domingo, 31 de maio de 2026

Destino da Toky

 https://valor.globo.com/empresas/noticia/2026/05/29/com-pedido-de-recuperao-judicial-grupo-toky-v-prejuzo-saltar-no-1-trimestre.ghtml


🔹 *GRUPO TOKY AMPLIA PREJUÍZO NO 1º TRIMESTRE E AUDITORIA APONTA INCERTEZA SOBRE CONTINUIDADE OPERACIONAL*


O *Grupo Toky*, controlador das marcas *Tok&Stok* e *Mobly*, registrou prejuízo líquido consolidado de *R$ 75,5 milhões* no primeiro trimestre de 2026, uma piora de *71,9%* em relação ao mesmo período do ano passado.


O prejuízo atribuível aos acionistas da controladora somou *R$ 56,8 milhões*, representando um aumento de *75%* nas perdas na comparação anual.


Há duas semanas, a companhia entrou com pedido de *recuperação judicial*, envolvendo dívidas de aproximadamente *R$ 1,1 bilhão*.


A receita líquida totalizou *R$ 309,4 milhões* entre janeiro e março, queda de *18,9%* na comparação com o primeiro trimestre de 2025. O *GMV (volume bruto de mercadorias)* recuou *15,7%*, para *R$ 418,6 milhões*.


Segundo a empresa, problemas de abastecimento e restrições temporárias de estoque reduziram a disponibilidade de produtos para venda, afetando diretamente a geração de caixa e a liquidez no curto prazo.


A administração também citou a *retração do consumo*, influenciada pelos *juros elevados* e pelo *alto endividamento das famílias*, como fatores que pressionaram os resultados.


O *Ebitda* caiu *73,2%* no período, para *R$ 14,2 milhões*, enquanto as despesas financeiras aumentaram para *R$ 50,2 milhões*, impactadas principalmente pelo endividamento assumido na aquisição da Tok&Stok e por operações de antecipação de recebíveis.


Outro ponto que chamou atenção foi o relatório da auditoria *Grant Thornton*, que apontou *incerteza relevante sobre a continuidade operacional da companhia*.


Segundo os auditores, o elevado nível de prejuízos, combinado com a situação financeira da empresa e o estágio inicial da recuperação judicial, impede uma avaliação conclusiva sobre os impactos do processo e sobre a capacidade futura de continuidade das operações.


📌 O resultado reforça os desafios enfrentados pelo Grupo Toky em meio ao processo de recuperação judicial. Além da queda nas vendas e do aumento das despesas financeiras, o alerta da auditoria sobre a continuidade operacional tende a permanecer como um dos principais pontos de atenção para investidores e credores.

Fundos imobiliários

 *Os bastidores do tombo de quase 60% de um dos principais fundos imobiliários da bolsa*

 Resumir

Guilherme Guilherme28/05/26 07:56


A crise do FII Cartesia, conhecido pelo dividend yield elevado, expõe calote no CRI Helvetia, obras paradas e negociações frustradas com investidor institucional, derrubando o fundo e deixando milhares de cotistas sem dividendo


Uma crise sem precedentes em um dos principais fundos de papel da bolsa de valores vem chacoalhado o mercado imobiliário.


Presente no IFIX e conhecido pelo dividend yield elevado — que chegou a cerca de 40% nos últimos 12 meses —, o Cartesia Recebíveis Imobiliários FII (CACR11) acumula desvalorização próxima de 60% desde o fim de abril, quando anunciou a suspensão dos dividendos.


A perda em valor de mercado foi de R$ 230 milhões, absorvida pelos mais de 26,5 mil investidores que tinham cotas do fundo no início de maio. A justificativa da gestora Cartesia Capital para interromper a distribuição aos cotistas foi a “frustração prolongada das entradas de caixa” em projetos da carteira.


A inadimplência mais relevante apontada pela gestora envolve o CRI Helvetia, operação com saldo devedor de R$ 58,9 milhões. O CRI, que tem a Helvetia 5 Administradora de Imóveis como devedora, é ligado ao Helvetia Le Jardin, empreendimento horizontal de alto padrão em Indaiatuba, no interior de São Paulo.


O CRI entrou em default oficialmente nesta semana, após a Helvetia 5 não realizar o pagamento das notas comerciais previsto para 22 de maio de 2026. Mas os problemas envolvendo a operação são antigos, com uma sequência de waivers para evitar a declaração de vencimento antecipado da dívida desde julho de 2023.


Documentos obtidos pelo NeoFeed confirmam esse histórico. Os primeiros descumprimentos envolviam a falta de demonstrações financeiras auditadas da Helvetia 5.


Depois, o problema se ampliou para o descumprimento da curva de vendas e para o fluxo de caixa da operação: em outubro de 2023, R$ 1 milhão foi transferido do fundo de obras para o fundo de reserva para pagar juros dos CRIs, “haja vista a inexistência de fluxo de recebimentos”, diz o documento.


Nos anos seguintes, as pendências documentais da operação se acumularam. No relatório anual de 2025, a Oliveira Trust, agente fiduciário dos CRIs Helvetia, informou que desde 2023 não havia recebido os comprovantes de destinação dos recursos previstos na operação.


Pelos documentos do CRI, a Helvetia 5 deveria comprovar semestralmente a aplicação dos recursos, com relatório de destinação, relatório de medição, relatório de obras e cronograma físico-financeiro.


Ainda de acordo com o agente fiduciário, também não haviam sido entregues as demonstrações financeiras auditadas da Helvetia 5 referentes aos períodos de 2022 a 2025 nem o balanço patrimonial das fiduciantes T.A.R.E.F. e Vila Nova Conceição.


De acordo com fontes próximas à operação ouvidas pelo NeoFeed, as obras do empreendimento Helvetia Le Jardin foram interrompidas em setembro do ano passado devido à falta de pagamentos à SteelCorp, construtora contratada para a execução do projeto. Segundo a fonte, a falta de pagamentos teria começado entre junho e agosto do ano passado.


O projeto completo envolvia a construção de 48 casas, mas apenas 12 foram construídas, e uma das frentes do projeto, o Bougainville, ainda estava em fase de aprovação de projetos na Prefeitura de Indaiatuba, segundo documentos de acompanhamento mensal dos CRIs.


Os documentos da operação mostram que o CRI tinha pagamentos mensais de juros e amortização indicativa de 0,5% ao mês do saldo devedor, além de mecanismo de cash sweep mínimo de R$ 500 mil caso o fundo de obras superasse 105% do saldo de obras a incorrer.


