Gratidão
Gratidão
“Posso dizer que na minha vida, com todos os obstáculos, curvas e desvios que precisei enfrentar, tudo foi se desenvolvendo e ocorrendo com muita paixão, dedicação e gratidão.”
Victor Mirshawka
“O impossível só vira realidade se você estiver bem preparado quando a chance aparecer.”
Oscar Schmidt
Sob a denominação genérica de “Gratidão”, vou me referir neste artigo a episódios ocorridos de 13 a 18 de abril, tendo como protagonistas dois ex-jogadores de basquete com os quais tive o privilégio de conviver e que se transformaram em figuras de destaque, dignas de admiração.
O primeiro deles chama-se Victor Mirshawka, que lançou o livro Gratidão à vida em dois concorridos e emocionantes eventos. No dia 13, sob a designação “O grande reencontro”, o evento teve lugar no parque aquático Wet’n Wild, e reuniu, predominantemente, praticantes do basquete − jogadores, técnicos, dirigentes, juízes, jornalistas especializados − de diferentes gerações.
No dia 18, no auditório da Escola Americana da Universidade Presbiteriana Mackenzie, o evento reuniu predominantemente colegas do curso de engenharia, professores e ex-alunos, muitos dos quais também mackenzistas.
Em suas falas, Victor referiu-se aos cinco papéis por ele desempenhados ao longo de sua vida − engenheiro, professor, esportista, escritor e gestor, por meio dos quais pôde aprender, ensinar, competir, escrever e administrar.
Nas duas ocasiões, os presentes puderam compreender, por meio de suas próprias palavras ou dos depoimentos de convidados, as razões pelas quais Victor Mirshawka se tornou uma referência em tudo aquilo que fez. Senão vejamos:
- como engenheiro eletricista conseguiu dominar os complexos conhecimentos contidos em sua área de especialização, entre os quais a eletrostática (o comportamento das cargas elétricas em repouso), a eletrodinâmica (movimentos dessas cargas, do fluxo de corrente, da geração de tensão etc.) e o eletromagnetismo, além de bons conhecimentos de Matemática avançada e de Física. Esse amplo repertório foi empregado brilhantemente em todas as atividades por ele desempenhadas.
- como professor, Victor transformou-se num verdadeiro educador, pois além de transmitir ensinamentos a seus alunos, tornou-se um orientador de centenas deles, graças à capacidade de interagir e de abrir oportunidades essenciais para a trajetória futura dos mesmos. Considerando os cursos de graduação (no Mackenzie, FAAP, Faculdade de Engenharia Mauá e Faculdade de Engenharia de Bauru), de pós-graduação, os cursos de especialização e as palestras até hoje ministradas em várias partes do País e do exterior, não seria exagero afirmar que ele influenciou mais de 100.000 pessoas.
- como esportista, Victor foi um dos grandes jogadores de basquete de sua vitoriosa geração, integrando a seleção brasileira que conquistou o bicampeonato mundial no Rio de Janeiro em 1963 e a medalha de bronze nos Jogos Olímpicos de Tóquio em 1964. Começando a carreira no Tietê, jogou também no Sírio, Palmeiras e Monte Líbano, conquistando inúmeros títulos e notabilizando-se por ser um exímio arremessador, o que fez dele um dos grandes expoentes de uma geração que contava, entre outros, com craques como Amaury Pasos, Wlamir Marques, Sucar, Rosa Branca, Mosquito, Menon, Jatyr, Edson Bispo, Ubiratan e Radvilas.
- como escritor, caracterizou-se não só pela quantidade e pela qualidade de dezenas de livros, mas também pela capacidade de antecipar tendências, produzindo textos sobre temas que viriam a se tornar fundamentais anos depois como qualidade, produtividade, manutenção, confiabilidade, criatividade, gerência de cidades e tecnologia da informação, procurando sempre fazê-lo através de uma redação acessível e pontuada, sempre que possível, por elevada dose de humor.
