https://oglobo.globo.com/economia/tony-volpon/coluna/2026/05/brasil-na-moda-de-novoagora-vai.ghtml
*Brasil na moda de novo…agora vai?*
_Todo ajuste é mais fácil de fazer, tanto econômica quanto politicamente, quando o ciclo está na sua fase positiva_
Apesar do evidente mau humor do brasileiro neste momento, algo que atormenta um governo e um presidente que acreditam ter tido grande sucesso na entrega de benefícios para a população, o Brasil está em alta com os “gringos”, o mercado financeiro global.
Vamos a alguns indícios dessa nova relação de amor. Nossa moeda está entre algumas das que mais valorizaram neste ano, subindo ao redor de 11% contra o dólar americano. Nossa Bolsa, que nos últimos anos foi abandonada às moscas pelo investidor local que fugiu para todo o tipo de renda fixa, hoje está mostrando uma valorização anual de 60% em dólar. Ao redor de R$ 60 bilhões foram aplicados por investidores estrangeiros na nossa Bolsa neste ano.
E, muito diferente do normal, a eclosão da guerra de Estados Unidos e Israel contra o Irã não mudou essas tendências — apesar de o choque energético impactar a inflação ao ponto de o mercado prever um ciclo de queda de juros bem mais modesto, o que em tese deveria impactar negativamente a precificação dos ativos financeiros.
Seria uma das explicações as expectativas sobre o pleito em outubro? É verdade que, justamente ou não, os investidores estão torcendo em sua maioria para a derrota de Lula em outubro, mas a corrida está muito incerta para alguém justificar uma alocação baseada em alguma previsão eleitoral. Isso deve acontecer bem mais perto da data da votação.
Um fator que com certeza está tornando o Brasil popular é a nossa crescente importância no mercado global de petróleo. Somos o 9º maior produtor do mundo, produzindo ao redor de 5 milhões de barris por dia, e há previsões de que podemos nos tornar o 5º até o final da década.
No ano passado, as exportações chegaram a US$ 45 bilhões de receita. Hoje, o petróleo concorre com a soja como nossa maior exportação e deve, tranquilamente, ganhar a concorrência neste ano.
Obviamente, nesta questão a guerra tem sido algo positivo. Independentemente do seu desfecho, o mundo viu que a oferta vinda do Oriente Médio pode ser facilmente interrompida, e assim fontes de petróleo longe daquela área ganham destaque. Nosso relativo isolamento geográfico, algo bastante negativo para o desenvolvimento e a integração do Brasil nas correntes de comércio globais, neste caso é algo positivo.
Esse ponto merece uma reflexão adicional. No início do milênio, a última vez que o Brasil esteve na moda, a ascendência econômica chinesa permitiu a criação de uma extensa rede de oferta ao redor da China. Países vizinhos, como a Coreia do Sul e o Japão, foram grandes beneficiários.
O Brasil aumentou muito suas exportações de bens primários, mas ficou de fora da grande concentração da oferta de manufaturados na China. Mas isso, que foi o auge da globalização, hoje se reverte, e a palavra de ordem é diversificar a oferta de insumos. Assim, nosso isolamento geográfico não pesa tanto como no passado recente, inclusive por estarmos longe das zonas de conflito.
Ajuda também o fato de sermos uma grande democracia, apesar de todos os problemas institucionais que continuamos a ter. O investidor global, olhando o mundo, vê crescentes conflitos e polarização política. Podemos argumentar que estamos vivendo uma crise política, mas nisso temos muita companhia.
Todos devem conhecer o ditado: “O Brasil não perde uma oportunidade de perder uma oportunidade”. Na última vez que estivemos na moda, durante o ciclo chinês de commodities entre 2002 e 2011, houve muitos avanços econômicos e sociais, mas fizemos várias escolhas como se aquele ciclo fosse permanente, e não estávamos preparados quando ele se desmontou.
As tentativas cada vez mais desesperadas de manter a economia crescendo feitas pelo governo Dilma levaram à maior recessão da nossa História, a partir de 2014. Nosso PIB per capita em dólar teve seu pico em 2011, e até hoje não superamos aquele patamar.
Tudo aponta que vamos viver mais um ciclo positivo. Um governo responsável aproveitaria essa oportunidade para fortalecer as contas públicas, ainda muito frágeis. Todo ajuste é mais fácil de fazer, tanto econômica quanto politicamente, quando o ciclo está na sua fase positiva. Mas, infelizmente, governos tratam bons tempos como razão para não fazer nada, já que a pressão do mercado por reformas enfraquece.
Aí, no meio de uma crise inesperada, tentamos fazer o ajuste — pense na Dilma em 2015. Aí as chances de sucesso são mínimas — pense na Dilma em 2016.
Espero que os sortudos presidentes deste novo ciclo estudem essa triste história."
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