prolongado será esse período?*
Lacerda: Temos hoje um cenário em que há o impacto na curva de juro, de curtíssimo prazo, da guerra e do preço de petróleo, mas muito pior do que isso, há um impacto de longo prazo. As empresas estão refazendo as contas. Aquelas empresas que historicamente tinham um nível de alavancagem de três, quatro vezes, digamos considerados normais e que poderiam se endividar, ainda que temporariamente, ficaram inviáveis. Hoje vemos boas empresas, com alavancagem relativamente baixa, com o endividamento por volta de duas vezes seu fluxo de caixa, com dificuldade de honrar seus compromissos. Isso tirou a capacidade de investimento do sistema e a capacidade de alavancagem, e o custo vai ser muito alto para as empresas e também para o País. Se não houver mudança na política fiscal, se não houver perspectiva de redução de juros para um patamar de um dígito, vamos ter de conviver com uma situação muito mais negativa.
*Broadcast: E com quais consequências?*
Lacerda: A consequência é continuar a quebradeira que estamos vendo e uma redução significativa do poder de investimento das companhias. Empresas acima de duas, duas vezes e meia de alavancagem, já não conseguem reduzir endividamento com geração de caixa; trabalham para servir a dívida. Isso é insustentável e reduz completamente a capacidade de alavancagem do sistema como um todo. A gente precisa de um plano de política fiscal que permita juro nominal e juro real de um dígito. Ninguém tem bola de cristal para dizer qual seria o gatilho de uma crise de crédito mais severa, mas talvez não estejamos longe de um cenário mais crítico.
*Broadcast: De uma crise de crédito mais ampla, que atinja o sistema como um todo?*
Lacerda: Exatamente. Uma retração do crédito mais ampla em função dos problemas, de aumento de inadimplência, de tal maneira que tudo fique paralisado. Existe um risco de isso acontecer, já que há aumento de inadimplência tanto na pessoa física, quanto no setor corporativo. Mas acho que o impacto mais nefasto é a limitação da capacidade de investimento. Então aquele nível de juros excessivos, tanto nominal quanto real, que parecia transitório, pode tomar um caráter permanente. E aí é preciso reprecificar toda a capacidade de investimento e de alavancagem do sistema.
*Broadcast: Ou seja, há necessidade de um ajuste fiscal para que o juro recue, já que as empresas e o País não aguentam ficar dependentes dos bons ventos externos?*
Lacerda: Exato. Temos de analisar a situação com frieza. Acho que, certo ou errado, esse governo conseguiu manter um crescimento positivo ao longo dos quatro anos, manter a inflação sob controle e a taxa de desemprego em um nível muito baixo. Há indicadores econômicos positivos, quando se olha o quadro geral. Mas parte disso foi conquistado com um estímulo fiscal muito forte e que está claro que o País não tem condições de manter. É preciso, independente do resultado da eleição (presidencial de outubro), que se tenha uma política fiscal que permita um patamar de juro nominal e de juros reais no Brasil na casa de um dígito. Porque isso é o que vai trazer a capacidade de investimento das empresas, que vai poder gerar mais crescimento. Não dá mais para tapar o sol com a peneira, achando que a gente vai conseguir indefinidamente manter esses indicadores econômicos positivos à custa desse estímulo fiscal. Esse é o grande nó da economia brasileira hoje.
*Broadcast: O senhor acha que o ajuste será endereçado pelo próximo governo, independente de legenda partidária?*
Lacerda: Necessariamente terá de ser endereçado, caso contrário poderá haver uma situação de hiperinflação ou de calote na dívida, que são coisas que a gente já viveu no passado e que, obviamente, estamos muito distantes. Acho importante que essa solução venha proativamente e não reativamente, porque reativamente será preciso corrigir uma série de coisas, uma recessão, uma hiperinflação, problema de insolvência ou pode ter uma combinação de todas essas coisas.
*Broadcast: O que o senhor acha que vai acontecer este ano, especificamente, em relação a essa onda de reestruturações, continua aumentando?*
Lacerda: Eu acho que no curto prazo, sem dúvida alguma, e para além das grandes que estamos presenciando neste momento. Há uma série de empresas menores, que estão fora do radar dos grandes investidores, que estão com muita dificuldade. Vivemos um recorde nos pedidos de recuperação judicial e nos pedidos de recuperação extrajudicial. Temos visto inclusive negociações amigáveis também batendo recordes. No horizonte nos próximos 18 a 24 meses, acredito que o patamar de reestruturações de dívida vai aumentar muito.
*Broadcast: Qual deve ser o impacto, portanto, para as empresas, o País e para o sistema financeiro?*
Lacerda: O sistema financeiro, obviamente, sofre um pouco com isso, mas ainda tem um nível de rentabilidade muito forte e uma solidez muito grande, consegue absorver. O mercado de capitais para crédito privado, que cresceu muito a partir de 2017 e 2018, está machucado. Muitas pessoas físicas que compraram créditos privado estão perdendo dinheiro e vão pensar duas vezes para investir novamente. Isso é ruim e está dado. Mas o principal impacto é a diminuição da capacidade de alavancagem do sistema. Reduz a capacidade de investimento da economia como um todo.
*Broadcast: Há alguma particularidade nesse ciclo de reestruturações e crise entre as empresas que a difere das anteriores, como Lava Jato ou Covid?*
Lacerda: Estamos vendo uma onda mais generalizada porque não há perspectiva de redução de juros no curto prazo. Com endividamento excessivo, as companhias perderam margem de manobra: não conseguem refinanciar a custos menores para reorganizar passivos e ganhar eficiência. Por isso tende a se ampliar. Quem não conseguiu se desalavancar até agora dificilmente vai conseguir daqui para frente, dado o patamar de juros. E acho que o Banco Central talvez tenha esperado demais para iniciar o ciclo de corte e acabou sendo pego pela guerra, um evento exógeno que impede uma redução mais longa e profunda. Vamos conviver com juros altos por um período prolongado; é preciso mudar essa equação para as empresas se replanejarem.
*Broadcast: Por que os grandes conglomerados estão em crise?*
Lacerda: Não são só as gigantes que estão em crise. Mas muitas empresas gigantes tiveram mais condições de se alavancar em um determinado momento da economia e buscar grandes projetos. Era um cenário de juro muito baixo e de potencial de crescimento econômico. Foi uma mudança para pior nessa equação muito grande.
*Broadcast: Mas as grandes empresas não conseguiram ver essa mudança antecipadamente, não aproveitaram bem as oportunidades?*
Lacerda: É caso a caso. Muitas vezes dava para ter planejado melhor e há erros de gestão. Mas ninguém esperava uma mudança tão drástica para um cenário pior. A subida de 2% para 15% foi relevante, mas o principal é que a perspectiva de cair de forma consistente ficou muito baixa. Podemos estar fadados a ficar nesse patamar altíssimo por um período indefinido. Nenhuma política monetária eficiente deveria manter juros reais nesses níveis por tanto tempo, mas a dinâmica fiscal aponta para juros permanentemente altos. É isso que está matando agora: o mercado e a curva de juros estão precificando um período indefinido de juros muito altos, colocando muitas empresas em altíssimo risco de sobrevivência.
Contato: cynthia.decloedt@estadao.com
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