- por fim, como gestor, foi diretor das faculdades de Engenharia do Mackenzie e da FAAP, onde também exerceu o cargo de diretor cultural, equivalente ao de reitor de uma universidade.
Reproduzo, a seguir, trechos do meu depoimento contido no livro:
Minha admiração pelo Victor começou muito antes do que ele próprio possa imaginar. Comecei a jogar basquete pelo Pinheiros em 1963, com 8 anos. Em 1968, com 13 anos, me transferi para o Sírio, onde fiquei até 1972, primeiro ano da categoria juvenil. Naquela época, o Victor tinha retornado do Palmeiras para o Sírio e às vezes alguns jogadores do juvenil eram chamados para treinar com o time principal. Foi assim que, inicialmente, tive contato com o Victor.
[…] muitos anos depois, com o objetivo de manter o Prof. Victor em seus quadros, a FAAP criou o Instituto de Qualidade e Produtividade (IQP). Naquele tempo, além de ser professor da Faculdade de Economia, eu era diretor do Instituto de Estudos Humanísticos (IEH). Num determinado dia, o Victor me chamou para conversar e me convidou para ser um dos diretores do IQP. Surpreso, agradeci e disse que eu não entendia nada do assunto, razão pela qual eu estranhava o convite. Lembro-me da resposta dele até hoje: “Machadinho, você está enganado. Qualidade e produtividade dependem muito mais do aspecto humano do que de cálculos e estatística como você imagina. Além disso, trabalhar comigo não é fácil. Sou muito exigente e quero ter a meu lado pessoas com as quais eu possa discordar e até brigar. Mas depois vamos voltar às boas tomando uma cerveja, da mesma forma que fazíamos no basquete, depois dos treinos em que trocávamos empurrões e cotoveladas”.
A partir dessa resposta, não apenas aceitei o convite, como também aprofundei um relacionamento que se estende até os dias de hoje. Quando Victor se tornou diretor cultural da FAAP, as oportunidades de convivência e de aprendizado multiplicaram-se. Em 1993, integrei o grupo de professores que foi participar de um dos maiores eventos do mundo sobre solução criativa de problemas. Realizado anualmente em Buffalo, no estado de Nova York, o Creative Problem Solving Institute (CPSI), reúne centenas de pessoas de diversos países interessadas em conhecer e se aprofundar nas teorias, técnicas e metodologias ligadas à solução criativa de problemas, com base num modelo concebido por Alex Osborn (criador do brainstorming). Novamente, estranhei o convite por achar que eu não era criativo, impressão desmentida logo na primeira sessão de que participei no CPSI, quando o expositor afirmou que todos são criativos. Mais uma lição que aprendi com o Victor, que já enxergava naquela época o enorme potencial da criatividade para a qualidade, a produtividade, a inovação e, enfim, para o processo de desenvolvimento de qualquer nação.
Como professor e diretor da Faculdade de Economia, também fui muito incentivado por ele, que jamais deixou de encorajar novos projetos desenvolvidos pela Faculdade, entre os quais as missões estudantis ao exterior, as semanas acadêmicas, a Revista de Economia & Relações Internacionais e o Fórum FAAP de Discussão Estudantil, simulação de reuniões da Organização das Nações Unidas (ONU) voltadas a estudantes de ensino médio, até hoje considerado um evento de referência.
Agradeço também ao Victor pelo encorajamento para me envolver com a economia criativa. Tema do meu mais recente livro Economia + Criatividade = Economia Criativa, escrito com em parceria com Anapaula Iacovino Davila, Sonia Helena Santos e Maurício Andrade de Paula, a economia criativa, por sua enorme abrangência, tem potencial para se tornar um dos carros chefes do desenvolvimento brasileiro.
Ao deixarmos a FAAP, naturalmente passamos a ter um relacionamento mais espaçado, porém continuo acompanhando e aprendendo permanentemente com as atividades do eterno professor.
O segundo ex-jogador, que ocupou incrível espaço no noticiário e nas mídias sociais foi Oscar Schmidt, precocemente falecido no dia 17, aos 68 anos.