Em março de 2026, o relatório de acompanhamento do CRI registrava recebimento de R$ 886,9 mil da devedora e pagamento do mesmo valor aos titulares do papel, sendo R$ 581,5 mil em juros e R$ 305,4 mil em amortização de principal. O saldo devedor atualizado, porém, ainda somava R$ 61,6 milhões, e o fundo de reserva aparecia zerado, abaixo do mínimo exigido de R$ 1,744 milhão.


Embora a operação já apresentasse sinais de estresse havia anos, a gravidade do problema só ficou explícita para os cotistas do CACR11 no fim de abril, quando a Cartesia suspendeu a distribuição de dividendos.


Até então, a gestora vinha tratando o Helvetia nos relatórios gerenciais como uma operação em acompanhamento, ancorada na expectativa de venda massificada das unidades do Helvetia Le Jardin a um investidor institucional.


Nos relatórios de 2025 e do início de 2026, a venda ao investidor institucional ainda aparecia como uma solução em negociação — primeiro com expectativa de conclusão no quarto trimestre de 2025, depois no primeiro trimestre de 2026 e, por fim, no segundo trimestre.


Foi apenas no relatório de abril que a gestora afirmou que a estratégia de venda dos imóveis “não se concretizou” e vinculou a suspensão dos proventos à “frustração prolongada das entradas de caixa” em projetos da carteira.


*As negociações*


A Cartesia nunca nomeou o investidor institucional por trás da potencial compra dos imóveis. Mas fontes consultadas pelo NeoFeed e documentos obtidos pela reportagem apontam o Nest Eagle FII, gerido pela Nest Asset, como o investidor institucional por trás das negociações.


O Nest Eagle é destinado à compra de imóveis de luxo para renda e entrou na mira de tribunais de contas e do Ministério Público no ano passado após receber investimentos de regimes próprios de previdência social (RPPS). Seus maiores aportes vieram do RioPrevidência, do estado do Rio de Janeiro, e dos RPPS de São Roque e Cajamar.


A mesma apuração revelou que, em fevereiro de 2025, cotistas do Nest Eagle aprovaram em assembleia a aquisição de imóveis com potenciais conflitos de interesse.


Entre esses imóveis estava a autorização para comprar até 20 casas no empreendimento Jardin D’L’Helvetia, o mesmo ligado ao CRI Helvetia e que tinha a SteelCorp, ligada a um ex-sócio da Nest Asset, como construtora contratada.


A compra dos imóveis, porém, estava condicionada a fatores que não se concretizaram — entre eles, um nível de captação considerado satisfatório.


O início das negociações para a venda massificada dos imóveis foi informado pelo CACR11, que já detinha dívida atrelada ao projeto, no relatório gerencial de julho de 2025.


O Nest Eagle já havia levantado R$ 157,8 milhões em sua primeira oferta — quase toda destinada a RPPS — e estava com uma segunda oferta em andamento quando a Cartesia passou a citar a negociação do Helvetia Le Jardin com um investidor institucional. O plano, desta vez, era captar até R$ 360,2 milhões para o Nest Eagle.


Naquele mesmo mês de julho, porém, os investimentos feitos por RPPS ainda na primeira oferta do fundo passaram a ser questionados pelo Ministério Público de Contas de São Paulo, com o primeiro caso envolvendo o RPPS de São Roque. Em setembro, o RPPS de Cajamar, que já havia investido R$ 25 milhões na segunda oferta do Nest Eagle, também passou a ser questionado pelo MPC-SP.


A segunda oferta do Nest Eagle foi encerrada em 8 de outubro, com captação de apenas R$ 28,9 milhões, ante os R$ 360,2 milhões inicialmente previstos.


Mesmo após a baixa captação da segunda oferta ser confirmada pelo Nest Eagle, a Cartesia reafirmou, no relatório gerencial de outubro, que o incorporador estava “em negociação direta com um investidor institucional para venda massificada das unidades em estoque do empreendimento” e que esperava concluir as tratativas ainda no quarto trimestre.


“Por tal razão, a velocidade das obras foi reduzida com foco na área de lazer e infraestrutura, uma vez que tal venda exigiria algumas customizações a cargo do adquirente”, afirmou a gestora. Mas, segundo uma fonte próxima à operação, a SteelCorp já teria deixado a obra.


O relatório também apontava que “as vendas do empreendimento foram interrompidas ao atingir 23%, em decisão estratégica que considerou aguardar a conclusão da Fase 1 para venda de unidades prontas, com maior valor de mercado”.


Já sob questionamentos de órgãos de controle, em novembro, o Nest Eagle submeteu à ratificação dos cotistas a compra com potenciais conflitos de interesse de até 20 imóveis no Helvetia Le Jardin — aprovada em fevereiro. Desta vez, porém, 64,18% das cotas votaram contra a operação.


Mesmo assim, nos relatórios seguintes, a Cartesia continuou tratando a venda ao investidor institucional como uma negociação em andamento. Em novembro e dezembro, a expectativa de conclusão das tratativas foi adiada para o primeiro trimestre de 2026. Em fevereiro, o prazo passou para o segundo trimestre.


A virada veio no relatório de abril, quando, ao explicar a suspensão dos dividendos, a gestora citou a “inércia das partes societárias envolvidas no CRI Helvetia” para resolver o rumo do empreendimento, “originalmente concebido para aquisição dos imóveis por fundo de investimento focado em locação de imóveis de alto padrão”.


O relatório que confirmou o fim das negociações foi divulgado somente após a rescisão do contrato de consultoria imobiliária entre o Nest Eagle e a Viracondo Holding e Investimentos, em 14 de abril de 2026.


Documentos do próprio CRI Helvetia também aproximam a Viracondo e a Nest da estrutura da operação.


Nos contratos, as notificações destinadas à Helvetia 5 Administradora de Imóveis, devedora do CRI, deveriam ser enviadas para arthur@viracondo.com.br, com cópia para imobiliario@nestam.com.br, e-mails de domínio da Viracondo e da Nest Asset, respectivamente. O responsável pelo recebimento das notificações, segundo os documentos, era Arthur Gaz, COO da Viracondo.


O mesmo endereço e o mesmo contato da Viracondo aparecem nas notificações destinadas à T.A.R.E.F. e à Vila Nova Conceição, sócias da Helvetia 5 e fiduciantes das quotas dadas em garantia no CRI.


*A oferta da SteelCorp*


Embora a Cartesia tenha informado o fim das negociações para a venda massificada ao investidor institucional apenas no relatório de abril, fontes próximas à operação afirmam que as tratativas já haviam sido encerradas no fim do ano passado.


