sábado, 25 de abril de 2026

Antônio Risério

 PREFÁCIO DE WILSON GOMES AO LIVRO "ADEUS, IDENTITARISMO", de Antonio Risério.

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Não se trata (...) de um livro escrito para qualquer leitor. O leitor implícito da obra não é o militante identitarista, mas aquele que ainda acredita na democracia liberal, no pluralismo, no dissenso legítimo e na possibilidade de convivência entre diferenças sem recorrer à coerção moral. Um leitor simpático às premissas encontrará prazer intelectual na leitura; um leitor adversário tenderá a rejeitá-la. (W. Gomes)

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Recebi com verdadeira lisonja o convite para prefaciar este livro. Não apenas pela honra formal do gesto, mas sobretudo pelo que ele implica: apresentar ao leitor uma obra de Antonio Risério, autor que admiro há muito tempo pela vastidão incomum de sua cultura, por uma erudição que não se deixa aprisionar por especializações estreitas nem pela compartimentação acadêmica e que se estende, com a mesma familiaridade, da tradição intelectual erudita à cultura popular brasileira. Há, em Risério, algo cada vez mais raro: uma curiosidade intelectual sem cercas, uma inteligência que transita com igual desenvoltura pela antropologia, pela história, pela crítica cultural, pela música, pela literatura e pela política, sem jamais converter essa circulação em exibicionismo ou capital simbólico de ocasião. Some-se a isso uma coerência intelectual que é pouco frequente em tempos de oportunismo moral, uma honestidade que não se ajusta às conveniências do momento e um brilho de escrita que combina precisão conceitual, ritmo, ironia e coragem. Prefaciar este livro, portanto, não é um gesto protocolar nem uma deferência amistosa, mas um exercício de responsabilidade intelectual diante de uma obra que não pede cumplicidade confortável nem adesão automática e que tampouco oferece ao leitor a tranquilidade enganosa das posições consensuais.


Adeus, Identitarismo é, antes de tudo, um gesto. Um gesto intelectual e político no sentido mais forte do termo: uma intervenção deliberada no debate público, feita sem cálculo de recepção, sem anestesia retórica e sem concessões ao clima moral dominante. Não se trata de um texto concebido para agradar, seduzir ou pacificar, tampouco de um livro que aspire a reconciliar posições inconciliáveis. Ao contrário, é uma obra que assume desde a primeira página o risco do confronto e da impopularidade e que faz disso não um efeito colateral indesejado, mas parte constitutiva de sua estratégia discursiva. O livro não pede licença para existir nem se justifica preventivamente diante de seus possíveis acusadores; escreve como quem já não reconhece a legitimidade do tribunal moral que se pretendeu instalar como instância suprema de julgamento intelectual.


Sob esse aspecto, trata-se de um último gesto de insubordinação diante da hegemonia identitária, que considera declinante: uma recusa a que a lida intelectual com o identitarismo continue a merecer seu tempo e esforço; uma rejeição à ideia de que a oposição ao autoritarismo identitário deva definir sua identidade. Nesse sentido, o livro parece dizer, da primeira à última seção: “encerramos aqui; basta disso”.


No plano explícito, a obra se propõe a uma crítica frontal do identitarismo contemporâneo, especialmente em sua versão universitária, moralizante e punitiva, frequentemente designada pelo rótulo woke. Risério interpreta esse fenômeno como uma forma específica de autoritarismo político-cultural, importada do ambiente acadêmico norte-americano e transplantada para o Brasil de modo acrítico, como se experiências históricas, sociais, culturais e políticas profundamente distintas pudessem ser substituídas por esquemas conceituais prontos, slogans morais e categorias simplificadoras. O próprio autor define o texto como um réquiem, ainda que “abrindo-se ao final à esperança”: uma tentativa de registrar o esgotamento histórico de um movimento que, depois de duas décadas de hegemonia simbólica em universidades, redações, setores culturais, fundações, empresas e parte do aparato estatal, começa a dar sinais claros de fadiga, erosão e perda de legitimidade social.