Sobre a extraordinária carreira de Oscar e seu legado, envolvendo seu esforço, sua dedicação, sua paixão pelo basquete, pela família e pelo Brasil, dificilmente posso acrescentar algum aspecto que não tenha sido exaustivamente focalizado pelas matérias jornalísticas e programas de televisão que se multiplicaram a partir da divulgação de seu falecimento.
Diante disso, vou me limitar a descrever momentos de nossa convivência e amizade que começaram quando ele veio de Brasília para São Paulo, para jogar no infantil do Palmeiras, trazido pelo empresário João Marino, de cuja família eu privava da amizade desde o início da década de 1960.
O livro Das quadras para a vida: lições do esporte nas relações pessoais e profissionais, escrito em parceria com meu filho Guga Machado, foi prefaciado pelo Oscar. No referido Prefácio, ele recorda diferentes momentos de nossa amizade, começando pela experiência inicial juntos: uma excursão do Continental Parque Clube à Europa, primeira viagem dele ao velho continente. Lá, jogamos na Escócia e na Inglaterra e, numa das noites, chegou a notícia do nascimento de seu irmão caçula, Tadeu, muito comemorada pela equipe toda no Royal Hotel, cujo nome era bem mais pomposo do que a qualidade de suas instalações.
Depois disso, jogamos e conquistamos muitos títulos pela Associação Atlética Acadêmica Eugênio Gudin da Faculdade de Economia e Administração do Mackenzie e pela equipe Malhas Itu, num campeonato promovido pela Prefeitura de São Paulo. No jogo comemorativo ao encerramento de sua carreira, fiz parte do time “Amigos do Oscar” na partida realizada em Brasília contra a Seleção Brasileira que ganhou a medalha de ouro nos Jogos Pan-Americanos de Indianápolis, na histórica vitória sobre a seleção norte-americana.
Nossas famílias permaneceram em contato quando deixei de atuar em equipes de alto rendimento, dedicando-me prioritariamente à atividade acadêmica. Tivemos oportunidade de comemorar o nascimento de nossos filhos e de passar uma deliciosa semana juntos em Orlando, quando o Guga e o Felipe iniciaram uma amizade que também se estende até hoje.
Tendo testemunhado a trajetória do Oscar desde sua chegada a São Paulo, entendo perfeitamente a razão pela qual muitas vezes se opunha à expressão “mão santa”, com que muitos jornalistas se referiam a ele por causa da precisão de seus arremessos, contestando: “mão santa coisa nenhuma; mão treinada”.
A fim de permitir uma melhor compreensão de nossa amizade e da disciplina e determinação de um atleta fora de série como ele, vou reproduzir trechos de dois episódios bastante representativos.
No primeiro ano da Faculdade, o Oscar tinha 17 anos, sendo ainda jogador da categoria juvenil. Jogava no Palmeiras e, além dos jogos pelo campeonato paulista da sua categoria, já atuava também na equipe principal, sem contar suas participações nas seleções paulista e brasileira. Estava submetido, portanto, a uma carga excessiva de treinos e jogos. Diante disso, fui procurado por seu técnico no Palmeiras, Cláudio Mortari, que me pediu para falar com o técnico do Mackenzie, Marcos Sharp, para poupar o Oscar dos jogos mais fáceis, utilizando-o apenas nos jogos decisivos ou mais difíceis.
O campeonato da Federação Universitária Paulista de Esportes (FUPE) era muito disputado na época, com a participação dos principais jogadores dos clubes atuando nas respectivas faculdades. Comuniquei a preocupação de Mortari ao Marcos Sharp, que compreendeu a preocupação do colega e combinou de só usar o Oscar em partidas decisivas. Naquela mesma semana, tínhamos um jogo que não deveria trazer qualquer problema num domingo pela manhã, numa das quadras do Complexo Esportivo da USP na Cidade Universitária. Como o time do Mackenzie era muito forte e contava com um número de jogadores superior ao permitido para cada partida, decidimos não chamar o Oscar para aquele jogo.