Sem a saída institucional esperada, a própria SteelCorp passou a negociar uma potencial compra do empreendimento para tentar reduzir o prejuízo com a operação. Uma das condicionantes, porém, envolvia a compra com desconto dos CRIs detidos pela Cartesia.


As negociações, segundo fontes disseram ao NeoFeed, duraram cerca de dois meses e foram encerradas há aproximadamente 40 dias, após falta de acordo entre a SteelCorp e a Cartesia sobre o desconto da dívida. Em nenhum momento, a Cartesia informou a existência das negociações aos seus cotistas.


Procurados, SteelCorp e Cartesia. Após a publicação da reportagem, a gestora Nest encaminhou o seguinte posicionamento:


A análise preliminar de uma potencial aquisição de imóveis pelo fundo Nest Eagle, incluindo troca de informações, diligências e comunicações, não configura compromisso de compra, obrigação formal ou vínculo econômico definitivo com a incorporadora, o CRI ou a estrutura financeira do projeto. Não existe contrato assinado, deliberação válida ou documento que comprove qualquer compromisso de aquisição dos imóveis mencionados.


A autorregulação da ANBIMA trata a avaliação de ativos, a análise de aderência à política de investimento, as avaliações econômico-financeiras e as análises jurídicas, técnicas e ambientais como etapas próprias do processo de seleção e alocação. Portanto, a existência de análise, troca de informações ou due diligence é compatível com o dever ordinário de gestão, e não com uma obrigação automática de aquisição.


Também não procede a afirmação de que a operação de compra dos imóveis não ocorreu em razão da captação inferior da segunda oferta do fundo. A captação refletiu condições gerais de mercado, como juros elevados e cenário adverso para investimentos, sem qualquer comprovação de relação direta com a aquisição analisada. Da mesma forma, a menção a e-mails da gestora em documentos operacionais apenas demonstra participação em avaliações preliminares, e não obrigação de compra.


A interpretação da assembleia de novembro de 2025 também é equivocada. A deliberação tratava exclusivamente da substituição do administrador do fundo, e não da aprovação ou rejeição da aquisição dos imóveis. Portanto, não é juridicamente válido afirmar que os cotistas votaram contra a operação imobiliária.


Por fim, não há relação entre a rescisão contratual envolvendo o Nest Eagle e a Viracondo com a suspensão de dividendos do CRI. A tentativa de conectar eventos distintos apenas por proximidade temporal cria uma narrativa sem suporte documental. Sem contrato, aprovação formal ou documento vinculante, não há base para afirmar que o fundo tenha assumido compromisso de aquisição ou causado os efeitos econômicos sugeridos.


O NeoFeed reitera que mantém as informações publicadas e reforça que no “Termo De Apuração De Consulta Formal Iniciado Em 10 De Novembro De 2025 E Finalizado Em 25 De Novembro De 2025”, todas as pautas do dia foram rejeitadas pelos cotistas.


São elas: Transferência da administração do fundo e de todos os atos a ela correlatos; Alteração dos dispositivos do regulamento do fundo a fim de adaptá-lo às regras e padrão adotados pela nova administradora; Ratificação da aprovação dos ativos em potencial conflito de interesses, conforme deliberado em assembleia realizada em 25 de fevereiro de 2025; Aquisição de ativos imobiliários, ativos de liquidez ou outros ativos em situação de conflito de interesses (os dois últimos referem-se justamente à compra dos imóveis do Helvétia).


https://neofeed.com.br/negocios/os-bastidores-do-tombo-de-quase-60-de-um-dos-principais-fundos-imobiliarios-da-bolsa/

sábado, 30 de maio de 2026

Relativismo

 Vivemos um tempo mais perigoso que no início do séc. XX. Quem deseja g3nocídio e prega isto abertamente é o Irã, h4mas, h3zbollah, h0utis, isis, jih4d isl4mica, etc. e quem canta o slogan pedindo limpeza étnica "from the river..." 

Um texto ótimo: 


"Quando tudo é genocídio, nada mais é:


Quanto mais graves são as palavras, mais levianamente são usadas 

Por Sheila Leirner 29/05/2026 | 03h00


A Proposta Legislativa (1.424/2026) apresentada por Tabata Amaral, em 26 de março, para tipificar o antissemitismo no Brasil, surge num momento em que a própria definição do fenômeno parece dissolver-se no debate público. Não por falta de evidências — que se acumulam —, mas por uma curiosa operação intelectual: a de relativizar esse racismo justamente quando ele reaparece sob novas formas. E quando, entre outros, uma universitária como Lilia Schwarcz — além de repudiar a proposta —, usa “genocídio” enquanto palavra de militância. 


O antissemitismo não é uma opinião. É uma forma histórica específica de hostilidade, com longa tradição, mutável em suas formas, mas constante em sua estrutura: a atribuição ao judeu — enquanto indivíduo ou coletividade — de uma culpa essencial, de uma potência conspiratória, ou de uma responsabilidade imaginária pelos males do mundo. Hoje, esse mecanismo reaparece frequentemente sob a forma de uma linguagem política aparentemente legítima. O alvo já não é “o judeu” em termos explícitos, mas o Estado hebreu — Israel — que passa a ser tratado não como um ator entre outros no cenário internacional, mas como encarnação singular do mal. Quando se exige desse Estado um padrão de comportamento que não é exigido de nenhum outro, ou quando se mobilizam contra ele categorias extremas — como “genocídio” — sem o devido rigor jurídico e histórico, entra-se em uma zona ambígua onde crítica e estigmatização se confundem. É precisamente essa zona que a proposta de Tabata Amaral busca esclarecer. 


Paralelamente, há um fenômeno inquietante no debate contemporâneo: quanto mais graves são as palavras, mais levianamente são usadas. E, ao mesmo tempo, maior parece ser a dificuldade em nomear com precisão aquilo que deveriam designar. Existe uma inflação moral de “genocídio”, “fascismo”, “ódio”, expressões que se banalizaram. 


George Orwell já advertia, em seu célebre ensaio sobre a linguagem política, que a corrupção dos vocábulos precede — e prepara — a corrupção do pensamento. No entanto, em seu discurso em rede social, a historiadora afirma ser “profundamente contra o genocídio praticado pelo Estado de Israel que levou à morte de tantos civis”.

“Sou contra”, diz, “acuso e chamo de genocídio”. 