Mas o livro entrega mais do que anuncia. Para além da crítica ideológica, Adeus, Identitarismo funciona como documento de época, como dossiê comentado e como testemunho intelectual. Ao reunir fragmentos de textos, citações extensas, episódios públicos, polêmicas, nomes próprios, campanhas de difamação, perseguições e cancelamentos, Risério constrói um arquivo crítico de um ciclo histórico específico do debate público brasileiro. O livro registra práticas e discursos que dificilmente sobreviveriam ao apagamento seletivo da memória pública ou à reescrita moralizante da história recente, sempre pronta a absolver os vencedores simbólicos do momento. Nesse sentido, ele não apenas argumenta contra o identitarismo, mas preserva evidências do modo como esse fenômeno operou concretamente, com seus dispositivos de intimidação, silenciamento, chantagem moral, coerção simbólica e corrosão deliberada das condições mínimas do pluralismo democrático.


Há também, de maneira indissociável, uma dimensão autobiográfica e testemunhal. O autor não se esconde atrás de abstrações nem fala de um lugar neutro ou asséptico. Ao contrário, assume explicitamente o lugar de quem foi alvo de ataques, ameaças, exclusões e tentativas sistemáticas de silenciamento. Quando escreve sobre cancelamento, por exemplo, não o faz como categoria sociológica distante, mas como experiência vivida, observando que “cancelar” é tentar “sepultar uma pessoa ainda em vida”. Essa dimensão confere ao livro uma densidade existencial particular: não estamos diante de ressentimento, mas de estupefação e desalento — o espanto legítimo de qualquer liberal-democrata ao constatar o grau de brutalidade, intolerância e toxicidade moral que passou a caracterizar práticas identitárias apresentadas como progressistas, emancipadoras ou humanistas.


É justamente nesse ponto que se revela, de modo exemplar, o método ensaístico e imaginativo de Risério, baseado na bricolage de citações e na montagem de vozes diversas para iluminar um mesmo fenômeno. Um dos trechos mais expressivos do livro surge quando o autor discute o cancelamento. Partindo de um artigo de Laura Greenhalgh, no Valor Econômico, Risério destaca a observação de que “nessa máquina de triturar reputações, quem é cancelado, de fato, é o indivíduo, não uma ideia, uma tese, uma visão de mundo”. Em seguida, incorpora uma advertência de Barack Obama, dirigida a jovens norte-americanos, segundo a qual “cancelamentos não são uma forma de ativismo. Nem um chamado para a mudança. […] Apontar falhas alheias, apenas para se sentir bem, não faz sentido”. A montagem se completa com o raciocínio de Utpal Dholakia, para quem o cancelamento não se baseia em critérios equilibrados de transgressão, nasce enviesado ao admitir apenas um ângulo moral, restringe a liberdade de expressão por coerção ou censura, gera punições desproporcionais e alimenta a intolerância, constituindo “uma grave ameaça para as sociedades democráticas”. O fechamento interpretativo é todo de Risério: o cancelamento como gozo perverso de destruir o outro, prazer em humilhar, sadismo social, reação patológica à frustração e à humilhação. Nesse pequeno mosaico, vê-se condensado não apenas o argumento, mas o próprio estilo do livro: pensar por montagem, iluminar por contraste, fechar com uma interpretação desassombrada.


Outro eixo decisivo da obra — e talvez um dos mais importantes politicamente — é a crítica à renúncia progressiva, por parte da esquerda identitária, à ideia mesma de país. Risério insiste, em vários momentos, na defesa de soluções tipicamente nossas para a convivência das diferenças, historicamente construídas no Brasil, em contraste com modelos importados que tratam a sociedade como campo de guerra moral permanente. É nesse contexto que surge uma frase lapidar, quase um aforismo civilizacional: “É tarde demais, muito tarde, para abrir mão de nosso país”. A frase concentra uma posição intelectual e política clara: não se trata de negar conflitos, desigualdades ou injustiças históricas, mas de recusar a tentação destrutiva de abandonar o país real em nome de abstrações morais importadas. Abrir mão do país — de sua história, de suas ambiguidades, de suas formas imperfeitas, porém efetivas, de convivência — é, para Risério, um gesto de desistência política e cultural.


