Encontrei, no fim da tarde, em Copacabana, um velho conhecido. Um homem de cerca de cinquenta anos, advogado, professor universitário, intelectualmente sofisticado e profissionalmente muito bem-sucedido. Daqueles perfis que, à primeira vista, inspiram respeito imediato.
Tem mestrado em Direito Constitucional pela Universidade de Brasília e dois doutorados em Direito, um pela Universidade Stanford e outro pela Universidade do Texas. Pelo que me recordo, realizou ainda estágio pós-doutoral na América do Norte, entre os Estados Unidos e o Canadá. Circula com desenvoltura entre São Paulo e Rio de Janeiro. Em São Paulo, integra como advogado um grande escritório. No Rio, leciona em uma universidade de prestígio.
Não é alguém improvisado. Ao contrário. É alguém moldado pelas melhores instituições, pelos ambientes mais exigentes, pela lógica do mérito acadêmico e profissional.
Conversamos.
Ele me perguntou, com naturalidade, o que eu pensava sobre o que está acontecendo na governadoria do estado do Rio de Janeiro. Respondi de forma direta, como costumo fazer.
Ele ouviu, sorriu levemente e, sem hesitar, apresentou sua posição.
Disse, com todas as letras, que o melhor para o Brasil seria um “absolutismo do Judiciário”. Não como metáfora. Como proposta concreta. Defendeu que as eleições de outubro deste ano deveriam ser canceladas. Que o Judiciário, especialmente suas instâncias superiores, deveria assumir um papel ainda mais ativo e decisivo, como, segundo ele, já vem ocorrendo no caso do governo do estado do Rio de Janeiro.
Foi além.
Afirmou que governadores deveriam ser nomeados. Que deputados estaduais e federais deveriam deixar de ser legisladores e passar a atuar como uma espécie de ouvidores da população. Que o Senado Federal, em sua visão, poderia simplesmente deixar de existir. Tudo isso, segundo ele, geraria eficiência e uma economia significativa de recursos públicos.
Falava com convicção. Sem ironia. Sem provocação.
Chegou a elogiar a experiência recente no Rio de Janeiro, destacando a atuação de um desembargador à frente do governo estadual, classificando-a como notável, digna de reconhecimento. Para ele, ali estaria um modelo. Um desenho possível de futuro.
Ouvi tudo com atenção.
Confesso que me causou perplexidade. Não pela ousadia da formulação, mas pela origem dela. Não se tratava de um discurso marginal, de alguém alheio às instituições. Era exatamente o contrário. Vinha de alguém profundamente integrado ao sistema, formado nas melhores tradições jurídicas, plenamente consciente do significado de cada palavra que pronunciava.
Havia ali uma espécie de ruptura silenciosa. Como se a confiança na política representativa tivesse cedido lugar a uma aposta na tutela institucional. Como se a complexidade da democracia pudesse ser substituída por uma engenharia de poder mais direta, mais concentrada, mais “eficiente”.
Terminamos a conversa de forma cordial. Ele pagou o café e, à moda carioca, deixou um convite aberto para um almoço em breve.
Seguimos caminhos distintos na Avenida Nossa Senhora de Copacabana, na altura da Praça do Lido, entre o movimento intenso e indiferente da cidade.
Fiquei com a sensação de que aquela conversa, breve e casual, carregava algo maior. Não apenas uma opinião isolada, mas um sinal. Um indício de que certas ideias, antes impensáveis, começam a circular com naturalidade em ambientes altamente qualificados.
E isso, mais do que tudo, inquieta.
Paulo Baía em 24 de abril na cidade do Rio de Janeiro.
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