Genocídio não é uma metáfora. Tanto quanto o antissemitismo, não é uma opinião, um sentimento, nem um rótulo moral disponível para a indignação imediata. É uma categoria jurídica que implica a intenção de exterminar deliberadamente um povo — conceito rigoroso definido após a 2.ª Guerra Mundial. Não por acaso, o procurador do Tribunal Penal Internacional, Karim Khan, declarou recentemente que “não há, até o momento, nenhuma evidência de genocídio em Gaza” e que “o clamor público não é prova”. 


Que país “genocida” se defende atacando alvos terroristas e emitindo apelos sistemáticos de evacuação, como fez o Exército israelense em Gaza e, depois, em abril, à população libanesa ao sul do rio Zahrani? 


O deslize não é apenas semântico, mas de pensamento. Pensar é resistir ao “espírito do tempo” quando necessário. Mas isso exige independência — e são raros os que a têm. Usar esse termo como instrumento militante para sinalizar “virtude” e pertencimento ideológico é um ato de irresponsabilidade intelectual. 


Ademais, a banalização rebaixa a discussão. Mais grave: dilui o próprio sentido de tragédias históricas que deram origem à palavra. Como lembrava Hannah Arendt, compreender não é absolver — é distinguir. E, no entanto, o que chama a atenção não é a posição política de certas figuras públicas — cada um tem o direito de pensar o que quiser —, mas a facilidade e a certeza tranquila com que transitam entre os papéis de historiador, juiz, militante e consciência moral da sociedade. 


A mensagem de Schwarcz, na mesma plataforma, segue um roteiro conhecido: começa pela defesa da democracia, passa pela denúncia do ódio, afirma abertura ao erro — e, apoiada nessa “autoridade moral” cuidadosamente construída, desemboca em uma acusação extrema. Há ali muito de éthos e páthos, quase nada de logos. Trata-se de uma retórica eficaz para certo público, mas sustentada por fragilidade conceitual. 


A carta aberta a essas declarações, publicada recentemente por uma advogada criminalista, fundadora e presidente de uma associação de combate ao antissemitismo, tem o mérito de recolocar o debate em seus termos corretos. Não se trata de censura, nem de interditar a polêmica, mas de responsabilizar palavras. 


Na França, sob a presidência de Emmanuel Macron, foi adotada a definição da Aliança Internacional para a Memória do Holocausto (IHRA, na sigla em inglês), segundo a qual determinadas formas de antissionismo — sobretudo as que estigmatizam Israel ou negam sua legitimidade — podem constituir expressão de antissemitismo e ser objeto de sanção. 


O Brasil, país marcado por profundas desigualdades e tensões, não está imune a essas derivas. Ao contrário: a importação acrítica de conflitos externos, somada à superficialidade da discussão nas redes, favorece simplificações perigosas. É nesse contexto que a proposta de Tabata ganha relevância. Não como instrumento de repressão, mas como tentativa de restaurar um mínimo de clareza em uma questão cada vez mais contaminada por slogans e polarizações. Vale notar que o próprio texto da proposta afirma explicitamente que críticas a Israel, quando comparáveis às dirigidas a qualquer outro país, não configuram antissemitismo — o que desmonta, de saída, a tese de censura frequentemente invocada. 


Quando palavras extremas servem para explicar tudo, já não explicam mais nada. "


Opinião por Sheila Leirner Jornalista, escritora, crítica de arte, foi curadora-geral da 18ª e da 19ª Bienais de São Paulo


Estadão /Opinião /Colunas"

sexta-feira, 29 de maio de 2026

Coluna do Estadão

 *Coluna do Estadão: Barroso critica tentativa de ampliar cobertura do FGC no caso Master*


Por Eduardo Barretto, do Estadão


Brasília, 28/05/2026 - O advogado Luís Roberto Barroso, ex-presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), criticou nesta quinta-feira, 28, em referência ao caso Master, a tentativa de aumentar o valor coberto pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC), que protege investidores em caso de falência de um banco. Uma emenda com esse objetivo foi apresentada pelo senador Ciro Nogueira (PP-PI), que foi alvo da Polícia Federal (PF) no início do mês por supostas mesadas recebidas do dono do Master, Daniel Vorcaro. O senador nega irregularidades.


"Não há como um país se tornar desenvolvido sem a elevação da ética pública e da ética privada. Não é só a propina, que já é um mal suficiente do ponto de vista moral. É o conjunto de decisões erradas que se tomam pelas razões erradas. Do aumento do FGC a qualquer outra mudança em que você faz mal para o País para atender a algum interesse privado", afirmou Barroso durante o evento Brasília Tech Summit, promovido pelo Amado Mundo.


Segundo a PF, Vorcaro encomendou ao banco o texto de uma emenda que foi posteriormente apresentada por Ciro Nogueira a uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) no Senado para favorecer a empresa. Os textos eram idênticos, afirmou a PF. O banqueiro disse em mensagens que Ciro era "um dos grandes amigos de vida".


Em conversas no celular, Vorcaro comentou que a emenda apresentada pelo parlamentar "saiu exatamente como mandei". Essa mensagem foi enviada pelo banqueiro em 13 de agosto de 2024, mesmo dia em que o senador apresentou a emenda para elevar de R$ 250 mil para R$ 1 milhão o valor coberto pelo FGC por CPF. Vorcaro descreveu a medida como uma "bomba atômica no mercado financeiro".


No último dia 7, a PF cumpriu um mandado de busca na casa de Ciro Nogueira em Brasília. A corporação afirmou ao Supremo Tribunal Federal que o senador recebia mesadas de até R$ 500 mil de Vorcaro. A defesa do ex-ministro da Casa Civil do governo Bolsonaro diz que "repudia qualquer ilação de ilicitude sobre suas condutas".


Broadcast+

BDM Matinal Riscala

 *Rosa Riscala: PIB no Brasil e esperança de acordo na guerra*


… O mercado inicia a sexta-feira tentando sustentar a expectativa de um acordo entre Estados Unidos e Irã, após relatos de um memorando provisório para estender por 60 dias o cessar-fogo e permitir a reabertura “sem restrições” do Estreito de Ormuz. O avanço diplomático, contudo, continua cercado de incertezas, já que Trump ainda não endossou os termos e novos ataques voltaram a ser registrados na região ao longo da noite. Em paralelo, investidores acompanham uma agenda importante no Brasil, com PIB do primeiro trimestre e resultado fiscal do setor público. No exterior, o dia é mais fraco. Em Wall Street, a Dell disparou no after hours e reforçou o entusiasmo com inteligência artificial.


ESPERANDO O ACORDO – O mercado oscila entre esperança e cautela, diante das negociações para um possível memorando de entendimento entre Estados Unidos e Irã, enquanto novos ataques na região reforçaram a percepção de que o cessar-fogo ainda é incerto.