Essa crítica se articula de maneira particularmente feliz com uma citação de César Benjamin, incorporada pelo autor, que ajuda a compreender o mecanismo pelo qual parte da esquerda construiu identidades reativas, definidas menos por projetos afirmativos do que pela negação sistemática de tudo o que soa como comum, nacional ou compartilhado. Benjamin observa que, para nos diferenciarmos do mito do brasileiro pacífico e cordial, inventamos frequentemente o contramito do brasileiro violento e sanguinário; que, em reação ao mito do Brasil Grande, caro ao regime militar, jogamos fora o próprio conceito de nação; que ao mito da democracia racial respondemos com o contramito de uma sociedade essencial e visceralmente racista. Constitui-se, assim, um olhar carregado de negatividade — pois as identidades reativas são, por definição, negativas — e essa negatividade passa a se apresentar como radicalidade. O resultado, conclui Benjamin, é um “círculo de ferro” que interdita qualquer aproximação amorosa com o Brasil.


Essa passagem é central para compreender o alcance do livro. O que Risério denuncia não é apenas um conjunto de excessos discursivos, mas um verdadeiro empobrecimento da imaginação política, incapaz de pensar o país fora do registro da culpa, da denúncia e da acusação permanente. Ao romper com esse circuito negativo, Adeus, Identitarismo reafirma a possibilidade — e a necessidade — de uma relação crítica, mas não hostil, com o Brasil real, com sua história concreta e com suas formas próprias de administrar conflitos e diferenças.


Do ponto de vista formal, tudo isso se inscreve num livro deliberadamente difícil de classificar segundo os gêneros tradicionais. Não é um tratado, não é um ensaio acadêmico clássico, tampouco uma monografia organizada por hipóteses e demonstrações lineares. O próprio Risério descreve o texto como um “ensaio-colagem”, quase um mosaico, em que fragmentos se justapõem segundo um princípio não linear. O leitor encontrará uma bricolagem de reflexões, citações, comentários, memórias pessoais, ataques frontais e diagnósticos culturais, articulados menos pela progressão lógica do argumento do que pela acumulação insistente de exemplos e retornos temáticos.


Há algo de ensaio, algo de panfleto culto, algo de libelo — no sentido clássico do termo, como escrito de acusação pública — e algo de escrita de maturidade radical, própria de um autor que já não escreve para preservar capital simbólico, agradar pares ou negociar posições institucionais. A linearidade cede lugar à recorrência; a diplomacia, à franqueza; a mediação, ao enfrentamento. O efeito buscado não é o da persuasão gradual, mas o da interpelação direta.


Não se trata, contudo, de um livro escrito para qualquer leitor. O leitor implícito da obra não é o militante identitarista, mas aquele que ainda acredita na democracia liberal, no pluralismo, no dissenso legítimo e na possibilidade de convivência entre diferenças sem recorrer à coerção moral. Um leitor simpático às premissas encontrará prazer intelectual na leitura; um leitor adversário tenderá a rejeitá-la. Ainda assim, o livro cumpre sua função maior: dizer com clareza onde estamos e com quem já não podemos contar.


Não há dúvida de que se trata de uma obra de maturidade. Mas não no sentido de um livro que fecha portas. As portas já foram fechadas, as pontes demolidas, os navios queimados. O livro apenas registra, com lucidez e sem autoengano, essa clausura já consumada — e afirma algo ainda mais importante: que é possível manter autonomia intelectual e moral mesmo quando já não se pode contar com os identitarismos de esquerda, definitivamente perdidos para o autoritarismo e a intolerância, na reconstrução de um debate público baseado em pluralismo, dissenso e tolerância ou na elaboração de um projeto comum para o futuro.


Trata-se, por fim, de um livro honesto, franco e desassombrado. Um livro que não disfarça suas teses, não recua diante das consequências e não aceita o enquadramento moral imposto pelo próprio objeto que critica. Ao recusar a linguagem, os pressupostos e as chantagens simbólicas do identitarismo, Risério preserva algo cada vez mais raro: a independência intelectual. Concorde-se ou não com suas conclusões, é difícil negar que estamos diante de uma obra que diz claramente o que pensa, assume o preço disso e se recusa a pedir desculpas por pensar. Em tempos de prudência excessiva e medo de desagradar, essa clareza talvez seja, ela própria, uma das razões mais fortes para ler este livro.

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