*Apelos, traições e clima de fim de governo: bastidores da derrota histórica de Lula no Senado*
Governo culpa Alcolumbre por rejeição de Messias, mas ainda não decidiu se vai retaliar
Na véspera da sabatina de Jorge Messias, o governista Weverton Rocha abordou colegas com um apelo emocional. Disse que o Senado não podia destruir a carreira de um jovem advogado para impor uma derrota a Lula.
Relator da indicação, Weverton sabia que o governo correria riscos na votação secreta. A súplica não surtiu efeito: Messias teve apenas 34 votos favoráveis, sete a menos que o necessário para virar ministro do Supremo Tribunal Federal.
O responsável pela derrota histórica do Planalto tem nome e sobrenome: Davi Alcolumbre. O presidente do Senado tentou emplacar o aliado Rodrigo Pacheco na vaga do ministro Luís Roberto Barroso. Contrariado com a escolha de Messias, resolveu humilhar Lula e deixar o governo de joelhos.
Alcolumbre submeteu o advogado-geral da União a uma frigideira de cinco meses. Só aceitou recebê-lo na semana passada, às escondidas. No encontro, não quis se comprometer com a aprovação. Faltou dizer que se empenharia pessoalmente para rejeitá-lo.
O governo acreditou no otimismo que vendia em declarações públicas. A Secretaria de Relações Institucionais chegou a descartar uma sugestão de adiar a sabatina, em manobra para ganhar tempo e tentar conquistar votos.
A ficha só começou a cair ontem à tarde, quando Messias respondia às últimas perguntas dos senadores. Ao constatar que a derrota era iminente, um articulador do Planalto abandonou o almoço às pressas, na tentativa de demover Alcolumbre. Ouviu que o jogo já estava jogado.
No terceiro mandato, Lula sofre uma derrota inédita nos últimos 132 anos. Desde 1894, na turbulenta gestão de Floriano Peixoto, o Senado não rejeitava um indicado ao Supremo. O resultado expõe um governo desarticulado e alheio ao que se negocia nos corredores do Congresso.
Uma das planilhas que circulavam entre os lulistas contabilizava votos inexistentes a favor de Messias. Um deles viria do senador Alessandro Vieira, defensor histórico da Lava-Jato e crítico contumaz do Supremo.
Embora a votação tenha sido secreta, não é difícil traçar um mapa de traições em partidos aliados, como PSD e MDB. Algumas defecções eram visíveis a olho nu. Preterido por Lula, Pacheco foi o primeiro senador a deixar o plenário, assim que o painel foi aberto.
Outros aliados preferiram nem aparecer. Insatisfeito por ter perdido a vaga de titular na Comissão de Constituição e Justiça, o senador Cid Gomes viajou para não votar.
A oposição comemorou o resultado com euforia. Senadores bolsonaristas ensaiaram um coro de “Fora, Lula” no plenário. Hoje o clima de fim de governo tende a se agravar. O Congresso deve derrubar o veto ao chamado PL da Dosimetria, que reduz as penas dos condenados por tentativa de golpe.
Na ressaca da derrota, o Planalto será pressionado a romper o imobilismo e tomar decisões sobre o futuro da relação com o Legislativo.
Parte dos aliados defende que Lula demita todos os indicados de Alcolumbre na Esplanada. O risco é contratar novos problemas, já que o presidente do Senado mostrou ter completo domínio da Casa.
Outra questão em aberto é o que fazer com a vaga no Supremo. A hipótese de indicar Pacheco soaria como sujeição à chantagem de Alcolumbre. A opção de ceder ao lobby por Bruno Dantas também enfrenta resistências: o ministro do Tribunal de Contas da União é próximo a senadores do MDB.
A oposição prefere que Lula deixe a indicação para o próximo governo. O que também seria interpretado como uma capitulação, já que o presidente é candidato ao quarto mandato.
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