terça-feira, 12 de maio de 2026

Hugo Studart

 Voltou ao noticiário essa besteira imensa de que JK teria sido assassinado pela ditadura militar. Teoria conspiratória vulgar descolada de qualquer senso lógico ou fatico.


Ora, ora, a ditadura matou mais de 300, contudo, Juscelino não estava entre eles. Morreu de acidente de carro. Nem João Goulart que morreu de enfarto. Aos fatos:


1) Em 1976, quando ambos morreram, o país estava na chamada Abertura. Lenta, gradual e segura, segundo a definição de seu artifice, Ernesto Geisel. Mas já não era mais uma autocracia explícita, uma ditadura. Era uma fase histórica de distensão politica, sem repressão violenta.


2) Desde as mortes do jornalista Wladmir Herzog, em outubro de 1975, e do operário Manoel Fiel Filho, em janeiro de 1976, ambos mortos sob cruel tortura, as forças de repressão estavam acuadas pelo próprio regime militar. Ja não prendiam nem matavam ninguém (isso só voltaria em 1981).


3) Desde 1967 ou 1968, Juscelino convivia tranquilamente com os militares no poder. Morava entre o Rio e Brasília. Estava com os direitos políticos cassados. Passava os dias entre os amigos e as noites na boemia escancarada, sem ser importunado. Havia um acordo informal com o regime: JK não se envolveria com política e os militares nao se envolveriam com JK. E assim transcorreu até sua morte.


4) Jango, por sua vez, nesse período estava exilado em uma de suas fazendas no Uruguai. Bebia e comia muito. Estava deprimido.


5) Em 22 de agosto de 1976, Juscelino estava em São Paulo em viagem de negócios. Ao final da tarde, decidiu viajar para o Rio de Janeiro, de automóvel. O tempo fechado anunciava uma forte tempestade. Seu amigos tentaram demovê-lo. O fiel motorista Geraldo Ribeiro também argumentou. Mas Juscelino aloprou. Queria porque queria dormir no Rio de Janeiro com sua amante Maria Lucia Pedroso, paixão desde 1958. Então tomaram a Via Dutra.


6) Na altura de Resende, Estado do Rio, debaixo de uma chuva torrencial e sem visibilidade, um ônibus comercial cgeio de passageiros abalroou o Opala de JK. O motorista Geraldo perdeu o controle, atravessou a pista e bateu de frente em um caminhão que vinha no sentido Rio-SP


7) A perícia foi realizada pelo próprio Diretor do IML do Rio, Dr. Castelo Branco, que constatou mortes por acidente.


8) Na década de 1990, o jornalista Carlos Heitor Cony precisava escrever sua crônica semanal para a revista Manchete mas estava sem assunto concreto. Então escreveu sobre a coincidência das mortes de Jango e de JK, em datas próximas, e especulou que poderiam nao ter sido acidente e infarto. Não apresentou qualquer indicio que sustentasse sua teoria da conspiração, nas tão-somente a liberdade criativa.


9) Mais duas décadas se passaram e o governo Dilma instalou a Comissão Nacional da Verdade. Foi quando a crônica criativa de Cony ganha força de versão oficial. Sabe-se la como, encontraram indícios de que algum carro surgiu da penumbra e um agente secreto deu um tiro na cabeça do motorista Geraldo. E foi assim que JK passou a ser mais um assassinado da ditadura, sem qualquer prova ou indicio a sustentar a hipótese.


10) Ora, se os militares quisessem matar JK, teriam feito o serviço quando o AI-5 estava em vigor. Um assalto, uma injeção letal que simulasse infarto, qualquer método dentre os muitos que usavam para se livrar dos adversários.


11) Mas os assassinos esperaram pacientemente pelo dia no qual Juscelino, em viagem, teria um surto de saudades da eterna amante e decidiria viajar sob tempestade bíblica. Eita espionagem bem feita. Então os espiões seguiram o carro de JK por 250 quilômetros. Combinaram o jogo com o motorista do ônibus da Viação Cometa que, de alguma forma misteriosa, adivinhou o momento perfeito que deveria bater no carro de JK. Decerto o motorista do onibus também sabia que Geraldo atravessaria a pista quando um caminhão viria em sentido contrário. 


Em conclusão:

Ou os agentes da ditadura eram absolutamente eficientes, geniais no planejamento e na execução de suas conspirações assassinas;


Ou a turma desse novo Febeapa, Festival de Besteira que Assola o País, nos considera absolutamente desmiolados.


É o que sei; é o que penso.


Em tempo: Escrevo com a autoridade de quem ja investigou e publicou dezenas de mortes da ditadura, algumas com crueldade extrema, como a de Maria Lucia Petit, enterrada viva por jagunços a serviço do Exército, ainda tão jovem que era virgem, ou a de Manoel Fiel Filho, operário padrão sem qualquer envolvimento com a poltica, torturado até "estourar".


Hugo Studart

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