… No final do dia, relatos de novos confrontos no Estreito de Ormuz voltaram a adicionar tensão.


… A mídia iraniana informou que forças do país lançaram mísseis a partir do sul do território persa, enquanto os Estados Unidos afirmaram ter abatido drones iranianos próximos ao Estreito. A TV iraniana ainda afirmou que uma aeronave americana teria sido abatida perto de Bushehr.


… Nesta quinta-feira, injetou otimismo a notícia da Axios, segundo a qual, americanos e iranianos chegaram a um acordo preliminar para renovar por 60 dias o cessar-fogo, iniciar negociações sobre o programa nuclear de Teerã e permitir a reabertura “irrestrita” de Ormuz.


… O texto, contudo, ainda dependeria do aval de Donald Trump e também do líder supremo iraniano, aiatolá Mojtaba Khamenei.


… Apesar do avanço diplomático parcial, o secretário do Tesouro americano, Scott Bessent, reforçou que qualquer acordo dependerá da reabertura plena de Ormuz, da entrega do urânio enriquecido pelo Irã e do encerramento do programa nuclear iraniano.


… O mercado também segue atento à normalização da navegação na região.


… A Guarda Revolucionária informou que navios continuam precisando de autorização para transitar pelo Estreito, enquanto Washington acusa Teerã de tentar “monetizar” a crise ao impor cobranças e restrições para passagem de embarcações.


… Mesmo com rumores de acordo, o petróleo encerrou o dia em leve alta, refletindo a percepção de que uma eventual reabertura de Ormuz não elimina automaticamente o prêmio geopolítico acumulado desde o início da guerra. O Brent avançou 0,49%, a US$ 92,70 o barril.


AFTER HOURS – Em outra notícia de ontem à noite, a Dell disparou mais de 39% no pós-mercado em Nova York após divulgar resultados muito acima das expectativas e reforçar a percepção de que a demanda ligada à inteligência artificial segue extremamente aquecida.


… A fabricante de servidores e computadores reportou lucro ajustado de US$ 4,86 por ação no primeiro trimestre fiscal, sobre uma receita de US$ 43,8 bilhões, superando com folga as projeções de analistas, que esperavam lucro de US$ 2,96/ação e receita de US$ 35,7 bilhões.


… A receita da divisão de servidores otimizados para IA saltou 757% na comparação anual, para US$ 16,1 bilhões, reforçando a leitura de que a corrida por infraestrutura ligada à inteligência artificial continua impulsionando o setor de tecnologia.


… A empresa ainda elevou suas projeções para o ano fiscal de 2027 e afirmou esperar receita de US$ 60 bilhões com servidores de IA, em sinal de que o ciclo de investimentos no segmento segue longe de desacelerar.


… Antes do balanço, a Dell já avançava após o anúncio de um novo contrato multibilionário com o Departamento de Guerra dos Estados Unidos.


SOBROU TEMPO – Em meio às negociações sobre um acordo entre Estados Unidos e Irã, o governo Trump achou espaço para mexer no tabuleiro político brasileiro e anunciou que irá classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas a partir de 5 de junho.


… A decisão, também no início da noite, pegou o Planalto de surpresa e abre nova frente de tensão diplomática entre Brasília e Washington.


… O governo Lula vinha atuando nos bastidores para evitar a medida e defender ampliação da cooperação policial e de inteligência entre os dois países no combate ao crime organizado transnacional, sem enquadramento formal das facções como grupos terroristas.


… A principal preocupação do Planalto agora é calibrar a reação à investida do presidente Trump sem passar a imagem de que está defendendo criminosos, justamente no momento em que Lula tenta endurecer o discurso na área de segurança pública.


… Integrantes do governo avaliam que a classificação pode gerar consequências jurídicas e diplomáticas imprevisíveis, além de abrir espaço para questionamentos sobre soberania nacional e eventual ampliação da atuação americana em temas de segurança no Brasil.


… Celso Amorim, primeiro a comentar, afirmou que a “cooperação internacional é bem-vinda, mas pretexto para intervenção é inaceitável”.


… O anúncio ocorreu dias após o senador Flávio Bolsonaro se reunir com Donald Trump, J.D. Vance e o secretário de Estado Marco Rubio nos Estados Unidos justamente reforçando a narrativa de interferência externa para combater a criminalidade brasileira.


… Flávio não demorou a festejar a decisão e correu às redes para agradecer Trump: “Grande dia.”


CURTAS DA POLÍTICA – A sexta-feira traz novas pesquisas eleitorais no radar. O PoderData e o Instituto Veritá divulgam levantamentos hoje, enquanto a Vox Brasil publica pesquisa nacional no domingo e um levantamento específico para São Paulo no sábado.


… Nesta quinta, pesquisa Meio/Ideia mostrou Lula com 46,5% das intenções de voto contra 41,4% de Flávio Bolsonaro em um eventual segundo turno presidencial, ampliando a vantagem do petista após o caso envolvendo Daniel Vorcaro e o senador.


REUNIÃO DO GABINETE. O presidente Lula convocou uma reunião ministerial para a próxima quarta-feira, em meio à avaliação do governo de que o cenário eleitoral de 2026 começa a ganhar tração mais cedo do que o esperado.


6X1. O Senado já começou a discutir os próximos passos da PEC que reduz a jornada semanal de trabalho para 40 horas, enquanto governo e oposição tentam transformar o tema em plataforma eleitoral para 2026.


… Entre os nomes cotados para relatar a proposta estão Rodrigo Pacheco, Omar Aziz, Camilo Santana e Efraim Filho, em escolha vista como estratégica por poder sinalizar aproximação do governo com o centro ou tentativa de diálogo com a oposição.


… Davi Alcolumbre também despachou para a CCJ a PEC alternativa defendida pelo PL e coordenada por Rogério Marinho que propõe um modelo de jornada flexível com prevalência de acordos individuais e pagamento por hora trabalhada.


… A oposição tenta transformar a proposta em contraponto à PEC aprovada pela Câmara, enquanto pré-candidatos como Flávio Bolsonaro, Caiado e Zema passaram a defender publicamente modelos alternativos à redução fixa da jornada semanal.


BRB. O acordo para socorrer o Banco de Brasília ganhou nova dimensão política e fiscal após a confirmação de que Banco do Brasil, Bradesco, Caixa, Itaú e Santander devem participar da estrutura de resgate articulada com o Fundo Garantidor de Créditos.


… O pacote prevê empréstimo de cerca de R$ 6,5 bilhões ao governo do DF após o rombo com a compra de créditos ligados ao Banco Master.


