Mandei este conto para uma revista, mas ele foi recusado. Que pena. Resolvi, então, publicar a peça neste espaço, onde o editor (guardados certos limites), sou eu. Minha esperança é que, pelo menos, Helga Hoffmann, Mozart Foschetti Silva e Carmen Lícia Palazzo o leiam.
OS CURDOS SÃO SURDOS?
Gustavo Maia Gomes
Com Antônio Ferreira, depois que ele parou de vagar pelo mundo com Raimundo, tudo andou mal, como os trens da Central e os rios de Blumenau. Mas, isso passou e a castanha assou. Ele tornou-se um adulto culto, que detesta tumulto e não engole insulto, um militar militante e vigilante do Forte da Morte, localizado no ponto mais alto do Monte Alto, entre a entrada da estrada e a saída de Aída.
Nessa nova vida sem fatia parida, o sonho de Tonho era levar o almirante ao mirante. Por um fio, ele venceu o desafio. Para comemorar, ao fim e ao cabo, segurou pelo cabo o fuzil do cabo que servia no Cabo. Não no Cabo Frio, que lhe causava arrepio, nem no Cabo das Tormentas Violentas. No Cabo de Santo Agostinho, o irmão do Julhinho e do Setembrinho.
Pelo bom serviço prestado e com dinheiro emprestado, a Deus temente, Antônio virou tenente. Tomou-se de uma fé dentina, tridentina, sem se alertar de que fé demais fede mais.
– “Os curdos são surdos?”, perguntou-lhe o coronel Joel, dono do quartel.
– “Não, não são surdos nem absurdos, os curdos”, disse o tenente temente.
Isso que ele disse não é doidice nem tolice, pois Tonho teve muitos amores e vários rumores, mas as suas namoradas curdas não eram surdas.
A primeira foi Lia, a que não lia porque não sabia. (A tia de Lia, Maria, sofria de azia e era mãe de Sofia.) Houve também a Bina. “Minha cara Bina”, ele escrevia na latrina ou na cantina tomando penicilina. A namorada seguinte, Graças, só lhe trouxe desgraças. Numa reunião da igreja, Antônio não a despiu, a despediu. Enquanto os fiéis diziam “graças a Deus”, ele disse: “Graças, adeus”.
Depois disso, o militar militante virou amante de Nancy Cidade, urbanista famosa, com uma sobrinha de nome Dora, por quem ele enlouqueceu na hora. A tia entrou em pânico britânico, tirânico. Deixou de trabalhar, virou indigente, como tanta gente. Desde então, Nancy Cidade passa necessidade. Tonho, por sua vez, detesta a Dora, mas adora a prima da Dora, que se chama Glostora.
Ele pensava nisso quando acordou atordoado. Ou, melhor, foi acordado.
– “Tira a bota e bota a tira”, ordenou-lhe o coronel Joel Pimentel.
Estava disforme o uniforme do tenente. Repelente, de fato. Ele obedeceu no ato. O outro não atenuou, continuou:
– Trate sem descaso deste caso de sumiço hortaliço.
– “O que houve com a couve?”, quis saber Tonho, risonho.
– “Houve o que se ouve: mataram o arquivo morto”, disse Joel, o coronel.
Disso, Antônio sabia, mas não sabia que o outro sabia que ele sabia, mesmo porque não era sábio que o soubesse. Perguntou:
– Quais são as suas impressões digitais sobre assuntos tais?
O coronel tapeou-o, estapeou-o, imobilizou-o e reverteu a ordem:
– Tira a tira e bota a bota.
Tonho obedeceu, não esmoreceu. Depois de um mês, chegou a vez de ele dizer o que havia feito pra consertar o malfeito:
– Pelo seu jeito suspeito, o perigoso criminoso é o vigário Sicário.
– “É o cúmulo!”, disse o coveiro, sentado no túmulo.
Ele curava padecimentos com pás de cimento.
Também discordou, sentada lá atrás, a atriz Stella Artoás, que tinha um long neck, no futebol era beque, usava leque e passava o cheque:
– “Foi a Vanja quem tomou a canja”, ela afirmou.
Stella tem hepatite de sobra e apetite de cobra.
Enquanto isso, no quartel do coronel Joel, estava tudo ao léu. O capitão Tinhorão exibia como butim do crime um pudim de creme. O gramático, dramático, ameaçava tomar medidas drásticas e providências gástricas. O varredor vereador disse que o deficiente da fala havia mentido em desmentido.
– “Eu mudo, eu mudo”, defendeu-se o mudo – e foi tudo.
Nesse momento, Tonho soube que sua namorada Bartira partira. “Cafetina”, esbravejou Cristina, que sofria da retina e era amiga de Corina. Ela aconselhou, com seu jeito morno, ao provável corno:
– Procure com Vicente uma explicação convincente.
Vicente era um vidente que nada via, nem sabia.
E assim o caso chegou ao fim. Esquecido e escondido, um dia, Tonho, tristonho, refletia em frente ao espelho, coçando o joelho e roçando os coelhos:
– Como meu talento tá lento, prefiro morar mal na zona rural.
Desde então, ele acha comoventes os semoventes; sonoras como violas as graviolas; poética, se não ética, a pata puta a quem imputa a disputa entre os irmãos Cravinhos e os bebedores de vinhos.
Dias depois, outro crime aconteceu pelos lados do quartel do Joel Pimentel, perturbando o descanso do ganso e os sonhos de Tonho: jogado do nono andar, sem saber voar, João Nascimento virou João no cimento.
O coronel que mandava no quartel deu ordem ao tenente Antônio para prender os radicais livres. Era ilegal, pegaria mal, mas, com efeito, teria de ser feito.
– “A Casa Branca me deu carta branca”, justificou-se Joel.
Disse mais: uma sujeita suspeita fora vista na Bela Vista comendo marmelada e saindo do mar melada.
Antônio declinou em latim, mas sem latir. Ao quartel não quer voltar, nem ser de novo militar. Gostou de deixar o asfalto e ir morar no planalto. É feliz com o seu concriz. Só lhe faz falta uma xícara na chácara.
Ele agora namora a Tina, a argentina. Seus amigos a acham feia e confusa, obtusa. Ou uma coisa pior, que rima com Tina. Nem vou dizer o quê, nem por quê. Tonho discorda. Da feiura, não, mas lhe enaltece a inteligência, cultivada com paciência. Não sei se é sincero, nem saber quero.
Disto eu sei: toda vez que Tina fala, com as mãos juntas, Tonho pergunta:
– Qué que tu cré, Tina?
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