Entretanto, ao chegarmos ao ginásio para a partida, deparamo-nos com o Oscar, acompanhado da Vitô (como era chamada a Cristina, sua esposa), já suado, treinando arremessos sozinho. Marcos Sharp e eu perguntamos a ele: “Oscar, o que você está fazendo aqui?”. “Tem jogo, não tem?”, foi a resposta. Diante disso, o Marcos Sharp falou: “Tem jogo sim, mas você está sobrecarregado e o Mortari pediu pra te poupar e escalar você apenas nas partidas mais difíceis”. A resposta do Oscar não se fez esperar: “De jeito nenhum. Você acha que eu vou jogar só nas partidas mais difíceis, em que sou marcado por excelentes jogadores e apanho pra burro, e hoje, que vou ter a chance de fazer um monte de pontos, vou ficar de fora?”. Não houve argumento que o convencesse. Ele participou do jogo e, como previa, bateu o recorde de pontos em jogos da FUPE até aquela época.
O outro episódio ocorreu por ocasião de um jogo que foi remarcado por falta de energia no ginásio do Pacaembu. Na nova data, no ginásio do Monte Líbano, contra o time da Escola Politécnica, da USP, em razão de treinos e jogos nos seus clubes da maior parte dos jogadores do Mackenzie, só comparecemos eu e Oscar. Obviamente, com apenas dois atletas, perderíamos por WO. Acabamos resolvendo o problema de uma forma inusitada, contada pelo Oscar em sua biografia naquilo que ele considera uma das três maiores vitórias de sua vida, juntamente com as finais do Mundial Interclubes pelo Sírio em 1979, contra o Bosna Sarajevo, da Iugoslávia, e dos Jogos Pan-Americanos de Indianápolis, em 1987, contra a seleção norte-americana. Nas suas próprias palavras, no livro Oscar Schmidt: a biografia do maior ídolo do basquete brasileiro:
Lembro que um dia, no Monte Líbano, nós tínhamos um jogo importante e só eu e o Pelezinho (como eu era conhecido no basquete) comparecemos. Não me conformei de perder por WO um jogo decisivo como aquele. Fomos até a torcida e perguntamos quem estudava no Mackenzie, se estava com a carteirinha da FUPE e se topava jogar. Na hora em que os caras entraram na quadra, que figuras: três baixinhos, que nunca tinham jogado basquete na vida, entraram só para completar o quinteto, cada um com o tênis de um jeito, meias pretas…
Eu e o Pelé jogamos sozinhos e ganhamos. Foi uma partida inesquecível. Os três só batiam lateral e bola-fundo. Ou o Pelé decidia, ou eu. Como suamos para ganhar! Sabe o que é dois jogarem contra cinco? Essa foi uma das maiores vitórias da minha carreira.
Acredito que o primeiro episódio sirva para reforçar a propalada dedicação do Oscar aos treinamentos, que contribuíram decisivamente para que se transformasse no ícone e inspiração para jogadores de diversas modalidades e gerações. E que o segundo sirva, não só para demonstrar a vontade de vencer típica dos grandes campeões, mas também para justificar minha admiração por ele que acaba de nos deixar.
Pelas razões aqui expostas − e muitas outras que não caberiam num artigo dessa natureza − expresso minha gratidão a dois extraordinários campeões.
Referências
CUNHA, Odir. Oscar Schmidt: a biografia do maior ídolo do basquete brasileiro. São Paulo: Best Seller, 1996.
DAVILA, Anapaula Iacovino; MACHADO, Luiz Alberto; PAULA, Mauricio Andrade de; SANTOS, Sonia Helena. Economia + Criatividade = Economia Criativa. 2ª ed. revista, ampliada e atualizada. São Paulo: Scriptum, 2024.
MACHADO, Luiz Alberto; MACHADO, Guga. Das quadras para a vida: lições do esporte nas relações pessoais e profissionais. São Paulo: Trevisan Editora, 2018.
MIRSHAWKA, Victor. Gratidão à vida. São Paulo: DVS Editora, 2026.



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