… O acordo homologado pelo STF permite que o DF utilize receitas futuras e flexibilize limites de endividamento para bancar a operação, em movimento que críticos classificam como transferência do risco de insolvência do BRB para as contas públicas do Distrito Federal.


MAIS AGENDA – A sexta-feira concentra uma agenda importante no Brasil e mais esvaziada no exterior, em sessão que deve continuar sensível às manchetes sobre o Oriente Médio e às apostas para juros globais na véspera do fim de semana.


… Aqui, às 8h30, o Banco Central divulga o resultado primário do setor público consolidado de abril. A mediana das projeções Broadcast aponta superávit de R$ 23,2 bilhões, após déficit de R$ 80,7 bilhões em março.


… Economistas destacam que o resultado deve refletir o forte desempenho das receitas do Governo Central, impulsionadas pela arrecadação ligada à atividade doméstica, contribuições previdenciárias e receitas associadas ao petróleo.


… Apesar da melhora no curto prazo, analistas seguem alertando para a trajetória da dívida pública e para a deterioração estrutural das contas dos governos regionais em meio ao avanço do ciclo eleitoral.


… Já as 9h, o IBGE divulga o PIB do primeiro trimestre, com a mediana das estimativas apontando para crescimento de 1,1% na margem, após alta de apenas 0,1% no quarto trimestre do ano passado.


… O mercado espera uma reaceleração relevante da atividade, sustentada pelo avanço da renda, mercado de trabalho ainda resiliente, crédito mais forte e medidas de estímulo adotadas pelo governo.


… Além da agropecuária, que continua contribuindo positivamente, economistas destacam melhora mais disseminada da economia, incluindo indústria e serviços, em movimento que pode manter o BC cauteloso em relação ao ritmo de cortes da Selic.


… No exterior, o destaque fica para a inflação preliminar da Alemanha e para o PMI de Chicago nos Estados Unidos, às 10h45, enquanto investidores continuam monitorando qualquer sinal sobre os próximos passos do Fed em meio à pressão do petróleo.


LULA E OS COMBUSTÍVEIS – Ainda no radar doméstico, o presidente e Magda Chambriard anunciam investimentos de R$ 72,5 bilhões da Petrobras em Sergipe, incluindo recursos para o projeto Sergipe Águas Profundas e retomada da Fafen-SE.


… O mercado também acompanha os desdobramentos do reajuste da gasolina anunciado pela Petrobras, que elevou o preço nas refinarias em R$ 0,48 por litro a partir de hoje, mas com impacto reduzido para distribuidoras e consumidores após a subvenção do governo.


… O reajuste é menos da metade da defasagem dos preços da Petrobras em relação ao mercado internacional, que estava em 55% até quarta, 27, segundo a Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom).


DEMOROU, MAS CHEGOU – Diferente da inflação, que ainda está demorando para sentir o impacto da Selic contracionista, os dados do emprego deram ontem sinais mais convincentes de que estão respondendo ao juro alto.


… O Caged de abril mostrou a criação de 85,9 mil empregos, abaixo da piso das estimativas do Projeções Broadcast, de 130 mil vagas, e bem inferior à mediana de 211 mil, indicando desaceleração importante do mercado de trabalho.


… Foi a menor abertura de postos para o mês em quase uma década, desde 2017, sinalizando possível movimento inicial de desaquecimento na geração de empregos. O mercado ainda vai precisar de um tira-teima sobre o dado.


… Economistas disseram ao Valor que a validação da perda de fôlego do quadro da mão de obra ainda terá de ser confirmada a partir da análise dos próximos dados para atestar se o cenário reflete uma tendência estrutural.


… Mesmo porque o emprego veio forte nos três primeiros meses do ano. Ou seja, o investidor precisa ter maior segurança se o resultado mais fraco de abril é isolado ou se marca o começo de uma desaceleração sustentada.


… Seja como for, o Caged em um patamar mais bem controlado reduz o desconforto do BC e “fica mais agradável falar em algum grau de confiança na desaceleração da atividade”, avalia o economista do Santander Henrique Danyi.


… O fato de o setor de serviços ter apresentado uma perda de impulso muito forte na geração de postos de trabalho desperta a esperança de que, em algum momento, isso se reflita em menor pressão inflacionária no segmento.


… O BC não esconde que a inflação no setor de serviços se mantém como ponto de atenção e cautela.


… Em evento do Pine, ontem, o diretor do BC Nilton David disse que a guerra “come a gordura” da Selic para lidar com choques, mas que o BC não permitirá que as altas expectativas de inflação se traduzam em inflação real.


… Segundo ele, os impactos de oferta decorrentes da ofensiva militar no Irã devem afetar apenas os horizontes de projeção mais curtos. “Tudo ainda pode ser feito em relação à inflação em 2028, que saltou aos olhos no Focus.”


… Quanto ao reajuste da gasolina anunciado ontem pela Petrobras, cálculos no mercado indicam que o reflexo deve ser desprezível, de só 2 pontos-base no IPCA de junho, segundo a Warren, porque será atenuado pela subvenção.  


… Os juros futuros chegaram a bater mínimas na tarde de ontem, coincidindo com os sinais mais claros de perda de dinamismo do Caged em abril. Mas os comentários duros de Nilton David ajudaram a zerar as quedas na curva.


… Também um leilão pesado de títulos prefixados de Tesouro influenciou para as taxas terminarem em alta.


… No fechamento, o DI com vencimento em janeiro de 2027 marcava 14,100% (de 14,057% no ajuste anterior); Jan/28, 13,905% (13,848%); Jan/29, 13,885% (13,818%); Jan/31, 13,960% (13,909%); e Jan/33, 14,050% (14,002%).


DO CONTRA – A rigor, os juros futuros teriam caído, se dependesse só queda do dólar e das taxas dos Treasuries.


… O real recuperou terreno, de carona na alta modesta de 0,49% do petróleo Brent para agosto, a US$ 92,70, que não botou muita firmeza no fim próximo da guerra, com os desmentidos de que já haveria um consenso.


… Apesar de o dólar ter registrado ontem um alívio de 0,57% e devolvido boa parte da alta acumulada na semana, seguiu acima de R$ 5, a R$ 5,0318. Hoje, no último pregão do mês, o câmbio será influenciado pela definição da ptax.


… Lá fora, a surpresa com o PCE mais leve que o esperado animou. O índice de inflação olhado mais de perto pelo Fed subiu 0,4% em abril, abaixo da previsão de 0,5%. Na base anualizada, veio em linha com o esperado (3,8%).


… Mas ainda continua rodando bem acima da meta de 2%. O mercado não descarta o risco de alta do juro em dezembro ou janeiro, segundo a ferramenta de apostas do CME, e os Fed boys não desqualificam esta hipótese.


… A possibilidade de um aperto monetário “é maior do que zero”, disse Alberto Musalem. “Se não observarmos desinflação nos próximos seis meses, isso me preocuparia e pode ser necessário subir as taxas de juros”, avisou.


… Já John Williams disse que o Fed ainda está bem posicionado para avaliar os efeitos da ofensiva militar, antes de precisar tomar uma decisão. “A política monetária está onde queremos que esteja”, avaliou em conferência.


… Além de o PCE não ter assustado, a segunda leitura do PIB dos Estados Unidos também aliviou. O indicador apontou crescimento de 1,6% no primeiro trimestre, em base anualizada, abaixo da estimativa de alta de 2%.


… O dólar enfraqueceu globalmente, com o índice DXY em queda de 0,19%, a 99,020 pontos. O euro subiu 0,18%, a US$ 1,1647. O suporte veio do tom conservador assumido pela ata do BCE, que reconheceu a chance de alta no juro.


… Segundo o documento, vários membros não teriam se oposto a um aumento, já que ficou evidente que o choque da energia não só foi grande, como mais persistente, com risco de se propagar à dinâmica inflacionária em geral.


… “É cada vez mais improvável que uma abordagem de acompanhamento sem qualquer ação de política monetária seja apropriada; até junho, mais informações sobre o impacto do choque energético estarão disponíveis”, disse a ata.


… Em evento, o economista-chefe do BCE, Philip Lane, endossou a abordagem hawkish e alertou que, mesmo que haja uma solução rápida para a guerra, “os efeitos da segunda onda permanecerão conosco por algum tempo”.


… A libra esterlina registrou leve alta de 0,10%, a US$ 1,3441, e o iene subiu para 159,23 por dólar.


ABAFA O CASO – Além de acalmar o câmbio, o PCE comportado derrubou os juros dos Treasuries e sustentou as bolsas em Nova York. O dado não encerra o debate de aperto do Fed. Mas só de não piorar o ambiente, já foi bom.


… O rendimento da Note de 2 anos caiu a 4,022% (contra 4,034% na véspera), o de 10 anos, a 4,451% (de 4,480%), e o do T-Bond de 30 anos voltou a ser negociado abaixo de 5%, em 4,980%, contra 5,010% no ajuste anterior.


… Em Wall Street, teve ainda o otimismo com as gigantes de tecnologia, em meio ao boom da inteligência artificial, para garantir mais uma rodada de recordes históricos para os três principais índices de ações americanos.


… O Nasdaq avançou 0,91%, aos 26.917,47 pontos, o S&P 500 registou ganho de 0,58%, para 7.563,63 pontos, e o índice Dow Jones encerrou perto da estabilidade, em alta marginal de 0,05%, aos 50.668,97 pontos.


… Nem a performance positiva de Nova York e tampouco o alívio do Caged conseguiram embalar o Ibovespa, que fechou em baixa moderada de 0,39%, aos 175.063,41 pontos, com volume financeiro de R$ 20,7 bilhões.


… Petrobras caiu apesar do anúncio do reajuste da gasolina, talvez porque o aumento já estivesse precificado desde que o governo editou a MP que subsidia o combustível. O papel ON caiu 1,16%, a R$ 47,54, e PN, -0,72%, a R$ 42,51.


… Os bancos também recuaram. BB (-2,18%) e BTG unit (-1,25%) terminaram nas mínimas de R$ 20,61 e R$ 54,30, respectivamente. Santander unit caiu 0,91% (R$ 27,22); Itaú, -0,79% (R$ 40,00); e Bradesco PN, -0,56% (R$ 17,90).


… A ação da Vale avançou 0,61% (R$ 83,96), apesar do minério de ferro praticamente estável (-0,06%). Copasa ficou no topo do Ibovespa, com +4,32% (R$ 52,94), após divulgar novo prospecto de oferta de ações para a privatização.


CIAS ABERTAS NO AFTER – Conselho do ITAÚ aprovou a distribuição de R$ 3,99 bilhões em JCP, equivalentes a R$ 0,36188 bruto por ação. Os papéis ficam ex em 19/6 e o pagamento ocorrerá até 31/8.


SANTANDER. O banco submeterá à AGE de 30 de junho a incorporação da Esfera Fidelidade, com transferência integral do patrimônio da subsidiária.


PETROBRAS. O Carf cancelou autuação fiscal de R$ 1,08 bilhão contra a companhia relacionada à cobrança de PIS/Cofins sobre contratos de transporte de gás.


BRAVA. Debenturistas da 4ª emissão aprovaram consentimento prévio para eventual aquisição de controle pela Ecopetrol, no âmbito da OPA. Se a oferta for bem-sucedida, a estatal colombiana passará a deter 51% do capital.


RUMO. A companhia inaugura em 19 de junho o novo terminal da BR-070 e o primeiro trecho da Ferrovia do Mato Grosso. O projeto tem capacidade para movimentar até 10 milhões de toneladas de grãos por ano.


SIMPAR. A companhia pagará R$ 100 milhões em dividendos, equivalentes a R$ 0,17130 por ação, em 15 de junho.


SMARTFIT. Conselho aprovou distribuição de R$ 40 milhões em JCP, equivalentes a R$ 0,06516 por ação. As ações ficam ex em 05/06.


OI. A companhia adiou a divulgação do formulário de referência de 2025 em razão dos atrasos na publicação das demonstrações financeiras e ITRs.


FERBASA. A companhia renovou programa de recompra de até 3,2 milhões de ações preferenciais até maio de 2027.

quinta-feira, 28 de maio de 2026

6x1: por https://www.linkedin.com/in/jronaldosouza/?locale=pt&lipi=urn%3Ali%3Apage%3Ad_flagship3_profile_view_base%3BwXsNiGwrR1uuch19LBkXFg%3D%3D

 



Acompanho a tramitação da PEC que reduz a jornada para 40 horas e proíbe a escala 6x1. O problema dessa proposta não está no objetivo. Trabalhar menos é uma aspiração razoável. Está na forma escolhida para chegar lá: atalho constitucional, transição quase simbólica e desconsideração da heterogeneidade da economia brasileira.


A jornada média efetivamente praticada no Brasil já é de cerca de 38 horas semanais, e chegamos aí pela negociação coletiva, setor a setor. A maior parte dos acordos coletivos cuida de jornada sem maiores ruídos. Setores têm naturezas distintas: turnos contínuos, sazonalidade, intensidade de mão de obra, margens. Aplicar a mesma régua a toda a economia ignora o que vinha funcionando.

Vale a comparação internacional. Mesmo a França, com regras trabalhistas das mais rígidas do mundo, não proíbe a 6x1: a jornada padrão é de 35 horas, mas trabalhar até seis dias por semana segue permitido, garantido o descanso semanal mínimo. Se nem o sistema mais rígido vetou, fazê-lo aqui por canetada constitucional é difícil de defender.

Há ainda um agravante regional: o ônus vai recair justamente nas regiões mais dinâmicas, onde o mercado de trabalho está mais apertado. Quem vai cobrir as horas descobertas no cinturão agroindustrial do Centro-Oeste, no interior catarinense ou no Noroeste paulista? A conta é simples: custos sobem, parte vira preço, parte vira informalidade, parte vira fechamento de vaga. As pequenas empresas, sem folga de margem, sofrem mais. E os trabalhadores que se quer proteger acabam expostos ao oposto. Tiro pela culatra.

Outro ponto: não se ganha produtividade por restrição determinada por lei. Onde a redução de jornada deu certo, ela veio depois dos ganhos de produtividade, não antes. Inverter essa ordem num país que há mais de uma década roda com produtividade estagnada é apostar contra a aritmética.

O que mais me preocupa é o padrão. Decisões com impacto sistêmico sobre a economia estão sendo tomadas sem a devida atenção a seus efeitos completos. A evidência já está à mesa: para amortecer o choque, negocia-se em paralelo a ampliação do MEI, com teto de faturamento maior e autorização para contratar até dois empregados. Pela conta da própria Fazenda, são cerca de R$ 50 bilhões por ano em arrecadação e mais pressão sobre a Previdência, cuja alíquota de 5% do salário mínimo não cobre os benefícios futuros. Cria-se um problema fiscal e atuarial para consertar outro que não precisava existir.

Trabalhar menos é agenda válida. Para dar certo, precisa ser construída por setor, com prazos realistas e via negociação, como já vinha acontecendo. Atalho constitucional, com prazo simbólico, não é reforma: é populismo. E populismo, na economia, raramente paga a própria conta. Quem paga, no fim, costuma ser quem se queria proteger.

Falei mais sobre isso em entrevistas ao Estadão (Eduardo Laguna) ao Valor Econômico (Marcelo Osakabe) desta semana.

Minerva fechando capital

 https://oglobo.globo.com/blogs/capital/post/2026/05/com-acoes-em-queda-minerva-foods-volta-a-avaliar-fechar-capital-na-bolsa.ghtml


*Com ações em queda, Minerva Foods volta a avaliar fechar capital na Bolsa*


Capital - Por Rennan Setti


Com as ações acumulando queda de quase 28% no ano, a Minerva Foods voltou a avaliar internamente o fechamento de seu capital na Bolsa, apurou a coluna junto a fontes a par das conversas. Segundo avaliações preliminares, eventual oferta movimentaria cifra bilionária para ser inteiramente bem-sucedida, com o capital do frigorífico passando a ficar até 100% nas mãos dos atuais controladores — a família Vilela de Queiroz e a gestora saudita Salic.


Não está claro se as intenções já foram apresentadas ao conselho da Minerva ou se alguma medida concreta para colocá-las de pé já foi tomada. Procurada pela coluna na tarde de quarta-feira, a Minerva não respondeu aos pedidos de comentários até o momento.


O desenho da operação que vem sendo discutida preliminarmente prevê que os Vilela de Queiroz fiquem com mais de 54% da companhia, enquanto a Salic teria o restante do capital. Hoje, as duas possuem, juntas, mais de 53% da Minerva.


*Desafio*


O desafio da transação está no fato de o free float — as ações que circulam nas mãos de investidores da Bolsa — responder por mais de 45% do capital do frigorífico, aumentando o cheque que teria que ser pago pelos controladores para retirar a empresa da Bolsa. Em momento de juros altos, isso pode representar um obstáculo relevante para que o plano seja concretizado.


Um dos objetivos da OPA seria ganhar a adesão de pelo menos 90% dos investidores do free float, percentual que permitiria aos controladores realizar o chamado “squeeze-out” — ou seja, a compra compulsória das ações de minoritários que não concordem com o negócio.


Em uma simulação hipotética que leva em consideração a cotação atual da Minerva e um prêmio de 30% sobre o preço de tela dos papéis, os controladores teriam que desembolsar cerca de R$ 2,3 bilhões para comprar todo o free float. Mas, como a regulação exige quórum mínimo de dois terços para cancelamento de registro, os controladores conseguiriam retirar a Minerva da Bolsa com um cheque da ordem de R$ 1,5 bilhão.


*Razões*


A transação seria financiada por emissão de dívida, que depois seria incorporada pela Minerva. O acordo de acionistas entre Vilela de Queiroz e Salic seguiria valendo após a eventual operação — que, se de fato vier a mercado, levaria de quatro a seis meses para ser concretizada.


Os controladores estariam avaliando fechar o capital da Minerva porque acreditam que a companhia está excessivamente descontada na Bolsa, sendo negociada a múltiplos inferiores aos de seus pares. Eles também entendem que o mercado não está precificando adequadamente as sinergias da aquisição das operações de abate e desossa da Marfrig na América do Sul, transação de R$ 7,5 bilhões concluída há dois anos.


No longo prazo, os acionistas entenderiam que a OPA abriria a porta para a companhia fazer, eventualmente, um re-IPO na Bolsa da Arábia Saudita, com o objetivo de acessar investidores internacionais com maior facilidade e, consequentemente, atingir múltiplos maiores. (Enquanto a Minerva cai quase 30% na B3, a JBS, que está listada em Nova York, recuou menos de 7% este ano.)


*De novo*


Não há qualquer garantia, porém, de que o plano será concretizado. Há cinco anos, a Minerva também estava estudando sair da Bolsa, como publicou o Pipeline, site de negócios do Valor Econômico, na ocasião. Mas nada aconteceu.


O plano volta à mesa em momento de pressão para as ações da Minerva. Mesmo com a queda acumulada este ano, o Itaú BBA retirou, nos últimos dias, sua recomendação de “compra” para os papéis do frigorífico. Os analistas atribuíram a decisão a uma virada no ciclo pecuário no Brasil, com gado mais caro e queda nos volumes de abate. Dúvidas sobre a demanda chinesa também pesaram.

Economic Thought

  Já se perguntou como a economia realmente começou? Antes dos gráficos, antes das equações... Houve ideias poderosas que moldaram o mundo ...